Uma Lorde millenial? Uma Lana Del Rey em preto e branco? Uma Lily Allen do mundo invertido? A jovem californiana Billie Eilish (nascida após o 11 de setembro) já vinha mostrando a que veio desde o ano passado e com seu disco de estreia – o fofo e gótico When We All Fall Asleep, Where Do We Go? – sintoniza um pop igualmente doce e azedo, delicioso e existencialista, a cara de 2019.
Quando Marcelo Cabral avisou que estava voltando da Alemanha para passar um tempo de volta no Brasil, cogitamos rapidammente uma temporada ao redor do universo musical do baixista e de sua recente experiência artística na Alemanha. Próximo à cena de improviso livre de Berlim, Cabral foi descobrindo um método de criação artística que permite fluir por outras linguagens, incluindo literatura, teatro e spoken word e entender como isso influencia diretamente o resultado musical. E assim ele pensou em Influxo Cabralha, uma reunião de amigos e magos da música instrumental que atravessa quatro segundas-feiras de abril no Centro da Terra. Na primeira, dia 8, ele toca ao lado de Mauricio Takara, Thomas Rohrer e Mariá Portugal. No dia 15 ele chama Guilherme Held, Thiago França, Juliana Perdigão e Angélica Freitas. Dia 22 é dia de Kiko Dinucci, Rodrigo Brandão e Juçara Marçal. E a temporada termina no dia 29, com as participações de Thomas Harres, Bella, Patrícia Bergantin, Maria Beraldo e Ná Ozzetti (mais informações aqui). Bati um papo com o Cabral sobre esta safra de shows e a influência de sua estada na Alemanha neste novo projeto.
Com “Aí Sim”, Maecomeça a preparar terreno para o lançamento de seu terceiro álbum, Guaia – falei com ele sobre a ideia do disco na minha coluna Tudo Tanto desta semana – leia lá.
O herói indie Lê Almeida está nas alturas. Liderando sua nova banda, o trio Oruã, o dono da Transfusão Noise Records comemora os 15 anos de seu selo em grande estilo e acaba de voltar de uma turnê pelos Estados Unidos tocando junto com o guitar hero Doug Martsch, o líder do Built to Spill. “Esta nova fase está sendo linda, muito pelo fato de nós estarmos fazendo o que gostamos em proporções maiores do que já faziamos”, ele me explica por email, “viajar pra tocar em algum momento virou nossa ambição já que no nosso nível social não permite ter a minima condição de uma viagem turística”. O trio lança em primeira mão no Trabalho Sujo o clipe da faixa “Cruz das Almas BA”, feito com imagens da turnê em que passaram pelas cidades de Boise, Seattle, Portland, Tacoma e Walla Walla, no mês passado.
A conexão com Martsch foi essencialmente musica. “O Doug ouviu umas faixas minhas, curtiu e começou um contato. Quando ele esteve no Rio conheceu minha família, meus amigos, passamos a tocar junto e hoje pra mim é como se ele fosse parte da nossa galera 100%”.
Ele continua lembrando a turnê: “A primeira coisa que fizemos foi tocar na Radio Boise, da cidade do Doug e dias depois tocamos duas vezes num festival de cinco dias. Desde o começo sentíamos que o respeito de todos era enorme, eles adoram música brasileira. No festival fomos muito bem recebidos e já no nosso primeiro show fomos convidados pra gravar na KEXP pela Cheryl Waters, que estava na platéia. Depois fizemos uma tour de van passando por Seattle, Portland, Tacoma e Walla Walla onde todos os shows estavam com ingressos esgotados”. A viagem ainda proporcionou encontros históricos para o indie brasileiro. “Em Tacoma conhecemos o Calvin Johnson, máximo respeito e admiração”, Lê comenta sobre o encontro com o senhor Beat Happening. “Ele foi muito gente boa com a gente, só aumentou tudo que já sentiamos.”
O trio está às vésperas de repetir a dose, só que agora na Europa. “Vamos passar por muitos lugares, são um pouco mais que 30 shows, eu ainda não memorizei tudo aqui mas vamos no final de abril e voltamos no começo de junho. Estamos muito animados. Antes de viajar vamos lançar um EP chamado Tudo Posso, que vai sair em vinil 7″ nos Estados Unidos pela IFB Records e pela Transfusão. Esse video que estamos lançando é de uma das quatro faixas desse EP, que conta com alguns membros adicionais na formação do conjunto, Karin, Dani e David nos corais e Pedro e Russo nos saxofones.”
As turnês fazem parte da comemoração de seu selo, instituição que sobrevive heroicamente há 15 anos no Rio de Janeiro. “Nossas comemorações foram no início do ano quando fizemos quatro bailes contando com um show do Built to Spill em Madureira e em agosto vamos fazer alguns bailes comemorativos de seis anos do Escritório quando estaremos mais suave no Brasil. Depois da Europa temos mais algumas tours nos Estados Unidos com o Built to Spill que vão ate novembro”.
“Os primeiros shows que a gente fez com o Built to Spill foram no Escritório, num domingo chuvoso com uma fila grande na rua, foi um momento muito emocionante pra mim e pros meus amigos”, lembra, reforçando a importância de sua casa de shows para o próprio selo. “A partir dessa primeira tour passamos a dividir mais as funções entre nós. Agora o Joab e o Raoni tão tomando conta junto com a Karin e a Maria enquanto viajamos. Eles andam montando a programação e levando adiante, o importante é não parar.”
Mas não deixa de comentar sobre o estado da cena independente brasileira. “Falta respeito sem base em números. Eu sempre fui da minoria, mesmo viajando pra fora com o Built to Spill, eu ainda sou o mesmo cara que come o prato feito de dez reais da Tiradentes e toco a mesma guitarra Giannini.
Hoje nós conseguimos investir em nós mesmos, isso é lindo, nossos discos são caprichados, fazemos nossas gravações de um jeito que ninguém faz igual, mas no fundo só queremos fazer o nosso, conheçer pessoas nas viagens, fazer vinculos, trocar discos. Sou muito grato pela base de amigos que formamos nesses 15 anos, tive a sorte ter uma família próxima que sempre deu corda para minhas ondas artísticas, fizemos amizades por causa do som que eu sei que vai ser pra vida toda, isso é o mais importante.”
Um dos patronos do rock rural brasileiro, o compositor mineiro Zé Geraldo apresenta-se nesta sexta-feira, às 21h, no Centro Cultural São Paulo – os ingressos já estão esgotados (mais informações aqui).
O grupo inglês Hot Chip nunca decepciona – e ao anunciar seu sétimo álbum, A Bath Full of Ecstasy, o fazem com uma ótima música, “Hungry Child”, que vem acompanhada de um clipe engraçadinho estrelado por Martin Starr e Milana Vayntrub, abaixo:
O disco marca a primeira vez que o grupo trabalha com produtores de fora, quando reuniu o francês Philippe Zdar (que já produziu Phoenix e Cassius) com o escocês Rodaidh McDonald (que já trabalhou com The XX e David Byrne), e será lançado no mês de junho. Abaixo, a capa feiosa e a relação das faixas do álbum.
“Melody of Love”
“Spell”
“Bath Full of Ecstasy”
“Echo”
“Hungry Child”
“Positive”
“Why Does My Mind”
“Clear Blue Skies”
“No God”
Imensa satisfação em poder receber Tom Zé mais uma vez no Centro Cultural São Paulo, desta vez mostrando o show que comemora 50 anos de seu disco de estreia, Grande Liquidação, que ele disseca no palco da Sala Adoniran Barbosa nesta quinta-feira (mais informações aqui).
Em Falha Comum, seu novo disco, a dupla paulistana Rakta, formada pela baixista Carla Boregas e pela tecladista Paula Rebellato, abandonam as amarras do rock e assumem sua face ritualesca, agora com o baterista Maurício Takara como arma secreta. Discaço.
Depois do ótimo Melhor do Que Parece e do pensativo Recomeçar de Tim Bernardes, o trio paulistano O Terno anuncia o lançamento de seu quarto disco, < Atrás / Além > ao mostrar o primeiro single, “Nada/Tudo”, que expande as fronteiras da banda para além do rock e consolida seu amadurecimento musical.
O disco terá participações do norte-americano Devendra Banhart e do japonês Shintaro Sakamoto (na faixa “Volta e Meia”, que será lançada no próximo dia 16) e será lançado em vinil duplo, além de já estar em pré-venda. A capa é esta abaixo:
“Tomei conhecimento da existência desse filme mais ou menos em 95, 96, por causa da foto de uma matéria de revista que minha irmã tinha em casa”, o guitarrista Kiko Dinucci lembra como conheceu o clássico cult Imperador Ketchup (Tomato Kecchappu Kōtei), do cineasta japonês Shūji Terayama, que faz a trilha sonora ao vivo nesta terça-feira, no Centro da Terra, ao lado do experimentalista carioca Cadu Tenório (mais informações aqui). “Era um texto sobre a nouvelle vague japonesa e falava Nagisa Oshima, Imamura, esses diretores maravilhosos – se não me engano, o texto tinha algo a ver com a Lucia Nagib, especialista em cinema japonês e brasileiro. Eu tinha uma banda chamada Nitrate Kid, o Wash, da banda Eu Serei a Hiena, que tocava baixo, estava indo morar no Japão e me deixou encarregado de fazer uma capa para a demo. Peguei algumas revistas para fazer colagem e me deparei com uma foto do filme nessa revista da minha irmã, eram umas crianças com umas maquiagens bizarras e acabei usando. Me lembro da legenda: cena do filme Imperador Ketchup. A foto e o título do filme me causaram estranhamento e atração, pensei: ‘esse filme deve ser demente’. No mesmo ano o Stereolab gravava um disco com o mesmo nome do filme Emperor Tomato Ketchup, mas só fui conhecê-los no ano seguinte.”
“Esqueci que esse filme existia e um dia, 20 anos depois, lembrei dele, baixei e assisti. Fiquei chapado. Achei que ele dialogava diretamente com filmes do cinema marginal brasileiro como Rogério Sganzerla, José Agrippino de Paula e Andrea Tonacci. Ele é assustadoramente moderno e contemporâneo até hoje, dialoga diretamente com esse tempo demente no qual estamos vivendo, de tanto delírio fascista e autoritarismo”, continua Kiko. “Muita pouca gente conhece esse filme no Brasil, gostaria que mais gente conhecesse. Já que não sou programador ou curador de cinema, arrumei um jeito de exibir o filme que é tocar por cima dele, é mais uma desculpa pra ver e mostrar o filme e me reencontrar com o Cadu.” O filme é indicado para maiores de 16 anos.
A trilha ao vivo não é o primeiro trabalho de Kiko com Cadu Tenório. “Já tinha ouvido a falar no Cadu por conta da cena da cena carioca que se apresentava quase exclusivamente na Audio Rebel dentro da programação do Quintavant. Depois ouvi as coisas que ele fez em parceria com o Marcio Bulk e gostei bastante. Em seguida, ele gravou o Anganga com a Juçara Marçal, e de lá pra cá criou-se uma amizade e admiração mutua. Tocamos juntos a primeira vez numa programação chamada Nós da Voz, idealizada pela Juçara no qual cantoras e cantores faziam improvisação livre ao lado de instrumentistas, mas tudo com ênfase na voz como instrumento. Nesse dia o time era a Juçara, Ava Rocha, eu e Cadu – e ali percebemos que havia uma sintonia sonora. Posteriormente a Juçara e Cadu me chamaram pra fazer alguns shows do Anganga e ela também convidou Cadu pra participar do show Encarnado. Desde então nos encontramos em diversas ocasiões. Fizemos no ano passado uma pequena residência no Sesc Paulista ao lado da cantora moçambicana Lenna Bahule. Estamos sempre inventando alguma história.”
Os dois inclusive já fizeram trilha de filmes ao vivo. “O Cadu toca sampler e eu toco guitarra, sintetizadores e sampler. Ficaremos ao lado do palco, dialogando com o filme que terá seu som original, trabalhamos por cima da trilha do filme. Já fizemos também a trilha do filme Hitler III Mundo, de José Agrippino de Paula e foi fantástico. Temos em mente fazer outras trilhas ao vivo. Cadu tem uma trilha original para o filme mudo experimental de terror gore Begotten.”
O próprio Kiko tem sua carreira cinematográfica paralela: “Às vezes faço trilha de cinema pra me aproximar desse universo, mas me divirto mais com trilha ao vivo de filmes clássicos, me dão mais liberdade, dá pra tirar mais onda. Gosto de fazer cinema também, dirigir… Estou escrevendo um novo roteiro ao lado do Clima (o compositor Eduardo Climashauska) que foi ator do meu filme mais recente, Breve Em Nenhum Cinema – dá pra ver ele no Vimeo, viu?”