Jurassic World fez história no fim de semana com a estreia mais bem sucedida da história do cinema (meio bilhão de dólares, ninguém poderia prever isso), mas um fã cogitou uma teoria sobre o primeiro e o novo filme da série dos dinossauros que poderia explicar como o personagem de Chris Pratt começou a respeitar os velocirraptores. Escrevi sobre isso lá no meu blog no UOL.
Gabriela Deptulski abriu um portal intertemporal no sábado passado na Casa do Mancha. Seu My Magical Glowing Lens pode ter começado como um promissor projeto shoegaze num quarto em Colatina, no Espírito Santo, apenas com um computador, uma guitarra e vários pedais, mas ela está inconscientemente traçando um cânone desprezado por muitos ao fazer a conexão entre duas vertentes hoje clássicas no rock: a era de ouro dos anos 60 e a era pós-punk dos anos 80.
O fato do My Magical Glowing Lens não ser mais só Gabriela e sim uma banda com baixo, guitarra, teclado e bateria reforça essa conexão, mas ela já estava nos solos de guitarra da cantora e compositora, que embora sussurrasse sob camadas de microfonia seguindo a escola de bandas como Cure, Echo & the Bunnymen, Jesus & Mary Chain e My Bloody Valentine, já ecoavam sombras de Eric Clapton, Syd Barrett, Jimi Hendrix e Robbie Krieger.
A transformação do MMGL em banda conta com a aproximação do grupo The Single Malt, de Vila Velha, uma banda claramente com referências sessentistas e o diálogo do trio com a vocalista e guitarrista está engatando bem. O guitarrista Raími Leone funciona como contraponto perfeito para os solos de Gabriela, puxando bases hipnóticas ou improvisando solos de outra natureza, mais blues que psicodélica. Alternando ente o baixo e o teclado (onde faz as linhas de baixo), Pedro Moscardi deixa evidente as referências do início do rock pesado, ecoando Jack Bruce, Glen Hughes, John Entwistle e até Geddy Lee. Só o baterista Rafael Borges destoa do grupo, não por falta de afinidade e sim por excesso – ao esmurrar seu kit como um Keith Moon, ele perde a sutileza de seu instrumento nas partes que requerem mais intensidade do que força, mas nada que comprometa a apresentação.
A conexão entre as duas vertentes musicais – rock clássico e indie rock – pode ter sido acionada via Kevin Parker – é evidente a influência do guitarrista do Tame Impala no trabalho de Gabriela, mas ela é mais negada pelos fãs do que pelos músicos: o Jesus & Mary Chain se descrevia como o cruzamento de Stooges com “Be My Baby” e Beach Boys, o Echo & the Bunnymen venerava os Doors e o Cure gravou “Purple Haze” do Jimi Hendrix. Ao cutucar nessa ferida, o My Magical Glowing Lens pode estar começando uma utopia do indie rock brasileiro dos anos 90. Quem esteve lá sabe.
Filmei todo o show, saca só:
A morte de Fernando Brandt me fez lembrar dessa versão que Björk fez para “Travessia” – quem imaginaria que uma música daquele bando de mineiros influenciados por Beatles seria gravada por uma diva do pós-punk da Islândia? É só uma amostra da influência e importância do trabalho do compositor.
Fotos: Natália Pires
Nunca tinha ouvido falar nessa banda holandesa John Coffey, mas há de se aplaudir seu vocalista David Achter de Molen por ter pego uma cerveja jogada em cima dele com apenas uma mão enquanto caminhava sobre a platéia, durante o show da banda no festival Pinkpop Festival, conterrâneo da banda.
É tipo uma videocassetada ao contrário, pura tiração de onda em segundos de vídeo.
Tudo bem que vai ter Caetano Veloso, um arraiá pra Inezita Barroso (isso vai ser épico), um palco de Jovem Guarda, Fabio Júnior, não sei o que do Alex Atala, mas… como assim vai ter Faust na Virada Cultural e ninguém comentou nada?
O Faust é uma das bandas mais importantes do rock alemão dos anos 70 e há quem os considere o principal nome da cena que comumente conhecemos por krautrock (rótulo tirado de uma canção do grupo, diga-se). Particularmente acho o Can e o Kraftwerk mais importantes, mas há um ponto a ser levado em consideração, pois a banda batizada com o nome do personagem de Goethe realmente extrapolava os limites da música muito mais que os outros dois grupos. Enquanto o Can misturava James Brown, Velvet Underground e free jazz no mesmo improviso e o Kraftwerk reduzia tudo a seu clássico minimalismo eletrônico pré-digital, o Faust explorava as fronteiras do ruído branco, das colagens sonoras, das superposições. Se rotulavam “art-erroristas”.
A formação clássica da banda de Hamburgo contava com Hans Joachim Irmler, Arnulf Meifert, Jean-Hervé Péron, Uwe Nettelbeck, Rudolf Sosna, Werner “Zappi” Diermaier e Gunther Wüsthoff e parte deles, além de músicos de formações posteriores, circulam pelo mundo como Faust, a formação que vem a São Paulo é composta pelo guitarrista Jean-Hervé Péron e pelo baterista Werner “Zappi” Diermaier.
Mas o mais legal é o contexto da apresentação do grupo, que tocará num palco da Estação da Luz dedicado ao experimentalismo e à psicodelia musical. Os trabalhos começam às 18h do sábado, com os curitibanos do Ruído/mm (favoritos por aqui, você sabe), às 20h entra a parceria dos Hurtmold com o Paulo Santos do Uákti, Anvil FX e Modular Dreams chamam Edgar Scandurra e Dino Vicente para uma jam session às 22h e às 2 da madruga o Faust entra em ação, seguido pelos turcos do Insalar às 4h. A manhã de domingo começa com o fulminante Tigre Dente de Sabre às 8h, segue com os goianos suaves do Boogarins às 10h, o grupo paulistano Mawaca às 14h e o incendiário Metá Metá encerrando tudo às 16h.
Pesado. É isso aí, tem que ser assim, palmas pra iniciativa.
Bem bonita a declaração de amor e amizade que Peter Jackson fez ao recém falecido Sir Christopher Lee – que depois de cinco filmes juntos, tornou-se apenas seu amigo Chris. Traduzi o texto lá no meu blog no UOL.