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O primeiro disco solo de Kiko Dinucci

O guitar hero dos anos 10 em São Paulo finalmente vai lançar um disco com apenas seu nome, depois de quase 20 trabalhados gravados com diferentes grupos e parceiros. Cortes Curtos foi gravado em cinco dias depois de passar anos sendo curado por seu autor e tem influência cinematográfica desde o título, que faz referência ao Short Cuts de Robert Altman. “Pensei em fazer uma espécie de Transformer paulistano. Não como uma referência musical direta, mas sobre estética, conceitualmente”, ele disse ao Pedro, no Estadão, citando o clássico disco de Lou Reed produzido por David Bowie em 1972. Cortes Curtos deve ser lançado no início de fevereiro e tem participações de Juçara Marçal, Tulipa Ruiz e Ná Ozzetti. Leia a reportagem sobre o disco aqui.

Indícios da Teoria Pixar?

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A ideia de que todos os filmes da Pixar se passam no mesmo universo ganha um reforço do próprio estúdio de animação – veja o curta que postei lá no meu blog no UOL.

Muitos já conhecem a Teoria Pixar, criada pelo jornalista norte-americano Jon Negroni, que cogita a possibilidade de que todos os filmes da Pixar sejam interconectados e se passam em momentos diferentes da mesma linha do tempo. A teoria cogita um universo em que animais, seres humanos e máquinas vivem uma constante disputa territorial e que os filmes do estúdio de animação mostrariam diferentes momentos desta história ao contar a evolução de uma humanidade bem diferente da nossa. Esta teoria, por maiores que sejam as evidências encontradas para comprová-la, ainda não foi admitida oficialmente pela Pixar.

Mas este curta recém-lançado pelo estúdio reforça a teoria ao localizar uma série de cenas escondidas em diferentes filmes do estúdio que contém personagens e referências a outros filmes, como o urso Lotso do terceiro Toy Story em uma cena de Up ou o dinossauro de O Bom Dinossauro em uma cena de Monstros S/A. Olha que legal:

Isso não quer dizer que a Pixar tenha confirmado que a tal Teoria Pixar seja verdade, embora deixe esta dúvida no ar. Aos que não conhecem esta teoria, há um site dedicado a explicá-la, como vários vídeos (como este abaixo, em inglês). O jornalista Ramon Vitral traduziu para o português a teoria logo que ela foi divulgada, em 2013:

O contexto da axé music

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Escrevi no meu blog no UOL sobre o documentário Axé – Canto do Povo de um Lugar, que traça as origens e avalia a importância do pop feito na Bahia dos anos 80 para cá, que estreia neste fim de semana.

A força da axé music pode ser medida tanto pela forma como ela foi aceita como quanto ela foi rejeitada. O próprio rótulo que a batiza foi criado de forma irônica, desmerecendo pejorativamente a vontade daquela cena musical ser consumida fora do Brasil. Na pesquisa que fiz para o especial de 30 anos da axé music para o UOL há dois anos, as menções à axé music se dividiam em dois grandes grupos: reportagens criticando a ascensão popular daquela sonoridade como um entrave que a indústria fonográfica havia criado para a “boa música” – em sua grande maioria reclamações feitas por bandas e produtores de rock – e anúncios sobre a realização de inúmeros shows com todos os artistas que hoje formam o panteão da axé. Não havia uma tentativa de entender ou contextualizar aquela enorme transformação musical baiana e seu impacto na cultura brasileira ou entrevistas com seus protagonistas para que eles falassem sobre tudo aquilo.

O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kertész, que estreia neste fim de semana em circuito comercial, vem suprir esta lacuna. É um filme que mergulha na origem daquela cena musical, acompanha seu desenvolvimento e seu apogeu a partir de entrevistas com todos os nomes que fizeram sua história. Ouvimos as histórias sendo contadas em primeira mão por seus grandes ícones (Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Chiclete com Banana, Olodum, Ivete Sangalo), os coadjuvantes mais conhecidos (Araketu, Asa de Águia, Banda Mel, Claudia Leitte, Netinho, Sarajane), sempre enfatizando a influência dos blocos afro. Ainda há entrevistas com as vacas sagradas Gilberto Gil e Caetano Veloso, que entram menos como padrinhos musicais e mais como testemunha de alguns momentos desta história, e com produtores e empresários, que explicam uma questão abraçada pelos artistas e pelo próprio documentário: axé music não é um gênero musical, e sim uma forma de fazer música pop de sucesso em escala industrial a partir de Salvador.

Mas o Axé: Canto do Povo de um Lugar vai além da fórmula básica do documentário sobre música produzido no Brasil neste século, que enfileira entrevistas e as alterna com fotos e reproduções de manchetes e páginas de jornais e revistas. A pesquisa audiovisual do filme mergulha na gênese histórica da axé e volta com cenas em movimento dos primeiros trios elétricos, do embate dos blocos afro com os trios no início dos anos 80 e apresentações do início de carreira – e entrevistas – de quase todos os artistas mencionados. Em vários momentos, a cena descrita pelos entrevistados é exibida logo em seguida, provocando pequenas revelações visuais no decorrer do filme.

Este nem é seu grande mérito. A força do documentário persiste justamente em contextualizar uma movimentação cultural que começou a sacudir Salvador para além do carnaval na virada dos anos 70 para os 80 e como esta movimentação foi percebida por uma nova geração de artistas que entendeu que poderia conquistar o Brasil sem precisair da Bahia. Até então, se um artista quisesse atingir sucesso nacional, teria que se mudar para São Paulo ou, principalmente, para o Rio de Janeiro, que até os anos 80 era a capital cultural brasileira. A axé music inverte esse paradigma e obriga Rio e São Paulo a olharem para a capital baiana sempre em busca do próximo sucesso do verão.

Tanto que todos os protagonistas são categóricos ao afirmar que o pai da axé music não é um músico, um compositor ou um intérprete, e sim um produtor musical. Wesley Rangel, falecido no início do ano passado, foi quem viu a viabilidade comercial daquela música e transformou seu Estúdio WR no coração de mãe que reunia todos artistas, novatos e veteranos. Foi ele também quem estabeleceu a ponte entre Salvador e o Rio de Janeiro, tornando possível a explosão nacional de Luiz Caldas, o Elvis Presley daquele rock’n’roll baiano.

Carnaval em Salvador

Carnaval em Salvador

O filme também é didático ao explicar as diferenças entre os gêneros musicais de cada artista, falando em samba-reggae, fricote, galope, pagode. Na matriz de todos eles está o chamado “samba duro”, gênero musical característico da região do recôncavo baiano, menos malemolente que o samba carioca, mais pronunciado e empolgante. Alguns dos grandes momentos do documentário estão quando pioneiro Gerônimo (autor de “Eu Sou Negão”) e o maestro Letieres Leite fazem a genealogia musical daquela cena – ou quando vemos a história da criação do repique de percussão característico do samba-reggae. E, claro, a clássica passagem sobre como Daniela Mercury parou São Paulo no histórico show sob o vão do Masp, na Avenida Paulista, em 1992 – e com imagens deste show.

A presença dos artistas – e seu aprofundamento pessoal para além dos personagens que eles criaram no palco – é outra grande qualidade do documentário. Da sempre inspiradora Daniela Mercury ao hilário Gerônimo, passando pelo senso comercial do Cumpadi Washington e de Beto Jamaica e por depoimentos inspirados de heróis locais desconhecidos no resto do país como Vovô do Ilê, Márcio Vitor, Lazinho, Tatau e Tonho Matéria, a forma como as entrevistas são conduzidas permite entender melhor a manha baiana, um jeitinho específico que está nas entrelinhas dos hits e dos refrões.

Axé só peca por sua extensão, mas isso não é propriamente um defeito. Ao querer ser o filme definitivo sobre esta cena, ele debruça-se sobre a história de cada bloco, dando atenção a atrações menores do ponto de vista histórico como a Banda Mel, Banda Beijo e o Harmonia do Samba. Num dado momento estamos assistindo Ricardo Chaves (do hit “É o Bicho”) contar sobre sua trajetória ou ouvindo falar sobre a importância atual de Saulo Fernandes (ex-Banda Eva), o que destoa da história principal, mas não chega a incomodar.

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No fim das contas, Axé: Canto do Povo de um Lugar é uma aula de história mais do que um filme sobre uma cena musical. Insiste em buscar a nascente e explicar como a música pop produzida em Salvador entre os anos 80 e 90 dominou o país e chamou atenção do resto do mundo, levando o Olodum ao Central Park em Nova York e Michael Jackson ao Pelourinho. É um filme obrigatório para quem gosta de música brasileira, mesmo aos que repudiam a axé.

A reinvenção de Toro y Moi

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Chaz Bundick deixa o pseudônimo Toro y Moi em segundo plano e assume o próprio nome em novo projeto, um disco gravado ao lado dos irmãos Jared e Jonathan Mattson, que atendem por Mattson 2. É a primeira vez em que ele coloca o próprio nome num álbum, depois de anos brincando com pseudônimos como Toro y Moi (seu projeto de quarto que virou uma banda), ,Les Sins e Sides of Chaz, além de fazer remixes para outros artistas. “Star Stuff”, faixa-título do disco que já está em pré-venda e será lançado no final de março, segue o mesmo clima de funkzinho alto astral característico de seu projeto original.

Felipe S 2017: “Um vendaval que destrua tudo”

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O primeiro disco solo do vocalista do Mombojó, Felipe S., chega às plataformas digitais na semana que vem e ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo sua faixa de abertura, a tensa canção de protesto “Anedota Yanomâmi”. “Comecei a fazer a Anedota em 2013, durante as manifestações”, explica o vocalista, que produziu todo o disco. “Nasceu de más lembranças, de ver um amigo sendo agredido por um branco careca enrolado numa bandeira do Brasil. Em 2015 o disco Mulher do Fim do Mundo, da Elza Soares, me marcou bastante e me fazia refletir sobre essa composição ainda não finalizada. E também me lembro de finalizar a letra logo depois do acidente de Mariana no fim de 2015. Tudo isso envolvido por uma sensação de que nós seres humanos não sabemos viver juntos e que a ganância está em alta, vindo numa nuvem reacionária que toma o mundo. É como se eu estivesse num sonho e um índio estivesse tentando me explicar a desilusão de quem mata ou rouba nesse nosso mundo opressor, mas numa lingua que eu não compreendesse. O filme O Abraço da Serpente” foi também uma grande inspiração pra essa música. E tô com os índios na filosofia de que a natureza é a nossa dona e não nós os donos dela.”

Arcade Fire contra Donald Trump

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Lançada no dia anterior à posse de Donald Trump, a música nova do grupo indie canadense Arcade Fire, “I Give You Power”, conta com a diva soul Mavis Staple no vocal e parece ter alvo definido : “Eu lhe dei poder e posso tirar”, repete a letra sobre um groove industrial. A banda não mencionou nenhuma referência a Trump, mas o posicionamento progressista do grupo e o teor de crítica social de suas letras parece deixar claro sobre quem o grupo está falando. A música só pode ser ouvida no mesmo Tidal (ouça aqui) que ainda restringe a audição do melhor disco do ano passado, o Beyoncé da Lemonade, o que quer dizer que talvez o álbum que ainda não sabe se o grupo vai lançar, também deverá ficar restrito a essa única plataforma de streaming, uma vez que o casal Win Butler e Régine Chassagne é sócio da empresa fundada pelo marido de Beyoncé, Jay-Z. Atualização: A banda liberou a música em outras plataformas digitais:

Mas tudo indica que o novo disco está a caminho. Além do grupo já ter programado uma série de shows para o meio do ano, o Arcade Fire também trocou o ícone de suas redes sociais, substituindo-o por um símbolo do infinito com um marca de copyright, o que pode ser uma crítica às megacorporações que estão transformando todos aspectos da vida em produto – o que tornaria “I Give You Power” um hino ainda mais forte e direto não apenas contra Trump, mas contra toda o sistema político atual, cujos valores originais foram corroídos por estas grandes empresas.

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O início de um filme de terror… B!

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É sério que o lema do governo Trump é o mesmo do filme Purge: O ano de eleição?

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Diz o Washington Post:

Halfway through his interview … Trump shared a bit of news: He already has decided on his slogan for a reelection bid in 2020.

“Are you ready?” he said. “ ‘Keep America Great,’ exclamation point.”

“Get me my lawyer!” the president-elect shouted.

Two minutes later, one arrived.

“Will you trademark and register, if you would, if you like it — I think I like it, right? Do this: ‘Keep America Great,’ with an exclamation point. With and without an exclamation. ‘Keep America Great,’ ” Trump said.

Putz…

Como não ter um mau pressentimento sobre isso?

Toninho Mendes (1954-2017)

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Hoje revistas em quadrinhos são álbuns, desenhistas e roteiristas são tão conhecidos quanto astros do rock e há lojas especializadas nesta mídia, que trazem publicações de todo o mundo. Uma realidade muito diferente da qual eu cresci. Fora a editora Abril (que publicava apenas tudo da Marvel, da DC, da Disney e do Maurício de Sousa), algumas publicações heróicas de editoras específicas e tiras em jornal, não se encontrava nada de quadrinho em lugar nenhum. Graphic novel era um conceito quase hermético, a expressão quadrinho adulto parecia uma contradição e as revistas eram conhecidas como “revistinhas” não apenas por seu tamanho compacto, mas por serem, em sua maioria, destinadas ao público infantil.

Foi quando no meio dos anos 80, quando ninguém esperava, uma horda de bárbaros invadiu as bancas apresentando personagens punks, bêbados, marginais, drogados, andando de skate, tocando guitarra, falando de política, incomodando geral. Primeiro foi a revista Chiclete com Banana, que nos apresentou a figuras como Bob Cuspe, Rê Bordosa, Meiaoito, Walter Ego, Bibelô, Mara Tara, Skrotinhos e personagens que pareciam ter saído de algum puteiro, algum pulgueiro, algum esgoto. Era a versão brasileira dos Warriors, os Selvagens da Noite, o futuro apocalíptico de Fuga de Nova York acontecendo no Brasil, em plena São Paulo. Depois veio a revista Geraldão, com seus personagens toscos e mal desenhados, mas igualmente putanheiros: o personagem-título, o casal Neuras, Dona Marta, Zé do Apocalipse, Doy Jorge… A revista Piratas do Tietê – que, ao contrário das revistas tradicionais, era horizontal – trazia a nau com os biltres do título, um condomínio lotado de figuraças, um gato branco e uma gata preta, um puxa-saco imortal e outras figuras imaginadas por Laerte. O encontro destes três heróis acontecia na hilária adaptação do filme de John Landis Três Amigos!, em que os três desenhistas vestiam os mesmos trajes de caubóis mexicanos de mentira que Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short usavam no filme de 1986. Além desta, havia a cabeçuda Circo, que além de histórias com tons menos escrachados que as três primeiras revistas, também trazia os clássicos quadrinhos que Luiz Gê fez naquele período (reunidos, posteriormente, na excelente antologia Território de Bravos). E também a imortal Níquel Náusea, casa não só dos bichos de Fernando Gonzales, como de autores que orbitavam ao redor destes cinco principais nomes, como Spacca, Newton Foot, Guto Lacaz e Fábio Zimbres. As peças daquele quebra-cabeças de profanação eram reunidas por um selo que todos reconheceriam como uma grife maldita: a Circo Editorial.

Aquela invasão era tudo que um pré-adolescente queria da vida – e tudo que seus pais não queriam. A quantidade de sexo, sacanagem, escatologia, violência, afronta e escrotidão contida naquelas páginas poderia ser resumida na imensa quantidade de palavrões publicados. Palavrões até hoje são tabu no Brasil – já viu alguma revista sendo vendida em banca com um palavrão na capa? Não pode.

As revistas da Circo não só tinham palavrão como testavam todos os limites que poderiam testar. Foi ali que Laerte já começara a mostrar seu lado feminino, mesmo que ainda disfarçado de piada. O zine Jam, que vinha encartado nas páginas do meio da Chiclete com Banana reunia literatura beat com teatro do absurdo, free jazz com filmes de terror, rock psicodélico e experiências sexuais. E muitas drogas. E muita putaria. E muito rock. Alto. Eram só quadrinhos mas dava pra sentir o cheiro do cigarro, o gosto da cachaça, o som do bar lotado, a textura do pé descalço pisando num cocô. Era tudo que a TV, os jornais, as revistas e as rádios não queriam. Era um país que ainda sofria do trauma da censura da ditadura militar. Não existia internet nem produtos importados. As revistas publicadas pela Circo Editorial (e, na paralela, a heróica Animal) funcionaram como os anos 60, 70 e 80 para um país que parecia ter parado em algum momento entre o suicídio de Getúlio e inauguração de Brasília.

Com o tempo descobri que a Circo Editorial era obra de um editor nato, que publicava, na raça, revistas que ele achava que tinham de ser lidas. Toninho Mendes, que morreu na manhã desta terça-feira, não era um executivo do mercado editorial – era um fã com instinto pra perceber que não estava só. Lançava as revistas que queria ler e descobriu uma multidão de semelhantes. Centenas de milhares de moleques de todas as idades, para ser mais exato. As revistas tinham uma circulação invejável até para as revistas ditas mais sérias.

Foi ele quem colocou São Paulo no mapa da cultura pop brasileira da segunda metade do século 20, uma era dominada pelo Rio de Janeiro cenográfico da Rede Globo, e, principalmente, nos ensinou que era possível gostar de quadrinhos feitos no Brasil. Antes dele, o quadrinho brasileiro era basicamente Maurício de Sousa a a geração que cresceu no Pasquim, cujo humor visual estava mais próximo do cartum do que das HQs (mesmo com as histórias de Ziraldo, os personagens de Henfil e as tiras do Veríssimo). Com a Circo Editorial, ele não só tirou o atraso do Brasil em relação ao mercado internacional como mostrou que era possível ser quadrinista também. Do mesmo jeito que a Circo despertou centenas de milhares de novos fãs do formato, também pariu milhares de novos autores.

Sua morte não tem o impacto que deveria pois ele sempre trabalhou nos bastidores, mas a importância de sua vida é ímpar – tanto no mercado editorial quanto no meio dos quadrinhos no Brasil. Deixo aqui meu agradecimento público a este sujeito que foi fundamental na minha formação pessoal – a minha e de toda minha geração.

Sing Street é muito alto astral

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Escrevi sobre o ótimo musical irlandês Sing Street, sobre formar uma banda de rock durante os anos 80 lá no meu blog no UOL.

Quando Stranger Things foi lançada e tornou-se um fenômeno da noite pro dia no meio do ano passado, a reação à explosão de popularidade dizia que a série havia sido “fabricada” a partir de algoritmos de audiência do Netflix (sendo que ela tinha sido rejeitada mais de dez vezes por outras emissoras de TV, antes de ser descobertas pelo serviço de vídeo online) e que o sucesso da série estava intrinsecamente ligado ao acúmulo de referências a um recorte específico do cinema pop dos anos 80. A maioria dos críticos do sucesso da série simplesmente ignorou o fato do seriado ser um ponto de luz otimista no breu de pessimismo que domina o inconsciente coletivo do mercado de entretenimento.

Em Stranger Things, os personagens eram criados para que pudéssemos nos identificar com eles e só – e não para vê-los morrer de uma forma agressiva e súbita. A valorização da amizade, a preocupação com o outro, o fascínio pelo desconhecido, a segurança da retribuição, o prazer de agir coletivamente – debaixo de uma história de horror e ficção científica a respeito de uma ruptura na realidade que dá acesso a uma dimensão negativa, havia uma ode à camaradagem e à afeição, ao respeito e à ternura, itens raros no mercado pop nestes ríspidos anos 10. Todas as referências aos filmes de Spielberg, John Carpenter e Stephen King eram uma cobertura açucarada sobre uma história cujo lema é uma verdade pétrea que parece provocar o nível de relação pessoal das redes sociais: “Amigos não mentem.”

Se foi exatamente isso que lhe fez sorrir em Stranger Things, prepare-se para a dose de otimismo ideal para começar 2017. O musical Sing Stret escrito e dirigido pelo irlandês John Carney é um dos grandes filmes de 2016 e estreou sem muito alarde no Netflix brasileiro na virada do ano. A história é aquela velha conhecida de um cara que quer montar uma banda para conquistar uma garota, mas a forma como ela é conduzida, a relação que vai criando entre os diferentes personagens e uma trilha sonora de primeira garantem quase duas horas de um tipo raro de diversão atualmente.

A história se passa nos anos 80 e poderia tranquilamente ser contemporânea de outro musical que se passa no mesmo período e na mesma cidade, The Commitments, de 1991. Mas enquanto os Commitments miravam em seu futuro profissional, a banda que batiza o filme só quer fazer parte de uma turma fazendo música. São pré-adolescentes como os Goonies, mas como a história se passa em Dublin, as referências são bandas new wave e pós-punk como Duran Duran, The Cure, Joy Division e Simple Minds.

O filme começa quando Conor (o ótimo Ferdia Walsh-Peelo) muda de escola e tem que criar um círculo social. Entre brigas no refeitório e problemas com a direção católica do novo colégio, ele vê uma garota perto da escola (Raphina, vivida por Lucy Boyton) e para impressioná-la, diz que tem uma banda. A partir daí acompanhamos a história quase mítica de formação de uma banda, envolvendo diferentes clichês como a dupla de cantores e compositores, os lendários primeiros encontros, a mitologia sobre o surgimento das canções e as agruras em relação ao showbusiness.

Mas estas são as referências pop do filme, não seu cerne principal. A viga de sustentação da história acontece no vínculo de amizade entre os integrantes da banda e, principalmente, na relação entre Raphina e Conor, que desenvolve-se bem à medida em que o filme se desenrola, e entre Conor e seu irmão mais velho, Brendan (Jack Reynor), que age como mentor rock’n’roll, autor de frases lapidares como “rock’n’roll é um risco: o risco de ser ridicularizado”, “nenhuma mulher pode amar de verdade um homem que ouve Phil Collins” e “os Sex Pistols sabiam tocar? Você não precisa saber tocar. Quem é você, Steely Dan? Você precisa aprender a não tocar, Conor. Esse é o truque. Isso é rock’n’roll. E isso… requer prática.”

Fora isso há as ótimas músicas originais da banda Sing Street, além de músicas do Clash, Joe Jackson, The Jam, Hall & Oates e vários outros na trilha sonora. Um filme para sair assobiando após o final.

De volta a Twin Peaks

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Postei lá no meu blog no UOL mais um teaser da nova temporada da clássica série de David Lynch, cuja terceira temporada estreia dia 21 de maio – e é a primeira vez que nos reencontramos com o agente Cooper…

David Lynch está atiçando a expectativa de todos a cada novidade sobre a volta de Twin Peaks. E depois de anunciar estreia da terceira temporada do seu clássico seriado para 21 de maio deste ano – um quarto de século depois da segunda temporada -, ele agora nos reapresenta a seu ótimo protagonista, o agente Dale Coooper, vivido novamente por Kyle MacLachlan, num curto teaser:

A nova temporada terá 18 episódios e reunirá praticamente todo o elenco original, entre eles Sherilyn Fenn, David Patrick Kelly, Richard Beymer , Miguel Ferrer, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Ray Wise e o próprio David Lynch. Além destes, a nova série ainda terá a presença de nomes conhecidos tanto da música pop (como Trent Reznor, Eddie Vedder, Sky Ferreira e Sharon Van Etten) quanto do cinema (como Amanda Seyfried, Laura Dern, Tim Roth, Naomi Watts, Michael Cera, Monica Bellucci e Ashley Judd). O primeiro episódio será duplo e o canal Showtime liberará o terceiro e o quarto episódio em sua plataforma de streaming logo após a exibição dos dois primeiros.