Rap terapêutico

, por Alexandre Matias

ogi-2015

Quando escalei Rodrigo Ogi para participar da temporada 2012 do projeto Prata da Casa do Sesc Pompeia (quando fui curador daquele ano), seu ótimo ótimo Crônicas da Cidade Cinza já tinha três anos de idade e ele já rimava com a destreza dos rappers paulistanos do primeiro time, hábil nos versos, caneta afiada e ouvidos abertos para todo tipo de sonoridade, usando São Paulo como desculpa para exercitar essas armas. 2015 foi o ano escolhido para finalmente lançar seu segundo disco e a espera valeu à pena, gabaritando o MC como dono de um dos melhores discos do ano. Rá! é multifacetado e esquizofrênico como o anterior e sua principal musa, a cidade de São Paulo, mas desta vez ele internaliza o discurso e transforma seu disco numa literal sessão de terapia, em que externaliza seus medos, angústias e pesadelos sem medo de soar contraditório e com as precisas bases versáteis do broder curitibano Nave. Ogi apresenta o novo disco hoje no Sesc Pompéia acompanhado de uma banda que inclui o próprio Nave e idealizada pelo mago Thiago França que, entre outros, chamou o cúmplice Kiko Dinucci para conduzir a sessão de terapia e descarrego ao vivo hoje no palco da choperia (maiores informações no site do Sesc). Conversei com o Ogi sobre o novo disco, São Paulo e a cena atual da cidade, aproveitando tanto o novo show quanto o lançamento do primeiro clipe, o multiestrelado “HaHaHa”.

Por que transformar o disco em uma sessão de terapia? Ou gravar um disco é isso?
Fazer música é terapia. É onde você põe pra fora muita coisa, às vezes inconscientemente mesmo. Cada música do Rá! resume uma fase da minha vida. Eu escuto as minhas musicas mais antigas e vejo muito o que eu era e o que ainda trago comigo daquela época.
Quem trouxe a idéia de criar os interlúdios nesse formato foi o Oga Mendonça, que fez a capa. Ele ouviu o disco e sugeriu, então fui criando os diálogos conforme as faixas. Inconscientemente esse disco caminhava pra isso. Nos temas e no nome. Rá! pode ter varias interpretações.

Por que o disco levou tanto tempo para sair em relação ao anterior?
Eu, nesse meio tempo, fiquei estudando/aprimorando técnicas. Li bastante. Participei de músicas de outros artistas, novos e mais estabelecidos, e ajudei artistas a compor também. Fiz muito samba, compus algumas outras canções que lançarei futuramente. Mas pra fazer um disco eu me cobro bastante, sou chato com as minhas coisas e tudo o que eu escrevia pensando em usar em um disco era descartado. Eu não gostava. O Crônicas da Cidade Cinza foi um álbum bem aceito, recebeu muitas críticas boas e eu acabei colocando um peso pro próximo trabalho. Não poderia fazer um disco abaixo daquela média. É o meu segundo álbum conceitual, e pra isso é preciso amarrar as músicas, é preciso que elas conversem entre si. É como fazer um filme, ou escrever um livro. É preciso tomar cuidado pra não procrastinar também, vivo me monitorando quanto a isso.

Como é o método de trabalho e composição entre você e o Nave? Você manda coisas pra ele pela internet antes de começar a gravar? Você grava rascunhos de música no celular ou escreve-os na caneta mesmo?
Conheço o Nave desde 2002. A gente tem o gosto parecido pra música. Ele curte o mesmo estilo de rap que eu curto. Eu expliquei o que eu queria e ele entendeu fácil e assim se deu o processo. Ele vinha aqui pra casa, passávamos um mês aqui trabalhando nas músicas e quando ele tava em Curitiba ia me mandando coisas que criava de lá e vice versa. O André Maleronka foi um cara que participou desse processo também. Nós formamos um trio. As coisas que eu criava eu ia mostrando pra eles. Tenho costume de criar melodias o tempo todo. Fico cantarolando, às vezes acordo com uma melodia na cabeça e gravo no celular pra desenvolver a letra depois. Tenho um pequeno estúdio em casa e ali faço meus experimentos.

Você cada vez mais se especializa em confrontar as diferentes faces de uma mesma pessoa com as de São Paulo. O quanto a cidade te inspira?
São Paulo pra mim é uma fonte infinita de inspiração. Eu costumo andar pela cidade, conheço São Paulo de ponta a ponta. Ando muito de ônibus e nos trajetos sempre procuro observar as pessoas, imaginar o que elas estão pensando ou vivendo. Cada região da cidade tem uma atmosfera. São várias cidades em uma só.

Você tem um trânsito bom entre diferentes cenas musicais, como por exemplo os convidados deste novo disco. Mas você acha que as pessoas estão mais tolerantes em relação ao que ouvem? Compare o que vivemos hoje com a época em que se você gostasse de um outro gênero musical você era mal visto.
Hoje as pessoas estão consumindo mais rap. Antigamente era aquela coisa de tribos. Por exemplo, o cara que ouvia rock, só ouvia rock. Atualmente misturou e isso é bom. O rap também era mais fechado e era mal visto por muitos, assim como o funk é hoje e como o samba foi antigamente.

E como anda a cena musical de São Paulo atualmente? Quais seus artistas e shows favoritos?
A cena musical de SP é enorme. Eu procuro, na medida do possível, ficar antenado no que tá rolando. Gosto muito do Metá Metá, gosto do O Terno, do Aláfia. Acho o formato de shows da Casa de Francisca muito bacana. A rapazeada da Beatwise faz um som que me agrada também. Gosto de ver o KL Jay discotecar.

E falando especificamente do rap: em que fase está o rap brasileiro atual? O disco dos Racionais do ano passado mudou alguma coisa ou serviu como termômetro de algo?
Tem muita coisa boa sendo feita, a cena tá muito prolífica, mas ainda são poucos que vivem só de rap. Eu vivo. Tem uma molecada nova do rap boa também, como Eloy Polemico, Sem Modos, Jota Ghetto, Jamés Ventura, ZRM, PrimeiraMente, Lay. O Racionais tá antenado no que tá rolando. Esse novo disco deles eu gostei bastante. É um disco com batidas e flows atuais e com uma duração bacana, o disco tem 30 e poucos minutos, isso é uma coisa que tem rolado no mercado.

São Paulo melhorou nos últimos anos?
Ando muito por São Paulo, como disse antes. Então posso dizer que algumas coisas pioraram. Vá aos terminais de ônibus na hora em que as pessoas voltam do trabalho e você verá filas enormes e gente saindo pelas janelas dos ônibus. Pegue um trem até o Grajaú neste mesmo horário e vai ver que é a mesma situação. A pessoa que sai lá de Guaianazes e trabalha em Moema. Ela já vai sofrendo pro trabalho, estressada e na volta pra casa sofre novamente. Parece que é um mecanismo criado pra maltratar o sujeito. A polícia, que é estadual, está tão violenta quanto nos anos 90. No começo dos anos 2000 a coisa ficou mais branda, mas de dois anos pra cá piorou.

Tags: