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Tudo misturado

Dodô esteve na Gente Bonita, viu com seus próprios olhos e conta como foi…

O Resgate do Soldado Óbvio

A gente faz festa pra gente dançar, né? Para gente se divertir, né?E a gente dança e se diverte quando a música é dançante e divertida, né? Timbaland é dançante e divertido, né? Jorge Ben é dançante e divertido, né? Polytechnic é dançante e divertido, né? Bullet Proof é dançante e divertido, né? Led Zeppelin é dançante e divertido, né? Né? Né? Né?

É Óbvio, né?

Então porque as pessoas têm que, para dançar e se divertir ao som de Timbaland, Jorge Ben, Polytechnic , Bullet Proof e Led Zeppelin em lugares como São Paulo, Londres, Paris, Tokyo e Nova Iorque tem que ir ao clube de hip-hop pra ouvir o Timbaland, ao clube de música brazuca pra ouvir Jorge Ben, ao clubinho indie pra ouvir ao Polytechnic, a uma balada Psy-Trance pra sacudir ao som do Bullet Proof ou para um clube de mecânicos de Harley-Davisons para curtir o Led Zeppelin?

E se dá vontade de um Stevie Wonder? Uma pilha de Nação Zumbi? Uma saudade de The Cure? O que a gente faz? Passa 15 minutos em cada clube numa noite? Gasta essa grana toda?

Porque quanto mais cosmopolita a cidade, mais provincianos são seus hábitos de diversão? Porque isso de não poder Psy-trance com indie, Jorge Ben com Led Zeppelin? Se é óbvio que isso tudo é dançante, divertido e você sai a noite pra… dançar e se divertir?

Porque o cosmopolitismo é uma guerra. De um lado, estímulos midiáticos pra se comportar assim. Do outro, semioticidades dizendo que o bacana é se comportar assado. Perdido, feito cego no tiroteio, está o nosso pobre Private Óbvio.

Sábado desses fui do RJ que, por causa do mar, é provinciano e por isso com hábitos de diversão cosmopolitas, onde o mais fácil é você encontrar festas que tocam de PJ Harvey a Nina Simone, até São Paulo, zona de guerra, ver como o Matias, Alexandre Matias, que dispensaria ser linkado aqui se apenas paulistanos estivessem lendo este post, estava se saindo com essa missão: O Resgate do Soldado Óbvio.

A São Paulo para o 1o evento de Lançamento de livro – o DJ Pessoal – e tocar em…

Sua festa, Gente Bonita em Clima de Paquera, atraíu, de ínicio, patricinhas de verdade. Elas estavam atrás de Gente Bonita e do Clima de Paquera. Algumas, assustadas com o despojamento do clube e dos frequentadores da festa como ela de fato é, nunca mais voltaram. Outras, seduzidas pelo canto da sereia, tornaram-se habitués.

O Canto da Sereia, o grito de “James Ryan! James Ryan!” do Matias são os mashups. Cristina Aguilera cantando sobre base de Sonic Youth. Britney Spears sobre a base dos Beastie Boys. Remix do Maximo Park. Tudo misturado.

Tudo misturado.

Toquei a primeira hora: Jackson 5, Pixies, Justin Timberlake e Artic Monkeys. E pela primeira vez vi em São Paulo, na pista, pessoas peladas. Nada de roupa de indie, nada de roupa de mano, nada de roupa de patricinha. Todo mundo nu. Procurando diversão e dança. O óbvio estava lá, seguro. E a fila dobrava o quarteirão.

Duas da manhã pedi um drink que era um mashup de Screwdriver com Frozen Margarita. Nessa hora, na pista, estava todo mundo, misturado, dançando um drink, uma batida de Nelly Furtado com Michael Jackson e, se não me engano, uma dose de Amarulla.

No banheiro unissex, um mashup de homens e mulheres.

Um grupo de pernambucanos massa comemorava o aniversário de uma amiga querida. Diversão: o óbvio. O técnico de som paulistano se oferecia pra ajudar com a desinstalação do meu computador. Profissionalismo: o óbvio. Matias, natural de Brasilia, perguntava se eu estou bem, à vontade, coisa e tal. Educação: o óbvio. Eu respondia em carioquês. Mashup de sotaques. Em São Paulo, o óbvio do óbvio.

O Mashup é uma arma para a guerra paulistana. E hoje, finalmente influenciadas pela linha editorial do Gente Bonita, são vários os DJs e clubes pela cidade que se juntaram à causa. Morte aos cães infiés que esqueceram o soldado Óbvio no meio do fogo cercado do faça isso e nunca fique pelado, mantenha a distância daquilo e vista um cachecol. Ao tentar acabar com uma atitude de comportamento paulistano, Matias e compania criaram algo ainda mais paulistano. Talvez a coisa mais paulistana que eu tenha visto desde os anos 00.

Este texto é um mashup. Vocês, claro, notaram. Óbvio. Por causa do mar. À vontade, coisa e tal. Imaginem quando os DJs começarem a fazer mashup de Caetano com M – Kraft, de Clementina com Bjork? No banheiro unissex, sotaques, clima de paquera, uma pilha de Nação Zumbi, uma saudade de The Cure, e hoje, finalmente, dançando Marguerita. Nu, carioquês e de cachecol. “Nina!”, “Nina!”, seduzida pelo canto

Se você pede um drink novo e nota que ela

Fogo

Música

Noite

pra… dançar e se divertir? Ao tentar acabar

Notaram.

Gente Bonita Redux

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Luciano Kalatalo partiu em árdua missão rumo ao verão parisiense capturar boas vibrações e trazer novidades para a próxima coleção Outono/Inverno Gente Bonita de hits, que estréia ainda este mês. Mesmo desfalcado de um de seus integrantes, a festa Gente Bonita Clima de Paquera não pode parar – e para suprir a lacuna (no bom sentido) deixada momentaneamente, acionamos a querida pernambucana Dani Arrais, aquela mesma que fez neo-alternativos, gostosas da FAAP e gente normal berrar “Like a Prayer” naquela noite histórica no Bar Treze (quando tinha gente até dependurada no lustre!). O ataque desta vez acontece em sacrossanto templo rocker: a festa do Garagem, da dupla Paulão e André Barcinski, que além de nos convidar pra instaurar o inevitável ferormônio sonoro na naite ainda chamou o vigilante Tiago Carandina e o Hateen Fabrício Martinelli pra abarrotar a cabine do DJ. E como sempre temos esquema, o lance é você escrever seu nominho no www.gentebonita.org que concorre a vááááários (sério, vários) pares de ingressos na faixa prum sabadão de uma semana de tirar o fôlego (afinal, teve Four Tet na terça, Bellrays na quinta e Mudhoney na sexta – nada mal). Colocando o nome, é quase certeza que cê tá dentro – mas eu aviso antes das 20h do próprio sábado. E chega cedo que é a gente que abre a noite!

Gente Bonita Clima de Paquera @ Festa do Garagem
E – acreditem – é mais um preview da temporada Outono/Inverno de Hits!
DJ residentes: André Barcinski e Paulão
CDJs convidados: Gente Bonita Clima de Paquera Redux (Luciano Kalatalo Dani Arrais & Alexandre Matias), Fabrício Martinelli e Tiago Carandina
Sábado, dia 2 de junho de 2007
23h
Local: Clash Club – Rua Barra Funda, 969.
Telefone: (11) 3661-1550
Preço: R$ 15 (sem nome na lista) e R$ (com nome na lista – via www.clashclub.com.br). Mas se você se cadastrar no www.gentebonita.org corre SÉRIO risco de entrar sem ter que botar a mão no bolso…

Waking Life – O Despertar da Vida

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Waking Life – O Despertar da Vida (Waking Life, 2001, EUA). Dir: Richard Linklater. Elenco: Wiley Wiggins. 99 min. Por que ver: Linklater resume sua filmografia em um filme cabeça sobre o sentido da vida e a relação entre sonhos e a vida desperta – tradução apropriada para seu título. O jovem diretor trabalha entre filmes sérios sobre a sensação de estar vivo (a dobradinha Antes do Amanhecer/Antes do Por-do-Sol, sua obra-prima até então) e comédias adolescentes sobre a mesma sensação (Escola do Rock, Jovens Loucos e Rebeldes) e já havia encontrado um equilíbrio entre as duas metades em seu primeiro filme, o cult Slacker (1991). Mas em Waking Life ele vai além e encontra um jovem preso em um sonho em que todas as pessoas conversam entre si ou com ele sobre o sentido da vida, as relações entre as pessoas e a natureza da realidade. Cada diálogo ou monólogo tem o traço de animadores diferentes, uma vez em que foi usada a técnica da rotoscopia – desenhar sobre imagens pré-existentes – como estética do filme. Os atores estiveram lá e foram filmados em mini-DV por Linklater, mas ganham cores, traços e deformações típicas de desenhos animados feitos em um software caseiro, o propositalmente tosco Rotoshop. Fique atento: Além da sensação alucinógena causada pelo movimento e pelas cores do desenho, todo o texto do filme contribui para sua conclusão final – não é o que está acontecendo que importa, mas como. Não é o destino, mas a viagem.

Videodrome – A Síndrome do Vídeo

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Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, 1983, EUA). Dir: David Cronenberg. Elenco: James Woods, Deborah Harry. 89 min. Por que ver: Cronenberg não está para brincadeiras – e seu Mágico de Oz (adulto, gore e pessoal) inverte os papéis entre o Mágico e Dorothy. Max Renn (Woods, eficaz como qualquer alter-ego do diretor), player no novo nicho de mídia americano, a TV a cabo, teoricamente está no controle da situação, até que ele começa a captar intervenções de um programa pirata que aos poucos vão mexendo com sua mente. Videodrome é um programa de TV idealizado por um personagem chamado professor Brian O’Blivion, que só comparece a eventos através de sua imagem filmada. Envolvendo sexo, morte e violência, o programa começa a absorver Max de uma forma que ele perde a noção entre realidade e transmissão numa metáfora perfeita para a mídia de massa – e ainda mais eficaz nesta época de comunicação em tempo-real e vida virtual. Assim, Renn passa de manipulador de marionetes a manipulado – e é difícil saber quem está no comando. Fique atento: “Longa Vida à Nova Carne” é o slogan de um movimento de resistência midiático que surge à medida em que os grandes espetáculos visuais do filme começa – sexo oral via TV, o homem-videocassete… Surrealismo e tripas, sexo e máquinas – Cronenberg sempre pega na veia.

Se Meu Apartamento Falasse

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Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960. EUA). Diretor: Billy Wilder. Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, F red MacMurray. 125 min. Oscar de melhor filme, diretor, direção de arte, roteiro original e edição. Globo de Ouro de melhor ator e atriz e melhor filme de comédia. Por que ver: Um dos principais observadores do way-of-life americano durante o século vinte, o polonês Billy Wilder também foi um de seus comentaristas mais ácidos. Aqui, ele invade a rotina de uma aparentemente pacata e eficiente companhia de seguros para desvendar uma trama de mentiras, favores e silêncios. C.C. Baxter (Lemmon, genial) é um funcionário sem brilho numa empresa mediana, que passa a crescer na hierarquia dos negócios à medida em que cede seu apartamento para seus superiores encontrarem-se com seus affairs extraconjugais, quase todas suas subordinadas no trabalho. Quando se vê com a possibilidade de levar sua própria vida amorosa com uma de suas colegas de firma (Fran Kubellik, Shirley MacLaine em um de seus melhores papéis), tem de equilibrar a rotina de entra-e-sai com as mentiras do escritório. Disfarçado de comédia de situação, Se Me Apartamento Falasse é uma crítica dura à fachada limpa e aos bastidores sujos da sociedade americana, algo como se Michael Moore e Seinfeld pudessem existir nos anos 50, com a sutileza e elegância de um James Stewart. Fique atento: A química entre Wilder, Lemmon e MacLaine é nitroglicerina pura e alterna momentos hilários e emotivos em um piscar de olhos – tanto que o trio repetiria a dose com sucesso três anos mais tarde, com o hilário e cínico Irma La Douce. E a direção de arte – cenários, figurino, decoração – transforma o escritório em um palco industrial.

Robocop – O Policial do Futuro

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Robocop – O Policial do Futuro (Robocop, 1987, EUA). Dir: Paul Verhoeven. Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Kurkwood Smith. 102 min. Por que ver: Parece um típico filme de ação dos anos 80, mas é muito mais do que apenas isso – apesar de não desapontar (longe disso) quem gosta de filme de ação. É o segundo filme feito nos EUA pelo diretor holandês Verhoeven, que entendeu a fórmula blockbuster e passou a usá-la como contra-ironia para cima dos americanos a partir deste Robocop. A premissa é simples e eficaz: um policial pai de família é assassinado por traficantes de drogas e seus restos mortais são usados como base para um novo projeto de sua corporação, o meganha ciborgue que batiza o filme. Por trás de uma equação óbvia (inserir o elemento robô no tema guerra de gangues, recorrente nos anos 80), há um subtexto bem menos simplista que é a crítica à política neoliberal de Ronald Reagan – o projeto Robocop é apresentado pela multinacional OCP, que comprou a polícia privatizada de Detroit e pretende transformar o centro da cidade em uma terra de ninguém, para depois reconstruí-lo como uma nova metrópole, o condomínio fechado em escala macro. O diretor iria além em sua crítica ao capitalismo americano em filmes como O Vingador do Futuro, Tropas Estelares, Instinto Selvagem e, em última instância, a bomba Showgirls. Fique atento: O humor cínico de Verhoeven rouba dos quadrinhos de Frank Miller a idéia do narrador da história ser um telejornal, que intercala notícias de um futuro bizarro com (ótimos) comerciais de produtos do futuro ainda mais improváveis. É ele quem dá o tom do filme – observando-o como linha-mestra faz com que sua ironia se sobressaia e toda a história ganhe um aspecto de caricatura. Tudo é motivo de riso involuntário, sublinha o diretor.

O Pecado Mora ao Lado

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O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955, EUA). Dir: Billy Wilder. Marilyn Monroe, Tom Ewell. 105 min. Por que ver: Marilyn Monroe. É pouco? Marilyn Monroe, Marilyn Monroe, Marilyn Monroe. Quer mais? Pode-se listar o nome da atriz por toda a extensão deste guia que não se quer se chega perto da presença perfeita que é a aparição loira de Ms. Monroe neste épico dedicado à sua beleza. O título original (a coceira dos sete anos) faz referência ao tempo em que o homem consegue ser fiel no casamento e Wilder coloca qualquer espectador deste filme – criança, idoso, homem, mulher – no papel de Richard Sherman (Ewell, o ator mais sortudo do mundo), um respeitado marido que vê a mulher sair em férias ao mesmo tempo em que uma estonteante modelo muda-se para o apartamento em cima ao seu. Ao sermos apresentado à personagem – cujo nome resume-se à “The Girl” (“A Garota” – ênfase no artigo definido e no substantivo feminino) – entendemos perfeitamente suas dúvida, seu desalento, seu desespero e sua disposição. E assim o diretor destrói a instituição chamada casamento ao fazer qualquer ser que move-se na superfície do planeta estancar-se de emoção à imagem simples e icônica de Marilyn, de branco, tendo o vestido suspenso pelo ar quente do metrô. Não são apenas suas pernas e risinhos – é a mulher, a garota, plena em nossa frente. Fique atento: Nem preciso dizer para não tirar os olhos de Marilyn (psiu, presta atenção!), mas vale registrar a presença de outro personagem crucial para o filme: o calor do verão, cujo peso no ar faz a consciência de Sherman derreter e a libido da garota estourar o termômetro.

Mistérios e Paixões

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Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991, EUA). Dir: David Cronenberg. Elenco: Peter Weller, Judy Davis, Ian Holm. 115 min. Por que ver: Da literatura beat, William Burroughs é certamente o nome mais difícil para se trazer à tela, mas ironicamente Mistérios e Paixões (título em português idiota para uma obra que já existe no Brasil há décadas, O Almoço Nu) é a melhor representação da alma beat no cinema, entre cinebiografias, documentários e adaptações livres. Não é o caso desta, que embora pouco fiel à obra em si, é obcecada não só pela natureza doentia do livro como de toda obra e do personagem – um mundo aparte em que heroína, insetos, homossexualismo e espingardas. Reconta a história de Burroughs – do assassinato de sua mulher ao exílio no Norte da África – e a mistura com elementos de sua literatura. Genial. Fique atento: Não bastassem as alucinações grotescas que habitam a ficção de Burroughs ganharem forma, sentido e textura (um ânus falante, uma máquina de escrever insectóide), é a atuação quase asséptica de Weller (o Robocop), que transforma o escritor beat de um personagem asqueroso e bizarro a um espelho para cada espectador.