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Ainda infilmável

Por que Watchmen de Zack Snyder não é Watchmen – O Filme, e por que nenhum será

Há muito tempo, quando o filme de Watchmen ainda era considerado uma espécie de lenda urbana, uma das principais curiosidades dos fãs era como eles iriam representar a história do Cargueiro Negro. Para quem não sabe nada sobre Watchmen, Contos do Cargueiro Negro, uma revista em quadrinhos sobre piratas, é um dos títulos do formato mais lidos no mundo paralelo da saga – afinal, num mundo em que super-heróis fazem parte da rotina, por que quadrinhos de super-heróis fariam sucesso?

Mas os tais contos, pelo menos do ponto de vista de Watchmen, não são nos mostrados, à exceção de um. Este surge lido por um personagem completamente alheio à qualquer história das muitas acompanhadas na série. Um garoto negro, chamado Bernie (o mesmo nome de seu único interlocutor na série, o dono da banca de jornais), recostado na esquina que veria o final monstruoso da série se materializar em sua última edição, calmamente lê o quadrinho, completamente alheio à qualquer história que realmente importe em Watchmen, à exceção da revista que lê. Nela, ele acompanha a trajetória do único sobrevivente de um naufrágio, que tem de tomar providências desesperadas – e mórbidas – se quiser continuar vivo.

A história é um dos muitos exercícios de narrativa que Alan Moore exibe como se pudesse dançar com a linguagem que domina. Começamos a ler as passagens da história através da ótica do guri sem sermos perguntados, quadrinhos do conto de terror marítimo superpostos sobre os quadrinhos da história central que fazem o leitor perguntar o que diabos essa porra de história tem a ver com as calças. Até que, como um mágico, Alan Moore tira seu coelho de uma cartola que sequer havíamos avistado – e os quadrinhos começam a conversar entre si, a história ficcional em alto mar e a história real dos super-heróis em crise. Um toque magistral, uma homenagem à força e importância dos quadrinhos, seja linguagem, formato ou narrativa.

Daí a dúvida dos fãs naquele tempo remoto. Será que vão colocar o garoto em frente a uma vitrine de lojas vendendo TVs e alternar as cenas umas às outras? Ou – à medida em que o século digital começou a ver o filme Watchmen tornando-se realidade – será que vão colocá-lo assistindo ao filme ao mesmo filme num PlayStation portátil? Ou será que o diretor vai deixá-lo lendo seu gibi e fazer a câmera “entrar” na história, dando movimento e textura orgânica a imagens estáticas e bidimensionais?

A solução que Zack Snyder optou foi a de transformar o conto em uma animação – e lançá-lo fora do filme. Mas mesmo que em sua versão Ultimate Director’s Cut de cinco horas lançada daqui a dois anos (alguém duvida?) mescle a animação com o filme, a história vai parecer estranha e continuará distante do impacto dos quadrinhos.

Muito pelo fato de Watchmen ser, verdadeiramente, infilmável. Por mais que a direção de arte do filme tenha se esmerado em reproduzir os cenários e personagens desenhados por Dave Gibbons à perfeição (talvez só o Dr. Manhattan, com seu lápis de olho egípcio, olhos sempre bucólicos e benga gigante balangando não tenha ficado tão convincente), a narrativa está longe da burilada por Moore. E olha que Zack Snyder se esforçou para contar tudo: a história paralela dos Minutemen (contada, rapidamente, em uma memorável cena de abertura ao som de “The Times They Are A-Changin’ e em flashbacks) quanto as diversas cenas que acontecem paralelamente e que constroem a história principal e os contrapontos rápidos com a época em que os super-heróis ainda não tinham se tornado ilegais, são histórias superpostas, numa linha do tempo não-linear que alterna câmera lenta, explosão, vísceras e vôos.

Mas Watchmen não tem movimento. A ausência ou excesso de expressões nos rostos dos personagens são detalhados ou caricaturais. Não tem som. A voz de Rorschach e a do Dr. Manhattan soam exatamente como a do narrador da história do pirata, o locutor do telejornal ou do presidente Nixon, pois são vozes ouvidas dentro da cabeça do leitor. Suas cores berrantes são ainda mais berrantes – e suas sombras, menos escuras. Balões de diálogo se alternam com manchetes de jornais, logotipos na rua ou em legendas de narração.

Por isso, por mais que alguns trechos do filme realmente se pareçam com as cenas lidas no quadrinho, elas funcionam mais como homenagem do que como leitura fiel de Watchmen. Porque só há uma leitura fiel de Watchmen: nos quadrinhos. Nisso Alan Moore está coberto de razão ao brigar não apenas com as adaptações de suas obras para a telona mas como ao reclamar que quadrinhos não funcionam no cinema. Parecem que funcionam, mas são mídias opostas, apesar de terem uma série de elementos em comum. Quadrinhos e cinema fazem parte da narrativa histórica do século passado, da forma como aprendemos a ler o mundo e entender o que acontece com ele sem precisarmos nos contentar com livros, rádios, televisão ou jornais.

Então por isso o filme é ruim? Por mais que torçam os detratores, não – sejam eles de Zack Snyder, de filmes de ação ou de histórias de super-herói. Muito pelo contrário. Watchmen é didático e épico ao mesmo tempo, um feito que poucas produções de Hollywood conseguem realizar (Titanic e Gladiador são os únicos que me vêm à memória – ambos, para mim, piores que Watchmen). Como filme de ação, é denso e deprimente, sem nunca deixar a adrenalina cair – seja na tensão ou na pressão. E, mais importante do que qualquer impacto que possa ter, ele está fazendo as pessoas lerem e relerem a obra original (só em 2007, quando o auê em torno do filme começava a ganhar corpo, Watchmen liderou a venda de quadrinhos naquele ano – em relação a todos outros títulos à venda, novos ou velhos). Só por isso, o filme já merecia existir.

E aposto que quando os cheques dos direitos autorais das vendas do quadrinho pingam na conta do Alan Moore, ele sorri escondido. Pode até amaldiçoar, mas…

Comentando Lost: The Life and Death of Jeremy Bentham

Ambos desanimados com a nova temporada, eu e Ronaldo seguimos tentando entender o que acontece com Lost – não apenas as questões enigmáticas que seguram a série, mas também as fracas soluções de roteiro, direção e atuação que estão acontecendo em 2009. Não desistimos ainda, mas depois desse episódio, a média da temporada caiu muito. Já sabe como funciona, né? Você baixa o MP3 no mesmo computador em que vai assistir à série e aperta o play do episódio quando dissermos “valendo”.

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Lost: The Life and Death of Jeremy Bentham

Tem que melhorar…

Antes de falar sobre The Life and Death of Jeremy Bentham, episódio da semana passada de Lost, vamos às vias de fato sobre essa quinta temporada: quanta encheção de lingüiça! Tudo bem, todo episódio tem uma ou duas cenas realmente boas, mas enquanto isso somos arrastados por uma história que ou parece não ter sentido ou que poderia ser resolvida sem gastar tantos episódios. Com a chegada dos Oceanic 5 (cadê o Aaron?) na ilha maluca no episódio 316, parecia que The Life and Death… seria desses momentos de Lost em que tudo se redesenha em um único programa, afinal, veríamos o que Locke falou para que aqueles que conseguiram fugir da ilha resolvessem voltar. E mais: como ele morreu? O que o levou a se matar? Por que ele teria se rebatizado de Jeremy Bentham?

Quando o novo nome de John Locke veio à tona, uma série de teorias começaram a surgir, comparando o contraste entre o Locke e o Bentham original. Será que o careca teria deixado de ser bonzinho e assumido uma postura mais libertária e arrogante como seu novo pseudônimo? O que ele teria feito na ilha que lhe fez optar por uma mudança tão radical que inclui o próprio nome? E logo depois do início do episódio, todo o mistério é desfeito em uma frase, quando Charles Widmore entrega documentos e cartões de crédito para Locke iniciar sua jornada para convencer Jack, Kate, Hurley, Sayid e Sun a voltarem à ilha, citando que do mesmo jeito que seus pais tinham senso de humor ao batizá-lo de Locke, ele assim o fez ao rebatizá-lo.

Simples, não? Simples e PALHA. Locke sequer deve saber quem foi o Bentham original ao mesmo tempo em que pergunto-me o que mudaria caso Widmore o batizasse de “John Doe” (o “fulano de tal” dos americanos) ou o deixasse com seu mesmo nome – e a única resposta que me vem é “nada”. Da mesma forma, assistimos lentamente o careca maluco visitar cada um dos Oceanic Six (menos Sun, pois havia prometido a Jin que não a procuraria) em diferentes cidades do planeta. E o que Locke poderia ter dito a eles a ponto de todos concordassem a voltar à ilha? Alguma ameaça? Um novo ponto de vista sobre todo o acidente, a mudança da ilha e o resgate? Uma novo discurso, menos carola e mais cético?

Que nada: assistimos ao mesmo Locke de sempre vir com os mesmos papinhos de quando ele estava na ilha. “Você tem que voltar” em diferentes variações, com direito às conversas mais íntimas que ele já teve com os mesmos personagens. Mas é um sentimentalismo vazio, oco, que não convence nem o telespectador, quanto mais os carinhas que devem voltar. Sem sucesso, ele resolve se matar.

Hein? O Locke? Aquele personagem que passou pelos piores bocados do seriado, que comeu o pão que o diabo amassou a vida inteira, resolve se matar porque não conseguiu convencer os outros a voltarem à ilha? Widmore não foi tão convincente assim e o principal motivo de ele querer voltar para a ilha (o fato de ele não ter mais nada a perder, como Kate esbraveja) também pode ser um motivo para ele nunca mais querer voltar para lá. Na jornada de Locke, poucos pontos são verdadeiramente importantes para o seriado, como o fato de ele descobrir que sua ex-mulher Helen havia morrido (será? Quem a matou? Ben? Ou ele só forjou sua morte para que Locke tivesse motivos para não ficar fora da ilha?) e a morte de Abbadon (que também pode ter sido forjada, pois logo após ele ser baleado, Locke assume o volante do carro e se envolve num acidente que o leva para… o mesmo hospital que Jack trabalha).

Além disso ainda reencontramos Walt, cada vez mais gigante. Se os produtores não quiserem que o Walt na temporada do ano que vem não seja um negão do porte de um jogador de basquete (ou do Mr. Eko? Hmmmm), é melhor filmarem logos suas cenas, porque ele só convenceu que ainda é um moleque porque Locke conversou com ele na cadeira de rodas.

(Sobre a teoria que Abbadon seria Walt velho, o fato de Abbadon ter morrido – se é que foi – não invalida a possibilidade de ele ter se tornado o ajudante de Widmore. Afinal, uma vez morto no presente, ele pode crescer e voltar no tempo para assumir o papel do procurador sinistro.)

E então temos a cena do suicídio de Locke, cheia de alegorias religiosas – Locke de branco, pendura sua forca em uma cruz de madeira e abre os braços antes de pular, para ser interrompido por Ben todo de preto, que, pouco depois de salvá-lo, mata-o como seu próprio Judas. Junte isso ao fato da ressurreição de Locke ter acontecido três dias depois de sua morte e, pronto, temos a confirmação de que ele é o personal Jesus da série.

Ou ao menos é assim que Widmore e Ben querem que ele pense – e nós também.

Porque a picuinha Widmore x Ben continua completamente alheia à história principal. “A ilha é minha” contra “ele mudou as regras” não ajuda a gente a saber quem é mocinho e quem é bandido nessa história. Lost vem conduzindo a trama pra que nós entendamos que não tem mocinho nessa história, por mais legal e fala mansa que Charles tenha sido no episódio passado. Mas a facilidade em encontrar o endereço de Ms. Hawking e a tranqüilidade com que ele o passou para Desmond insinuam que ele pode estar do lado da Dharma e de Eloise. Mas lembre-se que esse é o mesmo sujeito que botou um avião cheio de cadáveres no fundo do mar e que mandou mercenários num cargueiro matar geral na ilha.

Mas o grande momento do episódio, pra mim, foi mostrado quase na surdina – e de cara. A primeira cena nos revelou que o avião pousou na ilha – e não apenas desapareceu – e o pouso não parece ter sido tranqüilo (ou a pista não estava pronto). Ao mesmo tempo, eles não pousaram na ilha principal – e sim na ilha menor, onde está localizada a estação Hidra. E a primeira cena do episódio da semana passada mostrava um novo personagem Caesar vasculhando a estação como quem procura algo… e acha. Além de folhear uma Life com um monstro do mar carregando uma moça desmaiada, ele acha uma pasta com uma série de documentos a respeito da ilha – um deles é um mapa semelhante ao que já vimos na série e o outro é uma espécie de fluxograma que intercala “tempo real”, “tempo imaginário” e outras linhas do tempo. Logo depois, ele encontra uma arma, que esconde de outra nova personagem, Ilana. Não duvide se os dois estiverem no esquema de alguém – ou de alguéns. Caesar pode ter sido enviado por Widmore, já que chegou no vôo em cima da hora, enquanto Ilana pode ser uma agente de Ben, já que trouxe Sayid. Ainda descobrimos que o piloto e uma mulher fugiram em uma das canoas que estavam na praia – tudo leva a crer que a mulher seja Sun, mas é mais provável que seja uma aeromoça. Afinal, a aeromoça do primeiro vôo sumiu pra morar com os Outros. No fim das contas, o susto de Lapidus no episódio 316 era falso – e ele sempre soube no que estava envolvido. Não só ele, mas vários funcionários da Ajira Airways e a Oceanic Airlines (será que as empresas são de propriedade de algum conhecido nosso?). E não duvide: quando Sawyer, Juliette e companhia remavam num barquinho, certamente é Lapidus e sua companheira quem atiravam neles, na outra canoa.

Mas eles não estavam no tempo da Rousseau? Em 1988? E Jack, Kate e Hurley não foram parar no tempo da Kombi novinha, também conhecido como anos 70? Onde – ou melhor, quando – tá todo mundo?

Saberemos hoje, em La Fleur, quando, aparentemente, voltaremos à ilha e, se Jacob quiser, a quinta temporada deixa a competição como ano mais enfadonho da série depois da terceira safra de episódios. Tomara!

Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: 316
  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • Seth Rogen de Frida Kahlo

    A Vanity Fair fez um especial sobre os “novos reis da comédia” (a tchurma Rogen/Apatow) e recriou cenas clássicas com esses caras – além dessa aí em cima, ainda tem o Jason Segel de Buster Keaton, o Jonah Hill de George Washington, entre outros – dá pra ver mais fotos aqui.