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Tjinder Singh (Cornershop)

Outra velha, de 2002.

Texto publicado originalmente na revista Play número 3, abril de 2002

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Poder para o povo

Falando de política sem soar carrancudo, o Cornershop volta com ‘Handcream for a Generation’ – trilha sonora para festas, passeatas, shows e audições caseiras

Há um clichê na história da música pop que associa aos artistas que se posicionam politicamente a uma reputação séria demais, sem tempo para brincadeiras. O binômio música popular/política sempre evoca imagens pouco felizes, como os olhares desafiadores de Woody Guthrie ou dos jovens Bob Dylan e Chico Buarque, os braços cruzados do Clash, o expressão dura do rosto de Chuck D, o discurso exasperado de Zack de La Rocha no Rage Against the Machine. Como na chamada “vida real”, a política na música pop não é lugar para a diversão, para o humor, para o alto astral.

O que, sabemos, é o maior papo furado. Afinal de contas, o terno e gravata da política é apenas um discurso usado para manter as pessoas distantes da mesma. O mesmo acontece com seu vocabulário em desuso, sua burocracia e seu estranho posicionamento entre o escandaloso e o ímpio, o bastidor e o oficial. A política quer ser vista como chata e carrancuda para que não venham meter o bedelho na festa dos sabichões.

A política não é mágica, saber ou tradição: ela filtra todas nossas ações, todo o nosso dia-a-dia. Mas a história da civilização ocidental, que optou pela “sábia” decisão de tudo compartimentar, racionalizando a natureza humana a limites insuportáveis. Cada faceta da vida ganhou um rótulo e, aos poucos, eles aprisionavam vícios aos significado original das palavras, deturpando-os completamente. Assim, como a política torna-se intrinsicamente aliada à administração governamental e ao poder militar, a cultura torna-se sinônimo de distração e a história é apenas o passado. Os exemplos são
infindáveis e todos eles isolam um determinado aspecto da vida em seu próprio umbigo e, aos poucos, virando caricatura.

Felizmente, a arte (outro rótulo) demole as paredes que separam díspares pontos da vista, nem que isso ocorra apenas em seu pequeno universo privado.

O que não é ruim, afinal, temos que começar por algum lugar. E voltando à música pop (e à história) é fácil lembrar de vários movimentos musicais que
tinham conotação política forte, cuja periculosidade frente ao mainstream era particularmente preocupante, em grande parte por mobilizar e conscientizar multidões sem pregar uma doutrina ou levantar bandeiras. Estes movimentos, no entanto, não entram na história da música pop como manifestações políticas – uma forma fácil de diminuir sua importância e regular uma possível epidemia mental que poderia abalar as estruturas do sistema.

Eram movimentos que não se denominavam mais sociais do que políticos, pois mudavam a mentalidade das pessoas através de mudanças de comportamento. Observe a geração Woodstock, por exemplo. Toda sua conotação política hoje resume-se aos filhos do movimento folk do começo dos anos 60, quando trovadores, violão em punho, cantavam os problemas do mundo e as injustiças sociais. Mas o que dizer do desbunde sexo-racial de Sly & the Family Stone? Ou do discurso sônico do funk rock de Jimi Hendrix? Ou o convite à volta comunitário do Jefferson Airplane? Não: o lado político desta safra de artistas é reduzido ao canto doce e vazio de Joan Baez, à ladainha antibelicista de Country Joe McDonald ou às utopias afetadas de John Sebastian.

E isso só pra ficar num exemplo mais popular. Se formos prestar atenção, diversos momentos clássicos da música pop vêm carregados de conotação política, reescrevem o comportamento popular de uma época, mas são lembrados apenas por sua faceta escapista e segura. O soul cru dos estados sulistas dos EUA, nos anos 60, serviram de trilha sonora para os movimentos anti-racistas, mas apenas a Motown fica na história. A discoteca surge como uma resistência gay contra a opressão e o preconceito para logo é transformada em açúcar musical usado por branquelos para se sentirem um pouco mais negros. O Tropicalismo pregava o caos e a confusão sobre os opostos, explicitado pelo choque entre as culturas pop e brasileira (então distantes), mas logo foi fagocitado pelo ócio pós-hippie dos anos 70. O mesmo aconteceu com o hip hop nos primeiros dias, o segundo verão do amor (em 1988), o pós-punk, a explosão eletrônica inglesa do começo dos anos 90 etc… Gêneros ativistas que perderam o impacto político à medida em que a história os absorvia, transformando-os em meros flashbacks de um passado divertido.

Mas eles foram muito mais do que isso. Momentos específicos em que a música pop serviu como veículo de comunicação entre minorias conscientes de sua situação e jovens dispostos a lutar por estas causas. A diluição da atitude destes momentos específicos serviu para afastá-los de sua causa central e expulsá-los do panteão mal-encarado que conhecemos como “música pop que fala de política”. Tudo errado.

“Tudo é política”, explica Tjinder Singh, vocalista e metade do Cornershop, “não dá pra separar música de política, é a arte que melhor fala com as pessoas. É direta, instantânea, não tem rodeios”. Assim, em entrevista por telefone, ele explica a política por trás de um disco que, aparentemente, não tem nada de política.

Handcream for a Generation (Sum) é o quarto disco do grupo inglês, o primeiro após o excelente de When I Was Born for the 7th Time, de 1997 (um dos três melhores discos daquele ano, ao lado de OK Computer, do Radiohead, e Vanishing Point, do Primal Scream) e, certamente, seu disco mais contundente. Mas se, por um lado, estamos falando de política, por outro o dia sequer remete ao semblante carrancudo típico do rock politizado.

Handcream… soa como um disco de funk psicodélico feito por fãs incondicionais dos anos 70 que não conseguem tirar o sorriso do rosto. “Música serve para divertir, para animar a vida das pessoas – mas não só isso”, ele continua. “Quando estamos nos divertindo, abrimos mais a cabeça, estamos mais dispostos a receber novas informações, a tentar entender novos conceitos. Não é à toa que o capitalismo usa a música pop para vender suas premissas mais básicas: a apologia da beleza física, o vazio intelectual e a compulsão consumista”. O Cornershop entende a lógica por trás do espírito de festa de manifestações politizadas do passado e faz um disco disposto a resgatar todas elas – ao mesmo tempo.

Por isso, Handcream… soa psicodélico como se fosse 1967, soul como se fosse 1968, rock’n’roll como se fosse 1971, black como se fosse 1972, disco como se fosse 1978, old-skool como se fosse 1979, electro como se fosse 1982, house como se fosse 1986, neo-hippie como se fosse 1988, eletrônico como se
fosse 1991. “Esses anos são anos-chave na história da música, mas hoje são vendidos como souvenirs de uma época esquecida”, lamenta Singh, “as pessoas se esqueceram do poder de transformação que a música imprimiu nestes anos”.

O baixão soul de protesto que abre o disco deixam as coisas muito claras: estamos entrando num território musical que, como muitos, abole fronteiras entre política, religião, cultura e razão – mas, como poucos, prega esta vertente através do alto astral. O fato do soulman Otis Clay abrir o disco já diz muita coisa: entre trumpetes, cordas e um baixo proeminente, Clay evoca o soul de protesto do final dos anos 60. Egresso da gravadora Hi Records (a mesma de Al Green), o vocalista introduz o disco e a banda ao público com a faixa “Heavy Soup”, no que parece ser o início de uma festa em casa – isso resume bem o clima do disco.

Fora os momentos mais claustrofóbicos (como “The London Radar” e “Music Plus 1”), que remetem ao groove eletrônico marcial do começo dos anos 90, todo o disco parece ser feito para ouvir em casa, com os amigos, numa pequena celebração particular.

“Staging the Plaguing of the Raised Platform” traz um velho conhecido do Cornershop, embora a música (prima do hit do disco anterior, “Brimful of Asha”) opte por uma quebra estrutural usando um Moog, o que faria qualquer fã dos Cars (ou do Rentals) sorrir. A faixa fala em assumir posições políticas em qualquer lugar e uma adaptação forçada do título lembra que todo palco é um palanque. O astral da faixa é a psicodelia light, sabor aumentado graças à caixinha da música no início e os vocais bichos-grilos-cantando-em-roda do refrão, típico do grupo.

“Music Plus 1” (repetitiva, fria e noturna) faz a conexão francesa com a música eletrônica, pouco antes de cair no boogie rock “Lessons Learned from Rocky I to Rocky III”. Crua e máscula, esta última evoca a volta do rock’n’roll arquitetada no começo dos anos 70: há ecos dos Rolling Stones, do glam, de hard rock e backing vocals cantando em falsete. E quais são as lições aprendidas entre Rocky I e Rocky III? “É uma piada, como dá pra perceber”, explica o vocalista, “mas assistindo aos filmes, viocê percebe uma mensagem, do tipo ‘não sei deixe enganar por quem tem dinheiro’ ou algo parecido. É uma música sobre manter-se fiel ao que você acredita, mas não quis deixá-la com cara de pregação”.

Mais eletrônica, “Wogs Will Walk” fala do poder de transformação da internet. “A música fala especificamente da Índia, porque temos um potencial muito grande em informática. É um país que desenvolveu uma matemática muito própria e que está presa na lógica de cada um. Usamos o ábaco – que é um computador – há milênios. A internet é a possibilidade perfeita de uma insurreição intelectual indiana”. Apesar de falar especificamente de seu país, Tjinder não descarta a mudança do século XXI para o resto do planeta. “Vai ser bom quando as pessoas perceberem que a tecnologia não é o mais importante, e sim o que se faz com ela. A internet e a computação são linguagens, idiomas. Quando pudermos conversar, ninguém vai segurar as pontas. Será um novo Iluminismo”.

Ele se empolga e continua falando das mudanças na virada do milênio. “O hip hop já nos havia ensinado que você não precisa de muita coisa para fazer arte. É um pensamento africano, minimalista. O preconceito, porém, não nos deixou absorver esta técnica. Com o hip hop, outras novidades em diferentes áreas – ciência, educação, religião, filosofia -, não foram absorvidas por preconceito. Por isso, a internet e o computador explicam novidades velhas. É engraçado, não temos preconceito para com as máquinas”.

“Motion the 11” é o reggae roots, analógico, vinilófilo. Cantado com sotaque jamaicano, a faixa repete a letra de “Music Plus 1” numa temperatura de veraneio caribenho. Esfumaçado e preguiçoso, o reggae abre espaço para “People Power”, recriação groovy da faixa “People Power in the Disco Hour”, gravada no projeto paralelo do grupo, a disco music lo-fi do duo Clinton (o único disco, Disco and Halfway to Discontent, foi lançado em 1999). Novamente, um baixo assume as rédeas da música e conduz a canção sem dificuldades, como se chamasse para uma passeata em forma de festa. “SuperSounds Recordings” ancora o disco de volta para seu lado meditativo, calmo e indiano para, em “The London Radar”, voltar para sua vertente eletrônica.

O disco vai chegando ao final com a gigantesca “Spectral Mornings”, digna dos épicos guitarreiros do segundo disco dos Stone Roses. Instrumental, lenta e barulhenta, funde rock’n’roll e música indiana em partes iguais e conta com a ajuda de Noel Gallagher, do Oasis, ajudando a formar este mantra interminável. Com 14 minutos, a faixa foi o gancho para a volta do site oficial do grupo, quando, em 12 de fevereiro deste ano, foi transformada em “Spectral Mornings (Droppin’ the Solid)”, o maior remix da história com… 24 horas de duração! A faixa é chata, parece patinar sem rumo no mesmo lugar e quebra um tanto a magia pop do disco.

“Slip the Drummer One” conta com o DJ Rob Swift, dos X-Men (os antigos X-Ecutioneers), discotecando sobre a base electro lo-fi da primeira faixa. Deixa transformar a antepenúltima na música de saída, “Heavy Soup (Outro)”, que finge fechar o disco.

Handcream… só termina com “Bonus Track”, uma brincadeira de amigos na sala de estar, lounge rock com guitarra fuzz melódica e bateria de bossa nova. Um final sossegado, descansado, que traz de volta o disco a seu território nato. Falando de política sem soar carrancudo, o Cornershop funde gêneros para mostrar que entre eles não há diferenças e, quando existem, são artificiais. A música, naturalmente, serve para mover as pessoas para a frente – seja numa festa, numa passeata, num show de rock ou em casa.

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“O disco inteiro é de protesto!”
Tjinder Singh disseca, faixa a faixa, o novo disco

“Heavy Soup”
“Heavy Soup é a ponte entre o disco e a vida real, ela se repete no fim, num esquema parecido, pra dar essa sensação de ciclo finalizado. Tem o baixo pesado, que carrega os poucos acordes da música. A gente fez uma música pra cima, para curtir. Enquanto isso, o apresentador vai dizendo o que vai acontecer”

“Staging the Plaguing for the Raised Platform”
“Esta é uma canção de protesto. É sobre você ter a mesma atitude em todas as coisas da sua vida, de não aceitar as coisas sem questionar. Quem governa o mundo não percebe que está sentado num barril de pólvora, que um dia as pessoas vão se encher e vão virar a mesa”.

“Music Plus 1”
“É um house, soa como disco music francesa, não? Ela tem a mesma letra, exatamente a mesma, do reggae. Na verdade ela não quer dizer nada, só “music plus one” e “motion the eleven”, mesmo. Serve para pensarmos no que uma letra de música pode dizer. Quer dizer, eu fiz assim, não quero que as pessoas entendam assim”.

“Lessons Learned from Rocky I to Rocky III”
“Tivemos um enorme cuidado na produção desta música, queríamos que ela soasse exatamente como imaginávamos, bem anos 70. É como ter aquela atitude do começo dos anos 70 sobre todas as coisas que acontecem hoje – se naquela época era uma merda, hoje é uma supermerda ultracrescida (ri). As frases são soltas sem sentido de novo, mais para ter um casamento legal com a voz. Quer dizer, se você entrar no clima certo, você até entende”.

“Wogs Will Walk”
“É o WWW, fala da internet e da enorme influência que ela vai exercer no futuro da Índia. Há alguma coisa de repetição, como um mantra, que sempre muda um pouco, cada vez”.

“Motion the 11”
“É o reggae, como eu disse, tem a mesma letra da outra, com os improvisos de dois rastas amigos nossos, Jack e Kojak. Gosto da guitarra desta música, ela pega firme”.

“People Power”
“Essa é um remix que iríamos usar no disco do Clinton, mas deixamos de fora. Mexemos um pouco em cima do que tínhamos e ela ficou melhor. É outra canção de protesto. O disco inteiro é de protesto!”.

“Sounds Super Recordings”
“É uma música explicitamente indiana, um lado que ficou reduzido no disco novo, mas que tinha que colocar. É um discurso dentro de uma ponte musical, entre duas músicas”.

“The London Radar”
“Toda a música me veio na cabeça num vôo de Londres a Gênova, fui juntando sons que lembravam certas imagens…”

“Spectral Mornings”
“É uma faixa cheia de paisagens sonoras, elementos diferentes, guitarras pesadas e cítaras, altos e baixos, parece que não vai acabar nunca… É um épico, soa como um livro sagrado, mas é uma celebração sônica. É só som”.

“Slip the Drummer One”
“Tem um lado de turntablism, que nós curtimos desde 1994, mas nunca tivemos a oportunidade de colocar em disco. E tem um lado robô também”

“Heavy Soup (Outro)”
“O mesmo groove do começo do disco, só que pro final. A edição deixou-a maior que a intro. É um outro, uma saída, adeus, Elvis has left the building…”

“Bonus Track”
“Uma festa em casa, com uns amigos, resolvemos gravar, ficou legal e colocamos no disco”.

Nelson Motta

Domingo é sempre um dia bom pra tirar umas velhas do baú. Essa entrevista com o Nelsonmotta tem quase oito anos de idade…

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Nelson Motta tinha treze anos quando o compacto que lançou João Gilberto – o hoje histórico ” Chega de Saudade” – saiu. Instantaneamente infectado pela musicalidade simples e sofisticada de João, não foi difícil envolver-se com aquela música e a cena que gravitava em sua órbita. Morava no Rio de Janeiro em plena era JK, último suspiro de um Rio paradisíaco, intacto, turístico, que assistiu em seu próprio colo o nascimento da bossa nova. Seus pais eram abertos o suficiente para permitir que o filho assistisse aos primeiros shows do gênero, muitas vezes em sua companhia. E por intermédio de um primo, passou a freqüentar a mesma turma que contemplava o samba e Copacabana do apartamento de Nara Leão às tardes e atravessava as noites na casa de Vinícius de Morais, em Petrópolis.

Sorte, pura sorte. Mas Nelson não deixou escapar. Uma vez dentro de uma facção do universo musical brasileiro, assistiu o nascimento de toda uma geração de artistas que mudaria a cara da cultura de nosso país. Para trás ficariam a rádio Nacional e seus cantores de dicção perfeita e vozeirões, a dramaticidade quadrada de pequenas árias operísticas transformadas em canção. O Brasil percebia sua brasilidade quando João Gilberto determinava o novo cânone da música brasileira: entre o baiano Dorival Caymmi e o flamenguista Ary Barroso, um só ritmo – o samba. Ao assumir o samba como fator de identidade nacional, a bossa nova criava um novo estágio na música brasileira e coroava uma nova hierarquia, um novo panteão de divindades. Bom de meio-campo, o baixinho Nelson Motta conseguiu estar em vários lugares ao mesmo tempo – como jornalista, produtor, empresário, diretor artístico, apresentador de TV, crítico de música e compositor. Aos 55 anos, ele resolve dividir seu testemunho com os leitores de seu novo livro, Noites Tropicais (Objetiva), em que nos conta a sua versão da história da MPB.

Texto afiado, Nelson escreve como conversa. É o mesmo Nelson Motta do Sábado Som, do Jornal Hoje, das transmissões do Rock in Rio ou do Manhattan Connection. Sem firulas nem meias-palavras, ele conta seu papel de agente na história da música com a empolgação de um pescador em mesa de bar. Não importa se as histórias aconteceram exatamente como ele conta, pois é justamente a forma como ele conta que as tornam tão divertidas. Qualquer um com pouco menos de humor que o autor assistiria aquele monte de artistas como uma turma de ególatras insatisfeitos com a pouca bajulação. Mas Nelson não esquenta a cabeça fácil e sempre dá um jeito de estar no lugar certo na hora certa. Ele sabe que é preciso jogo de cintura para se manter de pé e seu texto tem a mesma energia com que busca a novidade.

Disposto a revelar o lado humano dos artistas, ele invade a privacidade dos envolvidos tirando-lhes apenas a aura mística que o tempo e a mídia puseram sobre todos eles, mostrando como esta é fruto da própria personalidade do artista. Vemos então Raul Seixas consciente de sua própria picaretagem, Roberto Carlos ouvindo os problemas de fãs como se fosse um santo, a fama de casanova tanto de Jorge Ben quanto de Jerry Adriani, João Gilberto brincando com a expectativa dos outros, Tim Maia esbaforido de medo de entrar no bondinho, Elis Regina atirando objetos nos outros, as Frenéticas quando ainda eram garçonetes e Sérgio Mendes conquistando os americanos.

No meio de sua aula de história, Nelson desfila seu invejável currículo junto à música brasileira, muitas vezes subestimado. Foi jurado de Flávio Cavalcanti, onde defendia a música nova que surgia com a bossa nova e a Jovem Guarda. Com uma coluna diária na Última Hora, de Samuel Weiner, e depois no Globo, esta mesma música ganhava um ávido divulgador. Compositor, chegou a tocar violão num grupo que não decolou, o Depois das Seis (o único referido no livro entre aspas). Criou o Sábado Som na TV Globo, onde passou a divulgar clipes das bandas de rock dos anos 70. Inventou a trilha sonora de novela com André Midani. Tinha uma coluna diária sobre música no Jornal Nacional e fazia matérias sobre o tema para o Fantástico. Sua equipe contava com Scarlet Moon e o futuro Gang 90 Júlio Barroso. Escreveu a música de fim de ano da Globo com Ivan Lins. Produziu discos de Elis Regina e espetáculos de Marília Pêra e criou a primeira discoteca do Brasil, o lendário Dancing Days no Rio de Janeiro (uma das melhores partes do livro), e a primeira danceteria do país, a Paulicéia Desvairada em São Paulo. Assistiu o nascimento do rock dos anos 80 como um dos sócios da famosa Noites Cariocas, no morro da Urca. Escrevia letras para Lulu Santos e produziu o seriado Armação Ilimitada. Lançou Marisa Monte e hoje é colunista – eletrônico e impresso – das organizações Globo em Nova York.

O livro é recheado com as histórias que Nelson viu no meio do caminho, todas dignas de serem contadas. Poucas fofocas, no entanto: no livro ele finalmente assume seu caso com Elis Regina enquanto ela estava casada com Ronaldo Bôscoli e corajosamente conta sua relação artística e afetiva com Marisa Monte. Mas o que interessam são os ‘causos’: Rita Lee perdendo a voz no Rock in Rio, Tim Maia discutindo com Raul Seixas sobre qual melhor droga (Raul defendia a cocaína e Tim, na fase Racional, a maconha), Lulu Santos tocando em circos no subúrbio do Rio, Erasmo Carlos fugindo do juizado de menores, a irresistível aventura do Dancing Days, seu primeiro encontro com Ângela Rorô, Carlos Imperial de sandálias disputando A Palavra É na televisão com Chico Buarque e Caetano Veloso na televisão, Tim Maia distribuindo LSD pela gravadora como se fossem hóstias, o menor de idade Lobão assustando Nelson com um termo de responsabilidade assinado pelo autor, que quase foi preso por fumar um baseado à saída do primeiro Rock in Rio.

Além disso, há esclarecimentos sobre a fama de dedo-duro de Wilson Simonal, o monopólio da TV Record e da gravadora Phillips nos anos 60 e 70, o surgimento e a consagração da Rede Globo e da Som Livre e depoimentos emocionados sobre as mortes de Elis Regina, Gláuber Rocha e Júlio Barroso. E há as passagens históricas, como um show de João Gilberto no alto do Rockfeller Center em Nova York, uma jam session em que Hermeto Paschoal participou do lado de fora do bar, a invenção do tropicalismo, o Opinião de Nara Leão, os festivais, Jorge Ben no Beco das Garrafas, os shows de Lennie Dale, Apesar de Você passando pela censura e a invenção de Julinho de Adelaide, o primeiro Hollywood Rock (em 1975, com Rita Lee & Tutti-Frutti, Mutantes, Veludo, Vímana, O Peso, Erasmo, Celly Campelo e Raul Seixas), a criação das Frenéticas e da grife Dancing Days, os primeiros shows do rock brasileiro dos anos 80. Escolha seus motivos e seus ídolos, mas não deixe de ler Noites Tropicais. Leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco mais sobre os bastidores – e, por isso mesmo, a história – da música brasileira.

Como surgiu a idéia de fazer um livro de memórias?
Queria escrever uma biografia do Tim Maia, mas por problemas com os herdeiros, como tudo de Tim Maia estava uma confusão danada, resolvi escrever sobre ele mas também sobre todos os grandes personagens da música que encontrei nesses meus 35 anos de vida musical. E a melhor forma era como memórias, na primeira pessoa, já que participei das diversas fases de nossa música como tiete, compositor, jornalista, produtor e empresário ao longo de cada fase. Achei que assim poderia contar as histórias de pontos de vista diferentes, ficaria mais rico e divertido.

Não é cedo para fazer um livro desta natureza?
Tenho 55 anos, um neto de três, já tenho muita estrada. Com 30 mil livros vendidos em um mês e as críticas maravilhosas (até da Folha!), acho que não.

Qual a dificuldade de se fazer um livro de memórias que ao mesmo tempo é um livro sobre a música brasileira? Como discernir lembranças pessoais de fatos históricos?
Usei lembranças pessoais quando achei que eram relevantes para o fluir da história, para esclarecer personalidades ou para situar melhor o narrador para o leitor, sobre os pontos de vista daquela pessoa que conta a história. Meu principal critério foi: histórias de que participei (como tiete primeiro, depois como compositor, jornalista, produtor e empresário – e finalmente escritor ) e a personagens dos quais eu estivesse próximo, sempre com o objetivo maior de traçar um painel dos últimos 35 anos de música brasileira. Então, certos artistas, como Edu Lobo, Elis Regina, Raul Seixas e Tim Maia tem grande destaque, porque em épocas diversas de minha vida estive muito próximo a eles, podendo portanto dar um testemunho exclusivo, diferente de uma ” história da música” ou de uma biografia jornalística.

Sua carreira é marcada por suas mudanças de papel na história da música brasileira. Em algum momento estas mudanças lhe causaram algum conflito?
Sempre. Sempre estive em conflito, buscando uma harmonia por contraste. Em cada uma das funções que desempenhei, aprendi muita coisa que me ajudou a trabalhar e compreender melhor outras. Estive dos dois lados do balcão, fui pedra e vidraça, e isto acho que acaba dando um certo equilíbrio. E banindo o tédio e a rotina para sempre. Hoje, por exemplo, o que mais gosto de fazer é escrever e de ler. Mais do que de música.

Você respeita a privacidade dos envolvidos, mas revela alguns podres. Qual o critério adotado?
Principalmente os meus podres, que procuro tratar com humor quando dá, e com autocrítica quando necessário – mas sem ressentimentos de nenhuma ordem. Conto episódios menos abonadores de alguns principalmente quando são divertidos, nunca por espirito de fofoca ou ressentimento, para mostrar ao leitor como eram, em sua complexidade, esses grandes talentos, humanos todos, e por isso ainda maiores.

Quase a fase de sua carreira mais te satisfez e por quê?
Todas, desde a bossa nova ate o final do rock Brasil, no final dos anos 80. A que menos gostei foi depois disso, com o Governo Collor e a onda sertaneja, quando decidi me mudar para Nova York. Mesmo nesta fase teve bons momentos, como os shows e discos que produzi com Djavan, Sandra de Sá, Elba Ramalho, Leila Pinheiro e João Gilberto.

O distanciamento geográfico (uma vez que você está em Nova York) ajudou ou atrapalhou na hora de escrever? Fale sobre isso…
Foi decisivo. Me distanciou mais ainda das memórias e das pessoas, me permitiu um distanciamento crítico decisivo para o livro. Alem de tudo, tive paz, conforto e tranqüilidade para trabalhar. Em Nova York ninguém me conhece, ninguém me enche o saco nem pede coisas, ninguém me aluga para besteiras. E tudo funciona, é rápido, não se perde tempo. No Brasil, levaria três vezes o tempo que levei, acho que estaria escrevendo ate hoje. Nova York é um dos melhores lugares do mundo para se esconder.

Por que se distanciar da polêmica num cenário musical que parece privilegiar tal atitude?
Detesto polêmica, gosto de harmonia. Ha muito tempo já desisti de tentar convencer alguém de qualquer coisa. Digo o que sinto e penso, com educação e respeito sempre, quem quiser aceitar, muito bem, senão, muito bem também.

Do mesmo jeito que a bossa nova suplantou a música brasileira tradicional, invertendo valores e criando um novo cânone na música atual (criando a MPB), um outro gênero pode surgir e fazer o mesmo com a MPB. Qual sua posição frente a à mudança neste sentido?
É natural, é parte do processo, o público consumidor precisa sempre de novidades. O interessante da música brasileira e’ que os gêneros não acabam, vão se sobrepondo, incorporando os que vieram antes. Hoje é tudo pop, existem apenas talentos individuais. Pagode, axé, sertanejo, tudo passa, tudo sempre passará – mas todos se lembrarão dos grandes artistas, indivíduos, muito mais do que de gêneros e escolas.

Letristas, compositores, personalidades, agitadores culturais, produtores, críticos, músicos… O que falta no cenário da música brasileira atual?
Dinheiro, eu acho. Tem muita gente de talento, muita vontade de fazer e de comprar música, mas os ups and downs da economia brasileira castigam o mercado de discos. Fora isto não falta nada. Com as tecnologias digitais e a internet nunca foi tão fácil fazer e vender um disco. Mas nunca foi tão difícil fazer sucesso.

Você tem alguma frustração na carreira? O que você gostaria de fazer, se pudesse ter controle total?
Escrever, porque não preciso de ninguém, nem de nada, só de minha cabeça. É um pouco solitário, reconheço, mas passei minha vida inteira trabalhando em equipe, algumas gigantescas e quanto mais gente, mais problemas. Gostaria também de pintar. Ate já comprei as telas e tintas e pincéis. Mas continuam na caixa.

Mesmo fora do Brasil, você tem acompanhado a música brasileira. Na sua opinião, qual é a lição que aprendemos nos anos 90 dominados pelo trio axé-sertanejo-pagode?
Aprendemos que foi uma grande década, que nos deu Marisa Monte, Ed Motta, Daniela Mercury, Cidade Negra, Gabriel o Pensador, Cassia Eller, Lenine, onde Caetano, Chico, Milton, Lulu Santos, Titãs, tantos outros, produziram grandes discos e shows. Nos 90 Zizi Possi e Nana Caymmi produziram seus melhores discos e shows. Tom Jobim produziu, ate morrer, grandes canções. Daqui a 10 anos ninguém lembrará de pagode-axé-sertanejo (ou pior, dos padres cantores) mas todos se lembrarão com orgulho e ouvirão com prazer esses artistas.

O rock está voltando de novo ao mercado, mesmo que ainda lentamente. Você diz no livro que as gravadoras optaram pelo rock nos anos 80 pelo barateamento da produção. E hoje, qual é o motivo?
Não sei, neste ultimo ano-e-meio fiquei trancado em casa escrevendo o livro. Talvez seja a decadência comercial do sertanejo-axé-pagode.

Arriscando uma bola de cristal, quem é o futuro da música brasileira na sua opinião?
O futuro é a nossa diversidade. Individualmente acredito em Marisa Monte, Ed Motta e Cassia Eller. E que Daniela Mercury será a primeira grande estrela pop brasileira a triunfar no exterior. Mas triunfar mesmo, big time.

O Fim da Temporada Outono/Inverno 2007 de Hits Gente Bonita

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Chega o fim de agosto e com ele vamos encerrando a temporada outono/inverno 2007 de hits Gente Bonita. Foi difícil administrar um inverno de noitadas abaixo dos 10 graus em ambientes adversos e condições improváveis (de um técnico de som surdo a um blecaute), mas a diversão foi igualmente garantida – e pérolas da temporada como “It’s Getting Boring by the Sea” dos Bloody Red Shoes, “Pogo” do Digitalism, “Dead Scene” do Sunshine Underground, “DVNO” do Justice e “aquele” remix pra “Office Boy” do Bonde do Rolê já entraram em definitivo na nossa programação.

Para essa sexta chamamos o casal Popscene, a clássica festa em Santos com mais de 59 edições, para comandar a início da festa. Flávia Durante e Hector Lima sintonizam suas antenas new rave e projetam hits indie e petardos eletro. Logo depois, a dupla protagonista da noite (a.k.a.: “it’s we”) assume os CDJs pra estremecer as bases, chacoalhar quadris e derreter corações na pista. Afugentando o inverno para o bem geral da nação, a noite de hoje também marca véspera do mês de comemoração do aniversário de um ano de Gente Bonita. Nem parece que foi em setembro do ano passado que começamos a brincar de ter a melhor festa do Brasil. A festa acontece no Audio Delicatessen, são vinte pilas pra entrar, mas botando seu nome na lista do site www.gentebonita.org, paga só dez. Glue there.

Gente Bonita @ Audio Delicatessen
O último desfile da coleção de hits da temporada Outono/Inverno 2007 do mês de agosto
CDJs residentes: Luciano Kalatalo & Alexandre Matias (Gente Bonita Clima de Paquera)
Discotecários convidados: Flávia Durante & Hecor Lima (Popscene)
Sexta, dia 31 de agosto de 2007
23h (Sem hora para acabar)
Local: Audio Delicatessen – Rua Mourato Coelho, 651 – Vila Madalena
Telefone: (11) 3097 0880 e (11) 3816 1220.
Preço: R$ 20 na hora / ou R$ 10 para cadastrados no site www.gentebonita.org

Cinco Vídeos pro Meio da Semana – 8


“Zdarlight” – Digitalism


“Shadows” – Midnight Juggernauts


“Salmon Dance” – Chemical Brothers


“Mothership Reconnection” – Scott Grooves


“I Believe” – Simian Mobile Disco

GB 90

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Não, não é a nonagésima edição da festa Gente Bonita Clima de Paquera – tamos chegando ao primeiro ano, mas a contagem ainda tá na casa das trinta aparições. Mas o estrago já foi feito – vide a tenda Tim Mashup do Tim Festival, que, pode-se dizer, existe basicamente porque um dia resolvemos hypar algo que a maioria dos muderneiros de plantão dava como um mero modismo de começo de século (é bom lembrar que, sem os Beatles, o rock seria apenas um modismo de meio de século). Anfan: o motivo do 90 no título é que amanhã tem Gente Bonita invadindo uma festa de terça-feira que pouco a pouco vai tomando corpo, forma e conteúdo. I Love 90s é tocada pela Miss Má, que nos intimou pro desafio de só tocar coisas dos anos 90. Mas ao contrário do que roga o flyer oficial da festa, esqueçam indiesmos shoegazer ou britpopices de ocasião. Nem o Gilberto Custódio, que em outros tempos já foi tachado de ser o sujeito mais indie-90 do Brasil, vai por essa praia – é que ele também discoteca nesta terça. Mas nada tema: com Gente Bonita, a noite é sempre garantida. E se você botar seu nominho na lista de presença, em vez de pagar vinte reales, morre só em dez. Preço justo por uma noitada de peso – e improvável, no meio da semana. A festa começa às 21h, mas a gente começa a tocar à meia-noite.

Gente Bonita @ I Love 90s
Terça-feira, 28 de agosto de 2007
Discotecagem: Miss Má (residente), Gilberto Custódio e Luciano Kalatalo & Alexandre Matias (Gente Bonita Clima de Paquera)
Local: Studio SP – Rua Inácio Pereira da Rocha, 170. Vila Madalena
Horário: A partir das 21h
Preço(s): R$ 20,00 e R$ 10,00 (com nome na lista)
Para incluir seu nome na lista, www.gentebonita.org

Daioné

Pra começar bem a semana.

Clandestino – Manu Chao

Tirando o finde pra resgatar txts…

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***

Existe um país que não está no mapa. Debaixo de marcas, nações, dinheiro, leis e qualquer espécie de censo, o povo deste país vive cada dia como uma nova luta, divertindo-se à medida que trabalha. Em botecos e barracas de camelô, carregando produtos nas costas e sentando-se no chão, esta população não conhece luxo, riqueza ou a possibilidade de crescer. Vive numa corda bamba, de costas para o capitalismo, que vêem como um câncer que tirou a energia vital da maioria das pessoas. O dinheiro fez com que as pessoas se distanciassem do cotidiano, sem conhecer seus vizinhos, presas em apartamento e tendo falsas experiências de vida através da televisão e dos computadores.

As pessoas deste país tenta driblar o destino como com um passo de dança, buscando a arte nas pequenas coisas da vida, a beleza no menor toque. Para estes de pele morena mais vale um amigo que um apresentador de talk show, uma tarde de conversas que um livro lido, o contato humano que a informação. Todos os povos que foram massacrados pelos brancos euro-americanos têm estes valores no centro de sua sociedade, como uma forma de resistência cultural. Índios americanos, latinos, africanos, hindus, árabes – povos que sobrevivem com seus rituais e danças, privilegiando o convívio e a comunidade ao isolamento amedrontado imposto pelo capitalismo europeu. O terceiro mundo é um grande país que vive uma era de medo e exploração que ameaça sua própria existência. Uma longa noite.

A metáfora é de Manu Chao, líder do falecido Manu Negra, em seu excelente primeiro disco solo. Clandestino – Esperando La Ultima Ola…. “Uma longa noite de 500 anos”, ele lamenta no disco. “Quando sairá o sol?”, espera ansiosamente. Transitando entre as culturas, os ritmos e os idiomas das diferentes faces deste país intercontinental, Manu é o traficante da liberdade. Atravessando fronteiras com o idealismo romântico de Che Guevara, ele prega aos quatro ventos sua versão dos fatos, como um Fox Mulder solitário dos trópicos, querendo expor a verdade a todo custo.

“Tudo é mentira neste mundo/ Tudo é mentira, é verdade”, segue cantando. Sim, é verdade. Escutamos a versão dos fatos e adotamos todos os padrões do povo que nos explora. Ele abre o disco comentando a sua situação perante olhos oficiais: “Correr é meu destino/ Para burlar a lei/ Perdido no coração da grande Babilônia/ Me chamam de clandestino porque não levo papéis”. Fugindo do braço da lei, ele explica outra reputação na segunda faixa, “Desaparecido”: “Me chamam de desaparecido/ Quando chegam, já fui/ Voando venho, voando vou/ (…) Quando me procuram não estou/ Quando me encontram não sou eu/ O que está a sua frente, porque saí correndo”. A constante fuga é seu destino de nômade andarilho: “Levo no corpo uma dor/ Que não me deixa respirar/ Levo no corpo uma culpa/ Que me faz sempre caminhar/ (…) Levo no corpo um motor/ Que está sempre a funcionar/ Levo na alma um caminho/ Que nunca vai chegar”. “Perdido no século vinte”, se pergunta, “quando chegarei?”.

Correndo de um lado pelo outro, ele canta em inglês, espanhol, português e francês, repetindo trechos de música no decorrer do próprio disco, misturando e convergendo ritmos e dando o mesmo recado – não há diferença entre os povos, todos são iguais. É o mesmo lamento, é a mesma canção, o mesmo pulso, o mesmo pesar, alegria e dor. A opressão apenas é mais um fator que nos une e Manu lamenta os “dias de lua” que vivemos, nessa noite que parece que não tem fim. “Acima a lua, vê!”, aponta em “Luna y Sol”, ao mesmo tempo em que espera o nascer de um sol que não vem.

Diferentes gêneros se encontram na música de Manu, sem distinção. House, rock, mariacchi, reggae, samba, funk, rumba, ju-ju, dub, calipso, rap, guarânia, mambo, salsa… Toda música de rua descende da mesma origem, é o que canta a alegre voz de Chao. Usando instrumentos convencionais (o violão é seu fiel companheiro de viagens), a música em Clandestino sai de todos os sons. Desde um insuportável chaveirinho made in Paraguai (aquele que faz ruídos de videogame) até o som do vento, a música ambiente é parte fundamental do disco. Transmissões de rádio (a internet deste país) e barulho de gente completam os espaços das músicas, nos colocando no meio de um grande e lotado mercado livre. A forma que ele utiliza as vozes das pessoas ganha especial destaque em faixas como “Por El Suelo (Esperando La Ultima Ola)” e “Lagrimas de Oro”, quando um insuportável locutor de FM em inglês e um narrador de jogo de futebol em rádio AM em português explodem suas vozes no lugar de um solo, transformando a voz humana num estranho mas eficaz instrumento. Todos obedecem a apenas uma regra: o ritmo. Ele faz as pessoas caminharem e a música fluir, faz a vida seguir seu rumo.

“Eu sou um rei sem coroa, passeando na grande cidade/ Porque eu sou o rei do bongô”, diverte-se no toast repente “Bongo Bong”, que metamorfoseia-se rapidamente na francesa “Je Ne T’Aime Plus”. Sua fluência rítmica é suficiente para comprovar sua vida de cigano moderno. Mas chegamos até “Minha Galera” e ouvimos passear pelo português brasileiro gingando gringo: “Minha maconha/ Minha torcida/ Minha querida/ Minha galera/ Minha cachoeira/ Minha menina/ Minha flamenga/ Minha capoeira/ Minha Valéria/ Minha maloca/ Minha larica/ Minha cachaça/ Minha cadeia/ Minha vagabunda/ Minha vida/ Minha mambembe/ Minha ladeira”. O cara passou uma bela temporada no Brasil e saiu daqui apaixonado. Como sai de qualquer país.

Afinal, esta é sua sina. Carregar a música e a cultura de um lado para o outro, trocar experiências e manter o mundo em contato com ele mesmo. “Passe este manifesto adiante”, diz o subcomandante Marcos, do Exército Zapatista, sampleado. Notícias são bobagens, o que importa é saber se o coração ainda está batendo. Manu Chao corre o planeta no ritmo deste pulso, avisando-nos que ainda estamos vivos. E ajuda a manter a pulsação.

Zen Arcade – Hüsker Dü

“Estou sempre fascinado com o fato da música mostrar idéias para as pessoas. Você pode formar imagens, contar uma história, ser realmente didático sobre o assunto e contar as pessoas o que elas devem fazer. Mas acho que o verdadeiro poder da música é que o ouvinte pode ouvir o que quiser ali”, disse Bob Mould em uma velha entrevista à revista Grafitti. Um cara tão normal quanto você e eu, Mould conhecia este poder de perto e usou-o para explicar algumas coisas para seu público alvo, o jovem adulto, que não sabe se é adolescente ou maduro e vaga por indecisões morais, éticas e políticas que interferem diretamente em sua vida pessoal.

A psicologia usada por Mould e Grant Hart, o outro compositor e vocalista (além de baterista) do Hüsker Dü não usava metáforas nem floreava sentimentos. Os dois contavam suas próprias experiências e frustrações como narradores de histórias alheias. Olhavam para dentro de si e confessavam seus pecados e medos – os mesmos de todo mundo. Juntos com o baixista Greg Norton, cuspiam essas histórias casando canções perfeitas com o mais ousado punk rock sem perder suas referências básicas. Pesado, elétrico, energético e vigoroso, o Hüsker Dü é uma das bandas mais importantes dos anos 80 e da história do rock.

E há quase vinte e cinco anos escreviam o capítulo definitivo de suas vidas, a obra definitiva sobre o medo de crescer, a dor da responsabilidade, a transição da puberdade à maturidade. Zen Arcade era exatamente o que seu título propunha: um fliperama que leva o vencedor à paz de espírito. Em dois discos completos com canções mágicas e riffs matadores, o trio de Minneapolis conforta a insegurança do ouvinte como um desabafo de amigo e nos conta verdades que não sabíamos se podíamos admitir, para nosso alívio. Conflitos que todo mundo já viveu, mas nunca tem coragem para pedir ajuda. Quando se corre ao banheiro para chorar escondido e pensar se é possível que a vida valha a pena. Isso não é uma questão de classe(s), pois todo mundo passa por essa fase, por mais seguro que seja.

E Zen Arcade nos explica suas verdades e apresenta-nos seus medos sem romantismo ou intelectualidade. Há sim, poesia e ciência no Hüsker Dü, mas ela é palpável, humana e real. O trio não nos impõe regras ou dogmas, apenas nos conta uma história, dividida em várias partes, em que podemos observar nossas mais diferentes reações na pele de outra pessoa.

A história é simples. O personagem principal é um moleque que aos poucos aprende as dificuldades da vida (“Something I Learned Today”) – uma delas são seus pais que brigar toda noite (“Broken Home Broken Heart”), trazendo-lhe raiva (“Never Talking to You Again”) e fazendo com que ele pense em fugir de casa (‘Chartered Trip”). Sozinho no escuro do quarto, ele embebeda-se de sono (“Dreams Reoccurring”) enquanto certifica-se que a fuga é a melhor saída. Foge para a cidade grande (“Beyond the Threshold”) e vê-se sem dinheiro (“Hare Krsna”). É o suficiente para que passe a culpar-se pelo próprio erro, reconhecendo o orgulho idiota (“Pride”), a ausência dos pais (“I’ll Never Forget You”), um possível retorno (“The Biggest Lie”) e entrando num estado de confusão que o faz pensar na própria sanidade mental (“What’s Going On”) e no sentido da vida (“Masochism World”). Assume o próprio erro (“Somewhere”) e encontra a razão de viver olhando para o mar (“Standing by the Sea”) para depois admitir que não sabe lidar com responsabilidades (“Pink Turns to Blue”). Olha o mundo em sua volta (“Newest Industry”) e depois para si mesmo (“Whatever”), enquanto volta a se indispor durante o sono (“The Tooth Fairy and the Princess”). Até que percebe que o problema do mundo é a falta de amor (“Turn on the News”), acordando subitamente (“Reoccurring Dreams”). Foi tudo um sonho.

Sonho que também é uma boa alusão ao título do disco. Imerso nos sentimentos enquanto dorme, você exercita suas idéias e opiniões durante o sonho, filosofando durante uma concentração irracional, como um fliperama zen. Mas por que um fliperama?

Porque Zen Arcade é um desafio e é divertido. Florescendo junto com a primeira onda de hardcore, o grupo encontrou no punk rock um vasto terreno para crescer e dar frutos. E fizeram com o gênero o mesmo que os Beatles fizeram com o rock, que os Beastie Boys fizeram com o rap, que o Funkadelic fez com o funk, que o Kraftwerk fez com a música eletrônica: transformaram um gênero primal em um vasto leque de possibilidades inexploradas, reunindo dois pontos básicos e opostos. Ao mesmo tempo que empurravam os limites à distância possível, faziam-no com canções perfeitas, tiros certeiros, músicas nota 10. Fazer pensar e fazer cantar (ou dançar), colocar as duas inteligências para interagirem de forma harmônica, nos transpondo para aquela região da psiquê humana que só quem já se deixou influenciar completamente (mental, espiritual, físico e racionalmente) pela música conhece.

A comparação com os Beatles é a mais eficaz porque era o espelho que o trio se refletia. O fato de terem as canções distribuídas entre dois grandes compositores e intérpretes que se equilibravam (um mais visceral, outro mais emocional) e por escrever músicas em que tudo – absolutamente tudo – funciona, nos leva às docas de Liverpool que abre as portas da Inglaterra beatlesca. Mas o cenário é diferente: a psicodelia não é um artigo de luxo, mas um mal necessário para agüentarem a estruturação dos primeiros alicerces da cena indie americana. Enquanto os Beatles faziam incessantes turnês pelo mundo, o Hüsker Dü fazia o triplo de shows pelos Estados Unidos.

Então é compreensível o tipo de atmosfera que floresça o talento de uma geração de bandas que, descontado o fato que saem do barulho e da velocidade, pode ser considerada tão importante quanto a chamada British Invasion – ou ao rock clássico. Enquanto o Hüsker Dü eram os Beatles, os Replacements eram os Rolling Stones, os Minutemen eram o The Who, o Sonic Youth era o Velvet Underground, os Meat Puppets eram o Led Zeppelin, o Black Flag era o Black Sabbath, o R.E.M. eram os Byrds. Todos cruzando os Estados Unidos de perua e tocando onde dava pra tocar. Garagens transformadas em casas de shows em minúsculas cidades de estados distantes, criando toda uma geração de roqueiros que basta listar apenas algumas de suas crias num fôlego só (Nirvana, Sebadoh, Mudhoney, Pixies, Fugazi, Superchunk, Sleater-Kinney, Beastie Boys, Beck, Bikini Kill, Smashing Pumpkins, Tortoise e Pearl Jam) para se ter a noção da importância na história do rock.

Afinal foi esta geração que, durante os anos 80, construíram o rock independente americano. Nomes como Steve Albini, Jon Spencer, Ian McKaye, Henry Rollins, Jello Biaphra, HR, Glenn Branca, Mike Watt, Exene Cervenka, Stiv Bators, Lydia Lunch, Darby Crash e muitos outros hoje são celebridades de importância justamente porque ajudaram a construir esta cena. Mas foram as bandas que a tornaram possível. E todas elas atravessavam os EUA várias vezes em excursões intermináveis. E, como todas elas, o Hüsker Dü gravava seus discos nos intervalos, enquanto testava o repertório do próximo disco em plena turnê, testando versões diferentes de várias músicas durante os shows, fazendo com que cada apresentação da banda fosse única.

Zen Arcade é o ponto de mutação do grupo. A bateria martela a entrada marcial seguido de um baixo pós-punk tocado com palheta, num andamento que acelera à entrada da guitarra, tão desesperada quanto o vocal de Bob Mould: “Algo que aprendi hoje/ Preto e branco é sempre cinza”. “Something I Learned Today” abre o disco com violência e reflexão após verdades ditas de forma curta e grossa. O tema do lado A (a revolta) deste disco duplo em vinil é descrito a partir de seu primeiro sintoma: a raiva ante à imposição de regras. “Broken Home Broken Heart” desacelera mas continua com a urgência e dinâmica hardcore característica da primeira fase do grupo e descreve a aflição de um personagem atormentado pelas brigas dos pais (“Você não sabe quem está certo ou errado/ Tendo que se acabar chorar para conseguir dormir”). Ao violão, Grant Hart dá sua primeira contribuição ao disco. Seguido ao violão e voz por Bob, os dois abraçam o folk em I “Never Talking to You Again”, o definitivo racha do “personagem principal” com seus pais (entre aspas, porque o tema por trás do disco só pode ser entendido se ouvido na ordem em que ele foi concebido – sós, as canções não contam histórias, mas expressam determinados sentimentos).

A partir daí, uma mudança sutil passa a permear todas as canções. Mais do que explosões hardcore sobre músicas perfeitas, as próximas músicas soam mais complexas, sem perder nem espontaneidade nem o senso pop. Interessante destacar que esta mudança acontece logo após o rompimento com as figuras materna e paterna, no momento da vida em que todas as pessoas percebem que terão que decidir por si só tudo que diz respeito à vida delas. É o início da maturidade – musical, no caso do Hüsker Dü.

“Peguei minhas coisas numa mochila de nylon/ Ouvi o cobrador chamar/ Disse “o céu é o limite nesta viagem fretada/ Melhor ficar (longe daqui)”. A decisão de fugir de “Chartered Trips” parece tão convicta e ideal quanto seu instrumental. Abrindo com um dos riffs que mudaram a vida de Doug Martsch (do Built to Spill), dedilhado e veloz ao mesmo tempo, distorcido e melódico. Como o vocal de Bob, berrado como outras vezes, mas contido, sério, decidido, valorizando a melodia da canção. “O horizonte é abstrato”, canta, querendo apenas ir, sem destino, “Viagem fretada à diante”.

De repente, um disco de trás pra frente. “Dreams Reoccurring” traz solos de guitarra, uma violenta bateria, um baixo pesado, um riff conduzindo um ataque a três agressivo – tudo de trás pra frente, tudo fazendo perfeito sentido. Mas tudo soando lúdico e psicodélico devido à inversão sonora, dando o ar de sonho que a canção pede. Você só percebe que o som está invertido pelo timbre alienígena dos três instrumentos, mas todos os passos dela fazem sentido, um palíndromo gigantesco e perfeito, escrito através do rock.

Ela entra em “Indecision Time”, que faz o protagonista ter seu último escândalo adolescente. Brigando consigo mesmo, Bob Mould volta ao hardcore básico para mostrar o aspecto infantil e primitivo desta última revolta. Começa a fase da indecisão, o princípio da maturidade. “Questões como uma vela que queima nas duas pontas/ Nunca encontra uma resposta que se encaixe em seus planos/ Pra frente e pra trás entre o bem e o mal: Era da Indecisão/ Você é tão natural, tão livre/ Por que não decide o que é melhor pra mim?”, berra o último rock’n’roll abrutalhado do disco, “Vá pra esquerda, vá pra direita/ Sua mente fica acesa a noite toda/ Gira no sono, agarra-se às cobertas, sua à morte”. Sim, estamos entrando em alfa, o sonho vai começar.

Começa o lado B com Grant Hart fazendo tudo em “Hare Krsna”. O baterista usa uma bobagem qualquer sobre Hare Krishnas para aventurar-se pela música hindu sem culpa. Apenas com seus conhecimentos musicais da cultura da Índia (tirados dos Byrds, de John Coltrane, de George Harrison e Ravi Shankar, certamente), Hart balbucia mantras e berra o título da música enquanto experimenta guitarras sobre um andamento estranhamente oriental. A referência a um elemento místico na cultura pop e o momento solo de um dos compositores são características também de “The Tooth Fairy and the Princess”, de Bob Mould, que é tocada pouco antes do sonho (e do disco) acabar.

“Beyond the Threshold” é outro momento mágico. Uma frase musical é repetida com força e ritmo pelo trio, enquanto os dois vocalistas dividem vocais soturnos como os de “Murder Mystery”, do Velvet Underground, e berros que rasgariam para sempre a garganta de qualquer um. “Uma cidade cavala/ Um grande deserto/ Deserto de asfalto/ Selva de asfalto”. Chegamos à cidade grande, “além do limiar”, como diz o título da música.

“Pride” assiste Mould em outra sessão de gritos que fazer a garganta doer quando se ouve. Sobre um rhythm’n’blues aceleradíssimo (que orgulharia Pete Townshend, do Who), Bob amaldiçoa o orgulho por ele ser a razão da frieza na cidade. E por ele estar tomando conta de si mesmo em relação à separação dos pais: “Seus pais mandam dinheiro/ Mas ele não volta/ Sem reação, sem resposta/ Esqueça-o, apenas esqueça-o”.

Um polígono desenhado no baixo do jeito mais anos 80 possível abre “I’ll Never Forget You” e o coração do protagonista. Este xinga e chora as razões de ter saído de casa: “Disse tudo que eu sabia sobre mim para você/ Você não ouviu uma palavra do que eu disse/ Cuspi minhas intimidades, joguei tudo fora/ Nunca se importou comigo/ Só queria ser seu amigo/ Agora sei, tem que acabar/ Eu nunca vou te esquecer, eu nunca vou te perdoar”.

O riff sabbáthico começa a parábola do filho pródigo. “Você acha que você chegou ao topo porque todos conhecem seu nome/ Você ainda é o mesmo/ Seus sonhos não são pra sempre, melhor catar as coisas/ Pra um novo jogo”. O refrão é docemente pop e impossível de se imaginar numa banda punk. “De volta ao emprego/ De volta à namorada/ De volta à cidade natal/ A maior mentira”, se arrepende em cima da hora. Até que questiona a sua própria sanidade em “What’s Going On (Inside My Head)”, que conta com um piano inesperado. “Eu estava falando quando deveria estar ouvindo/ Não ouvi nada do que me foi dito/ Não devia ser importante/ Porque eu estava preocupado com o que estava acontecendo dentro da minha cabeça”. “Masochism World” vê um Grant Hart testando os limites físicos da dor, enquanto conduz o ritmo que termina em convulsão instrumental.

O lado C é o mais poético do disco. “Standing by the Sea”, outra de Hart, nos mostra o narrador contemplando a beleza do mar e entendendo a resposta da vida nas coisas mais simples, no caso, as ondas do mar. A canção é de uma beleza impressionante e não deixa o punk perder a força. “Procurando a verdade só encontrei mentiras/ Tentando achar uma identidade só achei um disfarce/ Vi o pesadelo quando tentei ver o sonho/ Encontrei a realidade tão perfeita como é”, arrepende-se em “Somewhere”, que também entra vigorosa para descambar num refrão essencialmente pop, com Mould sussurrando os vocais sob os berros de Hart. “Em algum lugar a poeira vai embora com a chuva/ Em algum lugar há felicidade em vez de tristeza/ Em algum lugar satisfação não tem nome/ Em algum lugar onde eu possa ser o mesmo”. Somente ao piano, o interlúdio “One Step at a Time” (Um passo de cada vez), nos mostra o ritmo que precisamos ter para tomarmos decisões.

E “Pink Turns to Blue” – de Hart – entra lenta, macia e perfeita, com vocais em falsete e uma doce melodia. Conta a historinha de um casal que não sabe direito o que é amor para concluir, com medo, no refrão que “eu não sei o que fazer quando o rosa torna-se azul (ou triste, dependendo da tradução)”. Ela nos lembra da dureza que é quando a vida fecha a porta na cara da gente pela primeira vez, a sensação de impotência cantada com doçura e perfeição pop. “Newest Industry” é a desculpa que Mould precisava para falar de política, ainda que com a sensibilidade melódica aguçadíssima, criando um painel em que os Estados Unidos atravessam uma guerra em seu país. “Bombardearam o leste, bombardearam o norte, não há mais para onde ir/ (…) Vamos anexar o México/ O peso vale só dez centavos, mas eles têm toda aquela terra/ Nem precisa guerra civil, eles irão entender, né?”, ironiza. Ao final, Bob volta ao piano para mostrar – como um velho professor – que o riff de guitarra que estava tocando era, na verdade, uma frase musical.

A desculpa vem ao fim em “Whatever”. “Ele vive em sua imaginação, com aqueles amigos dele/ Ele não se dá com o mundo exterior, prefere ficar só/ Às vezes, tarde da noite, ele tenta entender o porquê/ Os planos que fez nunca acontecem, tudo que faz é chorar”, canta Bob Mould sobre o cavalgar do trio, “Seus pais não entendem onde seu filho deu errado/ Ele foge da dor, esquecendo deles quando fugiu/ Prefere ficar só, seus planos são melhores/ Ele finalmente encara a coragem e a vida torna-se um teste”. O refrão é berrado e tem gosto amargo, mas não de arrependimento: “Mãe e pai perdoem-me/ Mãe e pai não se preocupem/ Não sou o filho que vocês queriam, o que mais vocês podem esperar?/ Fiz meu mundo de felicidade para combater sua negligência”. Antes do fim do lado C, Mould tem seu momento solo com a sonolenta “The Tooth Fairy and the Princess”. Invertendo trechos de guitarra e uma discreta percussão, ele superpõe os efeitos sonoros sobre um dedilhado psicodélico e vozes fantasmagóricas e monótonas: “Não desista/ Não deixe ir/ Não ceda/ Não deixe/ Em sua cama/ À noite/ Tão quente/ Não acorde”.

O lado D abre com “Turn on the News” – outro momento político, outro punk clássico, desta vez de Hart – que cita os problemas de nossa sociedade (“Escuto todo dia no rádio/ Um cara matou outro que nem conhecia/ Aviões caindo do céu/ Um bebê nasce e outro morre/ Rodovias repletas de refugiados/ Médicos descobrindo sobre doenças”) e detecta a raiz destes (“Tudo isso nos deixa distantes daqueles que amamos”). A jam de “Reoccurring Dreams” volta agora certa, tocada da forma correta (e prolongando-se em 13 minutos até o fim do disco). E ao ouvirmos quase a mesma música com timbres certos, voltamos à realidade e acordamos do sonho. Um passeio pela mente de qualquer adolescente inconformado com sua situação. Revolta, vingança, arrependimento e maturidade – um ciclo obrigatório que o protagonista vive num sonho.

Isso tudo num disco duplo gravado em pouco mais de três dias, grande parte das músicas gravadas em apenas um take e mais de 80 horas só para a mixagem. Pro Hüsker Dü, tempo era energia. Não dava para perdê-lo, tinha de ser gasto. Zen Arcade é só uma metáfora de sua carreira. A melhor de todas.

3 Lugares Diferentes – Fellini

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Quem se dispôs a ouvir a edição em CD do disco Três Lugares Diferentes, do Fellini, até o fim encontrou Serginho Groisman, na época apresentando seu finado programa Matéria Prima, perguntando ao grupo sobre a relação do punk rock com o chamado – desde aquela época – “rock alternativo”.

A pergunta encerra o disco sem resposta, como se deixassem o ouvinte tirar suas próprias conclusões. O que teria a ver a bossa pós-moderna do grupo dos não-músicos Cadão Volpato e Thomas Pappon com o grito de “chega!” dado pelos ingleses e americanos no fim dos anos 70? Musicalmente, nada. Sozinhos ou acompanhados, o duo Fellini era uma aberração em português, cantada como uma história esquecida, à meia-luz, com o som bem baixinho. A única relação musical do grupo com o punk rock eram os ruídos pós-punk (Cure, Gang of Four, Echo, Smiths) emitidos pela guitarra de Thomas.

Mas historicamente o Fellini era fruto do punk. Não fosse o gênero, seria pouco provável que os dois protagonistas se reunissem para gravar músicas. Mesmo porque as músicas não eram o principal para o grupo. O importante é que eles podiam fazer música sem ser músicos, compor sem serem compositores, gravá-las sem noção nenhuma de gravação. Partindo do zero, a mensagem do Fellini não estava no conteúdo de seu trabalho e sim na forma que eles o encaravam.

Começava pelo fim sempre presente na história da banda. Desde seu primeiro disco, O Adeus de Fellini, o grupo estava disposto a debandar, a acabar com a própria existência. A vontade de registrar o trabalho em estúdios portáteis (os novíssimos portastúdios dos anos 80) dava às canções um ar de elo perdido, como se fossem músicas esquecidas pelo tempo em algum porão de gravadora. Mal-gravadas propositadamente para resgatar o aspecto sintético da canção, as composições do Fellini antecipavam o chamado lo-fi, que floresceu na década atual (partindo exatamente do rock alternativo).

Seu despojo musical também era herdeiro do punk. Poucos instrumentos eram tocados e eram colocados de maneira quase artesanal dentro de suas faixas. Uma bateria eletrônica sempre dava a base necessária para Thomas grunhir seu instrumento e Cadão cantarolar seus poemas de fundo de caderno. Algum teclado ou outros efeitos sonoros funcionavam como ar dentro das músicas, respiros frios e sintéticos como uma versão caseira da produção de Brian Eno nos discos de Bowie em Berlim.

Mas o maior vínculo entre o Fellini e o punk acontecia pelo grupo ser brasileiro e – algo quase impensável na época – independente. Seus discos não eram encontrados em lojas comuns e grande parte de seus ouvintes esperavam seus discos pelo correio. O reembolso postal era a versão pré-histórica da internet e fazia-nos ficar mais perto de Londres, de Nova York ou de São Paulo, estando em qualquer parte do Brasil.

Lembro quando recebi meu Três Lugares Diferentes. Era como se pudéssemos nos transportar para aquele universo imaginário do rock alternativo alardeado nas páginas mais paulistanas da extinta Bizz. Um lugar que não existia, mas que era idealizado e executado por pessoas que acreditavam na possibilidade de se fazer música sem conhecer música. Enquanto o rádio tocava Titãs, Kid Abelha e Legião Urbana, discos do Picassos Falsos, do Akira S, do Gueto, do DeFalla e de outras bandas nos alertava à possibilidade de existir algo além do mainstream badalado no Chacrinha. Era uma revolução que, se explodisse e fosse às massas, perderia seu charme.

Três Lugares Diferentes tinha todo o charme que esta cena precisava. Transformado em trio com a participação do tecladista Ricardo Salvagni (que tocava bateria no primeiro disco), o disco é o principal legado do Fellini às gerações posteriores e seu maior feito foi empatar com os Titãs de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas na votação da crítica daquela revista antiga, no quesito disco do ano.

Pra quem acompanhava o grupo era o maior trunfo. Afinal, com não-canções como “Ambos Mundos”, “La Paz Song”, “Rio-Bahia” e “Onde o Sol se Esconde” conquistavam um lugar ao lado do grupo experimental oficial do país. Enquanto os Titãs colhiam os louros da dupla aceitação (crítica e público), o Fellini vinha caminhando pelo submundo do rock nacional como uma alternativa viável e real – cantando em português e sobre o Brasil. E não era um grupo antipop – canções como “Zum-Zum-Zazoeira”, “Teu Inglês” e “Pai” poderiam muito bem ter tocado no rádio.

Mas não tocaram. E o grupo ficou recluso ao sucesso cult. E entraram pra história assim. Como diz Osmar Santos em outro trecho do disco, “ninguém ganha nada, o disco não tá legal, mas a gente tá dando risada, tá uma curtição, vamos levar isso pra frente”. O Fellini era isso – uma curtição possível de ser levada em frente. Mesmo se não desse em nada…