Um mais um
Ah sim: hoje o Sujo completa onze anos. Não que isso seja de importância pra alguém além de mim, mas enfim, taí o registro. Onze anos, que coisa…
Ah sim: hoje o Sujo completa onze anos. Não que isso seja de importância pra alguém além de mim, mas enfim, taí o registro. Onze anos, que coisa…
Chegou nas bancas no finde passado (primeiro Rio e SP, depois o resto do Brasil) o guia 300 Filmes para Ver Antes de Morrer, mais um frila com a chancela de qualidade Trabalho Sujo. E não só a minha: o livro foi editado ao lado do Maron e tem textinhos de bambas como Fred Leal, Vladimir Cunha, Dafne Sampaio e Arnaldo Branco. Aqui tem uma pagininha não-oficial com alguns exemplos de páginas e dando uma geral no livrinho que, custando 20 pilas, é, fácil, o melhor guia de filmes publicado em bancas de jornal no Brasil.
Dica do Fred: edição é tudo.
Eae, se eu passei por você ontem no Nokia e pareci fingir que não te vi, liga não – noite daquelas, cê manja, mal aê. Curti bem o We Are Scientists, não esperava metade – o resto, mal lembro. Lembro das minhas lombadas de livro, na TV do meio, da fila de cima. E hoje, só pra constar o post, tá o link pro podcast da Bizz em que eu falo da matéria de capa, ampliando uns temas que ficaram pela metade na revista.
Agora agüenta: me arrumaram uma câmera preu fazer um videolog. Detratores, detratem-me. Picaretagem, pós-intelectualismo ou artsy-fartsy? Eu voto nas três, claro. Who cares: filmei umas lombadas de livros, botei umas músicas de BG e fiz dez filmes que vão ser exibidos hoje, no stand do Resfest do Nokia Trends. Aliás, quem vai?
A princípio, tudo indo…
– “Palco” – Gilberto Gil
– “Mamãe Virei Capitalista” – João Brasil
– “Long Distant Call (25 Hours a Day Remix)” – Phoenix
– “A La La (Bonde do Rolê Mix)” – Cansei de Ser Sexy
– “Zombie” – Azymuth
– “Regret” – New Order
– “Borrowed Time” – John Lennon
– “Promiscuous (Silk Remix)” – Nelly Furtado
– “69 Police (Four Tet Remx)” – David Holmes
– “Whoo! Alright, Yeah… Uh Huh! (Simian Mobile Disco Remix)” – Rapture
– “Rock You Girl (Mark Ronson Remix)” – Justin Timberlake
– “Monster Hospítal (MSTRKRFT Remix)” – Metric
– “Toop Toop (Martin Eyerer Remix)” – Cassius
– “Waiting for My Man (Backstage Sluts Remix)” – Velvet Underground
– “Back to Discos” – Loto
– “Hábitos Delinqüentes” – Autônomo
– “Within You Without You/ Tomorrow Never Knows” – Beatles
Sabadão na Ilustrada, depois de uma quinta no far east da ZL…
Convidado para retratar a metrópole na série Cidades Ilustradas, quadrinista visita locais inusitados; “tenho a obrigação de entender a cidade como um todo”, diz o ilustrador de “V de Vingança”, que participa de evento hoje na Fnac
“Você já reparou que os carros em São Paulo são pintados de preto, branco ou cinza?”, pergunta-me David Lloyd em frente à subprefeitura da Cidade Tiradentes, a região mais leste da Zona Leste de São Paulo. Um dos autores da minissérie “V de Vingança”, o inglês de 56 anos – olhos pequenos, caminhar relaxado – passeia pela cidade até o próximo dia 3, enquanto vai dos lugares mais improváveis de São Paulo aos mais corriqueiros, entre eles uma sessão de autógrafos que acontece hoje na Fnac Pinheiros e um bate-papo na próxima segunda-feira, na Universidade Mackenzie.
O motivo da passagem é que Lloyd será o autor do sétimo volume da coleção Cidades Ilustradas, da editora Casa XXI, que já publicou edições dedicadas ao Rio de Janeiro, Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e as cidades históricas de Minas Gerais, vistas pelos olhos de quadrinhistas nacionais e estrangeiros – entre os últimos, bambas como o francês Jano – autor do rato punk Kebra -, que fez o Rio, e o espanhol Miguelanxo Prado – da graphic novel “Mundo Cão” – que desenhou a capital mineira.
Num calor de quase 40 graus, o desenhista não se abala e fotografa de vez em quando, sem nunca fazer rascunhos ou desenhar nada, só anotações mentais. “Eu sou inglês, meu caro. Nós não nos importamos. Quanto mais difícil, melhor”, ri.
A convite da editora, Lloyd aceitou o desafio de fazer São Paulo. “A única vez que havia vindo ao Brasil foi em 2003, quando vim para o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte e passei pelo Rio, rapidamente. Não conheci São Paulo. Por isso, o convite é uma espécie de desafio. E como é um trabalho também – tenho prazo, salário -, eu tenho a obrigação de entender a cidade como um todo, ir além do turista e do artista. Se fosse um trabalho autoral, eu não teria a necessidade de falar de tudo. Eu podia contar a história de uma pessoa, de um bairro. É como se eu fosse para uma floresta e desenhasse apenas uma folha. Ainda é a floresta, mas não é ela inteira”.
A comparação de São Paulo com uma floresta suscita outras impressões que a cidade passou para o artista. “O Roberto (Ribeiro, editor da Casa XXI) me pediu para fazer o livro em preto e branco, com algumas referências de cor, aqui e ali. Mas, além das cores dos carros, o que me impressionou foi o contraste entre o cinza e o verde”, continua. “O cinza é muito mais presente do que em Londres, Nova York ou outras grandes cidades pelo excesso de concreto que se usa nas obras – e como esse concreto fica à mostra”.
“Já o verde vem em todos os lugares. Tudo bem, São Paulo é uma cidade poluída, mas há verde por toda a parte, muito mais do que em qualquer outro lugar deste porte. E o verde funciona como uma metáfora para as pessoas, que parecem aparecer de todos os lugares. Existem duas regras que parecem explicar a cidade: os pobres só têm aquilo que os ricos deixam eles ter e os pobres tomam à força o que eles querem ter. O equilíbrio entre estas duas forças, que dá origem a estas casas feitas de papelão, embaixo da ponte e a comunidades pobres enormes, dá o tom da cidade”.
Lloyd já passou por pontos óbvios da cidade – como o bairro da Liberdade e o Terraço Itália -, mas também visitou pontos distantes do dia-a-dia do paulistano, como a Cratera da Colônia, no extremo sul da cidade, onde uma comunidade de 20 mil pessoas mora num buraco formado pela queda de um meteoro. “É uma cidade com muitos contrastes, muita variedade de tudo – comida, música -, mas não é isso que faz São Paulo diferente das outras metrópoles. Seria diferente se não tivesse. Há um otimismo recorrente nas pessoas, independente de como elas vivem, e ao mesmo tempo um olhar de resignação. E há um fascínio incrível por carros!”.
Mais que o desenhista de “V de Vingança”, Lloyd foi co-autor da minissérie que virou filme dos irmãos Wachowski – foi dele a sugestão de colocar um bandido contra o estado, de dar um clima cinematográfico à obra e de não usar nem balões de narração, de pensamento ou onomatopéias na história. Ao contrário do outro autor, o venerado Alan Moore, Lloyd não se incomodou com a adaptação para o cinema e manteve seu nome no filme. “A essência da série está ali. A história é outra, afinal de contas, é um filme”, ele dá de ombros. David também aproveita a vinda ao Brasil para negociar o lançamento no país de sua nova série, “Kickback”.
Sessão de autógrafos com David Lloyd
Hoje, às 16h
Local: FNAC Pinheiros (av. Pedroso de Moraes, 858. Pinheiros)
Encontro com David Lloyd
Data: 27 de novembro, segunda-feira, às 20h
Local: Universidade Mackenzie (Rua da Consolação, 930)
Entrada franca

Coluninha na Trip, pá-pum, se liga…
***
Dois em um
“For Those About to Clown” – DJ Riko
O produtor francês pegou o riff básico de “For Those About to Rock” do AC/DC, uma virada de bateria tocada pelo John Bonham do Led Zeppelin e o vocal emocionado de Smokey Robinson cantando “Tears of a Clown” e fez uma música cool e enxuta, com cara de rock arena dos anos 80 bem feito – e pop até dizer chega.
“Sleeping” – CCC
Uma das pérolas centrais do disco Revolved, em que o produtor inglês Chris Shaw, funde o clássico disco dos Beatles de 1966 com hinos de diferentes épocas da história do pop. Essa joga o vocal de “I’m Only Sleeping” sobre a base trip hop do Portishead em “Glory Box” (por sua vez, tirada de “Ike’s Rap”, de Isaac Hayes), acrescentando cítaras de “Within You Without You” e os animais de “Good Morning, Good Morning”, duas faixas do Sgt. Pepper’s.
“Only Ur Lullaby” – Team9
A base galante e sinuosa do Cure em “Lullaby” funciona como base para os vocais da musa menor R&B Ashanti soltar sua “Only U” – criando, assim, uma música inteiramente nova – densa e suave, doce e amarga, indie e soul na mesma medida. Brilhante.

E na Ilustrada de hoje…
Beatles animam Cirque du Soleil
Produtor George Martin cria “Love”, um ótimo mix de samples que é trilha para novo espetáculo da trupe; álbum, que ganha lançamento mundial, repassa a história da banda com colagens sonoras de diferentes músicas
Eis a premissa, prepare-se para erguer as orelhas: nem Paul, nem Ringo, nem Yoko participaram efetivamente do novo produto que leva a chancela oficial dos quatro de Liverpool. O novo disco com o nome do grupo, que chegou às lojas do mundo inteiro esta semana, mais do que uma coletânea é um, er… “medley” gigantesco, em que Sir George Martin e seu filho Giles repassaram a carreira da banda como trilha sonora do novo espetáculo do grupo canadense Cirque du Soleil encenado em Las Vegas. Dá pra ver os olhos dos fãs se arregalarem num silêncio assustado e o sorriso malicioso dos chatos antibeatles crescer. Sabemos o quanto os Beatles podem ser piegas – principalmente, postumamente – e qualquer um está fadado a pisar na lama do fundo do poço.
Desfaçam a expressão – não foi agora. Com “Love”, o mais novo CD do grupo, os Beatles mais uma vez fazem jus à sua fama de topo do pop e acrescentam mais uma cotação máxima à sua estrelada carreira fonográfica. Com pouco mais de uma hora e vinte e seis faixas que reúnem trechos de nada menos que 130 canções do grupo, George Martin deixou de lado obviedades como temas orquestrados, regravações com novos intérpretes e novas composições para fazer uma homenagem à altura do legado do grupo formado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.
É um conceito incrível e mais incrível é a forma como ele funciona. “Love” é uma sinfonia de samples de diferentes fases da carreira do grupo, que entrelaçam canções umas às outras, criando um fluxo coeso de sentimento e informação. É o conceito de mashup que parte de um dos agentes do principal movimento cultural do século vinte, depois desta cultura de colisões musicais já haver flertado com os quatro de Liverpool em inúmeros bootlegs avulsos e discos inteiros, sendo o infame “Grey Album”, do DJ Danger Mouse (vocais do “Black Album” de Jay-Z sobre instrumentais do “White Album” dos Beatles), seu principal exemplar.
O resultado é inacreditável. Com maior ênfase no período posterior a 1966, quando os quatros desistiram de fazer shows ao vivo para dedicarem-se e existirem apenas nos sulcos dos discos do vinil, “Love” é a versão de Martin para o “Anthology”. Em vez de simplesmente revisitar os arquivos da banda ou tratar em estúdio com qualidade superior (o que também acontece neste disco, mas não é o principal atrativo), o produtor de todos as gravações do quarteto – um dos poucos seres vivos a ter o título de “quinto beatle” – resolve interferir no passado, “retocar a Mona Lisa”. Sim, ele opta pela heresia, reinventando músicas do grupo ao fundi-las umas com as outras.
Não podia ter sido mais feliz. Para quem gosta de cultura pop, “Love” é “a” aula sobre Beatles para ser dada aos iniciantes e uma cápsula do tempo sobre a importância do histórica do grupo. A base de “Tomorrow Never Knows” serve de apoio para o vocal de “Within You Without You”, ressaltando a influência indiana na psicodelia. “Strawberry Fields Forever” passa por suas diferentes versões – da demo ao violão à versão final – em um só take, numa clara homenagem ao passo mais ousado do grupo. “For the Benefit of Mr. Kite!” descamba na segunda parte de “I Want You (She’s So Heavy)” e o violão de “Blackbird” serve como introdução para “Yesterday”; o solo de “Taxman” entra em “Drive My Car”, o final de “Come Together” se mistura ao de “Dear Prudence”. Exemplos felizes destes transplantes musicais estão por todo o disco.
Já para o fã dos Beatles, o disco é um sonho. Não importa o quão brega (ou não) seja o musical circense, com personagens das canções se juntando à história da banda. Sozinho, a trilha é uma montanha-russa de sensações novíssimas, criadas a partir de velhos sabores. No imenso mashup de pai e filho Martin, os Beatles não só surgem como o principal legado cultural do século passado, mas como visionários sônicos, que abandonaram a performance ao vivo para abraçar as infinitas possibilidades do som gravado – abrindo uma fronteira cuja exploração assistimos até hoje.