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Corpo Nós finalmente ao vivo

Mais um dos discos abatidos pela pandemia, o excelente Corpo Nós, primeiro disco solo do guitarrista Guilherme Held, finalmente será lançado ao vivo. O disco, dirigido por Rômulo Froes, reúne não apenas a produção musical do guitarrista discípulo de Lanny Gordin, como boa parte dos artistas com quem ele colaborou nas primeiras décadas de sua carreira – um elenco estelar que inclui Criolo, Curumin, Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci, Mariana Aydar, Rubel, Marcelo Cabral, Daniel Ganjaman, Thalma de Freitas, Juliana Perdigão, Fernando Catatau, Pericles Cavalcanti, Dudu Tsuda, Filipe Catto, Simone Sou, Thiago França, Bruno Buarque, Bixiga 70 e tantos outros, além de mestres como Milton Nascimento, Jards Macalé e Letieres Leite. Para o show que acontece nesta quinta-feira, no Sesc Pompeia, Held reuniu uma banda de peso, formada por Sérgio Machado (bateria), Fábio Sá (baixo), Dustan Gallas (teclados), Allan Abaddia (trombone), Cuca Ferreira (sax), Rômulo Nardes (percussão) e participações de Ná Ozzetti, Romulo Fróes, Iara Renó e Marcelo Pretto. O disco foi lançado em 2020, durante a pandemia, e por isso não teve um show de lançamento de fato, falha que será corrigida nesta quinta-feira, às 21h30, no Sesc Pompeia, e Held aproveitou a deixa para mostrar o clipe que fez para “Tempo de ouvir o chão”, que tem as participações de . Juliana Perdigão e Romulo Fróes, lançado em primeiro mão aqui no Trabalho Sujo. “É uma produção simples, com efeito super 8, que traz os convidados da canção e a participação dos meus cachorros John e Yoko”, explica o guitarrista. “São cenas na minha laje e na janela do Rômulo, sem muito roteiro e só no bom gosto do Mihay, diretor do clipe”.

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Tataravós do rap

Bem antes do rap nascer no final dos anos 70, um grupo de ativistas e poetas negros se reuniu no aniversário de Malcolm X três anos depois de seu assassinato para lembrar o líder com um novo movimento. O trio formado por Abiodun Oyewole, Dahveed Nelson e Gylan Kain apresentou um novo tipo de manifestação cultural que consistia em improvisar poemas sobre uma base rítmica, misturando a então recente novidade de recitar poesia sobre música que ficou conhecida como spoken-word e a ancestral roda de percussão que precede a vinda dos africanos que vieram escravizados para o outro lado do Atlântico. Dez anos antes da disco music se despedaçar criando os elementos para gangues nova-iorquinas se reinventarem a partir da música usando apenas toca-discos e microfones, os autodenominados Last Poets começavam a abrir um caminho que facilitou o início da cultura hip hop. E lá estavam dois de seus fundadores no palco do Sesc Pompeia, encerrando as atividades do Festival Zunido. No lugar de Gylan Kain estava Felipe Luciano, que nasceu no ano seguinte à fundação do grupo em 1968 e viaja com eles desde o final do século passado. Devido à idade avançada dos sobreviventes da banda (Abiodun Oyewole tem 75 anos e Dahveed Nelson, 89!), o show começou com uma longa (e tediosa) introdução de Luciano rimando sobre um violão tocado de forma quase vacilante, abrindo o território para a chegada dos tataravós do rap. Depois de Luciano, quem subiu ao palco foi o percussionista Baba Don Babatunde, que lentamente começou a esquentar a noite. Um vídeo curto apresentou a história da banda para o público antes que os poetas originais Abiodun e Dahveed entrassem em cena e conquistassem o público. Não era uma apresentação de rap, mas em pouco tempo os dois anciãos mostraram porque estão neste ponto tão central na genealogia de toda esta cultura, rimando sobre o ritmo dos tambores enquanto puxavam o público para a apresentação, pedindo para que este terminasse algumas rimas, repetisse palavras de ordem e se juntasse aos versos que vinham do palco. Mesmo com a idade avançada e sem um beat mais incisivo, foram lentamente conquistando o público, mostrando que a fama que os precede faz jus. Histórico!

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Virtuosismo sem rótulos

Qualquer apresentação de Kid Koala é um convite a perder o rumo. Tocando três vitrolas e um mixer ao mesmo tempo sem usar fones de ouvido, o DJ canadense pertence à escola do turntablism que reinventou o tocadiscos como instrumento na virada do século e como outros da sua estirpe, transcende barreiras entre gêneros musicais, lentamente transformando faixas facilmente reconhecíveis e hits desconhecidos guardados a sete chaves em uma massa amorfa de som que desafia rótulos sonoros. Mas em sua performance única, ele não desmerece estilos e escolas como se fossem meras classificações técnicas, muito pelo contrário: faz questão de passear por diferentes áreas mostrando para o público o universo que está desbravando, não importa se é o ska ou o shoegaze. E assim enfileirou clássicos dos Beastie Boys com aquele remix do Erol Alkan pro Franz Ferdinand, contrapondo Outkast com a islandesa Emiliana Torrini, sempre criando climas exóticos e familiares ao mesmo tempo. O DJ apresentou-se neste domingo no Sesc Pompeia com a canadense Lealani, que alterna entre esmerilhar na MPC e rugir com sua guitarra, tocando hinos punk de sua banda Pezheads (quando Koala assume as baquetas de sua MPC e se torna ele mesmo um baterista). Koala fechou a noite mostrando que seu virtuosismo não é só exibicionismo ao visitar a música favorita de sua mãe, “Moon River”, que deixou tocar com os vocais de Audrey Hepburn para depois ele mesmo tocar a música usando apenas a variação de velocidade de seus tocadiscos. Um mestre.

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Festival Zunido: Marcos Valle com Azymuth, Last Poets e Kid Koala e muito mais

2023 empilhando festival atrás de festival – então toma mais um pra incluir na sua agenda. O Festival Zunido acontece este mês no Sesc Pompeia e reúne o trio Azymuth com o mestre Marcos Valle, traz o DJ Kid Koala mais uma vez ao Brasil e nos presenteia com a primeira vinda dos Last Poets, um dos grupos pioneiros na história do rap, ao país. “O mais importante é a questão dos encontros e das sonoridades que se juntam nessas delicadezas e dissonâncias”, explica Talita Miranda, que assina a curadoria do festival ao lado de Rodrigo Brandão e da curadoria de música do Sesc Pompeia, “são transformações e releituras a partir de uma base da música negra, da diáspora africana, o quanto a gente busca essa transformações e essa mistura, então vai ter sempre o hip hop, jazz, afrojazz, o afrossamba e, claro, dar uma ênfase específica para a música brasileira.”  

A conexão psicodélica Goiás-Minas Gerais

Que maravilha a imersão que os Boogarins fizeram no Clube da Esquina nesta sexa-feira no Sesc Pompeia. Logo que puderam conversar com o público que lotou o teatro, os goianos fizeram questão de frisar que não estavam tocando o disco na íntegra e nem só músicas do clássico mineiro de 1972, mas que visitavam todo o universo musical ao redor daquele álbum, afirmando isso logo após o início do show, quando emendaram “Fé Cega, Faca Amolada” com “Paula e Bebeto”, ambas do disco Minas, que Milton Nascimento lançou em 1975. E assim o disco percorreu as inevitáveis “O Trem Azul”, “Trem de Doido” e “Nada Será Como Antes” (que terminou com um aceno ao Tame Impala) e faixas de discos clássicos de Beto Guedes (a imortal “Amor de Índio”, faixa-título do disco do guitarrista de 1978, cantada pelo baixista Fefel), de Lô Borges (“Vento de Maio”, do soberbo A Via Láctea, de 1979) e até da espetacular joia secreta que é o disco Beto Guedes, Toninho Horta, Danilo Caymmi, Novelli, gravado pelos quatro músicos que o batizam, em 1973. Este último foi contemplado em dois momentos (“Serra do Mar” e “Ponta Negra”, mas faltou “Manoel, O Audaz”) e os dois vocalistas e guitarristas da banda, Dinho Almeida e Benke Ferraz, o reverenciaram como um disco central na formação da banda, citando-o praticamente como um disco dos Boogarins antes da banda existir, traçando a conexão psicodélica entre o Goiás do grupo e a Minas Gerais do Clube. O show ainda contemplou a mesma “Saídas e Bandeiras” que sentenciou esta conexão quando o grupo a tocou ao vivo no encontro com O Terno em junho de 2015 e terminou de forma épica, com a clássica “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, mexendo com corações e mentes de todos os presentes. Foi bonito demais e tem que voltar a acontecer com mais frequência – porque mais do que um show de tributo a um momento histórico da música brasileira, ele expõe as raízes do grupo de uma forma tão natural que torna claro o DNA musical dos goianos.

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Funk de menos

Esperava mais funk da apresentação que o FBC fez com o Vhoor nesta sexta-feira no Sesc Pompéia. O show começou com músicas de outras fases da carreira do MC e só engrenou no modo baile mesmo no finzinho, mas nem chegou a decolar, porque o show foi bem curto (ouvi alguém comentando no final que “o lado bom era que dava pra aproveitar o bilhete integração do ônibus e voltar com a mesma passagem da ida”). Mas pra quem lançou um disco tão cascudo quanto aquele do ano passado, o show ficou devendo…

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Todo o Show: Metá Metá no Sesc Pompeia, 2020

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Eis a íntegra da apresentação do Metá Metá, a melhor banda do Brasil, dentro da programação do Sesc Ao Vivo, sexta passada. Não tem o apuro visual da direção da live que fizeram na Casa de Francisca, mas é Juçara e um microfone, Thiago e seu sax, Kiko e seu violão – não precisa de mais que isso pra que eles estremeçam o chão, sempre.

“Exu”
“Vale Do Jucá”
“São Jorge”
“Ossanyn”
“Atoto”
“Samuel”
“Trovoa”
“Sozinho”
“Let’s Play That”
“Na Multidão”
“Tristeza Não”
“Vias De Fato”
“Obá Iná”
“Obatalá”

Fellini já está entre nós

Cadão voltou de Nova York e Thomas voltou de Londres – ambos por curta temporada – e assim o mítico grupo pós-punk paulistano Fellini se reúne mais uma vez nesta sexta-feira, no Sesc Pompéia (mais informações aqui) – e olha só a cara da banda em 2020 no primeiro ensaio do novo show na foto acima… Aproveitando a proximidade do show, a gravadora Nada Nada abriu mais três músicas inéditas que irá lançar na coletânea A Melhor Coisa Que Eu Fiz – inclusive a ótima faixa-título:

Além das novas músicas, a gravadora também fez um vídeo para mostrar como é a versão deluxe do novo lançamento, que estará à venda no dia do show:

Kiko Dinucci transcendental

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Transcendental sem tirar os pés da terra – assim Kiko Dinucci elevou o público a outra dimensão emocional no show que fez neste sábado, no Sesc Pompeia, quando África, rua e roda de samba surgiram como vultos vivos à espreita, esperando só o toque de seu violão e o canto de sua voz ao lançar efetivamente seu Rastilho ao vivo.

Seja sozinho no palco ou com a ilustre presença de verdadeiras entidades musicais – Juçara Marçal intocável, o mago Rodrigo Ogi e o deslumbrante coro formado por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e a própria Juçara -, ele chama para si uma ancestralidade que sobrevive nas esquinas, bares e terreiros e coloca-a onde ela deveria estar, no centro.

E do mesmo jeito que transforma seu instrumento num tambor de terreiro, ele erige um monumento à música popular, buscando seu DNA a partir de seu pulso. O batuque, as palmas, o pé na terra e o canto livre transformaram o teatro concebido por Lina Bo Bardi em uma catedral de uma música brasileira moderna, que abole resquícios barrocos em busca de uma brasilidade real e sobrevivente, aquela que se esgueira pelas frestas para contar sua história de boca a boca.

Kiko canta manso, sua voz erguida pela alavanca do toque ríspido em seu instrumento e abraçada no ar por um coro angelical. Um samba secular, sacro e mundano, forte e delicado, melancólico e sorridente, um antídoto para o tétrico 2020 que este país atravessa – que nos mostra o único horizonte possível.

Porque Rastilho é, como tudo que Kiko faz, um manifesto político. Mas também é um gesto poético, um grito de guerra e uma oração, um chamado às armas e um acalanto.