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Imagine uma festa

Outro texto velho, que eu resgatei da edição 224 do Cardosonline. A data é 17 de dezembro do ano 2000.

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Imagine uma festa. Uma casa espetacular, de frente para um lago imenso, umedecendo o calor de uma noite de verão. Iluminação discreta e eficiente – lá fora, tochas fazem o caminho ao redor do lago; dentro, pequenos spots colorem as esquinas dos seis ambientes da casa. Na entrada, uma banda instrumental recepciona os convivas com versões supimpas para sucessos da Jovem Guarda e do samba rock. O hall é grande, é o ambiente mais iluminado (com cores pastéis) e está lotado – o som da banda se confunde com o bater dos copos, a falação, as risadas. As pessoas se circulam passando umas pelas outras, enquanto alguns casais se encostam nos três sofás de costas para o bar. “Dá uma passeada antes de escolher um lugar pra ficar”, recomenda um cara que você não lembra de onde conhece, mas sabe que é gente boa. Então tá. Da entrada, cinco opções: ou seguir um corredor à direita que dá nos fundos da casa, ou subir uma escada à esquerda que vai para o segundo andar, ou descer uma escada do lado da porta do corredor que vai para o porão, ou sair pela porta à direita da casa ou continuar indo reto, entrando pela porta principal entre o hall e o salão principal.

Vamos seguindo o fluxo – em frente. Estamos num enorme salão, teto alto – isso aqui devia ter dois andares e derrubaram o segundo para ficar dessa altura. É isso aí, olha ali a escada da esquerda, com um segundo lance para o terceiro andar. A iluminação é de rave, mas o som é bem diferente – cinco carinhas se acabando num palco baixo numa mistura pesada de funk e jazz que se perde num improviso tribal instrumental. Dois baixos – e olha só o que aquele sujeito tá fazendo com o instrumento! Todo mundo está completamente hipnotizado pelo som, a esfregação passou para um nível ainda mais baixo – mas todos se tratam com respeito e bom humor. Lá de cima, um sujeito de barba branca distribui baseados, pílulas, cartelas e tíquetes vale-bebida. No meio da festa, uma enorme piscina cercada por uma parede de vidro – quem quiser pular, que suba para o terraço. As pessoas ficam só assistindo os malucos se jogarem do alto. A cada dois passos, você vê um conhecido, um velho chapa, um daqueles caras que você sempre vê à noite, um caso antigo, a namorada do cara daquela banda. Um dos patrocinadores garantiu uma fonte de drink energético – é só chegar e beber. Outro colocou uma dúzia de loiraças distribuindo garrafinhas de uísque. Tá todo mundo louco – oba.

No fundo do salão principal, outra escada vai para o porão. Depois de uns três lances de pedra para baixo – cada degrau nos afastando mais do som do térreo -, chegamos num hall menor, com a entrada supervisionada por dois porteiros gigantescos. Educadamente, eles abrem as enormes portas de madeira maciça e nos deixam passar para o inferninho clubber, dividido em duas pistas – à direita é a pista de house, do outro lado a drum’n’bass. O primeiro lado, parece um clipe do Right Said Fred, com fortões de todos os tipos se bolinando no ritmo. Claro que não é só isso – há aquelas mulheres que adoram gays e até casais que se acham moderninhos (olha aqueles dois coroas ali, tão claramente se divertindo). A outra pista é menos homogênea e todo tipo de gente se espreme enquanto o DJ cutuca os graves do jungle com baterias de escolas de samba ou os tambores de blocos afro. De vez em quando, o cara quebra um pouco a porrada e coloca um lado mais jazzy, com ênfase na bossa nova, deixando escapar frases conhecidas do imaginário musical popular brasileiro entre os telecotecos dos breakbeats. No meio das duas pistas, a piscina do andar superior, ainda com as paredes de vidro e os malucos do terraço explodindo silenciosamente quando caem na água – muitos sem noção do que vão ver debaixo d’água.

Ao fundo da pista de drum’n’bass, quase do lado do DJ, uma placa aponta – “venha descansar aqui”, mostrando a entrada para um corredor escuro. Ao seu lado, uma escada trazia gente de um andar acima que entrava direto na porta do descanso, como se quisesse repetir a dose. Não custa nada, vamos lá. Andando pelo corredor – uns vinte metros no escuro, com umas três curvas, dá pra ficar meio puto -, chegamos a uma parede final que, tateando-a, descobrimos ser mais larga que o próprio corredor – ou seja, as saídas ficam nas laterais do corredor, só que no sentido contrário. Saímos por uma cortina preta de veludo, daquelas de cinema, e vamos parar num outro corredor, este branco, curvo e bem mais claro, onde poltronas duplas passam desfilando por uma esteira daquelas de aeroporto. “Tão chamando a gente de mala”, brinca um japonês no grupo logo atrás. Acima, um telão mostra pessoas desavisadas escorregando dentro de uma piscina cheia de bolinhas de isopor, saudada por gritos histéricos de drag queens e transformistas. Só pra meter medo. Mas vamos nos acomodando e entrando no tal “passeio de descanso”.

Que parece um parque de diversões com um metrô musical e um home-theater. Vamos andando num corredor cheio de curvas, que nos leva por palcos pequenos, onde bandas de diferentes formatos e estilos tocam músicas “para descansar”. Bandas de indie rock reverenciando Cure, Smiths e Teenage Fanclub, duplas de bossa nova, uma roda de samba, um quarteto de jazz – tem até uma sala com um pianista cheia de livros e jornais. Em cada pequeno palco, uma voz anunciava o conjunto, enquanto a esteira parava e uma placa convidava os passageiros a descer e apreciar a apresentação mais de perto. Em todo show, pelo menos umas dez pessoas se estiravam em sofás, cadeiras de bar e tapetes, descansando com um som mais sossegado. Uma vez fora da esteira, avisa a voz, o passageiro não pode retornar, tendo que sair por uma escada ao fundo de cada um dos pequenos pubs, subindo para um ambiente fechado do lado esquerdo da casa. Lá em cima, uma banda de trip hop à brasileira faz seu show para um monte de gente espalhada em sofás e pelo chão, no canto da festa dedicado realmente ao descanso. Pelo salão, uns três ou quatro equipamentos de áudio e vídeo passam clipes legais de bandas queridinhas, filmes do Kubrick, uns neo-realismo italiano, uns Buñuel…

Cada poltrona daquela esteira tem duas caixas de som de cada lado, fazendo com que o som ouvido vindo do palco seja opcional. Ao final do passeio, uma banda de dixieland irrompe as caixas de som e convida para um baile de swing, enquanto a porta por onde as poltronas continuam seguindo avisam para você entrar por sua conta e risco. Tá no inferno, abraça o capeta. Depois de mais de quinze minutos andando com paradas misteriosas por corredores curvos iluminados por diferentes cores – e sem som -, chegamos numa sala pequena decorada como uma fornalha siderúrgica, cheia de efeitos imitando metal derretido e uns caras desentortando barras vermelhas de ferro a marteladas. Quando as poltronas páram, os caras páram de trabalhar, vão em sua direção e pedem numa boa para que você os acompanhe – e não tem essa de não querer ir, não. É tudo encenação, é tudo seguro – mas que raios esses caras estão fazendo? Eles chegam no que deveria ser o forno principal, apertam um botão, uma luz vermelha se acende, uma porta se abre, um deles pede para que você entre, você entra, ele fecha a porta (e você fica sozinho), as luzes se apagam, o chão desaparece e você começa a escorregar, até cair numa piscina de bolinhas de isopor pequeninhas, daquelas que grudam na roupa, no meio da pista de house. “Uuuh!”, grita um monte de homem com jeito de mulher. Se você correr, quem sabe vê o próprio vídeo filmado na entrada da esteira.

Se você tivesse descido na pista de swing – Glenn Miller, Tommy Dorsey e Squirrel Nut Zippers comendo solto no repertório do DJ que reveza a trilha sonora com a própria big band do baile – e subido para o andar de cima (o do trip hop), teria duas opções de lá: ou voltava para o salão principal, passando por uma sala intermediária onde uma dupla de DJs tocava hits disco, ou subia para o terraço da festa. Lá, uma banda de rock à moda antiga, revive hits desconhecidos com gás, energia e vontade de botar tudo pra fora. O clima é de festa de faculdade, cerveja passando de mão em mão, mesas de totó e pingue-pongue, todo mundo gritando, aquela fumaceira para uns doce para uns azeda, gente virando bebida na garrafa na própria boca ou na cabeça dos outros. O céu, intacto, está estrelado e a lua cresce à medida que a noite passa. No meio do terraço, uma estufa de vidro. Quer dizer, não é uma estufa – é a tal piscina, coberta e fechada com paredes de vidro – só dá pra pular do teto e em queda livre, sem correr o risco de se espatifar nas paredes laterais. O povo sobe numa espécie de trampolim que leva até o meio do teto da tal estufa e, por uma cabina cujo chão se abre quando menos se espera, as pessoas vão caindo dentro da piscina. Sobe e pula quem quer e chega uma hora na festa que tá todo mundo querendo.

São três horas da manhã e a festa está em polvorosa – lá de cima dá pra ver. Me dependuro na escada para ver: na frente da casa, muita gente querendo entrar e entrando, enquanto um tanto de gente prefere ficar na entrada, curtindo as apresentações de maracatu, capoeira e outros percussionistas. À direita, o tal lounge trip hop, todo mundo estirado no chão de tatame, enquanto pessoas saem de portas na parede, subindo dos pequenos palcos espalhados pelo curso do trem-das-poltronas. Atrás, uma enorme tenda iluminada apenas por dentro tem um aspecto de disco voador feito de pano, ainda mais quando ouvimos o som que sai de lá – indistingüível, daqui de cima. À esquerda, um imenso churrasco a céu aberto, com uma banda de samba esquentando a galera. Vamos lá.

Churrascão, coisa fina. Lotadaço, mas todo mundo com lugar pra sentar. Garçons passando com pedaços inteiros de carne e bandejas repletas de bebidas. Todo mundo sendo servido numa boa, pratos inteiro de carne e um gigantesco bifê circular cheio de saladas e outros petiscos (queijos, molhos, docinhos, sobremesas, frutinhas… e um monte de maconheiro ao redor, pegando as coisas com a mão) e no final do lugar, uma banda de samba tocando só clássico e a galera se aglomerando na frente feito um enorme carnaval. Parte do pessoal que está sambando já tirou peças de roupa e o clima vai se tornando cada vez mais hedonista. Coisa de louco.

Saindo para o quintal da casa, nos dirigimos à tal tenda gigantesca, que é dividida em dois ambientes. O primeiro é completamente iluminado e holofotes apontam para buracos na lona, que dão o aspecto intergalático à tenda. Lá, uma banda de technopop canta velhos sucessos new wave e pós-punk, enquanto dezenas de moleques se enfileiram atrás de máquinas de fliperama. No final da lona clara, duas enormes portas nos levam à lona escura, ainda maior que a primeira. No chão, uma espécie de teatro de arena grego, coberto por uma lona que dá ao lugar o aspecto de um circo. Sem iluminação, o lugar só conta com a luz da lua, que entra por um enorme buraco em cima do palco. Na platéia, as pessoas descobrem a utilidade das lanternas que lhes deram na entrada – todas de luz vermelha ou azul. No palco, só música hermética e indecifrável: free funk, krautrock, exercícios de microfonia, improvisos acústicos, eletrônica alien, idiomas recém-descobertos. A saída acontece pela mesma porta da entrada, fazendo nos voltar à tenda das diversões eletrônicas – o que nos dá uma sensação de fim da hipocrisia em torno da salvação chamada de tecnologia.

Voltando à festa, podemos voltar ao churrasco ou ao salão principal. De volta ao começo da festa, um grupo de rap revisita velhos grooves de funk clássico para justificar o calor interior. Pela festa, um monte de gente conhecida, todos se divertindo por todos os cantos. O velhinho aparece na sacada e começa a jogar drogas de novo e a galera se acotovela para pegar unzinho qualquer coisa. O relógio marca cinco e meia, o sol já está dando sinal de vida, mas a impressão é que estamos dias nesta festa. Todo mundo só quer se divertir. Eu também. Vou lá pra cima, mergulhar na piscina. Você não
vem?

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O rock é um coma. Estamos saindo do coma. À medida que os anos 50 passavam, os Estados Unidos conseguiram crescer cada vez mais sua influência no mundo ocidental, com um truque simples: dê conforto às pessoas e elas te aplaudirão. Passamos por uma subseqüente automatização comportamental – eletrodomésticos substituindo atividades caseiras e diversões mundanas sendo vertidas em produto (discos, filmes, parques de diversão, celebridades) para serem consumidos em altares gigantescos ao deus grana (pense nos conceitos de supermercado, shopping center, megastore, loja de departamentos e loja de conveniência para ver como estamos presos à tal religião). O rock talvez seja – não sei se a melhor – a mais divertida metáfora para tal dominação de consciência. Vendendo rebeldia da rua como se fosse um produto (brancos cantando como negros, sexo transformado em dança, insatisfação como regra), o capitalismo conseguiu convencer todo um pedaço do planeta que o rumo certo a ser tomado era aquele: americano, capitalista, anglo-saxão, protestante, frio e calculista. Hoje estamos vendo o que é que aconteceu depois da nossa subserviência. O próprio rock vem nos mostrar isso, colocando cada vez mais em suas letras um nível de contestação não esperado pela indústria. Do Manu Chao ao Rage Against the Machine, de Jello Biafra aos Beastie Boys, do Mundo Livre S/A ao Rappa – parte representativa do atual rock mundial já percebeu que a América é um entrave no caminho de um progresso mundial e estão todos metendo a boca enquanto podem. Mas isso não acontece só na música – a produção de arte e o mercado de comunicação estão atualmente impregnados de uma pressão subversiva que pode ser comparada à que o mundo viveu em períodos como as brigas por direitos civis (e os assassinatos dos Kennedy e de Martin Luther King), a Guerra do Vietnã, crise do petróleo no começo dos anos 70, a Guerra Fria, o Guerra nas Estrelas (do Reagan, não o do Lucas) e a Guerra do Golfo. Todo mundo quer saber das verdades veladas, ditas nas entrelinhas em jargão jurídico ou economista para despistar suas verdadeiras intenções. Qualquer suspeita é considerada e paranóia é precaução. A diferença é que justamente agora vivemos num período em que as artes e a mídia conversam abertamente sobre este assunto. Não é mais tabu falar em segredos políticos, vamos dar nome aos bois. Sabemos que o coma mental que o planeta foi submetido no último meio século foi induzido, que as pessoas se tornaram improdutivas e letárgicas por acomodação, disfarçada como conforto. E veja como cada vez mais fazemos menos esforços físicos – até hoje. Isso nos torna fracos em todos os aspectos, cada vez mais nas mãos de poucos milionários que decidiram bancar estes confortos em larga escala justamente para manipular seus compradores. É a verdade que vai nos tirar do coma consumista representado pelo rock, vem aí uma década crua, sem respeito para aqueles que fingem. Vão falar grosso, vai ser dolorido – mas algumas boas verdades virão à tona. E, com isso, sairemos do coma.

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E pra completar, imagine como é sair de um coma. Penso eu que deve algo parecido com morrer, um excesso de energia vital que completa um pequeno espaço de tempo, fazendo com que confundamos sensações com fatos históricos. E é isso que vai ser esse Rock in Rio de agora, a saída do coma. Sete dias, convenhamos, são segundos na contagem histórica e vamos assistir a um desfile de artistas decadentes tocando músicas novas ou de artistas novos tocando músicas decadentes. Os melhores shows do festival, pode ter certeza, vão cheirar a passado – seja nas referências musicais ou no próprio repertório. Mas o que vai acontecer é que vamos assistir a um mega espetáculo de rock – “o maior festival de todos os tempos”, quer o inconsciente coletivo e o consciente marketeiro – e nada vai acontecer. Tudo vai continuar na mesma. Por um mundo melhor, o cacete. É tudo pose, é tudo mentira. O rock é uma mentira. Isso vai ser dito aos brasileiros de uma forma tão convincente, que é capaz que detone toda uma lógica de reaquecimento da auto-estima nacional. O problema é que sempre tem quem queira tomar vantagem do assunto e todo um processo de reavaliação da condição brasileira pelo próprio povo pode ser detonado com algumas telenovelas, outras campanhas de marketing e uns dois filmes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro – fácil, fácil. Ainda mais que quem perde poder é justamente o subproduto da geração Cinema Novo/MPB (e não estamos falando só de cinema e música, os dois servem apenas como rótulo ideológico – os órfãos da ditadura, melhor ser mais direto), que manteve-se supremo e imponente todos estes anos, com um discurso mais afiado que a prática, sempre com uma frase feita para justificar um peleguismo, uma tendência reacionária fake que “endireita” pensamentos revolucionários com afagos ao ego e ao bolso simultâneos. É percebida no ar uma sensação de “já deu” – taxistas e cobradores de ônibus reclamam como a música brasileira ta sem graça, poderes oligárquicos em diferentes áreas (administração pública, arte, mídia, empresariado) estão sendo colocados em discussão, o povo envelhecendo rapidamente com pouca perspectiva de melhora de vida. Mas ao mesmo tempo, observa-se não só os brasileiros retomando ideais nacionais por conta própria (um movimento que começa na universidade, é empurrado pela mídia para a classe média e descamba, tardiamente e de forma quase imperceptível, no povo), como um interesse exterior pela cultura brasileira. Está mais do que na hora de começarmos a botar uma fé neste país e fazer algo por isso.

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Aí me emputece quando pego o livro do Olavo de Carvalho, viro a contracapa e vejo um monte de luminares do pensamento brasileiro (de Carlos Heitor Cony a Roberto Campos) elogiando o pensamento do autor e tachando-o “o maior filósofo do Brasil”. Filosofia no Brasil? Me desculpe, mas tá no país errado. É muito fácil ficar trovejando contra tudo e todos filtrando um reacionarismo com um embasamento primeiro-mundista que é imposto (como quase tudo que é europeu) como saber universal. Recolha-se à sua biblioteca, à internet e à TV a cabo para tentar descobrir intelectualmente o Brasil e ao mesmo tempo você está perdendo o Brasil. Não há mídia que retrate este país tão bem quanto ele mesmo, nossa sociedade não é de fácil digestão. Para entender o Brasil, é preciso estar na rua, sentir o povo, conversar com as pessoas e ver como elas são. Não há teórico que entenda o Brasil se não houver prática. Por isso a universidade parece um mundo avesso à realidade por aqui, afinal não há intercâmbio da vida universitária com a vida prática. Isso é claramente descendente do pensamento europeu, que trancafia cultura e conhecimento em museus e bibliotecas. Mas há um modo de furar o bloqueio.

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“E aí Matias, e o rock independente brasileiro?”. Passei pelo menos dois anos discursando sobre os altos e baixos da cena independente nacional no Trabalho Sujo (que completaria seis anos dia 22 passado) e falando sobre a possibilidade da cena acontecer. O problema é que “acontecer” é um verbo muito vago e propenso a múltiplas interpretações. No largo território entre o underground do mainstream e o mainstream do underground, há mais adversidades que qualquer vã filosofia possa supor. Quando falava da cena acontecer, significava que ela pudesse andar com as próprias pernas, ser um fim em si mesma, sem esperar redenções alheias. Não, ninguém vai descobrir a sua banda no exterior e você não vai vender nem dez mil discos – contente-se em fazer a música do jeito que você gosta, sem interferência. Esta é a lição do independente. Faça o que você estiver a fim de fazer. Na faixa de transição entre mercado e independência, porém, existe uma série de bandas disposta a assumir compromissos com vendas de disco e execução no rádio – prontas para a indústria. O que acontece é que normalmente os objetivos de umas bandas começam a se misturar com o das outras e o ego fala mais alto e a indústria fisga o fracasso do artista justamente por aí. Veja os principais nomes da atual cena independente brasileira e suas biografias têm um determinado flerte com a indústria, cujo desprazer é força-motriz para que estes continuem fazendo o que querem fora do mercadão. O que aconteceu neste ano 2000 foi uma espécie de replay de 1995, quando todas as bandas da geração Juntatribo acharam que bastava gravar o disco que o sucesso bateria à porta. A expectativa da “volta do rock” ao rádio fez com que as próprias gravadoras segurassem um pouco a onda para não serem pegas com as calças na mão como em 1993 (no susto “alternativo”). Resultado: engavetaram os nomes mais proeminentes e pop da cena (Autoramas, Relespública, Bidê ou Balde, Vídeo Hits – até o Los Hermanos, quando começaram a mostrar seu lado rock em “Quem Sabe”), em lançamentos sem entusiasmo para segurar o mercado e tentar um último tiro de misericórdia: as boy-bands. Twister e KLB são projetos fadados ao fracasso coletivo, sabemos, e lançamento de novas celebridades no mercado. Mas ao mesmo tempo, a aposta parece ser a última cartada da indústria antes de sua completa indefinição. Pagode, axé e sertanejo se tornaram um amálgama indissociável. A música romântica perdeu-se em sua própria sacarina, cantando idílios e acalentos difíceis de sustentar. Rock dá trabalho pra gravadora, artista é exigente, quer fazer tudo por conta própria, mete a boca pela imprensa, se precisa… Por isso, o rock não vingou no mercado como esperávamos no começo do ano. Este estanque atravancou o processo que faria com que o rock independente começasse a funcionar como estoque e ponto de referência para o mainstream vir colher novas bandas. Sem a debandada de uma safra de bandas para a primeira divisão, as categorias inferiores ficaram saturadas e estáticas, esperando algo acontecer. E o que aconteceu com a cena independente de rock brasileiro no ano 2000? Nada – não foi pra frente, nem pra trás.

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Daí o termo “Ano Zero” – hehe.

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Junta isso com o desespero da Paula Martini, o primeiro ser humano a manifestar publicamente que lê essa coluna, que me escreveu desesperada porque no último Tudo ou Nada eu apresentava a equação “1999 + 2000 + 2001 = 2000”. Estava me referindo justamente à esta estagnação criativa no ano 2000. Um impasse. Mas aí você pára para pensar e vê que o triênio resumido na equação está tomando conta de todas as áreas. Da crise na Palestina à eleição norte-americana, das Olimpíadas ao Festival de MPB da Globo, do disco novo do Radiohead aos capítulos de Laços de Família – tudo está preso num impasse, sem se desenrolar, congelado na tensão de uma crise que não parece disposta a resolver-se sozinha. Mas ao mesmo tempo, não há atitude nem iniciativa, é preferível ficar na mesma do que tentar mudar alguma coisa. Graças a deus essa mentalidade parece estar se dissipando à medida que o ano 2000 acaba e o ano que vem pode ser marcado pela vontade de fazer, pela disposição para o trabalho e pelo rígido controle de qualidade. Talvez essa seja a grande lição de 2000: ficar esperando é o mesmo que não fazer nada.

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A Paula continuou a carta dela falando que alguém tinha dito que “o ano 2000 iria passar em três meses”. Exagero. Mas é certo que à medida em que você vive, os dias vão ficando mais curtos. É óbvio, basta seguir o raciocínio: quando você tem um dia de vida, a unidade “dia” (24 horas) é o equivalente à sua vida inteira; quando você completa dois dias, um “dia” equivale à metade da sua vida; no terceiro, um terço; e assim por diante… De modo que a única unidade de tempo imutável é a própria consciência temporal que vulgarmente chamamos de “vida”, esta célula imprecisa de medição que acaba sempre quando não podemos mais contar. Quer dizer, dias são tijolos de tempo que você aumenta a fração do muro da sua vida a cada dia que passa. Mas não são os dias que diminuem… É a sua vida que aumenta… E você nem percebe.

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Sim, é problema seu, se você não vir.

Parada de Sucessos

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E pra quem tá com saudade, que tal uma domingueira? Reveladas na noite Gente Bonita Clima de Paquera, as Moderadoras Rockduo arregaçaram as mangas e estréiam neste domingo festa própria. Hit Parade segue o ritmo que vocë conhece nas farras GB – boa música, todo tipo de som, astral pra cima – e nada melhor pra sintonizar no clima do que nos chamar pra invadir geral. A festa acontece em outra casa com número em vez de nome (pra dar sorte?), o 8 Bar, que fica ali nos Jardins, entre a Brigadeiro e a 23 de maio, não tem erro. Então é isso: começamos a discotecagem exatamente na mesma hora em que começava a passar os Trapalhões (às 19h do domingo) e a festa segue noite adentro, sem dó. E, sim, Gente Bonita tem desconto: manda o nominho pra nossa lista que você morre em dez pilas pra entrar. E aguardem que a partir dessa semana muitas novidades no gatilho. O que quer dizer diversão em estado líquido – é só pingar!

Hit Parade
Domingo, dia 20 de maio de 2007
DJs Residentes: Moderadoras RockDuo
CDJs convidados: Alexandre Matias & Luciano Kalatalo
Local: 8Bar. R. Rua José Maria Lisboa, 82. Jardins.
Horário: A partir das 19h
Preço(s): R$ 20,00 e R$ 10,00 (com nome na lista – é só se cadastrar no site: www.gentebonita.org)

Come with us

Retrospectiva Goulart de Andrade
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O pioneirismo de Goulart de Andrade na produção independente para a TV no Brasil e no uso de ferramentas como a filmagem sem roteiro e os planos-sequência, tornam essa retrospectiva de seus trabalhos imperdível. Trechos dos melhores programas (que incluem o do ET de Varginha, dos Monstros do Silicone e do dia em que ele se vestiu de travesti) serão entrecortados por uma entrevista com Goulart em que ele comenta os programas.

O sábado também terá um Painel com Goulart em que ele será entrevistado pelos jornalistas Alexandre Matias, Bia Abramo e Marcelo Tas.

Retrospectiva Goulart de Andrade
15h10 – Sala Cinemateca BNDES
Vem Comigo!: Conversa com Goulart de Andrade
16h20 – Espaço de Palestras

Resfest|10
Cinemateca Brasileira
Largo Senador Raul Cardoso, 207
Vila Mariana – São Paulo

Ingressos:
Resfest 1 (todas as atrações): R$50 (antecipado), R$60 (inteira) e R$30 (meia)
Resfest 2 (todas as atrações exceto show): R$40 e R$20 (meia)
(preços por dia)
Vendas:
Lojas Chilli Beans Vilaboim, Center 3, shoppings Villa Lobos e Morumbi, Piolla Moema e Jardins e Ingresso Fácil (www.ingressofacil.com.br)

www.resfest.com.br

Decade – Duran Duran

mais essa, vai…

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Engraçado como o Duran Duran significa um monte de coisas diferentes, dependendo do ponto de vista adotado. Dá pra lermos a obra do grupo como art rock (refletindo os dias em que a moda começou a ser tratada como arte pela intelligentsia pop), pioneiros do videoclipe, epítome technopop, new wave para as massas, visionários do estilo vazio que dominaria sua década de atuação (os anos 80) ou, como eles mesmos se denominavam, novos românticos. Mas além de todos estes rótulos, o grupo inglês pode ser considerado um dos principais fatores não apenas na morte prematura da disco music como na resistência conservadora do rock’n’roll durante os anos 80. Se ainda existem moleques andando por aí com camisetas do Ramones e da Harley Davidson ao mesmo tempo que posam de rebeldes, deveriam agradecer sua existência ao Duran Duran.

Afinal, eles retardaram o processo de transformação que a disco music submeteu a música pop. A disco estabeleceu o fim do formato canção no imaginário atual. Respeitado inclusive pelos “rebeldes” do rock, a camisa-de-força formada pela seqüência óbvia “introdução/estrofe/refrão/estrole/refrão/ solo/ estrofe” foi estabelecida no começo do século 20 à medida em que a música erudita foi sendo passada para trás por um capricho tecnológico. Graças a primeiro aos tubos do fonógrafo de Edison e depois aos discos de cera do gramofone, o som só conseguia ser gravado por poucos minutos, em unidades de registro de baixa tecnologia. Logo, óperas e sinfonias perdem espaço para sonatas, valsas, exercícios e árias, cuja duração reduzida cabia nos cinco minutos exigidos pelos instrumentos de reprodução sonora. Com isto, a música popular viu a possibilidade de sair dos saraus e ruas para entrar nas salas de estar. Para isto, recondicionou sua estrutura ao formato canção – graças a ourives musicais de diversas partes do globo -, que logo ultrapassaria a música clássica no gosto popular e se tornaria a principal moeda no mercado de discos.

Nem mesmo o rock, que rompeu com parâmetros rígidos e dogmas da indústria do disco, conseguiu derrubar a canção. Quando tentou, retrocedeu no tempo e costurou diversas canções em colchas de retalhos que tentavam, em vão, emular a respeitabilidade e maturidade das obras de música erudita – era o rock progressivo, um dos responsáveis por popularizar o formato LP que, mesmo ultrapassando o pioneiro single como item de consumo no mundo inteiro, não abriu mão da unidade canção como bem básico em sua escala de valores.

Mas ao mesmo tempo em que estudantes ingleses frustrados tentavam canalizar sua baixa-estima em solos gigantescos e letras pastoris, alguns de seus contemporâneos nova-iorquinos estavam se divertindo bem mais. Negros, latinos ou descendente de italianos, homens e gays, este grupo de adolescentes passeava pelas noites de Nova York em busca de diversão sem limites e, cada um em seu momento, descobriu que o melhor jeito de não deixar a noite parar era comandando o som da festa. Nomes como David Mancuso, Francis Grasso, Nicky Siano, Steve D’Acquisto e Michael Cappello, e mais tarde Larry Levan, Frankie Knuckles, Walter Gibbons, Tee Scott, François Kervokian e David Rodriguez, assumiam o controle dos fonógrafos para despejar sobre a pista de dança as sementes do fim da música pop como conhecíamos até então.

Cada um destes sujeitos (todos com seu lugar de honra na árvore genealógica do DJ) entendeu o ritmo como vínculo unificador do espírito da noite e dispôs-se a tentar a utopia de George Clinton, uma nação sob o mesmo ritmo. Mais do que isso, propunham um planeta ao som do mesmo ritmo, recorrendo a discos vindo de diversas partes do planeta. A ampla paleta de cores sonoras adquiridas por estes DJs era reflexo da própria noite, em que diferentes culturas, raças, religiões e classes sociais se reuniam sob o mesmo teto. Assim, enfileiravam clássicos do rock com lados B instrumentais de grupos de funk, seguidos de bandas africanas elétricas, combos acústicos de ritmos latinos, percussão brasileira, cantos árabes e outras possibilidades sonoras à disposição. Estes sujeitos se enfiavam em lojas de discos (novos ou usados) procurando músicas que ampliassem ainda mais o espectro de suas noites, e que fizessem todo mundo dançar.

Assim, aos poucos foram entendendo o mecanismo da pista de dança. Surgiram as evoluções técnicas: músicas que se encaixam nas outras, variações na rotação de algumas faixas para o ritmo da festa continuar o mesmo, alterações de volume, efeitos sonoros, bateria eletrônica, mestre de cerimônias, efeitos sonoros e luminosos, malabarismo de discos… Tudo que estes DJs queriam eram que seu público ficasse impressionado com seu talento para conduzir uma noite, uma qualidade egoísta e comunitária ao mesmo tempo, já que um bom DJ garantia uma ótima festa.

Nestas mutações musicais, a canção deixa de ser imprescindível. O ritmo vem por cima de tudo e o groove passa a ser o item mais associado à pista de dança. Os novos refrões passam a ser os riffs de guitarra, as linhas de baixo, acordes tocados em tecladões cavernosos, solos, ataques de sopro, vocais encantadores – trechos musicais que sempre acompanham o ritmo musical da noite. E todos estes elementos podem ser encontrados em canções, mas não precisam seguir a mesma fórmula de sempre para que sejam assimilados e desfrutados.

Até que, pela convergência de diversos fatores, esta cena que acontecia no underground nova-iorquino explodiu para o resto do mundo. Seus valores foram deturpados radicalmente (o protagonista de Os Embalos de Sábado à Noite, Tony Manero, era sim italiano, mas machista e estuprador) e assim foi assimilado pela massa que, até então, consumia passivamente os subprodutos dos anos 60, baladeiros enfadonhos, bandas de rock progressivo, heavy metal e pop baba. Quando o punk rock surgiu no horizonte com uma solução possível (ironicamente, “no future”), o mercado de discos abraçou a noite da Grande Maçã como sua nova galinha dos ovos de ouro.

Não é exagero dizer que a disco music mudou mais a cara da música pop do que o punk. Enquanto este último resgatava os valores originais do rock e os contrapunha às qualidades mercantilistas da indústria de entretenimento (cobrando valores subjetivos, como “autenticidade” e “fidelidade”), a disco mexeu nos pilares desta mesma indústria. Formalizou o remix, inventou o DJ, cunhou o disco de 12 polegadas, acabou com o formato top-hits das rádios, abriu o leque de influências musicais, estreitou a relação entre artistas, executivos e produtores, reeditou o conceito de casa noturna (antes clubes, depois discotecas), reinventou conceitos de publicidade e promoção, profissionalizou as relações entre música e o mundo dos negócios, entre outros pequenos mas importantes detalhes. Mas, o feito mais importante do gênero foi ter mandado o formato canção para os ares. Assim, revoluções musicais que eram fruto de mudanças no comportamento social (como o hip hop, a acid house, o trance, o techno e o noise) puderam acontecer.

(Pode-se dizer que a revolução causada pela disco é a responsável pela padronização e pasteurização do pop e pela decadente mentalidade da atual indústria fonográfica. Mas lembre-se que ainda estamos em pleno andamento do que parece ser o fim do mercado de discos como nós conhecemos – o que, olhando à distância, pode ter sido causado pela própria disco).

O fato é que logo que a disco music estourou, todo mundo estava fazendo disco, em todas as partes do mundo. Fenômeno planetário, ela varreu culturas inteiras, reunindo-as pelo mesmo ritmo, que foi cooptado por artistas de diferentes áreas musicais – dos Rolling Stones a Frank Sinatra, passando por Gilberto Gil e Rod Stewart, artistas estabelecidos de todos os lugares abraçavam a disco como novidade artística, mas sempre de olho no lucro. A mania foi além da música e virou grife de loja de discos, de casa noturna, de roupas e cosméticos, e invadiu os meios de comunicação como um todo.

Natural que surgisse uma banda que fizesse o caminho inverso dos Stones em “Miss You”. Em vez de soar como uma banda de rock fazendo disco, o Duran Duran (que começou como uma imitação chinfrim do Roxy Music) era uma banda de disco fazendo rock. Mas não apenas isso.

Antenados com seus tempos, eles surgiram em 1979, com um golpe publicitário em forma de música – algo parecido com o que os Sex Pistols haviam feito três anos antes e que ainda era imitado por bandas inglesas sem criatividade, no começo dos anos 80. O grupo formado por John Taylor, Simon Le Bon, Roger Taylor, Nick Rhodes e Andy Taylor embarcou nesta onda, mas em vez de escrever manifestos e pregar rupturas, preferiram investir na própria imagem. Se ligaram que a década que começava dava muita atenção ao visual e capricharam na embalagem. Das roupas em tons pastéis aos penteados cheios de gel fixador, passando pela postura de palco e maquiagem. Lições aprendidas nos tempos em que emulavam o glam rock, se definiram em uma passagem clássica de seu primeiro hit, “Planet Earth”: “A new-romantic looking for the TV sound”. O trocadilho (“novo romântico” com “neurótico”) seria adaptado por William Gibson para batizar o marco-zero cyberpunk, Neuromancer, de 1984. E o “TV sound” era o som que eles queriam fazer.

Daí o cuidado nos videoclipes, que tornaram a banda pioneira no gênero. Inspirando-se no visual que o cinema começava a ditar como moderno (ar blasé, mulheres maravilhosas, cores berrantes, brilho, neon), transformaram seus filmes promocionais em singles pós-modernos e tiveram na MTV seu principal veículo de comunicação. A recém-criada emissora norte-americana agradeceu os cuidados com a imagem do grupo o transformando em seu principal artista nos anos pré-Thriller. Mesmo depois do furacão Michael Jackson, o Duran continuou mandando ver no visual, se inspirando ainda mais no cinema da época (“Wild Boys” remete a Mad Max e “Hungry Like the Wolf” homenageia Indiana Jones).

Mas e o som? Seria muito fácil o grupo embarcar na onda pós-punk vigente na Inglaterra: um som hermético e dançante, seco e sombrio. Mas ele não condizia com a utopia pop que o grupo almejava. Por isso, abraçaram a disco music e o baixo que cavalga (“tum-turutum–turutum…”) surrupiado do gênero se tornaria a marca regristrada do Duran Duran.

Por isso, nem new wave nem tecnhopop, o Duran Duran fazia disco-rock. Usando descaradamente artifícios em voga, eles apareciam como uma banda pop dos anos 70 submetida a um lavagem cerebral de timbres em um laboratório de disco music. Era a contramão do que fazia o Depeche Mode, que usava a canção para as pessoas se acostumarem com a nova era tecno (ouça “Just Can’t Get Enough” e perceba que, enquanto a banda apenas repete o refrão da música, todos os clichês de timbre e ritmo usados até hoje por DJs de techno e trance vão sendo inventados, instantaneamente). O Duran fazia o caminho oposto – aproveitava-se do sucesso e da familiaridade do público com a disco para entrar no mercado.

Isso não tira nenhum mérito do grupo – e é provável que, se ele não tivesse existido, outro grupo surgiria para cumprir esta função. O fato é que o Duran usou a disco como os Raimundos usaram o forró – apenas uma forma de conseguir se encaixar no meio. Se o fizeram bem (como a primeira parte da coletânea Decade mostra claramente), é por serem bons. Mas o fato é que graças ao Duran Duran, boa parte dos valores revolucionários assimilados durante o período da disco music dissiparam-se, e deram, ao final dos anos 80 e começo dos 90, uma nova chance do rock tentar ser rebelde e revolucionário. Se aqueles valores permanecessem desde então, os moleques com camisas dos Ramones e da Harley Davidson seriam vistos como os góticos, os fãs de Harry Potter, os praticantes de RPG e os colecionadores de blues: uma tribo reclusa e irredutível, que se acha melhor que o resto da humanidade mas não tem ambições de mudá-la.