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DM: A normalização do absurdo

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Retomamos nosso DM depois de algum tempo distantes – e você sabe que isso é só combustível pra mim e pro Dodô falarmos sem parar. Os assuntos vão desde o frio que paira sobre Rio e São Paulo à turnê de reencontro dos Titãs, passando por documentários que assistimos no In Edit e a nova temporada de Black Mirror, sem esquecer de comentar que ainda estamos numa pandemia e que é preciso se vacinar.

Assista aqui:  

Cure no Chile, Uruguai e Peru

E o senhor Robert Smith acaba de confirmar no site de sua banda as últimas datas da turnê do Cure pela América do Sul. Além das confirmações nas edições locais dos Primavera Sound que comentei essa semana, o grupo toca em shows fora de festival (ou seja, três horas de show) no Peru (dia 22 de novembro, em Lima), no Uruguai (dia 27, em Montevidéu) e no Chile (dia 30, em Santiago). Os ingressos começam a ser vendidos no dia 28 agora (ou no dia 26, se você se cadastrar na lista de emails da banda neste link).

Peter Brötzmann (1941-2023)

Dos maiores nomes do free jazz, um deles era europeu e morreu dormindo nesta sexta-feira: o alemão Peter Brötzmann ajudou a espalhar a palavra dessa incrível música abstrata no velho continente e seu Machine Gun, lançado com o octeto que liderava em 1968, até hoje é um dos grandes clássicos do gênero.

25 anos depois das 69 canções de amor

A obra-prima do grupo indie norte-americano Magnetic Fields, o disco triplo 69 Love Songs, completa 25 anos no ano que vem e o dono do grupo, o grave crooner Stephen Merritt, resolveu revisitar o trabalho na íntegra em uma série de shows em março de 2024. Serão cinco sessões duplas em que o grupo retoma o álbum pela primeira vez em duas décadas com a formação original que gravou o disco: Claudia Gonson, John Woo, Sam Davol e Shirley Simms, além de dois integrantes da atual formação do grupo Chris Ewen e Anthony Kaczynski, além do próprio Merritt (a única ausência é o tio LD Beghtol, que morreu em 2020). Os shows acontecerão entre março e abril de 2024 e o grupo estreia no Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts, seu estado-natal (dias 22 e 23 de março), depois passam por Nova York (única cidade em que o disco será visitado em duas ocasiões, 3, 4, 5 e 6 de abril), Chicago (19 e 20), Los Angeles (23 e 24) e São Francisco (26 e 27). Os ingressos começam a ser vendidos do dia 11 de julho, mas os fãs já podem reservar a pré-venda no site do grupo. E se você não conhece este disco, faça-se esse favor ouvindo-o abaixo:  

Delta Estácio Catatau

Juçara Marçal levou mais uma vez seu Delta Estácio Blues para a Casa de Francisca e eu nunca nem tinha visto esse show soando tão alto nem nenhum show tão barulhento como este no palacete do centro de São Paulo. O quarteto formado por Juçara, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Alana Ananias deixa esse disco ao vivo cada vez mais afiado e dessa vez veio em minitemporada, com dois velhos camaradas do grupo dividindo respectivas noites. Não pude ver a participação de Maria Beraldo na terça-feira, mas vi quando Fernando Catatau juntou-se ao quarteto não apenas para tocar sua “Lembranças Que Guardei” que dividiu com Juçara no já clássico disco de 2021 como visitar mais uma vez “Os Monstros”, do primeiro disco solo do guitarrista cearense, como já haviam feito no show de lançamento do disco há quase um ano e meio no Sesc Pinheiros. Mas a grande surpresa da noite foi quando Catatau pegou o contrabaixo elétrico e apresentou uma parceria com Juçara que deverá estar em seu próximo disco solo, que foi fermentado na temporada Frita que ele fez em outubro do ano passado lá no Centro da Terra. Catatau ainda voltou pro bis quando tocou mais uma vez sua parceria com Juçara no Delta Estácio Blues, além de ele mesmo anunciar que o disco terá mais do que uma parceria com a dona do show desta quarta. “Aguarde e confie”, como brincou a própria Ju.

Assista aqui:  

Primaveras ao redor

No mesmo dia em que o festival Primavera de São Paulo anunciou sua primeira atração para a edição deste ano (Cure, já sabíamos), as edições hermanas do evento divulgaram suas respectivas programações completas. São três festivais além do de São Paulo – 25 e 26 de novembro em Buenos Aires, 7 de dezembro em Assunção e 9 e 10 deste mesmo mês em Bogotá. Em comum, todos terão show do Cure (como aqui em São Paulo), mas nomes como Blur, Beck, Pet Shop Boys, Bad Religion, Slowdive, Grimes, Hives, Black Midi, El Mató a Un Policía Motorizado, Meridian Brothers, Marina Sena, Soccer Mommy, Twilight Sad, Róisín Murtphy e Carly Rae Jepsen já dão um gostinho do que pode vir pra edição brasileira do festival. E não custa lembrar que a mesma empresa que faz o Primavera no Brasil também faz o Popload e artistas como Blur, Beck e Pulp (que não está no elenco destas edições que acabei de citar, mas toca no Chile nos dias 24 e 25 de novembro, na edição do Primavera Fauna, que também leva o Blur pra Santiago) poderiam tranquilamente tocar no festival do Lucio Ribeiro. E será que Domi & JD Beck e a Weyes Blood voltam para o Brasil mesmo já tendo tocado por aqui esse ano C6? Tomara que sim, perdi o show dos dois primeiros, mas me acabei no show da Weyes… Tomara que ela volte.

Vintage 80s

Você iria num festival que acontece em um único dia e reúne New Order, Tears for Fears, B-52’s, Echo & the Bunnymen, Soft Cell, Human League, Devo, Violent Femmes, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Psychedelic Furs e X? Houve um tempo em que os anos 80 eram associados apenas à cafonice e suas principais referências visuais e sonoras eram ridicularizadas em contextos modernos com a única intenção cômica, desprezando toda a revolução cultural daquele período único da história apenas como mera breguice. Mas as transformações artísticas dos 80 (dos videogames ao cyberpunk, passando pela new wave, o pós-punk e o hip hop) formam a base da cultura pop deste século, ainda que o mercado da música trate as bandas que são marcos deste período como curiosidades pitorescas, mais do que os novos clássicos que são. Mas aos poucos isso está sendo revisto (como podemos ver na turnê de retorno dos Titãs, entre vários outros exemplos cada vez menos isolados) e a escalação do festival norte-americano Darker Waves, que acontece na Califórnia em um único dia, é um bom termômetro desta reavaliação estética desta década ao reunir atrações que, em festivais passados, eram tratados apenas como nomes que ainda eram comerciais o suficiente para preencher lacunas específicas. Além dos nomes já citados, o festival, que acontece no dia 18 de novembro deste ano, também traz bandas mais recentes que conversam com a estética do período, como a banda bielorrussa Molchat Doma (do meme da Wandinha Adams fase preto e branco dançando um dance gótico), She Wants Revenge, Cardigans e a volta dos †††, a banda do vocalista do Deftones Chino Moreno, entre outros nomes menos conhecidos. Os ingressos começam a ser vendidos a partir do dia 23 no site do festival. Fico imaginando uma versão brasileira deste evento (que é bem provável que já esteja sendo bolada)… Quem viria?

Sorriso sorrateiro

Enquanto o Radiohead segue hibernando (pra sempre?), The Smile, a banda que Thom Yorke e Jonny Greenwood montaram com o baterista Tom Skinner, vem se tornando o principal projeto do grupo, maior inclusive que as carreiras solos dos dois integrantes da grande banda inglesa da virada do século. E depois do ótimo disco de estreia, A Light For Attracting Attention, lançado no ano passado, o trio dá o primeiro sinal de vida com a soberba “Bending Hectic”, que o grupo já havia mostrado em 2022 em sua apresentação no festival de jazz de Montreux, mas não foi incluída no disco ao vivo que lançaram no final daquele ano. A nova canção começa lenta e tranquila, distorcendo devagar a sensação de balada que parece carregar até que, após a entrada vertiginosa das cordas da London Contemporary Orchestra ergue a música para uma estratosfera de ruído, guitarras e ecos que a faz soar tão boa quanto as m´suicas mais ousadas do Radiohead. Se o ritmo continuar assim, não sei se demora muito pro The Smile tornar-se uma força realmente importante no pop atual, mais do que só um romance de estação.

Ouça abaixo: