O Bruno Paes Manso propõe uma leitura sobre uma das músicas novas dos Racionais:
Como se não houvesse muito mais a rimar e declamar, as músicas dos Racionais minguaram e nenhum álbum relevante foi lançado em dez anos. No mesmo período, as periferias foram dominadas pelo funk e pelo pancadão, celebrando o consumo e o prazer em excesso proporcionados pelo sexo casual e pelas drogas. Os anseios da geração de jovens das periferias ficaram mais próximos aos dos jovens da classe média paulistana.
O “sistema”, contudo, continuava a produzir camadas sociais que se movimentavam em sentidos opostos, como placas tectônicas na iminência de produzir terremotos. Brown, o cronista, estava atento e conseguiu compreender que era falsa a sensação de paz que a cidade experimentava. O subterrâneo se movimentava e a opção pelo crime crescia. Sem nenhuma gota de hipocrisia, neste ano descreveu em uma nova canção as sensações e o espírito dos jovens que ingressam e seguem a carreira criminal. Trata-se do rap Marighella, em homenagem ao guerrilheiro comunista, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN).
Gravado em maio em uma ocupação no centro de São Paulo, o clipe de Mariguella é a metáfora de Brown para explicar o crime e o criminoso. Brown usa trechos do manifesto do guerrilheiro, transmitido em 1969, para convocar os operários e trabalhadores nas favelas a se armar e a aprender a atirar.
Na voz de Brown, não se trata de Marighela, “assaltante nato”, nem do comunismo, nem dos operários. Mas da revolta, da raiva contra o sistema, dos “correrias”, perseguidos e descriminados, mas com procedimento, devotos do ódio, protagonistas de uma vida sem sentido, que criam meios violentos para suportar a vida na sociedade violenta.
A íntegra do texto tá aqui. E eu filmei a faixa quando eles se apresentaram em abril no Sesc Pompéia, vê só:
A TV Folha foi na gravação do clipe novo dos Racionais e aproveitou para falar com o Mano Brown, que continua politizando cada vez mais seu discurso.
Uuuuuh, it’s so good, it’s so good, it’s so good, it’s so good, it’s soooo gooooooooood…
Donna Summer – “I Feel Love”
Hot Chip – “Flutes”
Sam Sparro – “Happiness (Magician Remix)”
Hall & Oates – “Maneater”
Bonde do Rolê – “Kilo”
Teen Daze – “The New Balearic”
Xx – “VCR (Four Tet Remix)”
Yeasayer – “Henrietta”
Silva – “2012”
Racionais MCs – “Carlos Marighella”
Lana Del Rey – “Born to Die (Mattanoll Final Remix)”
Mallu Magalhães – “Tenho Acordado Cedo e Me Sinto Ótima”
Booker T & The MGs – “Something”
Bora?
E durante a gravação do clipe de “Carlos Marighella”, que aconteceu na terça-feira passada, Mano Brown aproveitou para mostrar que irá ser agente ativo durante as eleições deste ano – e botou o dedo na cara do Kassab, além de citar Roberto Carlos.
E abaixo você escuta a “Carlos Marighella” ao vivo, cantada um pouco antes do discurso acima (e é tão legal ouvir o povo pedindo “Negro Drama” no final da música…):
E já que estou falando em Racionais, ouviram esse dueto do Edi Rock com o Seu Jorge? Poizé…
Rapaz, o que será que vem por aí…
Vi aqui.
É, parece que o clipe de “Carlos Marighella”, com produção do DJ Cia, vem aí. Filmei a música no último show que vi dos caras.
…tão pouco tempo pra escrever. Vi Racionais, Céu, Quarto Negro e Silva nos últimos dias, além de estar presente nos dois dias do Sónar em São Paulo, mas me falta tempo pra escrever sobre os shows (embora os vídeos que fiz já estejam todos no ar, para quem quiser assistir – tou colando uns aí embaixo). Enquanto não escrevo, linko a resenha que o Camilo fez para o ótimo festival do fim de semana, além dos textos que o Bruno fez sobre os shows do Sónar que conseguiu levar para o Circo Voador via Queremos (Mogwai, Little Dragon, James Blake e Chromeo). O Lucas também comentou sobre o show do James Blake (que perdi :-/).
Depois do Iron Maiden, o Ian deu a dica do Silvio Santos cantando Racionais MCs.
Não custa lembrar que tem Racionais no Sesc Pompéia no fim do mês – e é claro que os ingressos já acabaram.
Vi só o finzinho do show dos Racionais no Lollapalooza, mas o Mateus assistiu a tudo e conta mais:
Uma quantidade moderada de pessoas, se comparada ao público médio da tenda Perry (eletrônica), aguardou por pouco mais de uma hora para tirar a prova. Ao contrário de todas as outras bandas do festival, os Racionais não começaram no horário. O suspense para entrar no palco povoou as mentes com toda sorte de conspirações, alimentadas pela mítica em torno do grupo. Shows cancelados. Perseguição da polícia. Confusões de toda sorte. As teorias mais plausíveis davam conta de um suposto desentendimento a respeito da gravação do show (que, segundo o Multishow, foi proibida pela banda). Nada vem fácil para o Racionais, nunca veio. Não vai ser desta vez, justo ali. A tensão foi levada ao limite, e o grupo só entrou quando a plateia já vaiava o atraso de forma generalizada. Mas o que aconteceu na próxima hora e meia tornou sem sentido qualquer especulação a respeito das razões.
(…)
E eis que o bando estava muito à vontade, Mano Brown sorridente e interagindo o tempo todo com o público e com a pequena multidão no palco. Os clássicos vieram: “Vida Loka II”, “Negro Drama”, “Eu Sou 157”, “Homem na Estrada”, “Jesus Chorou”, “Estilo Cachorro”. Deve ter sido a primeira vez em qualquer edição do festival que tantos boys (de vila ou quatrocentões), minas, indies, seguranças e funcionários da limpeza curtiram um show juntos e misturados, sem qualquer distinção ou condescendência aparente. Mas foi só quando o jogo estava ganho que o Racionais decidiu mostrar por que esse dia seria ainda mais especial do que todos já sabiam. Como um soco na cara, surgiu nos telões a imagem da carteira de afiliação de Carlos Marighella ao PCB. Ao lado de seu rosto, a foice e o martelo ardiam impiedosamente nas vistas de um festival que representa tudo, menos o comunismo. Uma cena completamente impensável de acontecer em qualquer festival nos EUA.
A projeção seguiu ali durante toda a execução de “Marighella”, mas foi além, como foi além Mano Brown. As rimas da música nova se fundiram em uma exaltação ao “momento do Brasil”, sobre como os estrangeiros estão fascinados pelo país, e como nós temos que estar preparados para aproveitar a maré a nosso favor.
A íntegra tá lá no site da Soma.