
Tim Burton vai filmar Alice no País das Maravilhas. Como tudo na mão desse diretor, pode ficar fodíssimo ou pode ficar uma merda. Aproveitando a notícia, o 90 deu um toque sobre essa versão feita em 88, pelo tcheco Jan Švankmajer (que a chamada na capa avisa ser uma mistura de Disney com Buñuel) – não conhecia. Nessa praia, recomendo o Labirinto do Fauno, o melhor filme de 2006, sinistro de bom. Por hora, tou vendo se assisto o Tin Man. Depois eu digo.
E por falar no clipe novo do Hot Chip, você já deve ter visto as imagens mais recentes do Coringa do novo filme do Batman, né…

…mas e o poster pro Indiana Jones 4, tinha visto?

Hot Chip fez um dos melhores shows do ano (mas não pra quem deu mole de assistir o Timfa em São Paulo – eu sempre falo: Timfa em São Paulo é roubada) e agora voltam com essa pérola. Mas se ela não tá prontinha pra pista (como era o caso de “Over and Over”, fácil-fácil uma das músicas da década), três DJs dão a sua versão pro assunto.
Primeiro, o do Jesse Rose.
Depois o do Diplo.
E o melhor dos três, do Soulwax.
Voltou mesmo. Foda. Sente o nível do show…
– Good Times Bad Times
– Ramble On
– Black Dog
– In My Time Of Dying
– For Your Life
– Trampled Under Foot
– Nobody’s Fault But Mine
– No Quarter
– Since I’ve Been Loving You
– Dazed And Confused
– Stairway To Heaven
– The Song Remains The Same
– Misty Mountain Hop
– Kashmir
– Whole Lotta Love
– Rock And Roll
E inda tem gente babando o ovo do Police… Agora é esperar baixar por aqui.
E você achava que a metralhadora na perna da mina no filme do Rodriguez era ir longe demais…

Outro dia o Cadu se perguntava “o que aconteceu com o Laerte?” em referência ao fato do velho cartunista ter abandonado a lógica dos três quadrinhos em sua tira diária na Ilustrada e começado a explorar os limites do formato. O processo foi deflagrado pela morte de seu filho RafaelDaniel,mas tudo indica que a fase terapêutica já passou e Laerte assimilou a nova linguagem como sua. Em vez de colocar personagens conhecidos pra repetir piadas em diferentes pontos de vista, Laerte optou pela criação, às vezes sem sentido, às vezes pesada, limitada pelo espaço de uma tira de jornal – como um tipo de cineasta ao ser confrontado com um novo formato de tela. É como se Laerte tivesse cansado de fazer A Praça é Nossa e tivesse começado a… filosofar.
Comparo essa fase atual do Laerte com a primeira viagem de ácido do Robert Crumb (aquela que fez ele criar todos seus personagens mais conhecidos), só que às avessas (assistimos à abolição do personagem, algo que o Fernando Gonzales domina de uma forma muito pessoal) e em câmera lenta. Acho que ele está indo muito além dos limites do que qualquer artista brasileiro hoje. Nenhum outro conterrâneo – nem Fernando Meirelles, nem o Kassin – está tão ligado á sua própria época e sublinhando isso em sua própria arte do que Laerte. É um privilégio lê-lo todos os dias (já era, mas isso é como assistir às gravações do Bitches Brew).
E essa lógica foi para toda obra atual dele. Das tirinhas no caderno de informática da Folha ao quadrão sobre TV na Ilustrada de domingo. Estes últimos foram reunidos no excelente Laertevisão – Coisas que Não Esqueci, em que mistura memórias muito pessoais com suas lembranças sobre a TV. Fosse o Laerte antigo, veríamos pequenos quadros de comédia de situação no Brasil dos anos 50. Mas como é este novo Laerte, há um espaço para a reflexão e a filosofia (mesmo que infantil, pura) que nos prova que somos contemporâneos de um gênio.
(Como se os Piratas do Tietê já não nos tivessem provado, mas enfim…)
PS – A Carola deu o toque, passei batido – o filho dele que morreu foi o Daniel. O Rafael ajudou ele a organizar o Laertevisão. Mau meu.
Esse não entrou na lista final, mas pediram pra eu fazer o texto antes de fecharem a votação. Não entrou na revista, mas tá aqui…
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O encontro improvável entre um bardo sambista da MPB e um grupo de humor televisivo soltou faísca ao menor atrito. Bom pra todos: Chico Buarque procurava outros temas, uma vez que a resistência à ditadura tornava-se redundante com a abertura do general Figueiredo (seu disco daquele ano, Almanaque, não tinha uma música de protesto sequer), e os Trapalhões precisavam de um prumo para ajudar sua carreira cinematográfica deslanchar de vez. E descobrimos um Chico acanalhado e Didi, Dedé, Mussum e Zacarias funcionando – e bem – sem a ajuda da TV. Da circense – e emblemática – “Piruetas” à cândida “Minha Canção”, a trilha passa pelo forró “Rebichada”, o rock “A Cidade dos Artistas” (com Elba Ramalho), a doce “Hollywood” (com Lucinha Lins) e o xote “Alô Liberdade” (com Bebel Gilberto), sem perder o rebolado e a graça. Mas o Chico subversivo ainda dava sinais nas entrelinhas – das desculpas ao “Meu Caro Barão” à “réstia de luz onde dorme o meu irmão” (que, sutilmente, aponta os últimos porões do Dops). Fora o próprio tema do filme, adaptado da versão que Chico fez de uma peça infantil italiana nos anos 70 – que canta, sem remorso, “todos juntos somos fortes/ Não há nada a temer”.

Flávio Basso já tinha passado pelas fases do rock anos 80 (no TNT), pela algazarra desbocada do começo dos 90 (nos Cascavellettes) e tendia para o folk (quando mudou seu nome para Júpiter Apple), mas um raio lisérgico atingiu sua cabeça pela metade da década e ele se reinventou mais uma vez. Desta vez, pegou diferentes pontas soltas pelo rock brasileiro – jovem guarda, mod, rock de garagem e psicodelia – e as reuniu em um disco forte, coeso e completamente chapado. O disco começa com o hit chinelo “Lugar do Caralho”, um cavalo-de-tróia que não prepara o ouvinte para a chuva Technicolor de referências – que flutuam ao redor do compositor como alucinações sorridentes. Em algum lugar entre Roberto Carlos, Rita Lee e Syd Barrett, Júpiter sente seu corpo derreter, visita outros planetas e conversa com seres imaginários. “Lóki”, aqui, é elogio.

A história da ascensão dos Racionais está ligada diretamente à paulistanização do resto do Brasil. À medida em que o resto do dinheiro que existia no Rio de Janeiro começava a se deslocar de vez para o outro lado da Dutra durante os Anos Fernando, o Brasil deixou de falar “s” chiado e “r” arrastado para chamar os caras de “mano”, as meninas de “mina” e a noite virar “balada”. E acompanhando o passo dos anos 90, passaram por diferentes degraus: nova banda de rap, principal nome do hip hop de São Paulo, porta-voz da metade debaixo da pirâmide social brasileira, sempre crescendo em tamanho e importância. Os Racionais MCs são o Legião Urbana da parte pobre do Brasil e Renato Russo era só um indie birrento perto do magnetismo zen, ameaçador e populista de Mano Brown. E se música é filme, o duplo Nada Como Um Dia… que seguiu sua obra-prima de 1997 (Sobrevivendo no Inferno, Taxi Driver com Touro Indomável) é algo entre o GoodFellas e o Cassino do gangsta rap brasileiro. Scorsese operático, a lente de KL Jay empresta um glamour artificial (leia-se “g-funk”) a uma rotina dramática e pesada – e transforma o rap na trilha sonora de um Brasil paulistano, cheio da grana e sempre desconfiado – noiado e barão. “Vida Loka”, como dizem.