Começa hoje, no Sesc Pompéia, o festival O Fim do Mundo, Enfim, que recapitula as três décadas do punk rock no Brasil, iniciadas há trinta anos no festival O Começo do Fim do Mundo, no próprio Sesc Pompéia. Além dos shows, que começam amanhã (mais infos aqui), o evento começa com um debate na choperia do Sesc com alguns dos principais protagonistas da edição original. Eis as coordenadas do evento de hoje:
O FIM DO MUNDO, ENFIM
Punk, do Começo ao Fim – 30 e Tantos Anos de Punk no Brasil
SESC Pompeia
Dia(s) 28/03
Quarta, às 20h30.
Para marcar a abertura do festival, o SESC Pompeia convidou músicos, produtores culturais e os idealizadores do festival ‘O Começo do Fim do Mundo’, de 1982, para falar do movimento punk em São Paulo, no Brasil e no Mundo.
Com:
CLEMENTE Nascimento (músico);
ARIEL Uliana Jr. (músico);
Antonio BIVAR (escritor)
Antonio Carlos CALLEGARI (músico);
Rosineide Pereira, a TINA (produtora cultural);
Marco ALEMÃO Badin (empresário);
José Rodrigues MAO Jr. (músico e historiador);
Meire Rocha (produtora cultural);
Mediação do jornalista Alexandre Matias.
Após o debate haverá discotecagem de punk-rock com DJ Ratinho.
GRÁTIS. Retirada de ingressos 1 hora antes da atividade. Choperia. Não recomendado para menores de 12 anos
E encerrando o segundo mês da minha curadoria no Prata da Casa, tenho o prazer de apresentar uma mestra de um gênero – Dona Cila do Coco vai comandar o baile na choperia nessa terça – e promete ser memorável. Abaixo, o texto que escrevi apresentando-a para o projeto:
Cecília Maria de Oliveira é dessas lendas vivas da música nordestina. Com quase 80 anos e há décadas carregando o cetro do coco, ela só tem um disco lançado. Mas isso é secundário em sua carreira, pois o coco – um dos gêneros tradicionais mais antigos da cultura pernambucano e um dos poucos que já ultrapassa mais de um século de tradição – pertence a um universo necessariamente oral e qualquer tentativa de capturar seu espetáculo acústico de ritmo e melodia falha, justamente por perder a essência viva da tradição que a nobre senhora representa. Sua presença é o carisma personificado e a força intensa do seu cantar – familiar e expansivo ao mesmo tempo – conduz o público a uma utopia pré-industrial, de estrada de terra batida e lampiões a gás. Um espetáculo esplendoroso e enraizado, forte, feminino e doce, que parece tocar a apresentação como uma conversa de comadres, mas que aponta para o sublime.
E os cariocas do Dorgas fizeram mais uma ótima apresentação em São Paulo no Prata da Casa da semana passada, evitando “Fez-se Cristo” e encerrando o show com o “hit” “Loxhanxha”.
Aos poucos uma frase foi se formando na minha cabeça. O Sambanzo é a melhor banda do Brasil hoje.
Claro que ao mesmo tempo em que a torcida pra que ela fosse verdadeira surgia, uma série de ressalvas vinham surgindo para tentar contestá-la. Mas o fato é que há fatores que implicam fortemente para que essa afirmação seja verdadeira. Primeiro, porque passamos por um momento em que artistas solo estão produzindo mais do que grupos de artistas. Segundo, que os inevitáveis concorrentes na categoria (Nação Zumbi, Cidadão Instigado, Instituto, + 2) não lançam coisas novas há um tempo. E, terceiro, porque, como pudemos assistir na terça passada no Sesc Pompéia, estamos diante de uma usina sonora de ritmo e harmonia que carrega o público pra onde quiser.
Começa que a banda é liderada por Thiago França – integrante do Marginals e do Metá Metá, músico da banda de Criolo e um dos principais novos músicos do país, se firmando cada vez mais como representante da música instrumental brasileira em um instrumento de sopro, o saxofone. Entregue ao transe rítmico do grupo, Thiago desbrava as fronteiras de seu timbre em solos agressivos, riffs hipnóticos ou repetições em tom de mantra, sempre se entregando cegamente à música e contando com efeitos elétricos como parceiros no mergulho no próprio som.
Ao seu lado, fazendo as vezes de fiel escudeiro, outro grande músico brasileiro do século 21, Kiko Dinucci também empunha sua guitarra como facão na picada aberta por Thiago, ecoando música africana, carimbó, reggae, cumbia e calipso, mas sem deixar sua veia rock de lado, usando distorções e microfonias um pouco além da sutil moderação. Ao seu lado, o baixista Marcelo Cabral funciona como rede de segurança para as acrobacias de Kiko, e o produtor de Criolo cria uma base firme o suficiente para que Kiko e Thiago se entreguem na dobradinha de melodia e harmonia que conduzem sem perder a fluidez que deixa a música escorrer por minutos que parecem horas, no melhor sentido.
Amparando a linha de frente, não corre atrás. O baterista Welington Moreira é classudo e econômico, mesmo deixando-se levar pelo afro beat, não perde a fleuima de baterista de jazz – deixando espaços de som abertos o suficiente para que, junto à percussão temperada de Samba Sam, que também distorce seus instrumentos com o auxílio da eletricidade, criem uma atmosfera rítmica complexa e direta.
Sambanzo – “Capadócia”
A revelação surgiu no meio de “Capadócia” (acima) quando, de repente, parecia que eu tava assistindo a um show da turnê européia dos Talking Heads na Europa, com Adrian Belew na guitarra, em 1980. E permaneceu durante todo a apresentação, na medida em que o grupo transformava a choperia do Sesc Pompéia em múltiplos ambientes, a cada música: um salão de festas de terra batida no norte do Brasil, um baile clandestino caribenho, um terreiro de macumba, um clubinho abafado de jazz, o espaço sideral.
Não é pouco. Fiz mais vídeos aí embaixo, mas não perca a oportunidade de assiti-los ao vivo ainda esse ano.
Hoje é dia de chillwave à brasileira, no Prata da Casa. Os cariocas do Dorgas, que filmei ano passado num show no Beco, também no meio da semana, são a terceira atração do mês de abril no festival que, esse ano, conta com a minha curadoria. O show começa às 21h, mas os ingressos só começam a ser distribuídos (sim, é de graça), uma hora antes, na bilheteria do Sesc Pompéia. Vamo lá? Abaixo, o texto de apresentação que escrevi pro Sesc.
“Dorgas, manolo!” é o meme inventado online para designar qualquer coisa – fotografia, links, vídeos – que tendam para a loucura pura e simples. A palavra “drogas” é escrita propositalmente errado como se pudesse separar o elemento lúdico do tóxico, enfatizando a natureza destrambelhada daquilo que está sendo destacado. Uma banda com esse nome pode causar uma sensação de estranheza que passa pelo humor abobalhado, mas o Dorgas – mesmo rindo de si mesmo a partir do batismo – passa à distância de qualquer tentativa de ser engraçadinho. Pelo contrário, são dos primeiros brasileiros a se enveredar pela praia da chillwave, subgênero da música eletrônica que recicla a dance music dos anos 80 com uma abordagem mais zen, que ganhou destaque ano passado com o lançamento dos primeiros álbuns de produtores solitários que se escondem atrás de nomes enigmáticos como Memory Tapes, Washed Out, Toro y Moi e Neon Indian. O Dorgas, no entanto, é uma banda de formação rock, mas que aborda essa tendência à música quase instrumental e hipnótica.
Hoje o Thiago França apresenta seu Sambanzo no Prata da Casa numa noite que promete ser histórica! Se você não sabe o que é Sambanzo, se liga no vídeo abaixo ou no disco em si, que ele acabou de colocar inteirinho pra download… Abaixo, o texto que escrevi na apresentação do projeto:
Thiago França está em todas – seja com seu grupo de jazz MarginalS ou tocando com o Criolo, com a Céu e tantos outros da nova cena paulistana, o saxofonista vem trilhando um caminho interessante e particularmente autoral, caso raro quando falamos de um instrumentista de sopro, acima de tudo no Brasil. Ímpeto bandeirante e alma selvagem, Thiago vem aos poucos desbravando uma África musical que vai muito além do afro beat tão em voga. E começou a registrar essa jornada no ano passado, ao unir-se a Kiko Dinucci e Juçara Marçal no disco Metá Metá. Mas a saga prossegue em 2012 – e mais a fundo rumo ao coração desta africanidade – quando ele nos apresenta ao Sambanzo, uma expedição formada por Kiko, Samba Sam e Welington Moreira e liderada pelo sax intenso e livre de Thiago, que usa-o para abrir caminho para uma base rítmica específica e persistente, conduzindo o público a um transe de groove e harmonias. E o disco de estreia da banda está para ser lançado ainda este semestre.
Semana passada não pude assistir a todo o show do Max B.O. no Prata da Casa porque tinha de entrar cedaço no hospital no dia seguinte (nada grave, mas enfim), mas em momento algum tive dúvida de seu desempenho na noite. Conheço Max de outros carnavais e metade da graça de seu show está no fato de ele encarnar o proverbial “mestre de cerimônias” da genealogia hip hop – não é apenas um MC disparando rimas, mas um showman que domina o público com seu canto-fala. E mesmo que tenha transformado seu show em uma oportunidade de apresentar os amigos (Lívia Cruz cantou sozinha após o dueto com Max e a banda de apoio de todo o show, Os Opalas, tiveram duas músicas inteiras à disposição – eu achei bem fraco), não deixou a bola cair quando o microfone passava para sua mão, desfilando todas as músicas de seu primeiro disco de estréia, Ensaio, do ano passado. Fiz uns vídeos aí embaixo, saca só:
E esse mês, no Prata da Casa, eu selecionei o Max B.O., o Sambanzo, o Dorgas e a Dona Cila do Coco. Vambora? Terça já tem o Max B.O., com o Opalas de banda de apoio.
Sigo com a minha curadoria do Prata da Casa, no Sesc Pompéia – e o show que encerra o primeiro mês de atividades é com os pernambucanos da Banda de Joseph Tourton. Abaixo segue o texto que escrevi sobre a banda para a programação:
A música instrumental brasileira vem se reinventando depois que uma geração inteira de bandas de rock descobriu que conseguiria se expressar sem necessariamente ter de usar palavras. Essa reivenção, consolidada a partir da virada do século, também acompanhou o momento da segunda fase do mangue beat, quando a cena criada por Chico Science e Fred 04 começou a pesar sobre as novas bandas. É deste cruzamento que surge a Banda de Joseph Tourton, que traz os ângulos não convencionais de bandas como Burro Morto, Hurtmold e Macaco Bong, mas temperados pelo filtro dub característico do Recife, o mesmo que os conecta ao Mombojó e ao produtor Buguinha, e pela presença de duas guitarras pesadas e de sopros lúdicos (flauta e escaleta entoam melodias sobre as ambiências propostas pelo quarteto), mesmo que o flerte instrumental ainda transite pelo jazz, krautrock, funk e, claro, música brasileira.
E na semana que vem, vamos assistir ao lançamento do primeiro disco do Max B.O.!