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Plena transformação

Uns parafusos a menos ou a mais, uns dias a menos ou a mais…

Será que escrever é a solução? Estou trancado dentro de uma versão debilitada das minhas possibilidades há mais de dois meses e hoje ouvi um especialista me dar um prazo muito maior que o que eu esperava pra minha mão direita voltar a funcionar. Sentimentos e sensações vão se empilhando por trás das orelhas e ficam presas em forma de palavras na minha nuca, onde percebo nitidamente a energia do fluxo do conhecimento interrompida quando paro de escrever. E o digitar solitário da mão esquerda, uma cada vez mais ágil cata de milhos pelo teclado, transformando o indicador em escravo direto do cérebro, esforça-se para, nobremente, cumprir a falta da irmã, que fica ali do lado, triste por não poder ajudar e por sobrecarregar a outra. Elas se abraçam, uma consola a dor da outra, enquanto observo pensando no quanto eu sou responsável por estes movimentos.

De vez em quando paro, saio da frente do computador para aliviar o trabalho da esquerda. E a direita dói. Continuamente. “Sinal que as coisas vão voltar ao normal”, disse meu médico xará, com uma frieza típica de quem tem tanta certeza do fato devido à rotina. Mas logo estou de volta ao monitor, encarando a tela branca como se pudesse encontrar, de súbito, um fio da meada para a torrente de idéias. Minha viagem à Cuba, discos do ano passado, coisas que descobri, outras que discuti, emails, projetos pro trampo, frilas, entrevistas, scraps, comments, searchs, posts, listas de downloads, de deadlines, afazeres, de metas. Nada vem direito (irônico trocadilho da linguagem), tudo vem pela metade (outro). Mas por mais que submeta a canhotinha a um campo de trabalhos forçados, não consigo ficar sem escrever. Daí a pergunta do início.

A resposta imediata após a racionalização talvez seja um “não”, ao pensarmos que a escrita se opõe à vida. Escreve-se sobre o que se viveu, portanto escrever é deixar de viver. Caímos numa espiral existencialista sobre o papel da arte (depois eu desenvolvo isso melhor) que é autófaga: se todos vivessem e não produzissem arte talvez não fôssemos todos artistas? Ou o inverso: se todos queremos ser artistas, inevitavelmente não mais o seremos. É uma cumbuca que só conseguimos tirar da mão se pararmos de nos preocupar, como o paredão que surge frente ao mercado de celebridades – se todos fazem questão de serem conhecidos, quem vai querer conhecê-los? Talvez vivêssemos mais sossegados (e, sem perceber, mais artistas), caso não nos preocupássemos com a arte.

E é justamente por isto que escrever é, sim, solução. Não uma solução, mas “a” solução. Claro que talvez as palavras e a linguagem formal devam ser as principais fontes de nossos problemas, mas já que as temos, temos que superá-las. Torná-las corriqueiras, comuns, tirar a “arte” das palavras. Já fazemos isso com as palavras faladas, trocamos, mutamos e as vulgarizamos sem pudor, falando errado, engolindo letras, inventando sons com novos significados. Já até ultrapassamos a palavra falada com a palavra cantada, que por diversas vezes deixa de ser palavra e torna-se apenas canto. Canto, grito, gemido, alarido, lamento, grunhido – questão de perspectiva.

Estamos aos poucos fazendo isso com a palavra escrita, sem percebermos. Nas manchetes dos jornais, cartazes na rua, placas nas lojas, cardápios, guias de localização, marcas, títulos de filmes, discos e livros, nomes de bandas, revistas, oficinas, subprefeituras, cargos militares. Mais do que ter uma única palavra para cada uma das coisas existentes, criamos variações infinitas para todas elas. A palavra, com a publicidade para as massas, tornou-se elástica – ganhou formatos, cores, tamanhos, virou imagens. Chegamos ao cúmulo de mutarmos apenas a letra: um enorme M amarelo arredondado significa a maior rede de lanchonetes do mundo, um simpático K azul deixou de ser símbolo de sorvetes brasileiros, um F preto num losango branco de bordas vermelhas é sinônimo de roupa cara – ou falsificada.

A poluição visual parece triplicar com a presença das palavras. Além de desenhos, logotipos, fotos, ícones e cores, lidamos com todos os significados que as palavras, por escrito, têm. Pois podemos colocar todas as pessoas mais felizes do mundo, as melhores paisagens, a última palavra em design ou uma grande sacada de roteiro, que se não escrever “promoção”, “oferta”, “cool” ou “hype” (só pra ficar nuns exemplos óbvios) não associamos ao produto que está sendo vendido.

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Hoje faz um ano em que meu carro desceu uma ladeira e terminou sua existência num poste. Podia ter ido junto. Mas pediram pra eu ficar, e me botaram uma tala de titânio dentro do braço e em menos de um mês estava fazendo quase tudo que faço normalmente (discotecando, escrevendo, pegando praia, voando, tocando violão), embora com o déficit considerável do braço direito e com quatro parafusos a mais. Roxo e amarelo, ele atravessou meu inferno astral mais duro, o do retorno de Saturno, como uma lembrança de que tudo pode mudar, num menor segundo.

E não mudar. Vejo as duas mãos percorrerem o teclado como antigamente e, juro, quase choro de emoção. Sem outras palavras: é incrível. Estava deitado numa maca num corredor de um hospital público em que um cara fardado num carro oficial me havia deixado e percebi que o maior estrago era o braço direito até um enfermeiro passar e me dizer: “Faz o jóia”, pedindo para eu levantar o polegar direito.

Ah, a ironia da linguagem. Com aquela coleira cervical no pescoço, tive dificuldade de abaixar os olhos para mirar a mão levantar o polegar – e nada. O polegar não levantava, na maior sensação de impotência da minha vida – e literalmente, com o dedo que eu digo que está tudo bem. “Jóia”, no more. Depois fui entender que aquilo era vestígio de uma lesão no nervo radial, acontecida na mesma altura da fratura no úmero, e que eu talvez não pudesse recobrar os movimentos da mão direita.

Ugh.

Daí a tremenda emoção de ver minhas duas mãos caminhando sobre o teclado, embora a direita ainda não esteja em modo completo neste momento. Tudo bem. Ela já esteve pior, vai estar melhor.

E assim, todos nós.

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Se eu percebi uma coisa neste momento X da vida foi o quanto vivemos em plena transformação, transfusão, o tempo todo. Mais do que isso, o acidente foi mera alegoria pra essa condição. Estar bem e, puf, num momento seguinte estar mal. E como a minha expectativa para que minha mão e meu braço melhorasse se confundia com o arrependimento por ter deixado o carro ir, de ter saído aquela noite, de não ter voltado de carona.

E isso parece ser a vida da gente. A expectativa do que pode vir acontecer se misturando com a frustração daquilo que não tinha acontecido.

Mas aí tem a recuperação. Todo dia, o punho se mexia um centímetro, o dedo levantava um pouco mais, a mão já conseguia segurar uma caneta, rabiscar uma letra, fazer o jóia. Uma coisa de cada vez. E, do mesmo jeito que me dá alegria digitar esse texto com as duas mãos, cada uma dessas mudanças me enchia de sentimentos que podem parecer contraditórios: esperança (vou poder dirigir no fim do ano?), paranóia (só vai mexer até aqui), negação (pode regredir), tristeza (que demora), felicidade (mais um pouco), agonia (e se for só isso?), desespero (e se isso acontecer de novo?).

Mas mais do que isso, me enchia de vontade – assim mesmo, no intrasitivo. Não vontade de viver ou vontade de estar numa boa ou vontade de que tudo passasse logo. Simples vontade. Sentir a mão voltando ao normal me fez sentir-me criança de novo, a alegria de aprender, a frustração de não conseguir, a raiva de não passar, a impaciência, as pequenas felicidades do dia-a-dia… Tudo reduzido a uma parte do meu corpo, como uma parábola de mim mesmo e de nós todos.

Falei pro Cardoso e pro Bruno logo depois do acidente, que, na época do Velho Testamento, as referências eram diferentes, o céu se abria, saía uma luz e vinha uma voz. Hoje, depois que a gente viu isso acontecer em milhões de filmes e comerciais de TV, essa imagem não impressiona mais. Mesmo se o céu se abrisse e conversasse com a gente, íamos achar que estamos loucos ou que somos o Neo. E perderíamos o principal da história – a mensagem.

Daí veio um poste, algo bem mais convincente que um anjo ou um alien, me avisar pra viver cada dia, cada hora. De parar de antecipar os erros ou lamentar os acertos. Simplesmente, ir.

Não é o começo nem o fim que importa. É o meio. É agora. Pois, parafraseando e subvertendo meu Marx pessoal: “O meio é a mensagem”.

Diga do jeito que você achar melhor. Eu escrevo.

Gente Bonita no Studio SP

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Enquanto a próxima Gente Bonita não vem, você pode matar as saudades nesta sexta-feira, quando eu e o Luciano invadimos o Studio SP com aquele clima que você conhece. De lambuja, tem o Márvio oficializando o disquinho de sua banda, el Cabaret, e o Giassetti lançando a coleção Mojo Books. Tem lista de desconto site do Studio, corre lá.

Vida Fodona #057: É meio que o meu dia-a-dia

Dose dupla de mashup de Beatles, indie-pop goiano, nova do Z’África, velha do KC, funk remix, pista do MySpace, o hit do finde passado, brinde vitrolista, indiesmo no talo, Lily Allen macia, Kassin surf music e as dicas sobre a cena mashup brasileira.

– “Lady Madonna” – Beatles
– “True School Walrus” – Flying White Dots Staring at the Sky
– “Rapture Rapes the Muses” – Of Montreal
– “Nobody Moves, Nobody Gonna Get Hurt” – We Are Scientists
– “Da Quebrada, a Vida é Rara” – Z’África Brasil
– “Montagem Cruel” – Bonde dos Carecas
– “Bonus” – X-Ectuoneers
– “Passion” – Killing Chainsaw
– “For Myself” – Grape Storms
– “Indian Maracas” – PELVs
– “Everything’s Just Wonderful” – Lily Allen
– “O-Hot Brain (Original Mix)” – Onetwo
– “Discotech (Weird Science Remix)” – Young Love
– “Homem ao Mar” – Kassin + 2

Tó.

We’re all one

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Coluninha da Simples nova, que tá na banca agora…

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Todos, um só

“Conjuntos com guitarras já eram”, disse um executivo da gravadora Decca ao dispensar ninguém menos que os Beatles. É muito fácil rir disso depois que os Beatles se tornaram um fenômeno, mas como ele poderia prever? Era uma época em que os principais artistas do planeta eram trovadores solitários, vozes ou instrumentistas que imprimiam seu próprio nome de batismo (ou pseudônimo) como marca na capa de um disco, no cartaz de um show, nos créditos do cinema.

Então, qual credibilidade de um grupo com quatro pessoas que preferia esconder seus nomes de verdade atrás de um rótulo que nem é um nome de verdade? Podia ser um trocadilho de besouros com ritmo ou qualquer outro nome, podia ser os Beatles ou qualquer outro grupo. É muito pouco provável que qualquer outro executivo de gravadora achasse aquilo uma grande sacada. Tanto que a gravadora que contratou o grupo mais tarde, a EMI, não foi atrás – foi preciso muita insistência do empresário da banda, Brian Epstein, para que a banda fosse ouvida e concessões tiveram que ser feitas (a mais notável foi a saída de Pete Best para a entrada de Ringo Starr).

O trunfo da visão é todo de Brian. Foi ele quem viu quatro moleques fazendo barulho num porão decadente de uma cidade portuária do norte da Inglaterra e viu algo fora do comum. Não eram as composições, mesmo porque boa parte do repertório deles eram versões de músicas americanas. Não era a aparência, pois eles pareciam – e eram – moleques proletários posando de bad boys do cinema. Não era a técnica nos instrumentos – crua, rústica –, os arranjos – pobres – ou mesmo o carisma com o público – que era inegável.

O que clicou Brian era o fato de que os quatro não se comportavam como quatro pessoas, quatro indivíduos. Mas como uma gangue. Como um grupo, como uma unidade só. Essa talvez tenha sido a grande revolução dos Beatles não seja musical – e sim comportamental. Melhor e mais divertido.

Depois eu falo mais disso.

Um mais um

Ah sim: hoje o Sujo completa onze anos. Não que isso seja de importância pra alguém além de mim, mas enfim, taí o registro. Onze anos, que coisa…

300 Filmes

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Chegou nas bancas no finde passado (primeiro Rio e SP, depois o resto do Brasil) o guia 300 Filmes para Ver Antes de Morrer, mais um frila com a chancela de qualidade Trabalho Sujo. E não só a minha: o livro foi editado ao lado do Maron e tem textinhos de bambas como Fred Leal, Vladimir Cunha, Dafne Sampaio e Arnaldo Branco. Aqui tem uma pagininha não-oficial com alguns exemplos de páginas e dando uma geral no livrinho que, custando 20 pilas, é, fácil, o melhor guia de filmes publicado em bancas de jornal no Brasil.

Everyday is like Sunday

Eae, se eu passei por você ontem no Nokia e pareci fingir que não te vi, liga não – noite daquelas, cê manja, mal aê. Curti bem o We Are Scientists, não esperava metade – o resto, mal lembro. Lembro das minhas lombadas de livro, na TV do meio, da fila de cima. E hoje, só pra constar o post, tá o link pro podcast da Bizz em que eu falo da matéria de capa, ampliando uns temas que ficaram pela metade na revista.