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17 de 2017: 6) John Cale

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John Cale é outro destes meus padrinhos espirituais: a descoberta do Velvet Underground na adolescência veio quase simultânea à compreensão que aquele seu fundador também era um dos principais produtores da história (Stooges, Modern Lovers, Patti Smith, Nico), parceiro de monstros sagrados (Brian Eno, Nick Drake, Replacements e, claro, Lou Reed) e um dos artistas mais ousados deste século. Já havia assistido um show com o mestre em São Paulo, em 1999, quando ele revezava-se entre a viola e o piano para tocar seus clássicos e de sua primeira banda sozinho no palco e dezoito anos depois me reencontrei com ele na cidade-natal dos Beatles tocando o mítico disco da banana com uma série de convidados. Vestindo um terno meio listrado meio liso, Cale mostrou que é audaz mesmo quando vislumbra a nostalgia e fez um show memorável. Uma das grandes noites do meu 2017 – e desta década, tranquilamente.

17 de 2017: 5) Virada Cultural no CCSP

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Outro senhor desafio foi levar a Virada Cultural para a Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo, fazendo-a girar 24 horas com shows gratuitos que contemplavam a nova fase da música brasileira. Um desafio interno, principalmente, para convencer a produção do CCSP que era possível fazer trocas de palco em menos de uma hora, que havia público para assistir a shows às quatro da manhã e que todos os shows estariam lotados. Dito e feito: Juçara Marçal, Anelis Assumpção, Mariana Aydar, Cidadão Instigado, Mahmundi, Bárbara Eugenia, Siba, Karina Buhr, Curumin e Tiê transformaram a arena do Centro Cultural em um palco intenso e vivo, reflexo da ótima fase que atravessa nossa música.

17 de 2017: 4) Segundamente

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A primeira curadoria que exerci em 2017 começou no ano anterior, quando a Keren me chamou para assumir o papel de curador de música do Centro da Terra. Para mim o desafio era simples mas ao mesmo tempo complexo: chamar artistas para valorizar o espetáculo e criar novos projetos a partir do próprio local (ele mesmo uma viagem para dentro, como o próprio tom do meu 2017). Uma matemática irracional me fez criar o projeto Segundamente, em que artistas têm quatro segundas-feiras para criar um projeto próprio, de preferência inédito. Assim, tivemos os 15 anos de carreira do Tatá Aeroplano em março, o Chega em São Paulo de Negro Leo em abril, o Mergulho de Tiê em maio, o Depois a Gente Vê de Thiago França em junho, o Na Asa de Luísa Maita em julho, o Música Resiliente em Camadas Lentas do Maurício Takara em agosto, o Mete o Loco de Rafael Castro em setembro, o Persigo SP de Saulo Duarte em outubro e o Enfrente de Alessandra Leão em novembro, além dos shows individuais de Iara Rennó (Feminística), Luiza Lian (Oyá: Centro da Terra) e Papisa (Tempo Espaço Ritual), nos meses com cinco segundas-feiras. Foram meses de aprendizado e preparo, intensos e emocionantes, com o desafio de fazer o público da região do Sumaré sair de casa nas segundas-feiras para ver shows que não veria em nenhum outro lugar. Ainda teve o sensacional encontro com todos estes artistas na primeira segunda de dezembro, provando que a música vibra sem precisar de regras ou planos. É só deixar rolar. Agradeço imensamente a todos os artistas que convidei e também a todos que foram convidados por estes artistas, transformando o Centro da Terra em um núcleo de produção musical avançada numa época em que fazer cultura parece ser subversivo – porque talvez o seja.

17 de 2017: 3) Liverpool

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2017 também foi um ano de prestar antigas contas: visitar a terra-natal de meus primeiros ídolos, faróis do meu interesse por música e cultura. O encontro com o velho entreposto comercial britânico que fez John, Paul, George e Ringo quererem sair de sua própria cidade aconteceu na mesma semana em que seu disco mais emblemático completava 50 anos e foi farto material para a introspecção pessoal e reencontro com meus próprios interesses, depois de 42 voltas ao redor do sol. Além de visitar as casas que os quatro cresceram e os míticos Strawberry Fields e Penny Lane, ainda pude me calar ao silêncio literalmente sepulcral (ao lado do túmulo de ninguém menos que Eleanor Rigby) do quintal da igreja em que John viu Paul tocar pela primeira vez e aceitá-lo em sua banda. “Ah look at all the lonely people”, cantei calado para mim mesmo. A viagem também me presenteou com uma visita-relâmpago a Manchester, outra cidade-símbolo da minha formação, o reencontro com a querida Megssa e seu marido Gordon, que ainda contou com um show do Fall de lambuja. Uma semana que me fez renascer.

17 de 2017: 2) Cultura do Vinil

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O primeiro projeto que bolei no Centro Cultural São Paulo foi o fim de semana Cultura do Vinil, que criei ao lado dos comparsas da Patuá Discos, Paulão, Peba e Ramiro, três dos principais conhecedores desta cultura, ambos velhos companheiros de outros carnavais. Cultura do Vinil reuniu bambas de diferentes eras para tratar deste suporte mágico que felizmente voltou a circular para a maioria das pessoas. A sociedade secreta do disco preto reunia nomes como o mítico Seu Osvaldo (o primeiro DJ do Brasil) e o ás Erick Jay (então vencedor mundial do campeonato DMC e DJ do programa Manos e Minas), passando pelo mestre Arthur Joly, o fera Rodrigo Gorky, o grande Edson Carvalho (da Batuque Discos), DJ Nuts (que dispensa apresentações), o coletivo Vinil é Arte, MZK e Marcio Cecci homenageando o querido Don KB (que havia falecido no início do ano), entre outros. Foi o primeiro projeto que assinei no Centro Cultural São Paulo e que me ajudou a entender que música naquele espaço era muito mais que simplesmente pautar shows ou pensar em sucessos comerciais.

17 de 2017: 1) Curador

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2017 foi um ano de auto-análise, de autoconhecimento, de olhar para dentro para saber o que queremos do lado de fora. Enquanto 2016 foi uma porrada inesperada (entre outras coisas engrossei a estatística dos divórcios daquele ano), 2017 foi um ano de cultivo, de introspecção e de escolhas. E o fato de ter me tornado curador de música de duas instituições distintas ajudaram bastante nesse processo. Já havia sido curador de músicas em três situações diferentes (do Prata da Casa do Sesc Pompeia em 2012, do Festival da Cultura Inglesa em 2012 e 2013 e do Circuito Cultural Paulista em 2015), mas nos três casos entrei em projetos já existentes e obedeci a regras pré-estabelecidas. O que um amigo meu das artes plásticas dizia que pouco tinha a ver com curadoria: “isso é programação, curador é o cara que criou o Prata da Casa e disse que todo ano alguém iria escolher os artistas daquela vez”, me provocava. E foi com essa provocação que atravessei 2016, bolando qual seria a forma de transformar a programação musical do Centro da Terra, curadoria que aceitei no decorrer do ano passado, de forma que o local não simplesmente recebesse shows já existentes. E quando o Cadão me chamou para ser curador do Centro Cultural São Paulo, no início de 2017, aquela provocação já havia cristalizado e eu sabia que deveria fazer mais que simplesmente escolher ou definir artistas e shows para aquele lugar mágico – cuja magia me fez aceitar instantaneamente o convite. Elencar shows que não existiam e provocar artistas a bolar apresentações inéditas fizeram parte deste processo de auto-análise que me ajudou a atravessar 2017 com a cabeça erguida. A etimologia da palavra “curadoria” é a mesma do verbo “cuidar” e esse cuidado em relação à produção musical brasileira atual me ajudou a entender meu próprio espaço nesse contexto – e a vislumbrar um futuro bem mais interessante que o que havia projetado para mim mesmo até agora. 2017 foi ano dos meus 42 verões, aquele número que Douglas Adams disse que era a resposta para a pergunta sobre o sentido da vida. E foi crucial aceitar esse novo sentido para minha jornada neste planeta.

Tudo Tanto #39: Até já

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Despeço-me da revista Caros Amigos, cuja última edição chega às bancas neste dezembro de 2017, desejando um futuro próximo à publicação que acolheu esta coluna Tudo Tanto.

Depois do Juízo Final
Despeço-me da coluna Tudo Tanto falando sobre o alento épico de Chico Buarque na melhor canção deste ano

“O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será queimada a semente
O amor será eterno novamente
É o Juízo Final
A história do Bem e do Mal
Quero ter olhos pra ver
A maldade desaparecer”

(Nelson Cavaquinho)

Na coluna da edição passada falei sobre como os maus tratos para com a figura de Chico Buarque – vindo tanto da esquerda quanto da direita radicais desta era politicamente polarizada em que vivemos – seriam lembrados como um retrato dos tempos ridículos que vivemos nesta segunda década do século no país. Um dos maiores nomes de nossa cultura foi atirado à arena pública do escárnio como se sua reputação fosse uma ameaça para desmascarar o jorro de bílis mental que infelizmente vem se tornando rotina em nosso dia-a-dia.

E é. Munido de suas maiores armas – notas musicais, palavras e um arguto senso de estética, ética e política -, Chico respondeu aos seus detratores com sua obra mais importante desde o século passado, o monumental Caravanas, um disco essencialmente político mesmo que não fale sobre a política partidária que intoxica nosso debate público. Chico canta a cultura de uma forma ampla, tratando-a como a essência de nossa sociedade, falando sobre diversas nuances comportamentais que retratam a sociedade que somos e que podemos ser.

Mas nada havia nos preparado para “As Caravanas”. A faixa que quase batiza o disco (que opta por não usar o artigo definido plural) é seu eixo gravitacional, um épico carioca que transforma todo o disco em acessório para este grande momento. Última faixa do álbum, ela chega sorrateira como se viesse apenas concluir as pequenas digressões que o compõem para finalmente amarrá-las todas a uma descrição das invasões bárbaras que tanto incomodam os poderes estabelecidos que mandam no país desde antes de seu descobrimento.

Parte de sua entrada súbita vem de um andamento conhecido – e hipnótico. “Caravanas” foi criada sobre “Caravan”, hoje um standard jazzístico que também é a espinha dorsal para o grande jazz norte-americano da segunda metade do século passado. O caminhar lento e constante das notas imortalizadas por Duke Ellington são a trilha percorrida por Chico, que munido também do Estrangeiro de Albert Camus, compara as imigrações ilegais que ameaçam o conservadorismo nos principais países no mundo (servindo também como desculpa para pesar a mão sobre políticas sociais e direitos humanos devido à chegada desta “ameaça”).

Ao pintar o Oceano Atlântico que banha o Rio de Janeiro com a cor do mar em Istambul, Chico está falando dos muçulmanos que fogem das guerras artificiais no Oriente Médio em busca de algum alento na Europa mas também remonta às invasões bárbaras, que desconstruíram o Império Romano, e também ao tráfico desumano de pessoas que forçou a diáspora africana que é a base de nosso país. As caravanas do Arará, do Caxangá e da Chatuba que despontam na zona sul do Rio de Janeiro também são navios negreiros e ordens de mouros que chegam com “seus facões e adagas em sungas estufadas e calções disformes” para subverter a sensação de ordem que faz os poderes instituídos chamarem um país hostil para com seus próprios cidadãos de democracia.

Chico ainda conta com a percussão vocal feita por Mike, do Dream Team do Passinho, trazendo a beatbox do funk carioca para a descrição épica de uma sociedade à beira de uma transformação. Ao descrever o melhor retrato deste país no trágico momento atual, Chico Buarque também compôs a melhor música deste 2017 e também um alento para que, após o vindouro Juízo Final de nossa política, algo mude completamente o estado das coisas.

Tenhamos fé.

***

Outro triste sintoma destes tempos ásperos que atravessamos no país é a súbita notícia do fim da Caros Amigos. Acompanho a revista desde sua primeira edição (com Juca Kfouri bombástico disparando para todos os lados na hoje mítica capa em preto e branco) e pude acompanhar todas suas transformações: as edições especiais, os fascículos sobre os heróis brasileiros, o site, a entrada das cores, a redução no tamanho do formato. Sempre amparada por longas entrevistas e artigos de fôlego, a revista é o constante antídoto para tempos superficiais e destros, que optam por transformar política e economia em jogatina comercial e arte e cultura em mero entretenimento. Também é lar para pensadores políticos brilhantes, como José Arbex e Gilberto Vasconcellos, este último uma espécie de farol na formação do meu próprio pensamento político (cabe aqui um agradecimento público).

A frase de efeito “a primeira à esquerda” não era só um trocadilho esperto, mas também um alento frente ao conservadorismo cada vez mais reacionário que toma conta da mentalidade das grandes publicações brasileiras, apenas pelo fato de tornar público seu credo, em vez de tentar convencer parca e porcamente ao leitor de um certo “jornalismo imparcial”, eufemismo mal utilizado que disfarça convicções editoriais que, no literal fim das contas, também são comerciais. Ao assumir-se de esquerda, a Caros Amigos saía com larga vantagem frente à maioria das publicações impressas brasileiras

Fiquei grato e envaidecido pelo convite para escrever sobre música brasileira numa publicação tão importante para a minha formação, além de poder retribuir este convite convidando o leitor para observar a produção cultural de nossos tempos, a mesma que é considerada fogo de palha ou meramente juvenil para os veículos tradicionais brasileiros. Foram quase quarenta colunas jogando luz em transformações culturais e mercadológicas que determinaram uma nova música brasileira, que nasceu influenciada pelo cânone tradicional de nossa canção (o samba, a bossa nova, a MPB) mas que foi buscar referências em recantos menos usuais, como o jazz, o hip hop, o rock, a música eletrônica, movimentos de vanguarda musical dentro e fora do país, ajudando, inclusive, a reinventar este cânone.

Foram pouco mais de três anos de Tudo Tanto, coluna batizada com o título do segundo disco de Tulipa Ruiz justamente para reforçar a intensidade – tanto de quantidade quanto de quantidade – da atual música brasileira. Aproveito a oportunidade não apenas para lamentar o fim deste ciclo quanto para agradecer aos fiéis camaradas que me acompanharam nesta jornada do lado de lá da revista: ao heroico Wagner Nabuco, que insistia teimoso na sobrevivência de sua publicação sendo esta sua própria carta de intenções, à paciente Nina Fideles, que recebe meus textos quase sempre em cima do fechamento final, e, finalmente, ao mestre Aray Nabuco, que conheci no meu berçário profissional, o Diário do Povo, cuja presença nos poucos anos de convívio pessoal ajudou a alicerçar meu jornalismo em seus primeiros anos, e que teve a ideia de me chamar para colaborar com esta que é das principais publicações da história do jornalismo brasileiro. Despeço-me também de leitores que desconheço agradecendo pela leitura, principalmente se ela os instigou a buscar estes novos artistas que não tocam no rádio nem aparecem na TV, mas que souberam usar a internet como seu principal veículo de divulgação.

Mas o gosto acridoce da despedida vem com uma ponta de esperança de que este fim de publicação não é propriamente um ponto final e sim o encerramento de um ciclo que irá revelar, num futuro próximo, uma nova encarnação da Caros Amigos para encantar novos e velhos leitores. Torço por isso. O sol parece não estar mais no horizonte durante este inverno sombrio que paira sobre nossas cabeças. Mas sabemos que estações vêm e vão e daqui a pouco voltaremos a respirar o ar puro da liberdade.

Até breve.

Nos melhores do Tem um Gato na Minha Vitrola

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O jornalista Pedro Antunes me chamou para participar da lista de melhores discos brasileiros do ano de seu canal no Instagram e eu dei meu pitaco no quinto vídeo da série, que ainda teve a participação da Roberta Martinelli, do Tony Aiex, do Lucas Breda e do Marcelo Costa. Veja os vídeos na ordem, o meu é o último:

Tudo Tanto #38: Contra Chico Buarque

ChicoBuarque

Minha coluna Tudo Tanto de novembro na revista Caros Amigos fala sobre como Chico Buarque virou um alvo para todos – e como ele respondeu isso com arte e música.

Machista, comunista, vai pra Cuba!

Não há dúvida que vamos olhar, no futuro, para esta década como um dos períodos mais vergonhosos da história do Brasil. O andar pesado do retrocesso — político, moral, econômico, ético, cultural — pode ser medido por meio de inúmeras réguas, mas talvez a mais emblemática seja aquela que tenta derrubar um dos maiores ícones da cultura brasileira: Chico Buarque.

Filho de um dos maiores nomes das ciências humanas destas bandas (o Sérgio Buarque de Hollanda que propôs o conceito artificial do “homem cordial” para rotular o brasileiro em seu fundamental livro Raízes do Brasil), Chico é contemporâneo da bossa nova e assistiu de perto às transformações políticas que se abatem no Brasil no início dos anos 1960, da brutalização do debate político à dura resistência cultural, culminando no golpe “anticomunista” de 1964 que trouxe as poucas famílias que tomam conta do Brasil de volta ao poder (e a história se repete cinquenta anos depois exatamente da mesma forma…). A segunda metade da década viu a ascensão de Chico como cantor e compositor, um ourives dos versos e melodias, que nos seus primeiros anos de carreira escreveu clássicos como A Banda, Noite dos Mascarados, Com Açúcar, com Afeto, Quem Te Viu, Quem Te Vê, Retrato em Branco e Preto, Carolina, Roda Viva, Essa Moça Tá Diferente e Samba e Amor, antes de firmar-se como autor no ousado Construção e na provocadora Apesar de Você, no início dos anos 1970.

Desde então Chico vem estabelecendo-se como um intelectual ativo no imaginário popular brasileiro, mais do que cantor e compositor. Dramaturgo, escritor e até apresentador de programa de TV (quando, nos anos 1980, dividiu com Caetano Veloso o musical Chico & Caetano, na Rede Globo), ele sempre esteve presente nos diferentes embates políticos de que foi contemporâneo, da anistia aos exilados da ditadura ao movimento das Diretas Já, entre outros movimentos políticos e culturais das últimas décadas. Ao contrário de Caetano Veloso, Chico é mais reservado e com o passar do tempo foi se preocupando menos em lançar discos e fazer shows e mais em escrever livros.

E por mais que seu maior legado seja por escrito, seu lugar é a música, na qual consolidou sua reputação de contestador, de ativista político, de romântico inveterado, de sambista classudo e de letrista ousado. Por melhores que sejam seus livros ou sua presença pública, ela não é tão precisa e preciosa quanto seus discos, aos quais se dedica com esmero.

Nos últimos anos, contudo, toda a reverência que o tornava um dos grandes nomes de nossa cultura, além de uma de suas raras unanimidades, foi ruindo à medida em que os ânimos foram se acirrando. A belicosidade da discussão política no Brasil, acirrada principalmente pelas redes sociais, mas também por práticas fora da internet, passou a escolher alvos tanto à direita quanto à esquerda — e velhos conservadores e novos reacionários elegeram juntos Chico Buarque como o grande bastião vermelho, principalmente pelo fato de Chico ser um dos principais nomes públicos entusiastas das candidaturas e das presidências de Lula e Dilma.

Chico começou a ser visto e difamado como um pária comunista, arrimo intelectual da malograda baixa escolaridade do primeiro presidente petista, avalizador de um suposto novo Vargas a uma classe média teoricamente deslumbrada com seus versos e canções — só que, claro, sem um átimo desta polidez descritiva. Gritos de “vai pra Cuba!” e “vai pra Paris!”, berrados na internet e fora dela, acusavam-no de capitão de uma certa “esquerda caviar” que, às custas da “inocência do povo” (?) vive “uma vida burguesa sem culpas??”. Em um par de anos, Chico Buarque transformou-se numa espécie de cúmplice daquele que, na visão torpe destes desmiolados, foi o maior vilão da história do Brasil.

Se por um lado este tipo de ataque constrange mas é esperado, principalmente por conta do clima agressivo que paira sobre o País, o que dizer quando o ataque vem de seus antigos fãs — ou, mais especificamente, de suas antigas fãs? Isso começou a acontecer depois que ele lançou a primeira canção de seu novo trabalho, chamada Tua Cantiga, acusada de machista por narrar uma paixão do personagem dos versos.

A grita da esquerda — mais especificamente das feministas — dizia respeito ao verso “Largo mulher e filhos” como se Chico estivesse incentivando pais de família a largar sua prole por uma amante. Depois de tachado de comunista, foi a vez de chamá-lo de machista — como se a situação descrita por ele tivesse que necessariamente ser correta ou servir de exemplo. Como se ele não pudesse descrever algo de que discorde quando compunha. Mas e se ele não estivesse falando de outra mulher? Se ele estivesse falando da liberdade, da democracia, da felicidade anterior a este clima de trevas que vivemos hoje? Releia a letra com isso na cabeça e perceba que Chico segue sendo o mesmo compositor incrível de seus dias de ouro, embora não componha mais com tanta frequência. Isso sem contar As Caravanas, faixa que batiza seu novo título, mas essa música é assunto pra outra coluna.

Os melhores shows internacionais de 2017

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Fui convidado pelo Guia da Folha para escolher quais foram os grandes shows gringos em São Paulo neste ano – só pude escolher as apresentações que aconteceram na cidade, por isso alguns dos meus shows favoritos de 2017 (Aphex Twin e John Cale na Inglaterra, The Who, Nile Rodgers e Grandmaster Flash no Rock in Rio) não entraram na lista. Os três shows – e o pior “show” do ano – que escolhi foram os seguintes:

PJ Harvey, no Teatro Bradesco
“Finalmente o indie rock recebe tratamento de gala.”

Kamasi Washington, no Sesc Pompeia
“Um vulcão free jazz – com os pés no hip hop.”

Acid Mothers Temple, no Sesc Belenzinho
“Vórtice de psicodelia garageira rumo a outra dimensão”.

O pior do ano:
O preço ridiculamente alto de quase todos os shows internacionais e a inacreditável taxa de (in)conveniência, uma forma bem direta de chamar o público de trouxa.

Mais detalhes neste link.