Cris Dias
Nessa, o Cris Dias fala sobre o então recém-criado Toplinks, que não existe mais.
***
Entrevista publicada em 29 de julho de 2002
Com seu Toplinks, Cris Dias quer saber o que se passa na cabeças dos blogueiros brasileiros
O webdeveloper Cristiano Dias, 29 anos, tem histórias para contar: administrador de um dos fóruns de discussão de notícias sobre TI no Brasil (o Idearo), ele foi trabalhar com internet nos EUA no mês em que a bolha pontocom estourou e sai de lá no mês seguinte aos atentados ao World Trade Center. Teclando do Canadá, ele dá um passo ousado e importante. Com o Toplinks, ele quer rankear os assuntos mais comentados nos blogs brasileiros. É a versão nacional para o já obrigatório Blogdex, mas vai muito além de um Herbert Richers eletrônico – a idéia é mapear as áreas de interesse da comunidade blogueira do país, coletivo que tem no próprio Cris um de seus pioneiros. Conversei com o cara e segue o bate-papo que tivemos, via ICQ, hoje (29/07) à tarde – logo após ele ter oficializado o lançamento do Toplinks em seu blog.
PLAY – Quando começou a sua relação com a internet?
Dias – Xi 🙂 Bom, eu uso internet desde… hmmm… Eu tenho e-mail desde 1995. Eu fazia FTP via e-mail e tudo. Uma coisa levou à outra e comcei a fazer sites profissionalmente por volta de 1997. Em 1998, lancei o MegaTV, site sobre TV por assinatura. E em 2000, fui contratado por uma empresa americana como webdeveloper, por isso tive que tirar o MegaTV do ar.
PLAY – Foi seu primeiro trabalho “autoral” na rede?
Dias – O primeiro, o único que foi ao ar, foi o site de uma loja de bolsas, carteiras e artigos de couro em geral, Zélio. A versão atual não é minha.
PLAY – Você parou com o MegaTV por que não tinha mais tempo para colocá-lo no ar?
Dias – Pois é, não tinha tempo de atualizar e os planos de ficar milonário falharam 😉 A “equipe” do MegaTV era a minha famÌlia. Minha mãe começou a usar computador naquela Época e hoje tem blog e tudo 🙂 Eu trabalhava meio-expediente numa ONG, o Comitê pela Democratização da informática e no outro meio expediente cuidava do MegaTV. PLAY – O que você fazia no CDI?
Dias – Eu era “coordenador de informática”. Fazia todo o trabalho de programação de sistemas internos, dava umas aulinhas. Cuidava de tudo, menos da parte de montar computadores para as comunidades.
PLAY – E aí você virou webdeveloper…
Dias – Em outubro de 1999, eu recebi a proposta para vir trabalhar nos EUA, para a RunTime Technlogies. Meu visto de trabalho demorou seis meses pra sair, só me mudei em abril de 2000. Fui de mala, cuia e gato siamês para NYC.
PLAY – Justo quando a bolha da internet estourou…
Dias – Mas como a empresa em que eu trabalhava não tinha ações na bolsa, ela não foi afetada de cara. Ela só sentiu o baque mais pro fim do ano, com os investidores segurando o dinheiro e os clientes parando de contratar serviços. Mas até o fim do ano era tudo maravilhoso, refrigerante grátis, partidas de DreamCast no fim da semana. Depois de dezembro, as coisas começaram a piorar.. Mandaram gente embora e o baixo astral tomou conta da empresa. Como eu tinha visto de trabalho, se fosse mandado embora tinha que voltar para o Brasil. Então comecei a procurar outro emprego por simples insegurança. Além disso a empresa fazia um software para gerenciar sites, não era um site de conteúdo que vivia de publicidade.
PLAY – E você chegou a mudar de emprego?
Dias – Então, rolava aquela esperança de que não seríamos atingidos. Mudei de emprego em abril de 2001. Fui para uma empresa que rodava um serviço de B2B. a empresa se chamava eMarketplaces e fazia ponte entre exportadores de Taiwan e empresários americanos. A Runtime continuou mandando gente embora, mas eu já estava na outra. Mas nenhum investidor ainda tinha coragem de botar dinheiro. E… Eis que os investidores chineses da emarketplaces resolveram tirar o corpo fora. E a empresa fechou total.
PLAY – E você foi para a rua.
Dias – Eu e todo mundo. Em 2001, ninguém contratava nada, mas rolava uma esperança de que o plano de choque do Bush ia trazer a economia de volta. Mas estava num ponto em que ninguém mais contratava. E eu, com visto temporário, sem chance. Para contratar gente com visto temporário, rola uma baita burocracia e algumas taxas – então, sem chance. Tentei uma última cartada: Canadá. Antes de ir para os EUA, meus planos eram ir para o Canadá, onde a imigração é incentivada. Mas com o boom pontocom era simplesmente mais fácil arrumar emprego nos EUA. Mandei currículo pra praticamente todas as empresas de webdevelopment no Canadá e recebi UMA resposta positiva, de uma empresa de Winnipeg. Que é onde vim parar: cheguei aqui em outubro de 2001 🙂 A empresa é a Mars Hill Group que “faz websites” 🙂 Eu fechei com a empresa em agosto, mas demorou um pouco para processar papelada, etc.
PLAY – E aí vieram os atentados…
Dias – Foi quando me tornei “blogueiro celebridade” 🙂 2000 acessos em um dia. Eu tava desempregado e morava em Nova Jérsei. Tipo uma hora do ground zero. Já estava nos preparativos para me mudar pro Canadá. No dia, eu ia ver um carro pra comprar e meu pai ligou e disse: “Tudo bem aí? Viu que dois aviões se chocaram com as torres gêmeas?”. E eu, com sono, só conseguia pensar: “Tem que ser muito mané pra bater no WTC”. Liguei a TV, fui pro computador e começou a chover gente que eu nunca tinha visto no ICQ.
PLAY – Tinha teu uin no teu site?
Dias – No meu profile, do ICQ, tinha q eu trabalhava em Nova York.
PLAY – Jornalistas ou curiosos?
Dias – Curiosos, gente falando espanhol e o escambau: “Qué pasa?”.
PLAY – E como você reagiu ao atentado?
Dias – A primeira reação foi de choque e revolta. Mas depois eu comecei a ver a reação dos americanos e comecei a ficar revoltado com aquilo. Tipo: “O que nós fizemos? Por que nos odeiam?”. E comecei a entender o papo que americano é bitolado. Meu erro foi começar a ler blog direto sobre o assunto. Os meus amigos de NY sabiam exatamente o que estava acontecendo, mas o “americano padrão”, não. Foi um erro, porque eu vi uma versão meio aumentada da estupidez americana. Nem todo mundo pensava daquele jeito, mas era o que eu lia. Comecei a me revoltar e partir pra ofensiva até nos textos do meu blog. De repente, eu havia esquecido que quatro mil “vizinhos” haviam morrido. Esquecido que eu ia no WTC quase todo dia. Mas eu saí dos EUA menos de um mês depois, já estava com tudo arrumado.
PLAY – Como começou seu blog?
Dias – Comecei a blogar nos EUA. Um cara do trabalho, Calvin (um coreano que se mudou para os EUA ainda moleque) me mostrou o dele e, na época, blog era sinônimo de link, não de “querido diário”. Eu achei legal, porque eu sempre mandava e-mail para os amigos com links legais, opiniões etc. Então o blog seria a ferramenta ideal. Logo depois, achei um site que listava blogs de todo o mundo, achei o do Zamorim e, lá, achei vários outros. O blog acabou sendo a minha maneira de me manter em contato com o pessoal no Brasil, o “chopp com os amigos”.
PLAY – Já no Crisdias.com?
Dias – O domínio mesmo, veio um pouco depois. Eu hospedava a conta no meu provedor, mas a URL era tão grande que resolvi registrar o domínio.
PLAY – Então você é dos tempos pré-blogger. Como viu o crescimento posterior da ferramenta?
Dias – Eu achei muito legal. O Blogger, acima de tudo, me mostrou que é possível ter uma ferramenta de publicação tão fácil que até a minha mãe pode usar. Como eu faço sistemas de “gerência de conteúdo”, comecei a prestar atenção em certas coisas, ao desenvolver os sistemas.
PLAY – Mas em seguida vieram os blogs “querido diário”…
Dias – E as pessoas meio que se voltaram para dentro. Eu gostava de colocar links para notícias no meu blog e dizer “eu concordo, eu discordo”. Tanto que a área de comentários do meu site é fundamental. Troca de idéias. De repente, todo mundo começa a achar que blog é lugar para falar sobre a vida… É engraçado, todo mundo vivia com medo de ter seus diários publicados na internet e de repente sai contando tudo da vida… Eu acho que se você escreve um “querido diário” contando suas experiências é válido. Tipo, “fiz isso e isso e quebrei a cara, não é uma boa”. Uma troca de experiências. Ou então, como me disseram uma vez, para mostrar às outras pessoas que elas não são as únicas neurótico-deprimidas do mundo. Mas tem gente que simplesmente relata a própria vida. “Hoje fui no shopping e tava lotado”. Caramba, e daí?
PLAY – E como foi ver crescer, de fora do Brasil, a rede das celebridades blogueiras?
Dias – Eu acho esse lance de celebridades até engraçado. Converso todo dia com boa parte dessas tais celebridades. É tudo gente normal que se tornou celebridade por link-a-link. E serve pra mostrar que tipo de blog o pessoal gosta de ler. Os blogs mais linkados acabam sendo os mais pessoais, como a Zel e ou a Lia Caldas.
PLAY – Olhando de fora, quem é o blogueiro típico brasileiro?
Dias – Antes do blog a gente dizia que as pessoas só usavam a internet para e-mail e chat, certo? Então: esse é o blogueiro-padrão… Ele praticamente não lê sites de notícias… O blog é um “ICQ público”, se quiser chamar assim. Mais uma ferramenta para se “socializar”. O blog é uma continuação do ICQ. Da mesma maneira que antes entrava no ICQ e dizia “oi, quer tc?”, com blog é “ei, gostei do seu blog, passa lá no meu…”.
PLAY – Isso é bom ou ruim?
Dias – Pra mim, isso não acrescenta nada. Não é ruim, mas não é pra isso que eu leio blog. Não me interessam as vidas dos blogueiros, me interessam as idéias. Não me interessa se o cara terminou com a namorada. Pode me interessar saber o que ele acha disso, o que ele acha de relacionamentos. Mas, na verdade, estou mais interessado em blogs que falem mais do mundo e menos dos autores. Minha mãe, por exemplo. O blog dela não é “pessoal”, ela fala das coisas que vê por aí. Então isso fez com que ela usasse mais a internet para procurar mais coisas pra colocar no blog. Outro “perigo” dos blogs é a esculhambação da língua portuguesa. Neguinho escreve altas atrocidades (meu exemplo preferido é o “naum”) e acaba virando certo falar assim. Uma coisa é linguagem informal, outra coisa é falar errado. Dizem que para escrever bem você tem que ler bastante. Mas e se eu ler um monte de coisa errada? Eu não sou professor de português; eu erro, falo palavrão, mas pelo menos eu tento falar direito.
PLAY – Mas ao mesmo tempo, as pessoas vão se acostumando às tags e à terminologia da rede…
Dias – Será que vão se acostumando? Pra escrever que foi ao shopping, o cara não precisa saber HTML. Ele não linka. O máximo que faz é colocar uma imagem bonitinha que viu…
PLAY – Mas isso não é um começo? Ou melhor: não é o começo da vida digital do sujeito?
Dias – Começo da vida digital, isso é. Eu acho que todo mundo deve ter um blog. Não acho que blog é só pra uma elite, não, e escreva o que quiser. Eu só estou dizendo o que me faz voltar e ler um blog de novo. Eu tenho 29 anos, não 19 🙂
PLAY – E o que você acha da Globo usar o Blogger como tática para crescer no Brasil?
Dias – Eu acho uma jogada de mestre. Antes de mais nada mostra que a Globo é mais séria do que outras empresas que tentaram copiar o Blogger sem “dar nada” ao Ev (isso do cara que copiou o blogdex, ehehe). O Globo.com tá cheio de gente boa, que entende da coisa. Se a coisa funcionar direito, sem eles ficarem querendo se intrometer nos blogs dos outros, vai dar certo.
PLAY – Mas junto a que público? Isso não é uma tendência para que surjam mais “diários”?
Dias – Vào surgir mais diários, sim. Diário não é problema. O problema é dizer “se você não tem blog, tá out”. Uma pessoa só deve ter um blog se acha que tem algo a dizer (não interessa se o que se tem a dizer é bom ou não, mas o fato de estar botando a boca no mundo). Mas ainda sobre o lance da jogada de gênio. Se o Globo.com pegasse e fizesse “um blogger”, não ia adiantar. o Blig e o Weblogger tão aí pra provar. Mas eles pegam “o” Blogger. A marca mais famosa. E assimilam. Fora que devem estar pegando a base de usuários. No Blogger, você diz em que idioma o blog está, então deve estar vindo um email aí “ei, quer mudar para o Blogger.com.br?”.
PLAY – Ou melhor: “a sua URL a partir de hoje é .com.br”… Mas o primeiro blogueiro do Blogger brasileiro é o Tarcísio Meira. Há sintonia nisso?
Dias – Talvez esse lance da novela seja para levar o blog para quem não conhece. Mais fácil do que ficar explicando o que é. “Sabe aquele site do vampiro? Então, aquilo é um blog”. A força da Globo sempre foi o marketing cruzado. Coisa totalmente comum aqui na América do Norte mas que o pessoal torce o nariz porque é a Globo.
PLAY – E o Idearo, como comecou?
Dias – O Idearo era um fanzine que só teve uma edição 🙂 Foi inventado pelo Alexandre Maron, em papel. Mas sempre rolou a idéia de fazer alguma coisa online. O mote do Idearo é “para quem sabe não sabe de tudo”. Não somos os donos da verdade. Você não precisa concordar comigo para publicar lá e eu vou lá ver o que você acga e tentar assimilar a sua opinião.
Então quando eu vi coisas com o Slashdot e kuro5hin eu falei “é por aí”. O Idearo ia ser “o blog do Cristiano mais o Maron”, mas a gente tinha que abrir pra todo mundo. É só ir lá, criar um usuário e mandar um texto., Aliás, por isso que anda parado, o povo não tem mandado texto. E nós dois meio que desanimamos.
PLAY – E como é o feedback? Quem é o público? Qual o número de acessos/dia?
Dias – Bom, aé é que eu acho que está um dos problemas do Idearo. O público acabou sendo “a comunidade blogueira”. Então pra que mandar texto pro Idearo se eu tenho meu blog? Meu sonho era o Idearo ser o No.com.br “do povo”, artigos “opinativos” de qualquer um, não precisa ser “intelectual” pra escrever lá. Os acessos hoje são por volta de 100 pessoas/dia, praticamente todo mundo vindo de Google, etc.
PLAY – E quem bate no site, volta?
Dias – Voltar, volta. Mas o Idearo tem uma coisa engraçada… Praticamente ninguém bota comentário. Eu senti que o pessoal fica meio “intimidado” com o site. Já me contaram isso, blog È “informal”. O Idearo ficou sisudo, ficou meio com cara do No.com.br, mesmo. Talvez a dificuldade seja que esse publico vá “direto na fonte” dos sites em inglês. Por isso, inclusive, a idéia de ter um “blogdex nacional” que fale do Paulo Coelho na ABL ao invés de falar do novo plano do Bush.
PLAY – O Toplinks é sobre “assuntos” nacionais ou com blogueiros brasileiros?
Dias – Blogueiros brasileiros, o que (eu espero) deve levar a assuntos nacionais. Teoricamente as pessoas vão linkar para assuntos que lhe interessam. E o novo plano do Bush não interessa TANTO assim a ponto de colocar o link no site.
PLAY – E quando você teve esta idéia.
Dias – Comecei algumas semanas depois deste post. Fiz o robozinho e deixei ele lá, catando os sites. Fazer massa crítica de links. Aí algumas semanas atrás fui ver no que tinha dado 🙂
PLAY – E começa oficialmente hoje?
Dias – Começa hoje. Algumas partes do processo ainda estão manuais pra que eu possa ver se estão funcionando direito.
PLAY – E quais os planos pro futuro? Alguma idéia mirabolante na manga?
Dias – Vem aí a lista “alltime” que vai dizer que o Catarro Verde é o blog mais linkado da internet.br 🙂 E a versão RSS do Toplinks. O próximo projeto é um site meio Idearo, meio blog… Um Idearo informal… Meio metafilter, meio fark… Um metafilter que se leva menos a sério e um fark sem “boobies” 🙂 No fundo é um blog, o projeto eu faço sozinho, mas todo mundo vai poder escrever.

