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Sly Dunbar (1952-2026)

Morreu nesta segunda-feira um dos maiores nomes da percussão jamaicana, o lendário baterista Sly Dunbar. Nascido Lowell Fillmore Dunbar, Sly ganhou este apelido na adolescência, quando começou a tocar com aquele seria seu maior parceiro em toda vida, o baixista Robbie Shakespeare, no momento em que a música da ilha caribenha em que nasceram passava por sua maior transformação. O ska tornava-se rock steady e aos poucos o novo gênero deixava de ser tão dançante para assumir uma doçura que vinha da soul music norte-americana, mutando-se no que depois se tornaria mundialmente conhecido como reggae. Sly e Robbie começaram a tocar juntos em grupos da primeira fase do gênero, como Revolutionaries (que também tocava como Aggrovators) e suas influências vinham da própria ilha – especificamente do baterista dos Skatalites, o lendário Lloyd Knibb, e do baterista dos Booker T & The MGs nos Estados Unidos, Al Jackson Jr. Os Revolutionaries tornaram-se a banda do histórico Channel One Studios no mesmo ano em que Bob Marley tornou-se um artista global, o que provocou uma procura mundial pelo novo ritmo jamaicano. Logo os dois começariam a trabalhar como uma dupla e assinar Sly & Robbie, tocando tanto com lendas conterrâneas (como Gregory Isaacs, “Scratch” Lee Perry, Junior Murvin, Black Uhuru, Peter Tosh, Chaka Demus & Pliers, Bunny Wailer, Jimmy Cliff e o próprio Bob Marley) a titãs da música pop tão diferentes quanto Bob Dylan (que os reuniu com Mark Knopfler e Mick Taylor no disco Infidels, onde gravaram “Jokerman”), Herbie Hancock (com quem gravaram “Future Shock”), Grace Jones (com quem gravaram três álbuns), Serge Gainsbourg, Madonna, Fugges, No Doubt, Sinéad O’Connor, Britney Spears e os Rolling Stones. Robbie já tinha ido para o outro plano em 2021 e agora os dois se reúnem novamente no céu do reggae. Vai em paz.

Erich von Däniken (1935-2026)

Morreu o sujeito que inventou que todos os mistérios da civilização que ainda não tinham explicação só teriam uma única resposta possível: alienígenas. Autor do best-seller Eram os Deuses Astronautas?, este ex-garçom criou uma pseudeoarqueologia alternativa que se espalhou por dezenas de livros (e depois filmes e programas de TV) e explicava diferentes civilizações humanas como cobaias de experimentos extraterrestres, gerando todo uma nova safra de escritores, cineastas e teóricos dedicados ao tema. Um picareta bem sucedido, entrou no imaginário do século 20 como um dos principais autores de teorias da conspiração que não era tratado apenas como um maluco mal intencionado – e ganhou muito dinheiro com isso.

Bob Weir (1947-2026)

Morre o mago da guitarra que consolidou o Grateful Dead como uma das maiores bandas de rock psicodélico de todos os tempos, um mestre do improviso e um dos maiores cronistas da sonoridade dos Estados Unidos. Bob Weir é.

Conrado Corsalette (1978-2026)

Nunca trabalhei diretamente com o Conrado, embora o tenha conhecido por causa do trabalho: éramos contemporâneos de redação no Estadão, quando ele tocava o barco na política e eu militava nas trincheiras da tecnologia digital no recém-abatido Link. Mas logo que saímos daquela redação, ele tentou me trazer para seu novo Nexo, onde liderou uma ousada iniciativa de jornalismo em tempos de internet, mais de uma vez, mas sempre declinei por motivos diferentes. Essa aproximação profissional no entanto descambou para uma amizade que, como fui percebendo em seu estilo, misturava problemas pessoais com sonhos particulares, ambições natas e outras adquiridas, longos papos em que uma desavença na semana anterior alongava-se em diferentes cenários para futuros possíveis do Brasil e descambava numa discussão sobre qual era a melhor música dos Mutantes. Ao conhecê-lo fora das redacoes pude ter contato com um coração imenso e intenso e uma cabeça a 200 por hora sem estar imerso nas tensões da labuta e da rotina — sempre que nos encontrávamos ele aproveitava justamente para desopilar tais pesos, em bebedeiras sociais que por vezes extrapolavam madrugada afora. A notícia de sua morte me veio como mais um alerta sobre a necessidade de sr conviver com quem se gosta e valorizar esses momentos. Fazíamos muito isso, mas há mais de um ano não falava com ele, a última vez foi quando visitou um show no Centro da Terra. Passei a quinta pensando nele e em todos esses pensamentos que vêm junto com esse tipo de notícia e só consigo agradecer sua insistência em querer me contratar. Assim perdi um chefe para ganhar um amigo. Que faz falta. Obrigado, bicho. ❤️

Béla Tarr (1955-2026)

Nenhum diretor personifica tão bem a ideia da cinefilia para além da indústria do que o húngaro Bela Tarr, que morreu nesta terça-feira. Autor com letra maiúscula, nunca fez concessões para o cinema como indústria ou comércio e dirigiu filmes épicos e lentos, sem ação ou espetáculo, sem preocupar-se com narrativas tradicionais ou métricas estabelecidas. Colocava moral, ética e existencialismo no mesmo patamar da grande arte, fazendo filmes que eram essencialmente políticos e humanísticos ao mesmo tempo em que negava-se a facilitar a obra para o espectador, convidando-o mais a experimentar suas peças audiovisuais do que a entendê-las. Trabalhava com atores não-profissionais, filmava cenas longas e por vezes improvisadas, sempre esticando-a por minutos lentos e contemplativos, quase sempre num preto e branco de alto contratantes, sempre abordando temas pesados e difíceis, como a decadência da humanidade, o fim da utopia política, o fracasso da modernidade, a repetição, a dificuldade em se comunicar e ser compreendido como centro do caos social que tornou-se a sociedade, sempre com tons de desilusão e desesperança. Entre seus clássicos estão filmes como Danação (1988), Sátántangó (com suas lendárias sete horas de duração, 1994), meu favorito Harmonias de Werckmeister (2000) e O Cavalo de Turim (2011). Um diretor único, incomparável e seminal, que deixa nosso plano numa época que parece ter abandonado as características que ele exigia de seu público: a atenção, a paciência, a imersão filosófica e a disposição psicológica. Um mestre.