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Realce – Gilberto Gil

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O fim da ditadura militar deixou boa parte da MPB desnorteada – sem um inimigo comum, estava oficializado o cada-um-por-si. De todos seus artistas, talvez o que melhor tenha entrado nos anos 80 seja Gilberto Gil – ao lado de Rita Lee. Mas se Rita despiu-se da persona Mick Jagger para entrar de cabeça no pop deslavado, Gil abraçou o reggae (regravando Bob Marley) e a disco music (escalando Lincoln Olivetti para os teclados) como opções estéticas. No entanto, Realce, o primeiro disco do cantor pela gravadora Warner e o último de sua série de discos “Re” (Refazenda, Refavela e Refestança são os outros), é brasileiríssimo – a começar pela irresistível “Toda Menina Baiana”. Mas a viagem continua por outros clássicos de Gil, como “Tradição”, a bela – e bi – “Superhomem – A Canção”, “Sarará Miolo” e a faixa-título, além da incrível reinvenção de “Marina”, de Dorival Caymmi.

Gilberto Gil (1968) – Gilberto Gil

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O fardão da Academia Brasileira de Letras vestido na capa do segundo disco lançado pelo futuro ministro da cultura não deixa dúvidas: estamos entrando no território de Sgt. Pepper’s. Mas o filtro tropicalista vai além dos choques de contrastes e estéticas proposto pelo disco manifesto da turma baiano-paulistana. O que vemos, em vez do conflito, é a banda do sargento Pimenta subir o coreto da pracinha de alguma cidade do interior do Brasil. Gil rege o disco com batuta do mestre Duprat e com a assistência luxuosa dos Mutantes em ponto de bala. A certa altura da jam “Pega a Volta Cabeludo”, o baterista Dirceu resume a vanguarda e a breijerice numa frase: “O som psicodélico é redondo que só uma gota”.

Qualquer Coisa/Jóia – Caetano Veloso

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São raríssimos os artistas que se adaptam ao mote “quanto mais hippie melhor” – e até aqui encontramos Caetano Veloso. No pacote duplo de 1975, ele agarra-se aos Beatles (a capa de Qualquer Coisa sampleia a de Let It Be, a de Jóia vem do primeiro solo de Lennon, Two Virgins – além das versões para “Help!”, “Lady Madonna”, “Eleanor Rigby” e “For No One”) para tornar-se mínimo. Aqui quase sempre ouvimos Caetano, seu violão, algum vocal de apoio, certa percussão, flautinha ali, teclado acolá – tudo muito discreto, lírico e sutil. Uma carta de intenções sussurrada ao ouvido.

Refavela – Gilberto Gil

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A paisagem apresentada é a renovação do cenário da favela, mas, em contraponto ao clima campestre do disco anterior de Gil (Refazenda), Refavela não é apenas um disco de periferia e sim um álbum de ponto de vista urbano, cantando dores e prazeres da vida na cidade grande – mas sem uma visão apocalíptica sobre a inevitabilidade da metrópole, quase sempre vista como caótica e opressora. Não aqui. Gil encara ruas, postes acesos e prédios como criação humana e, portanto, da natureza. Maravilhado com o despertar das consciências nacionais tanto de um movimento negro e quanto da noção de que a miséria do país é onipresente, o baiano usa o violão como guitarra de funk e propõe uma abordagem rítmica sobre a tensão da cidade grande. E assim Gil continua se revendo.

Revolver – Walter Franco

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Você já ouviu essa disco: um gênio improvável em uma trip solitária beirando o autismo, seguido de uma banda azeitada no jazz-rock setentão, segura do próprio improviso. Esta fórmula deu origem a jóias como Bryter Layter, Astral Weeks, Histoire de Melodie Nelson e, no Brasil, ao ímpar Revolver. O segundo e último disco da fase clássica do cantor e compositor (depois do lançamento, recolheu-se por completo, dando as caras vez por outra), consagra seu estilo, em que combina a sabedoria ancestral do trocadilho com brincadeiras concretistas em forma de letras. Entre a voz e a banda, outra assinatura musical sua sublinha todo o disco – colagens de vocais e sussurros superpostos. Revolver também é daqueles momentos únicos em disco no Brasil, quando certa intelectualidade lírica acompanha de igual para igual o instrumental vigoroso de uma banda de rock.

Õ Blésq Blom – Titãs

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Por mais que a pecha de “banda de rock” caísse como uma luva para o octeto (principalmente após Cabeça Dinossauro), os Titãs nasceram no terreno fertilizado pela vanguarda paulistana do começo dos anos 80. E por mais que gritassem e fizessem barulho, nunca deixaram seu apreço pelo cabecismo em segundo plano – e foram terraplanando, disco a disco, a base para seu Grande Álbum de Arte. Este aconteceu no fim da década, quando Õ Blésq Blom colidiu sampler com rock naïf, country com sax, concretismo com niilismo, funk com pós-punk – e deu ao grupo seu ápice criativo. Depois, alguns integrantes deixariam o barco e a banda perderia de vez o prumo. E se antes apontava para o alto, estabilizou-se numa reta horizontal – levemente inclinada para baixo.

Ventura – Los Hermanos

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“Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?”, pergunta o vocal choroso de Marcelo Camelo, acompanhado de dois clichês da MPB de barzinho (a guitarra com acordes puxados e a bateria aro de caixa). Mas em menos de meio minuto o resto da banda engata uma batucada quadrada, indie de tão branca. É a contramão do samba-rock, o rock-samba inventado pelo antigo grupo de skacore no álbum anterior, O Bloco do Eu Sozinho. O tema parece indigesto (rock tocado como se fosse música brasileira), mas o quarteto, como no disco anterior, passeia desenvolto por um universo todo seu, em que Noel Rosa e Noel Gallagher trocam farpas entre descrições precisas de um cotidiano classe média e melodias memoráveis. Primeiro disco brasileiro a vazar na internet antes de seu lançamento (a contragosto da banda, que mudou até o título original, Bonanza), Ventura é o Lado B do Bloco e se aquele disco tinha tonalidades quentes do fim de um carnaval, o terceiro CD da banda vem com uma cor azulada do começo da noite e fim de madrugada. E em vez de uma lágrima, um sorriso.

Novo Aeon – Raul Seixas

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O Brasil não teve seu Elvis, Roberto Carlos era certinho demais para o papel e a jovem guarda era calcada nos filmes dos Beatles, não nos do monarca de Memphis. E do mesmo jeito que o nosso Mick Jagger usa saias (sim, Rita Lee), a persona de Elvis foi bater na porta de um baiano que entendeu o rock’n’roll como um baião arrogante, encontrando semelhanças – às vezes óbvias – entre Luiz Gonzaga e Robert Johnson. Seu sétimo disco pode não ter vendido tanto quanto os anteriores (Gita vendeu 600 mil discos, Novo Aeon, 60 mil), mas resume e refina o personagem que Raul criava: ególatra (“Eu Sou Egoísta”), inseguro (“Para Nóia”), hedonista (“A Maçã”), hippie (“Sunseed”), roqueiro (“Rock do Diabo”, “A Verdade Sobre a Nostalgia”), brega (“Tu és o MDC da Minha Vida”) e esquizofrenicamente brasileiro (“Caminhos”, “É Fim de Mês”). Mas é em épicos como “Tente Outra Vez” e a faixa-título em que mostra que tem sangue azul – e as palavras “rock” e “brasileiro”, aparentemente antagônicas, soam como uma só.

África Brasil – Jorge Ben

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Cada país tem o Bob Dylan que merece e o nosso tem seu auge no improvável meio dos anos 70, quando enfileira uma seqüência de discos do mesmo naipe da tríade Bringin’ it All Back Home, Highway 61 e Blonde on Blonde. Depois da psicodelia acústica de Tábua e do exorcismo ao vivo com Gilberto Gil, Ben larga o violão e assume a guitarra como instrumento de condução – num conjunto de canções de valor inestimável. “Ele chegou descontraído, chegou filosofando num tom de voz meio angelical”, apresenta-se em “O Filósofo”, pisando passos mais firmes e elétricos que os do mutante que atravessou os anos 60 entre a bossa nova, o tropicalismo e a jovem guarda. Syd Barrett com James Brown, Paulinho da Viola com Sly Stone – as metáforas mais estranhas ainda soam falhas pra definir o choque da cuíca, tamborim, apito e pandeiro com baixo, guitarra, teclado e bateria provocado por Jorge, escudado por cobras do naipe de Dadi, Wilson das Neves, Nenê, Djalma Corrêa e José Roberto Bertrami. Futuros standards de Ben como “Umbabarauma”, “Xica da Silva” e “Taj Mahal” (surrupiada por Rod Stewart, logo depois) convivem naturalmente com faixas que aproximam o groove black do terreiro afro e do morro carioca, como “Hermes Trismegisto Escreveu”, “Meus Filhos, Meu Tesouro” e “Cavaleiro do Cavalo Imaculado”, culminando com uma versão irrepreensível para “Zumbi”, rebatizada com o nome do disco. Voa, Jorge!

Cartola (1974) – Cartola

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Machado de Assis tinha pouco mais de trinta anos quando lançou seu primeiro livro e quase sessenta quando fundou a Academia Brasileira de Letras. Com Cartola foi o inverso – fundou a Estação Primeira de Mangueira com vinte anos de idade, mas só foi lançado em disco aos 65 anos. Ainda que tarde, fomos apresentados a um compositor do primeiro escalão do cancioneiro nacional e um cantor que encontrou a temperatura exata do calor familiar em seu timbre frágil e suave. Em seu primeiro LP, o velho Angenor de Oliveira exibe suas canções com o orgulho e a felicidade de um ourives apresentando jóias trabalhadas há décadas. E o repertório – inacreditável, como a execução – vale ouro.