Por Alexandre Matias - Jornalismo arte desde 1995.
O feliz natal de Neil Young veio na forma de uma rara performance que o mestre fez de “Silver and Gold”, música que compôs do início dos anos 80 que só conseguiu lançar no ano 2000, no álbum batizado com o nome da canção. Raramente tocada ao vivo, ela chega nessa nova versão às vésperas do velho canadense começar mais uma turnê e anunciar um novo disco. Ao final do vídeo, ele pergunta se aquela é a primeira sessão gravada aos pés de uma lareira, o que parece anunciar que outras virão em breve. Ave Neil!
Olha 2025 já chegando: a peça Avenida Paulista, idealizada, escrita e dirigida pelo dramaturgo Felipe Hirsch vai estrear em fevereiro no teatro do Sesi (onde ele mesmo montou Avenida Dropsie, do Will Eisner, há vinte anos) com a nata da atual música da cidade (Fabio Sá, Lello Bezerra, Negro Leo, Roberta Estrela D’Alva, Thalin, Maria Beraldo, Arnaldo Antunes, Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Alzira E, DJ K, Jéssica Caitano, Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Maurício Pereira, Nuno Ramos, Rodrigo Campos e Rodrigo Ogi) é só um gostinho do ano que vem. Olha isso:
Quem me acompanha sabe que eu sou completamente fissurado por João Gilberto – e sempre fico de olho na mina de ouro que é o canal no YouTube mantido pelo caçador de pepitas do mestre Pedro Fontes, o Esqueleto Lavrador. Ele agora pinça duas joias direto da TV alemã em 1968, quando João apresentou-se ao lado do francês Pierre Le Marchand (tocando chimbal) e do alemão Hans Koller (no sax) dentro do programa Monsieur 100.000 Volt, apresentado pelo francês Gilbert Bécaud (cujo programa era batizado em homenagem a seu apelido, por ser muito esquentado) na emissora ZDF (Zweites Deutsches Fernsehen, a TV pública da então Alemanha Ocidental). O programa, exibido originalmente em novembro daquele ano, reúne dois momentos mágicos como só João sabe fazer, cantando “O Samba da Minha Terra” de Dorival Caymmi e “Garota de Ipanema” de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, ambas em trechos coloridos com uma imagem linda de encher os olhos. Isso sem contar o som, que delícia…
Tava falando sobre a St. Vincent outro dia e neste sábado passado ela foi convidada pra discotecar para um evento beneficente em uma taqueria – sim, uma lanchonete de tacos – em uma região específica da cidade de Dallas, nos EUA, chamda Lake Highlands, que não por acaso é a vizinhança em que ela cresceu e estudou. O lugar também nãoé tão aleatório quanto parece, afinal a Resident Taqueria é de sua irmã e de seu cunhado e sua aparição insólita (quando discotecou Mariah Carey, Talking Heads, Janet Jackson, George Michael, Erykah Badu e Madonna) ajudaria a arrecadar fundos para a ONG Feed Lake Highlands, que ajuda pessoas da região a comer. Abaixo, alguns trechos filmados por quem pode estar lá.
Uma lenda da música paraense, o quase centenário Mestre Laurentino partiu neste sábado, carregando o epíteto de “o roqueiro mais velho do Brasil”. Autodidata, aprendeu a tocar gaita e tornou-se uma figura conhecida na noite de Belém compondo músicas que entraram para o cancioneiro local ao adaptar a batida do rock à musicalidade nortista. Tornou-se conhecido do grande público ao ter uma de suas músicas mais conhecidas, “Lourinha Americana”, que o grupo pernambucano Mundo Livre S/A gravou em seu quarto disco, lançado no ano 2000, e a popularizou para outros artistas incluírem em seu repertório, como Marcelo D2 e Gilberto Gil, além de ter sido chamado pelo Coletivo Rádio Cipó, nome de destaque na cena paraense do início do século, para participar de shows com os quais visitaram as principais capitais do Brasil. O governo do Pará decretou luto oficial após o anúncio de sua morte.
Usei a desculpa do natal em família para visitar minha outra família, chamada Brasília, essa cidade fantástica que é sempre minimizada por ser a sede administrativa do governo. Projeto artístico modernista do tamanho de uma cidade, Brasília não só representa o ápice da utopia brasilianista do século vinte como aponta para o terceiro milênio como uma nova urbe, tanto em formato e fisicalidade (com prédios só com seis andares de altura, o Plano Piloto flutua num céu interminável que imediatamente impacta na vida de quem pode cresceu neste ponto central do continente, equidistante entre dois oceanos) quanto na qualidade cívica de quem nasce aqui (que quase sempre é confundido pelos que veem para cá com os votos de todo o Brasil, o que causa a má impressão da cidade para o resto do Brasil – um trágico espelho que o país não gosta de ver). E quis o destino que esse reencontro no início de um verão acontecesse sob a égide do Inferninho Trabalho Sujo, que mira na utopia musical do agora, ao lado de dois dos melhores acontecimentos da cidade: os shows solo de Guilherme Cobelo e Gaivota Naves, respectivamente pai e mãe do clã Joe Silhueta, genealogia que se espalha pela cidade misturando as pontas mais jazz da MPB à psicodelia do sertão brasileiro e um apreço pela vanguarda musical – e ainda por cima na Infinu, referência de qualquer artista de médio porte ao passar por aqui desde o fim da década passada. Gaivota abriu a noite como um furacão abstrato, atraindo camadas de jazz, funk, rock progressivo e psicodélico misturado por uma banda absurdamente entrosada, com Omar Azul numa guitarra e Vinícius Faraco na outra, Luís Porto no baixo, Sombrio da Silva no clarinete e clarone e Leo Sena na bateria passando quase todo o disco solo da Gavs, que será lançado no ano que vem, na íntegra, além de contar com uma versão absurda de “A Morte de um Deus de Sal” dedicada a Airto Moreira e misturada com “Noite de Temporal” de Dorival Caymmi, com Gaivota crescendo metros de altura e colocando todo o público que lotava a Infinu no bolso com seu vocal e performance gigantes. Absurdo!
Depois foi a vez de Guilherme Cobelo de finalmente lançar ao vivo seu disco solo Caubói Astral, idealizado há quase uma década e que ficou engavetado por anos enquanto um outro projeto, menor e feito quase no improviso, crescia no final da década passado, quando o que seria um projeto solo com outro pseudônimo acabou tornando-se sua principal banda, o Joe Silhueta. Caubói sairia no fatídico ano pandêmico, o que acabou adiando sua estreia em quase quatro anos, quando finalmente Cobelo pode trazer aquelas canções embriagadas na psicodelia nordestina e na musicalidade do sertão brasileiro que dão origem ao personagem que batiza o disco, produzido pelo lendário Munha, capitão da errática nau chamada Satanique Samba Trio. O trabalho foi testado ao vivo algumas vezes com diferentes formações e finalmente viu seu lançamento de fato no Inferninho Trabalho Sujo realizado neste sábado na Infinu trazendo sua voz e violão à frente de uma bandaça que conta com Jota Dale (guitarra), André de Sousa (baixo), o mesmo Sombrio que acompanhou Gaivota (e também toca na Joe, tocando clarinete e agora acordeão), Dinho Lacerda (bateria) e Mariano Toniatti (percussão). O lançamento o permitiu finalmente cutucar um repertório que já vem trabalhando há alguns anos, mais pop e menos agreste, como a excelente “Asa Soul”, em que canta as andanças por Brasília como poucos já fizeram, apontando para um 2025 promissor. Depois, eu e os compadres Kelton e Ivan Bicudo terminamos a noite discotecando para os sobreviventes, chegando no ápice em que “Feel it All Around” do Washed Out encontrou-se com “Kaputt” do Destroyer, para encerrar um sábado mágico.
Retorno para minha terra-natal neste fim de semana para realizar o primeiro Inferninho Trabalho Sujo fora de São Paulo e também o último do ano. E que maravilha poder dividir essa noite com artistas que são compadres e comadres desse nosso cerradão. A noite marca o lançamento ao vivo do primeiro disco solo de Guilherme Cobelo, vocalista da Joe Silhueta, que finalmente traz ao mundo seu Caubói Astral, que vem matutando há uns bons anos. Quem abre a noite é a maravilhosa Gaivota Naves, que também é vocalista da Joe e que também mostra sua faceta solo. Eu discoteco logo depois ao lado de dois monstros sagrados: Ivan Bicudo, da mítica festa Toranja, e o grande Kelton (que também está com um trabalho solo engatilhado…). A festa acontece neste sábado, dia 21, na já clássica casa Infinu, que fica na 506 da W3 sul, ao lado Praça das Avós, e os ingressos já estão à venda online neste link (que é mais barato do que comprar na hora). Vamos?
Mais um motivo para esperar por 2025: depois da primeira exibição oficial, que acontece agora em janeiro no festival de Sundance, nos EUA, o novo documentário de Questlove, sobre ninguém menos que Sly Stone, estreia no dia 25 de fevereiro pelo serviço de streaming Hulu. Sly Lives! (aka the Burden of Black Genius) conta com entrevistas com nomes célebres da música daquele país, entre contemporâneos e influenciados por ele, como André 3000, D’Angelo, Chaka Khan, Q-Tip, Nile Rogers, George Clinton e Clive Davis, além de depoimentos de ex-integrantes da Sly and the Family Stone, como Sylvette Phunne Robinson, Novena Carmel e Sylvester Stewart Jr. O ano que vem promete!
Finalmente consegui ver a edição especial da revista Rolling Stone sobre o Iron Maiden em que fui convidado pelo compadre Pablo Miyazawa para contar a história do grupo e falar sobre meus discos favoritos da banda – a saber, o disco de estreia, Powerslave, Somewhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son, além do disco ao vivo Live After Death e sobre aquela que foi escolhida em votação como a melhor música do grupo, a épica “Hallowed Be Thy Name”. Não consegui ir nos shows que o grupo fez no Brasil desta vez, mas pelo menos marquei meu 2024 com o Iron nessa edição que não está nas bancas, mas pode ser comprada no site da revista. Up the Irons!
O júri de Musica Popular da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), do qual faço parte ao lado de Adriana de Barros @dribarrosreal (TV Cultura e Mistura Cultural), Bruno Capelas @noacapelas (Programa de Indie), Camilo Rocha @bateestaca (Bate Estaca), Cleber Facchi @cleberfacchi (Música Instantânea e Podcast VFSM), Felipe Machado @felipemachado_oficial (IstoÉ), Gulherme Werneck @guiwerneck (Canal Meio e Ladrilho Hidráulico), José Norberto Flesch @jnflesch (Canal do Flesch), Marcelo Costa @screamyell (Scream & Yell), Pedro Antunes @poantunes e Pérola Mathias @poroaberto (Poro Aberto e Resenhas Miúdas), acaba de anunciar os indicados em quatro categorias dos Melhores de 2024: Artista do Ano, Artista Revelação, Melhor Show e Melhor Música. A categoria Melhor Disco de 2024 já conta com 25 discos indicados no primeiro semestre ao qual serão acrescidos mais 25 discos do segundo semestre, a serem anunciados em janeiro. Veja abaixo: