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Parteum sobre a volta do Emicida

Com a volta aos palcos do Emicida na semana passada ainda reverberando, compartilho o texto que seu mestre e compadre Parteum publicou em sua conta no Instagram ao comentar o fato do rapper ter tocado uma música sua neste mesmo show:

“Quando um líder, num ato de generosidade, canta uma música de sua autoria no retorno aos palcos. Quando a música que nunca foi feita em shows ganha um bom lugar pra existir. Quando duas gerações do Rap Nacional não se estranham.

A música ‘A Moral Provisória’ foi escrita quando descobri que Cora, minha filha, estava vindo. O segundo verso foi escrito logo depois do primeiro ultrassom. Ela faz parte do álbum/mixtape Magus Operandi, tem 18 anos de vida.

O que eu digo e repito é que a coragem e a perspicácia do @Emicida, além do talento e do olhar pra cultura, são muito dignos. Da minha geração do rap, os que sobraram e seguem criando, poucos se gostam minimamente. Entretanto, decidir memorizar uma música inteira de outro artista e apresentá-la no show de retorno da carreira revela outro grau de amizade, respeito, carinho e, repito, generosidade. A verdade mora nos fatos. E o fato é que a cultura é construída e reconstruída por gente que tem compromisso com o que se propôs lá, no começo. Ritmo, poesia, dança, harmonia, comunidade, artes visuais e conexão. Congratulações, Leandro! Eu lembro tudo que disse no McDonald’s da República, quando você e mano Fernando (DJ Nyack) se preparavam para um dos primeiros shows!”

E essa volta tá só começando…

#24

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Disco 24) Raciocínio Quebrado– Parteum
Parteum tem tudo pra dar certo. Produção impecável, timbre de voz preciso e direto, rimas claras e complexas ao mesmo tempo, sagacidade nos movimentos, parcerias bem escolhidas, a agressividade racional de um Mos Def e a versatilidade inquestionável de um Common. Falta-lhe, no entanto, o que o irmão tem de sobra: senso pop. Ao contrário de Rappin’ Hood, que sequer pestaneja ao entrar em refrões clássicos do cancioneiro nacional (de “Disparada” à “Odara”), Fabio Luiz nos guia propositadamente no escuro, para que não nos contetemos com o que já conhecemos. Nesse sentido, Raciocínio Quebrado é um guia de estilo, um manifesto moderno de ritmo e poesia que foge de convencionalismos por definição. Com isso, pula o riff e o refrão e o disco escapa aos ouvidos…

Música 24) “Hung Up” – Madonna
O sintetizador de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)” do ABBA se esguia pelo subconsciente, alternando graves e médios, serpenteando pela parte traseira do cérebro, como um parasita (como o tecladinho faithnomoriano do hit “Jigga What?/Faint” da joint venture Linkin Park/Jay Z) – e a música explode como uma “Can’t Get You Outta My Head” melancólica, com esse sentimento azulado que a cantora atravessou todos os anos 90 – o violeta de “Deeper and Deeper”, o quase negro de “Justify My Love”, o clarinho de Bedtime Stories, o cobalto de Music, o acinzentado de Ray of Light. Madonna continua triste, mas não se deixa abater com um refrão grudento costurado a uma produção impecável. E no vídeo, o que ela faz melhor, que é detectar tendências (Le Parkour, Pump it Up, jazz de academia de ginástica, sons portáteis com luzinhas piscando). “Time goes by… so slowly… Times go by… So slowly).

Show 24) Kings of Convenience no Tim Festival, no Rio de Janeiro
“Calem a boca e prestem atenção”, disseram, nunca tão diretamente, a dupla de indie bossa nova (cada vez mais um estranho e plausível gênero twee) ao público da noita mais colunável do Timfa desse ano. Com violõezinhos e vocais que quase se quebravam no ar de tão frágeis, os KoC fizeram um show doce e suave, pop como João Gilberto nunca poderia ter sido – ao menos não esta versão que conhecemos, forjada antes do próprio conceito de pop ter se estabelecido como sinônimo de sintonia com o público.