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Sobre a importância de Deuses Americanos

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Escrevi para a editora Intrínseca sobre a edição do autor do primeiro romance de Neil Gaiman, Deuses Americanos, que vira série no ano que vem, e que ainda não teve seu impacto medido.

A nova mitologia de Deuses Americanos

Ainda não chegou o tempo em que olharemos para trás e reconheceremos que Deuses americanos foi um marco na literatura fantástica mundial. O livro que lançou a carreira de Neil Gaiman como escritor para além dos quadrinhos completa quinze anos em 2016, e sua adaptação para série de TV já está sendo filmada e estreia em 2017. O aniversário traz de volta a versão integral que Gaiman mandou a seu primeiro editor, que podou dezenas de páginas. Nessa Edição Preferida do Autor as páginas extras são resgatadas, além de outros textos de Gaiman sobre o livro, como uma nova introdução e uma entrevista.

Em Deuses americanos, Gaiman explora a possibilidade de mitologias acompanharem seus povos em migração. A história se passa na virada do milênio, mas também volta no tempo para mostrar os Estados Unidos em formação, explicando como cada povo e cada tribo deixou a Europa rumo à América levando consigo suas crenças — e como estas foram se transformando no novo continente, que, ao mesmo tempo, via o nascimento de novos deuses.

Assim como acontece na extensa saga em quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, a sombra que Deuses americanos projeta sobre a fantasia atual ainda está em lento crescimento, sendo apresentada a novos públicos e espalhando-se para além daquele momento inicial de seu lançamento.

Na nova introdução, Neil Gaiman explica que concebeu o título do livro antes mesmo de saber sobre o que escreveria. E, ao apresentá-lo para sua editora, recebeu de volta uma capa já pronta com a clássica imagem do relâmpago ao longe, no horizonte de uma estrada. A imagem icônica surgiu antes mesmo de Gaiman determinar exatamente qual história queria contar e qual tom daria à nova saga.

De certa forma, Deuses americanos pode ser visto como uma continuação do universo que Gaiman começou a explorar em Sandman, embora por outro ponto de vista. Com a série da DC Comics, o autor britânico escolheu um personagem de terceiro escalão da editora e foi em sua essência, descobrindo que o nome Sandman estava vinculado ao personagem do sonho em todas as mitologias. Criou um universo no qual sete irmãos — os Perpétuos — atravessam todas as narrativas da história humana. Eles são entidades que existem desde a aurora dos tempos — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (todos com D, em inglês) — e cuja interação afeta diretamente a vida dos seres humanos. Sandman era um enorme xadrez da eternidade, em que diferentes deuses e personagens fantásticos brincavam com a mortalidade humana.

Deuses americanos nos faz ver esses universos mitológicos do ponto de vista mortal. O protagonista, Shadow, cruza os Estados Unidos de carro em busca de divindades de outras culturas que estiveram na base da formação do país, mas que aos poucos foram perdendo a importância, ao mesmo tempo em que viram o nascer de novos deuses, aqueles que batizam o livro. E, mesmo que tenha uma história fechada, o universo de Deuses americanos acabou por invadir e dar origem a outros livros de Neil Gaiman, que aos poucos vai desenhando seu próprio universo ficcional.

A adaptação do livro para a TV amplia ainda mais as fronteiras desse universo. A princípio produzida pela HBO, a série passou para o canal fechado Starz e conta com nomes como Bryan Fuller (da série Hannibal) e Michael Green (que fez Heroes e Kings e atualmente produz Gotham e escreve a continuação de Blade Runner), além do próprio Neil Gaiman, que acompanha de perto o projeto desde o início. Gaiman já admitiu ter participado do roteiro dos primeiros episódios da série, que teve seu primeiro teaser exibido — e recebido com aplausos — na Comic Con de San Diego deste ano, o principal evento de cultura pop do mundo.

Ao chegar à TV durante uma grande entressafra que coincide com a fase final do fenômeno de fantasia Game of Thrones, há uma grande chance de a série encontrar um público ávido por novas histórias que misturem mitologia e realidade. Em Deuses americanos, assim como em toda obra de Neil Gaiman, os fãs encontrarão um enorme manancial de contos, fábulas e épicos.

Mas ainda há muito pela frente. Outras obras fantásticas — como O senhor dos anéis, Harry Potter e o próprio Game of Thrones — só atingiram o auge da popularidade quando saíram do papel e chegaram às telas do cinema e da TV, sendo que apenas os autores dos dois últimos — J.K. Rowling e George R.R. Martin — puderam curtir o ápice de popularidade e alcance de suas criações, ajudando-as a crescer nesta transição. A nova edição de Deuses americanos e a iminente série são as primeiras provas de que esse universo pode — e deve — ser bem explorado nos próximos anos.

A abertura da escotilha

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Escrevi lá no meu blog no UOL como tudo que assistimos de Westworld até aqui pode ter sido apenas um prefácio para a história de verdade.

Quantas perguntas Westworld precisa responder em seu décimo episódio, que vai ao ar na virada deste domingo para segunda-feira, para encerrar a primeira temporada da série? O programa, inspirado no filme de mesmo nome dirigido por Michael Crichton nos anos 70 e produzido por J.J. Abrams e Johnathan Nolan, já pode ser considerado um dos grandes acontecimentos televisivos do ano e o saldo de dúvidas que poderá ser quitado neste season finale pode determinar se o nível de genialidade da proposta e da execução da série até agora será coroado com uma conclusão à altura das expectativas suscitadas. E, ao que tudo indica, será.

Por isso, se você não acompanha Westworld, assistiu alguns episódios sem dar a devida atenção ou está entretido em algum lugar do meio da primeira temporada, pare de ler este texto agora. A partir daqui vem uma sequência de spoilers e especulações sobre o que falta acontecer no seriado que pode estragar a surpresa de quem ainda está tateando seu rumo neste futuro de robôs idênticos a seres humanos. Se este for o seu caso, sugiro que leia o texto que escrevi no começo da semana exaltando a importância da série sem entregar o ouro. E para evitar algum acidente, jogo uns gifs animados na sequência para não correr o risco de estragar a surpresa de ninguém.

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Para começar, quais perguntas ainda precisam ser respondidas? Ao contrário da série que deu fama a um de seus produtores (Lost, de JJ Abrams), Westworld já respondeu a grande maioria dos questionamentos que levantou, alguns diretamente, outros insinuados de tal forma que só faltam serem mencionados literalmente para confirmarmos a certeza. Nesta última categoria, uma dessas questões – que ajuda a entender a estrutura da série – ficou evidente aos seus espectadores: estamos assistindo a cenas de uma mesma história que acontecem em épocas diferentes, e a edição – ao lado do fato dos “hosts” (os androides quase perfeitos da série) não envelhecerem – é recortada de forma a nos enganar que estamos assistindo a fatos que acontecem numa mesma época.

A linha do tempo de Westworld até agora nos apresenta a três diferentes etapas, embaralhadas propositadamente para nos confundir: uma época que aconteceu mais de trinta anos atrás, quando Ford e Arnold criaram aquele universo; outra que acontece trinta anos atrás, quando Dolores mata Arnold pouco antes da abertura de Westworld ao público e outra que acontece no presente, quando alguns robôs começam a sofrer a mesma pane que Dolores sofreu trinta anos antes, provocando o desequilíbrio daquele faroeste artificial.

Ford e Arnold são os criadores daquele universo. Desenvolveram a robótica e a inteligência artificial a um ponto tão complexo que seus robôs passaram no teste de Turing, aquele criado por Alan Turing no meio do século passado para determinar seu um interlocutor era um ser cibernético ou natural. A partir desta descoberta criaram Westworld, um ambiente falso, inspirado no velho oeste norte-americano, que seria habitado por aqueles robôs.

O problema era que cada um deles tinha uma visão sobre como aquele universo deveria funcionar. Arnold, encantado com sua obra, queria que ela evoluísse ainda mais, atingindo um ponto em que descobrisse a natureza de sua existência e ganhasse consciência de fato. Ford considerava tal evolução perigosa e preferia que os robôs funcionassem como meros brinquedos para os seres humanos, transformando Westworld em um parque de diversões para adultos.

No período que antecede a morte de Arnold, Westworld era um universo sendo ensaiado, com robôs caubóis lentamente começando a aprender como comportar-se naquele novo cenário. E Dolores – o primeiro robô – era a criação favorita de Arnold, que ele ensina a percorrer um caminho para que ela consiga atingir a própria consciência. Este caminho – “o labirinto” – é percorrido duas vezes pela personagem em épocas distintas, mas como os robôs não envelhecem, a edição do seriado faz que as mudanças entre tempos diferentes pareçam acontecer simultaneamente.

Há outro detalhe, explicado em um dos episódios mais recentes, sobre a natureza da memória da inteligência artificial. Enquanto nossas lembranças, humanas, desgastam-se com o tempo e tornam-se quase opacas quando comparadas com a realidade que habitamos, as dos robôs – por sua natureza sintética – podem ser acessadas de forma quase instantânea e intacta, fazendo que uma lembrança, mais do que algo nostálgico, possa ser praticamente revivida. É isso que tem acontecido com Dolores enquanto ela refaz, sozinha no presente, o mesmo caminho que percorreu com William há trinta anos. E também com Maeve quando ela se lembra de sua vida anterior, em que tinha uma filha.

Arnold, portanto, conseguiu fazer que Dolores percorresse este caminho por conta própria, rumo à própria consciência. A natureza de Bernard, nos revelada nos episódios mais recentes não apenas como ele mesmo sendo um robô, mas também um robô-clone para onde Ford conseguiu transferir a consciência de Arnold depois de sua morte, explica que as cenas em que o assistimos interrogando Dolores com o vestido azul (diferente dos interrogatórios de robôs no presente, em que eles todos estão nus) aconteceram antes da inauguração de Westworld.

Dolores é o robô favorito de Arnold, que ele, em segredo, conduz rumo à consciência. O que provavelmente assistiremos neste último episódio é a confirmação de que Dolores é Wyatt, o grande vilão de uma das primeiras narrativas. No penúltimo episódio, vimos que Teddy maquiava a lembrança de um passado genocida como a memória da guerra. E que ele foi um dos principais agentes na matança que ocorreu pouco antes da abertura do parque ao público, quando Arnold foi morto por Dolores. É quase certo que a cena que vimos sendo descrita como Wyatt matando o general seja encenada, de fato, por Dolores e Arnold – o ponto crucial da tomada de consciência da robô.

O grande trunfo de Westworld, no entanto, não é a revelação destes mistérios – mas a execução desta revelação. O momento em que Bernard é revelado como sendo um robô não é propriamente um grande segredo, mas uma confirmação de uma suspeita, orquestrada de forma sutil e sublime (a estranheza que uma simples pergunta – “que porta?” – pode causar). O mesmo está para acontecer com a confirmação de que William é o Homem de Preto trinta anos mais tarde.
Há questões parentes destas espalhadas por todo último episódio, algumas delas meras desconfianças, outras, fortes indícios. A própria natureza de Westworld é dúbia e passamos a questionar a humanidade de todos os outros personagens. Ford é um robô? Theresa era um robô? Os dois funcionários cúmplices de Maeve são robôs? Todo Westworld é um enorme ecossistema de robôs, tanto hosts quanto guests peças num enorme xadrez cibernético?

E qual é a grande nova narrativa de Ford? A saída de Maeve? Será que a segunda temporada de Westworld vai para além do universo que já conhecemos? E qual é o papel da Delos em toda essa história?

Essa é a minha aposta. Ao chegarmos aos limites da semelhança e estranheza entre humanos e máquinas, o próximo passo a ser dado é contemplá-la no mundo real. O velho dilema entre homens e robôs que é clássico na ficção científica – de Eu, Robô a Matrix – é mais uma vez atualizado em uma série cujo tema é a construção de narrativas que nos confunde ao mesmo tempo que nos encanta. É como se todas as perguntas sobre a natureza da ilha de Lost fossem respondidas ainda na primeira temporada. Estamos prestes a ver a descoberta de uma nova escotilha de Desmond para descobrir que a Delos é uma Iniciativa Dharma muito mais refinada (e, aparentemente, mais gananciosa) para entender o papel de Westworld junto ao resto do planeta (se é que Westworld fica nesta planeta…).

Prince vive!

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Um festival, uma coletânea e um documentário celebram a biografia de Prince, encerrada de forma prematura este ano – escrevi sobre as comemoraçoes em meu blog no UOL.

Era inevitável que a morte prematura de Prince em abril deste ano desse início a uma série de homenagens e reverências à obra do gênio da soul music moderna e o final de 2016 já trouxe três destas novidades. A primeira delas é a coletânea Prince 4Ever, lançada no fim de novembro e que tornou-se o 40° disco do artista a estar entre os mais vendidos.

Lançada como um CD duplo, 4Ever reúne a nata dos hits de Princee nquanto ele ainda era um artista da Warner e vão de sua fase inicial na virada dos anos 70 para os 80 (“I Wanna Be Your Lover”, “Soft and Wet”, “Why You Wanna Treat Me So Bad?”, “Uptown”, “When You Were Mine”, “Controversy”, “Let’s Work”), até seu auge durante os anos 80 e 90 (“1999”, “Little Red Corvette”, “When Doves Cry”, “Let’s Go Crazy”, “Raspberry Beret”, “Kiss”, “Sign o’ the Times”, “Alphabet St.”, “Batdance”, “Cream”, “Girls & Boys”, “If I Was Your Girlfriend”, “U Got the Look”, “I Could Never Take the Place of Your Man”, “Diamonds and Pearls”, “Gett Off”, “Sexy MF”, “Nothing Compares 2 U”, entre outras). Mas a grande novidade é a faixa inédita “Moonbeam Levels”, gravada em 1982, que só agora vê a luz do dia. É o comecinho da abertura do baú de Prince, que é enorme.

Outra homenagem já havia acontecido em outubro, quando a mansão do artista, o lendário Pasley Park, foi convertido em um museu. A Graceland de Prince é uma mansão avaliada em 10 milhões de dólares e conta com vários estúdios, salas de ensaio, uma enorme casa de shows, além do escritório particular de Prince, com suas três camas cercadas por espelhos. Poucos conheceram o lugar quando Prince era vivo devido à sua personalidade reclusa e foi lá que ele gravou alguns de seus grandes discos, como Sign o’ the Times, Parade e Diamonds and Pearls. O Pasley Park fica na cidade de Chanhassen, no estado de Minnesota, nos EUA, e as visitas (que custam US$ 38,50) já podem ser feitas desde outubro.

A novidade é que o lugar anunciou um grande evento para o aniversário da morte de Prince. Celebration 2017 acontecerá no Pasley Park entre os dias 20 e 23 de abril do ano que vem e contará com shows das diferentes bandas com quem Prince tocou durante sua carreira, como a Revolution, Morris Day & The Time, a New Power Generation, além de Liv Warfield e Shelby, que tocarão com a 3RDEYEGIRL, banda que o acompanhou em suas últimas apresentações. Os ingressos para os quatro dias custam entre 500 e mil dólares (mais informações no site do festival) e não serão permitidas fotos ou filmagens durante o evento.

E o documentário Prince: R U Listening?, acaba de ser anunciado para o ano que vem. Segundo o site Screen Daily, o diretor Michael Kirk (dos documentários Find Your Groove e Crescendo) contará a história da ascensão de Prince no início dos anos 80 a partir de entrevistas com músicos que o acompanharam na época (como Dez Dickerson, seu primeiro guitarrista, Andre Cymone, seu amigo pessoal e primeiro baixista e a baterista Sheila E), bem como seus contemporâneos famosos, tais como Bono, Mick Jagger, Lenny Kravitz e Billy Idol. A previsão de lançamento do documentário é para o segundo bimestre do ano que vem, para coincidir com o aniversário de morte do artista.

Emicida 2016: “Ok, agora olha os preto”

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Emicida coroa seu 2016 reunindo Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin no clipe de “Mandume”, que também funciona como editorial de moda para a coleção atual de seu selo-grife, o Lab Fantasma.

“…I want to back to Bahia”

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Zarpo neste sábado rumo a Salvador, onde vou conferir a segunda edição do festival Radioca, que desta vez reúne Carne Doce, Jards Macalé, Karina Buhr, Aláfia e Dona Onete aos locais Josyara, Retrofoguetes e Giovani Cidreira. Também participo de um bate-papo no domingo com a Roberta Martinelli, do Cultura Livre e do Som a Pino, e de Daniela Souza, da Educadora FM, sobre a relação da nova música brasileira com a mídia, com mediação do Luciano Matos, um dos organizadores do festival (mais informações aqui). Mando notícias, valeu!

Estudando a cena independente

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Conheci Thiago Galletta na segunda edição do Fora da Casinha deste ano e ele havia acabado de lançar seu livro Cena Musical Paulistana dos Anos 2010, trabalho acadêmico sobre o impacto da internet na cena independente da cidade. Agora ele lança o livro de fato com uma festa na Fatiado Discos, com discotecagem do autor, João Lion e Nicolas Bahia, todos tocando música brasieira (mais informações aqui). Aproveitei o gancho da festa para conversar com o Thiago sobre o assunto de seu livro.

Como surgiu seu interesse pela cena independente brasileira?
Antes de tudo, acho que esse interesse tem a ver com meu contato com essa “cena independente”, como ouvinte, fã, desde uns 20 anos atrás. Um pouco depois, também meu interesse como radialista atuando por mais de uma década em rádios universitárias e comunitárias, o que se intensificou a partir de 2005 quando comecei a atuar como DJ profissional. Talvez a geração de bandas do final dos anos 1990 – época que emergiram festivais independentes importantes como o Juntatribo, Goiânia Noise, Abril Pro Rock entre outros – que incluiu, por exemplo, Planet Hemp e Chico Science e Nação Zumbi – grupos com trajetória inicial importante no meio independente e que em seguida assinaram com majors – tenha sido o último respiro de inovação e vitalidade criativa no universo das grandes gravadoras.
Falando como apreciador de música e DJ, a maior parte da música brasileira que me interessou nos últimos 15 anos tem sido feita fora da estrutura grandes multinacionais do disco. E enquanto pesquisador e sociólogo, a “cena independente” dos últimos anos me interessou muito nesse livro, também como um objeto de investigação excelente pra pensar o impacto das tecnologias digitais sobre a cultura brasileira contemporânea. Além disso, nas minhas pesquisas e leituras sobre a música brasileira, sentia um hiato, uma ausência significativa de obras que se aprofundassem e atribuíssem a devida importância a essa cena que se fortalece nos últimos 15 anos no Brasil, e que ao meu ver – entendo que já é possível dizer – tem uma importância e um papel muito significativos na história da música brasileira gravada desse mais de um século.
Foi e é essa “cena independente” a parcela da produção musical nacional que melhor tem expressado criativa e esteticamente esse novo momento, de acesso digital potencialmente ilimitado à produção musical gravada de todas as épocas e lugares, que se abre com a internet. Esse é um, entre vários outros divisores de água que essa cena expressa, tanto em seus potenciais como em suas contradições e desafios.

Por que resolveu focar na cena de SP em seu livro? O que ela tem de diferente das outras cenas?
Com a diminuição na última década e meia dos espaços disponíveis nas grandes gravadoras para a música de inovação e experimentação – aquela de algum modo mais preocupada com a forma e o conteúdo e menos exclusivamente com o sucesso comercial mais imediato – declinou a importância do Rio de Janeiro, onde se concentravam as majors, pra esse tipo de produção. As novas condições de produção e distribuição musical independente que acompanharam a expansão da internet, e que vem sendo exploradas no Brasil inteiro, encontraram na cidade de São Paulo a possibilidade de algo mais além. No caso, a formação, a partir de um conjunto de condições particulares da cidade – em que se destacam sua condição econômica, equipamentos culturais, nichos específicos de fruição cultura e arte, uma rede de canais de mídias e cobertura especializada em música, entre outros fatores que eu exploro no livro – de um mercado mínimo ou razoavalemente consistente para os artistas independentes com trabalhos autorais.
São Paulo se tornou talvez o principal pólo produtivo – um importante centro criativo – na cena independente brasileira, principalmente na medida em que começou a atrair cada vez mais, ao longo dos anos, músicos migrantes do Brasil inteiro em busca de melhores condições e oportunidades pra seus trabalhos. Uma das principais diferenças dessa cena para a de outras capitais, por exemplo, se refere à possibilidade que se concretizou aí de um número importante de artistas independentes “viverem de música” com trabalhos autorais, o que se refletiu progressivamente num caldo criativo bastante expressivo da cultura musical brasileira de uma forma mais ampla, na última década. Ainda que se mantenham certas dificuldades, precariedades e a batalha mês-a-mês de vários dos artistas com nível razoável de reconhecimento e prestígio nessa cena.

Por que não abordar toda a cena independente brasileira?
Quando comecei a pesquisa em 2010 a intenção era investigar alguns temas em torno produção independente brasileira em geral. Nos anos que se seguiram, São Paulo se tornou um “olho do furação’ cada vez mais expressivo de novos potenciais que a cena brasileira passava a expressar. Conforme cada vez mais artistas e bandas com trajetórias importantes em outros estados passaram a vir pra cidade, e foi se conformando mais claramente essa “cena paulistana” que passamos a conhecer nos primeiros anos da década de 2010, ficou claro pra mim a importância de investigar, registrar e analisar aquele momento de virada de condições que se expressava em São Paulo. Isso permitiu aprofundar questões importantes para além do caso paulistano, de uma maneira que talvez não fosse possível nos mesmos 4 anos de pesquisa a que me dediquei para a escrita desse livro, se quisesse abarcar com o devido detalhamento uma cena nacional são complexa e rica como a brasileira . Por outro lado, considerando esses anos em especial, de algum modo, falar da “cena paulistana” foi pra mim uma boa forma que encontrei de falar sobre o momento “cena independente brasileira” mais ampla. Inclusive, na verdade, o livro aborda ao longo de boa parte de suas páginas o pano de fundo nacional da “produção independente” – o tempo todo situo São Paulo diante do contexto brasileiro independente mais geral.

Qual a principal característica desta cena?
Como disse antes, pensando circuitos e cadeia produtiva, a principal característica dessa cena talvez seja a de expressar um conjunto importante de novos potenciais da produção e circulação musical independente pós-internet e redes sociais online, em condições mais favoráveis do que outras cenas no que se refere à sustentabilidade de trabalhos e à formação de um mercado independente.
Muito relacionado a isso também, a concentração de músicos do Brasil inteiro na cidade e o que isso traz pra criação musical da cena, na vivência urbana específica de São Paulo, é também um elemento central. Poderia falar outros, como o alto nível de interconexão e produção colaborativa entre seus artistas e bandas, o suporte da rede SESC –SP, a criação de “Bahias fantásticas” e “Áfricas fantásticas” em solo paulistano (a música do mundo e do Brasil sendo fundida com o caldo criativo da cultura brasileira reunido na cidade), uma certa “geografia da cena”, com uma rede de casas noturnas e equipamentos culturais importantes reunidos em um certo perímetro territorial da cidade, possibilitando encontro e associações na região de Pinheiros, Vila Madalena, Pompéia, Alto da Lapa, etc…

Qual a principal dificuldade em realizar seu livro?
Talvez a principal dificuldade tenha sido a complexidade, contemporaneidade, constante e acelerada mudança no campo, impactado por mudanças tecnológicas, econômicas e políticas de grande dimensão em muito pouco tempo. São desafios que acredito vão se colocar pra qualquer estudo e obra mais aprofundada que enfoque temas como este. O esforço de mapear, esquadrinhar, filtrar, distinguir importâncias, em um campo relativamente ainda pouco explorado pela bibliografia até então disponível – campo este debatido e tateado em tempo real por artistas, jornalistas e outros profissionais da música – talvez tenha sido outro ponto importante, ao mesmo tempo em que fonte de grande motivação e tesão de levar adiante o projeto.

Há uma lacuna enorme de produção acadêmica no que diz respeito à cultura independente. Você encontrou algum trabalho ou livro que detalha mais este meio em suas pesquisas?
De fato, há mais bibliografia sobre a realidade da produção musical e das cenas independentes fora do Brasil – recomendo, por exemplo, os trabalhos do Andrew Dubber. Por aqui há estudos importantes sobre momentos anteriores do independente, como os sobre a Vanguarda Paulista dos anos 1980 e, mais recentemente, com algumas pesquisas sobre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 – como, por exemplo, as do professor Eduardo Vicente da USP. Talvez a publicação deste livro, Cena Musical Paulistana dos Anos 2010, possa servir de estímulo, incentivo e subsídio para um aprofundamento urgente, necessário e cada vez maior sobre estas cenas, que tem importância vital para a música brasileira na atualidade – e tendo em vista o cenário político recente, mais do que nunca.

Como você define “cena independente” num cenário em que os grandes patrocinadores estão cada vez mais difusos e que não bancam apenas música?
Realmente, a expressão “independente” associado à música ou à produção musical – termo que estamos usando nessa entrevista, que está presente no meu livro e permanece hoje nas falas e textos de artistas, jornalistas, público – é um termo bastante controverso, inclusive historicamente, como mostro no primeiro capítulo do livro. Até que ponto ele se refere mais exclusivamente a um modo de operação técnico e econômico de produção fonográfica independente à estrutura das grandes gravadoras e em que ocasiões ou circunstâncias passa a incluir em si motivações estéticas ou políticas? A apresentadora Roberta Martinelli comentou, em certa ocasião, sobre a forma como a independência dos artistas dessa cena paulistana também acaba supondo “uma dependência enorme de um coletivo de artistas que ‘compra’ tua ideia”. Por outro lado também, a distinção clara, estanque, as fronteiras entre independente e mainstream vem sendo borradas na construção de relações mais horizontais e intrincadas entre esses dois universos, algo que acontece no caso destas empresas e grandes patrocinadores que citou, como a Natura Musical.

Qual o artista-símbolo da cena independente paulistana na sua visão?
O “artista-ícone”, que sempre menciono quando falo do livro pra quem se encontra em outras “bolhas de realidade” e conhece pouco da cena musical fora da grande mídia, é o Criolo – sendo, mesmo ele, por incrível que nos pareça, muitas vezes ainda desconhecido de muita gente. Mas nessa proposta de “artista-símbolo”, citaria talvez o Kiko Dinucci, pelas conexões colaborativas da produção dele, ligando várias pontas diferentes da cena, pelo discurso e atitude política, criativa, estética. Claro que essa “escolha” tem muito de aleatório ou pessoal. A cena é extremamente múltipla, diversa, composta de sub-cenas, que ainda que bastante conectadas e articuladas em suas pontas, teriam cada uma delas seus próprios “artistas-símbolo”.

Abrindo o baú dos Smiths

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Escrevi lá no meu blog no UOL sobre o lançamento do compacto com versões alternativas para “The Boy with the Thorn in His Side” e “Rubber Ring” que pode começar época de relançamentos do clássico grupo indie inglês.

Outro dia o guitarrista Johnny Marr comentou que o grupo que lhe deu fama, os Smiths, quase voltaram à ativa na década passada, quando o vocalista e líder do grupo, Morrissey, empolgou-se em uma conversa de bar sobre os bons tempos. O relato do encontro é parte da recém-lançada biografia de Marr e o interesse por este quase encontro, mesmo tendo sido revelado quase uma década depois, mostra como o grupo inglês ainda é influente e popular. Deve ter sido uma das motivações para a gravadora Warner anunciar o primeiro compacto do grupo em décadas, como antecipou o site True to You, conhecido por ter, entre suas fontes, o próprio Morrissey.

O single, que ainda não tem data prevista para ser lançado, reúne versões inéditas para faixas conhecidas pelos fãs do grupo: uma mixagem demo para o hit “The Boy With The Thorn In His Side” com uma versão inédita da faixa “Rubber Ring”, uma das favoritas dos fãs.

A capa do single foi feita pelo próprio Morrissey e segue o padrão das clássicas capas do grupo, desta vez com um retrato do ator Albert Finney, de filmes como Assassinato no Expresso Oriente (1974), Os Duelistas (1977) e À Sombra do Vulcão (1984).

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Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 Rotações

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Conforme prometido, eis aqui, em primeira mão no Trabalho Sujo, o filme que o mestre Eugênio Vieira fez das gravações do projeto Goma-Lama, concebido pelo Ronaldo Evangelista e a Biancamaria Binazzi em 2014. O projeto reúne artistas contemporâneo para resgatar músicas brasileiras que só foram registradas em acetatos de cera de carnaúba (ou goma-laca, daí o título). No documentário, vemos o maestro Letieres Leite conduzir os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes e Sérgio Machado em uma viagem atemporal de uma conexão musical secular entre o Brasil e a África para receber vocais de Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana. Saca só:

Justice 2016: “It’s a game of giving, nothing more”

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A dupla francesa Xavier de Rosnay e Gaspard Augé – que também atende pelo codinome Justice – recrutou ninguém menos que Susan Sarandon para ser a estrela do novo clipe de seu disco Woman, chamado apenas de “Fire”.