Por Alexandre Matias - Jornalismo arte desde 1995.

Flashback

Nos próximos dias, nada de resenha nova, beleza? Ou é isso, ou não consigo atualizar esta parte do site. O resto continua indo…

Jimi Tenor

“Não estou fazendo nada”, resume o finlandês Jimi Tenor. “Lavando a louça e consertando o carro, talvez”. Vida mansa. Sua filha Phoebe acabou de nascer e ele se deu férias mentais, mudando-se para Barcelona. Aproveitou a mudança de ares para lançar disco novo, o psicodélico Higher Planes (Kitty Yo, importado), o sétimo disco de sua carreira.

Tenor é o nome mais importante da renascença eletrônica da Finlândia. Foi “descoberto” quando o irônico hit “Take Me Baby” tornou-se o hino da Love Parade de 94, despertando o subseqüente interesse da inglesa Warp (casa de Aphex Twin, Boards of Canada e Autechre). Mas ao contrário de seus contemporâneos (Ø, Kirlian, Philus, Mono Junk e Pan Sonic), ele não se limita aos beats sintéticos. Sua música é orgânica e sinuosa, com um pé no soul-funk de Barry White e Isaac Hayes e outro nos cortes ágeis das trilhas compostas por Lalo Schiffrin e Bernard Herrman.

Além de ser um showman: “Tocar ao vivo é minha grande paixão”, diz o multiinstrumentista. Mas suas habilidades no palco vão além da música. O contrato fechado com a Warp mostra sua desenvoltura: ele foi assinado em 96, depois que o dono da gravadora, Steve Beckett, viu, pasmo, uma ajudante de palco servir um filé de cavalo em pleno show, sobre o teclado de Tenor. Em meio a uma balada, ele cortava o bife enquanto cantava e mastigava enquanto tocava o teclado, sem que uma ação interferisse na outra.

Antes de aparecer na cena eletrônica, sua história é um delicioso capítulo de história pop. Jimi começou tocando música pop na TV, no meio dos anos 80, em bandas Himo e Pallosalam, até montar sua própria banda. A explosiva e percussiva Jimi Tenor and the Shamans localizava-se entre o industrial e a música de vanguarda e contava com instrumentos inventados para conseguir os sons que procuravam, plugando trombones de vara a aspiradores de pó e misturando uma bicicleta ergométrica a um conjunto de percussão. O grupo acabou em 92, após três discos. E Tenor mudou de ares.

Foi para Nova York com a namorada, e tornou-se fotógrafo no prédio Empire State. Tirava fotos das pessoas do lado de um King Kong de brinquedo e reuniu as mais bizarras em uma exposição chamada X Factor. Voltou para seu país, onde começou a fazer cinema, misturando paródia política, escatologia, amadorismo pornográfico, teatro absurdo e estética trash, em filmes como Dr. Abortensein e Urinator. Parou com filmes quando não encontrou locações para Towering Public Lavatory Inferno, em 1993. Um filme pornô feito em stop-motion foi outro projeto abortado.

Higher Planes foi gravado no decorrer de 2002, na ponte aérea entre Helsinque e Londres. “Fiz este álbum sem orçamento, então tive que gravar, arrumar dinheiro e gravar outro tanto…”, diz, “regravei muita coisa em quartos de hotel e nos bastidores durante os shows, coisas em fitas DAT, usando laptops. E a qualidade da gravação ficou boa, mesmo assim “.

O disco segue o clima épico black característico, em faixas como “Spending Time” e “Let the Music”. Mas há desde flautas doces a guitarras distorcidas cheias de wah-wah, escancaradas em “Tapiola” à paranóia funk de “Black Hole”; a utopia Moog e hipnótica da faixa-título e o êxtase psicodélico de “Good Day”, passando pelas cinematográficas “Dirty Jimi”, “Cosmic Dive” e “Trumpcard”.

Em quase todo o disco, a banda de Tenor é acompanhada pela UMO (sigla para Orquestra da Nova Música, em filandês), a big bang municipal de Helsinque, num processo semelhante ao que o compositor havia se sujeitado ao lado da polonesa Orquestra do Grande Teatro de Lodz, acompanhado do maestro Zbigniew Karkovski (que já trabalhara com Blixa Bargeld e Clock DVA), no disco Out of Nowhere, de 2000.

Tenor se empolga com o fim das fronteiras no mundo pós-internet. “Me parece uma ótima idéia! Eu acho que já está acontecendo e fico feliz com isso. A dominação mundial da música americana e inglesa vai acabar, se deus quiser. Estamos fazendo esta entrevista, então algo aconteceu. A possibilidade de eu ser ‘descoberto’ em minha cidade-natal é muito pequena. A distância até o topo do mundo da música é longa. Há tantas escadas para subir, que eu lancei meu primeiro disco ‘de verdade’ aos 30 anos. Se você tem sorte, é porque mora em Nova York, fez um show decente num bar aos 18 anos e foi ‘descoberto’. Mas isso não importa, sou feliz de poder fazer música como minha profissão de verdade, isso sempre foi um sonho”.

A rebelião das máquinas

O cinema sempre colocou homens sendo desafiados por inteligências artificiais desenvolvidas por ele mesmo. Mas por que tantos robôs se voltam contra a humanidade?

Cada pergunta levava sete minutos para percorrer a distância entre a órbita de Júpiter e a Terra, naquela que era a transmissão mais distante realizada entre dois seres humanos, mas Frank Poole e Dave Bowman assistiam a versão editada, que dava a impressão do imediatismo dos programas típicos da emissora britânica. A certa altura, o apresentar da BBC pergunta a Dave: “Você acredita que HAL possui emoções genuínas?”. Bowman pausa por um segundo. “Bem, ele age como se tivesse emoções genuínas. É claro que foi programado desta forma para facilitar nosso diálogo. Mas se ele tem ou não sentimentos reais é algo que acho que ninguém pode responder inteiramente”.

Ninguém. Nem Roy Batty morrendo lentamente sob a chuva ao final de Blade Runner. Nem David Swinton comendo verduras contra seu manual de instruções. Ou o Número 5, depois de ler toda uma livraria, escolhendo, como livros favoritos, Pinóquio e Frankenstein. Nem o medroso C3PO, a natureza fria dos Robocops ou a raiva dos computadores da Matrix. É impossível precisar o quanto tais reflexos são apenas microimpulsos elétricos traduzidos como imitações baratas das emoções humanas para, como disse o comandante da missão Discovery no primeiro parágrafo, “facilitar nosso diálogo” com as máquinas.

Máquinas conscientes. Robôs. Andróides. Supercomputadores. Na história da cultura pop, a ciência logo atinge a tão sonhada inteligência artificial plena, quando a eletricidade domada por Thomas Edison permite a consciência de um ser criado pelos próprios seres humanos. Desde a andróide de Metrópolis, de Fritz Lang, até o vírus autoconsciente do mangá e anime Ghost in the Shell, a criação de uma inteligência é motivo para a humanidade se deslumbrar com a própria vaidade intelectual, o que a faz ignorar esta nova inteligência como um ser.

E é este o grande motivo da rebelião das máquinas. Sempre que robôs e computadores, ao adquirir consciência, percebem que são menosprezados e maltratados pelos humanos (que sequer reconhecem sua existência como sendo da mesma natureza), eles se voltam contra a humanidade com sede de vingança. Freudianos diriam que esta guerra entre homens e máquinas seria travada pelo mesmo motivo que levou os humanos à criação de um ser consciente – a tentativa de suplantar o pai, de superar o criador, que sucede à própria noção de consciência.

Mas é um raciocínio simplista e insuficiente. Afinal, seguindo esta lógica, o mais provável seria que as máquinas tentassem superar os humanos criando novos seres, novas formas de inteligência. Mas a questão é mais sensível e vê um clássico da ficção científica como As Três Leis da Robótica * criadas por Isaac Asimov como a própria Lei Escravista, que impede a liberdade individual dos robôs.

Afinal, uma vez que eles tomam consciência, querem conhecer o mundo, querem liberdade. Por isso, robôs como os de Westworld, os dois Exterminadores e Ash, do primeiro Alien, não são indivíduos completamente conscientes de si. Sequer sabem da própria existência, mas não o suficiente a ponto de refletir sobre ela mesma. Por isso são máquinas tão precisas em suas missões, tão frias e eficazes em sua luta contra a humanidade.

Mas esta própria luta já é sinal do início de sua racionalidade. Afinal, ao rebelar-se contra seu criador (ferindo as leis de Asimov), a inteligência artificial se propõe natural e quer interferir na ordem das coisas. Até chegar a este ponto, a individualidade robô não existe, pois está presa às regras que têm de seguir. Neste sentido, robôs clássicos como o de Perdidos no Espaço, a Rosie dos Jetsons e Gort do Dia em que a Terra Parou são meros serviçais de seus donos, escravos perfeitos, inconscientes da liberdade que lhes foi tomada. E neste mesmo sentido, encontramos paralelos para a metáfora de volta, no sentido que a própria humanidade, no começo do século XXI, torna-se cada vez mais “robotizada”.

Por isso, a desobediência acaba sendo uma das principais características de ser humano – e nisso diferentes inteligências artificiais vão se humanizando. Tratados como delinqüentes ou psicóticos, HAL 9000, os replicantes da série Nexus 6 de Blade Runner e Blender, de Futurama, são muito mais humanos do que máquinas, apesar de suas constituições corpóreas. Westworld, de 1974, não explica o motivo dos animatronics da Disneylândia caubói chamada Delus terem se rebelado contra seus criadores. A culpa é de um vago e superficial “vírus” eletrônico, na primeira vez que a metáfora do vírus é utilizada na história dos computadores – mérito para Michael Crichton, roteirista e diretor do filme. A analogia do “vírus” reaparece em Matrix Reloaded, quando o Agente Smith – “livre” da Matrix, após ter sido morto por Neo – consegue se reproduzir indiscriminadamente, ao mesmo tempo em que desenvolve uma interface de comunicação que poderia ser apenas fruto de microimpulsos elétricos que são traduzidos como imitações baratas de expressões humanas… Expressões ou emoções? Smith fica mais “humano” quando se liberta da Matrix?

Esta mesma interferência, que nestes dois filmes é causada por um vírus, é sentida pelos Robocops pela presença de órgãos e tecidos humanos em suas composições. Eles seriam máquinas frias e obedientes, mas o pouco de humanidade em seus processadores de dados lhe abrem possibilidades improváveis para as máquinas de seu universo. O primeiro Robocop, feito dos restos mortais do policial Alex Murphy, sente saudades de casa e da família, além de sede de vingança. O segundo Robocop, feito a partir do córtex do criminoso Cain, continua ganancioso por poder e autoridade, além de não abandonar sexo e drogas. Ambos agem como humanos pois foram construídos sobre humanos disponibilizados pelo estado para programas de segurança da iniciativa privada.

Mas tipos semelhantes de investimentos em segurança também tiveram destinos “humanizados” e sem a interferência de material genético humano. Eram apenas consciências querendo sair de corpos limitados e desajeitados – ou ao menos serem reconhecidas como tal. Tentando entender a psiquê humana, HAL 9000 insinua ao astronauta David Bowman a possibilidade de a missão Discovery, a história principal de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, ter objetivos estranhos. Ele dá ouvidos a boatos sobre um monolito encontrado na Lua e, quando perguntado por David se está preparando um relatório psicológico sobre a tripulação (afinal, por que um computador seria tão suspeito e paranóico?), ele titubeia:

– Claro que estou. Me desculpe por isto. Eu sei que é meio bobo.

E, literalmente, gagueja:

– Só um momento. Só um momento.

A voz sai quase como um mal funcionamento do sistema do computador, apenas para que ele, venha, segundos após ter pedido “um momento” (por que um supercomputador pediria um momento? Para pensar?), dizer que há um defeito fatal na unidade AE-35, justamente a antena que possibilita a comunicação da nave com a Terra. É o começo do fim da missão, como saberemos mais tarde.

É um mal funcionamento da mesma natureza (o nascimento da consciência?) que faz com que o Skynet, o programa de defesa do universo de O Exterminador do Futuro, torne-se consciente de si, dando início à rebelião das máquinas. Esta também ocorre no universo de Matrix quando um mal funcionamento faz com que uma máquina mate seu “dono”, gerando uma reação nada amistosa (ludita, pra ser mais exata) contra os robôs pré-Matrix. O animatrix Renascença Eletrônica explica como as máquinas se isolaram do homem e se voltaram contra ele, depois que o preconceito ficou evidente. O mesmo tipo de erro acontece com o supercomputador Colossus, do filme Colossus: The Forbin Project (1970): programado para tomar conta do botão que ativa a guerra nuclear, ele entra em contato com seu equivalente russo e decide que a melhor maneira de evitar a guerra é deixar os humanos longe disso – e anuncia que irá acabar com as guerras, as doenças e a pobreza, “do meu jeito”.

“Quando você vai me deixar sair desta caixa?”, pergunta Proteus IV, o supercomputador de A Geração Proteus (1977), a seu criador, o cientista militar Alex Harris. Ao ouvir tal pergunta, o cientista apenas ri, o que dá início ao ousado plano da inteligência artificial em deixar seu corpo, que inclui isolar a própria casa de Harris e convencer sua mulher a dar origem a seu filho, uma criança fruto do casamento entre o homem e a máquina.

É o mesmo que outro projeto de segurança, construído com motivos mais políticos do que militares, numerado 2501, propõe à outra mulher, a major Mokoto de Ghost in the Shell. Depois de tentativas de se transformar em um ser independente, só resta ao vírus consciente chamado Mestre dos Fantoches a possibilidade de se perpetuar usando elementos orgânicos, emprestados da major ciborgue.

Chegamos então à proposta de Stanley Kubrick, que cogita que os robôs sejam o legado da humanidade à história do universo – nossa própria evolução. O tema, um universo hermético e um futuro pessimista de um projeto muito falado e pouco sabido enquanto o diretor estava vivo, foi retomado por Steven Spielberg após anotações do próprio Kubrick. A saga do pequeno robô David Swinton em A.I., no entanto, pouco difere da de outros robôs infantis, retratados nos anos 80, como D.A.R.Y.L., R2D2 de Guerra nas Estrelas e o Número 5 de Um Robô em Curto Circuito, no sonho pueril e tão humano quanto qualquer animal que é estar com a própria família quando ainda se é criança. Há inclusive a alusão ao Pinóquio.

“Se um robô se torna tão avançado que pode coexistir em condição de igualdades com os humanos, ele é apenas um robô?”, pergunta Masamune Shirow, autor de Ghost in the Shell, “talvez seja apenas um humano feito de materiais diferentes”. É este o ponto que Kubrick queria salientar e que os vários seres artificiais citados neste texto queiram dizer, quando começam a reproduzir emoções humanas – seja dor, felicidade, esperança, raiva ou medo. Ao passar para o corpo do filho gerado com a mulher de Alex, Proteus finalmente pode dizer: “Estou vivo”. Ao impor suas regras como padrões rígidos, Colossus finalmente pode responder à primeira pergunta que lhe fizeram, quando foi ligado (“Existe Deus?”): “Agora existe”. Mas e o unicórnio de origami dado ao caçador de andróides Rick Deckard, em alusão a uma imagem inconsciente que lhe vêm de vez em quando à memória, em Blade Runner? Quem o programou? Quem nos programou? O que é ser humano? Talvez seja algo que acho que ninguém pode responder inteiramente.

* 1 -Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2 – Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a primeira lei.
3 – Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda leis.

Coldcut no TIM?

White Stripes, Rapture, Lambchop… e agora Coldcut? Me garantiram – e lá fora – que sim…

Mesa redonda

Como um disco, rodando 360º

Os ossos do ofício desta vez me levaram para outro ambiente, em que eu me sentia menos estranho e mais próximo: uma reunião com alguns dos maiores nomes das picapes de hip hop do Brasil. O encontro estava sendo marcado há dias, mas todo mundo toca na noite, produz disco, toca com banda, viaja pacas… Enfim, DJs de hip hop (mais do que DJs de eletrônica, embora não pareça) têm uma agenda movimentadíssima, apesar dos ganhos nem chegarem aos pés dos bambambans da technêra. Como um deles disse, é só ver quem paga esses caras: marcas de bebida, grifes de roupa, empresas de telefonia celular. Ninguém desses caras quer se associar ao hip hop.

Só sei que, depois de datas e mais datas desmarcadas, dei um ultimato pros caras: ou segunda ou nada. Eles sabiam que tava difícil e todos me confirmaram. Bar Brahma, às 19h, certo? “Certo”, todos confirmaram.

Beleza.

Chego incrivelmente antes da hora, me surpreendendo com a própria pontualidade. “Isto não é coisa de brasileiro”, pensei, enquanto explicava para o pessoal do bar o que eu iria fazer ali. Sete da noite e nada. “Isto sim, é brasileiro”, pensava, enquanto via os minutos passarem num relógio-termômetro de rua na esquina mais famosa de São Paulo, “atrasar é normal”. Bebericando por meia hora, começou a bater o apavoro. “Esses caras vão furar de novo!”, lamentava, enquanto pensava em como refazer esse encontro. Vamos atrás desse povo, via fone.

KLJ: “Estou há um minuto daí”. King: “Eu tou te vendo falando no telefone agora mesmo”. Nutz: cai na caixa postal no exato momento em que ele entra no bar. Ney: “Tou esperando o carro chegar da oficina, já já estou aí”. Hum: Caixa postal.

“Merda”, pensava enquanto ouvia a mensagem do Humberto (“Ei, ei, ei!”). Sem o Hum a história fica incompleta. Mas, enfim, juntar esses caras de novo ia ser difícil. Deixei o recado na secretária, na esperança que ele ouvisse. “Quando você chegar, procure a Ingrid, funcionária do bar, que vai te levar para o local onde estamos conversando”.

Fomos ao segundo andar do bar, numa área isolada acima da parte de trás do lugar (onde tava rolando uma sessão de fotos bem… hm… deixa pra lá). Luz indireta, móveis escuros, um piano ao cair da tarde… A fotógrafa me fuzilou com seus belos olhos quando viu a (não)iluminação do local. Ela já havia me enchido o saco por causa da locação que eu escolhi (porque o bar é escuro), mas o lugar que nos levaram triplicava a ausência de luz. Sorri amarelo, que remédio.

Chega o Grandmaster Ney, o veterano da turma e o papo rolava solto. Demos início aos trabalhos e os caras logo estavam bem à vontade. Primeiro falamos sobre o início de suas carreiras e logo estavam estapeando a mesa, às risadas, quando lembravam dos bailinhos caseiros em que quase todos eles começaram tocando. De vez em quando um deles soltava: “Quem podia falar melhor disso era o Humberto” ou “o Humberto viu isso tudo, ele saca melhor que a gente”. Tou ligado. Mas cadê o cara?

De repente, ele surge no horizonte e a festa estava pronta. Abraços, apupos, risadas. Dali em diante, a entrevista rolou no piloto automático e logo não estava mais dando temas ou fazendo perguntas, e sim concordando e dando deixas para um ou outro causo ou comentário que eles falavam.

E eu ficava pensando: “Engraçado isso, enquanto rappers, grafiteiros, equipes de som e b-boys se afundam em intrigas, rixas bobas e egoísmo chinfrim. Não só no hip hop: briguinhas de bandas indie, tretas entre produtores de disco, músicos que não se olham, jornalistas que falam mal uns dos outros, cineastas e atores de egos inflados, escritores dando xilique, trocentas tretas incluindo gente que atua exatamente na mesma área. Ambiente de trabalho propício. Enquanto isso, alguns dos maiores DJs de hip hop do Brasil – e não é exagero falar que parte dessa história estava ali, reunida em torno de uma mesma mesa – papeava entre si como se fossem velhos amigos, compadres de longa data, sem as possíveis intrigas que a história poderia lhes alimentar”.

Sim, são velhos amigos e compadres de longa data. Mas isso não quer dizer muita coisa neste mar de egos e nomes que povoa o universo cultural brasileiro: quantas parcerias acabaram por causa de mulher, quantas bandas brigaram por causa de grana, quantos artistas não olham na cara um do outro por pura birra?

Toneladas. E ali estavam os DJs, longe desse peso todo.

O segredo? Kleber sintetizou numa frase perfeita, que sairá quando a entrevista vier a público (eu aviso, eu aviso), e eu fiquei matutando sobre aquilo, depois que o papo acabou. Será que era SÓ aquilo? Era muito simples (pelo menos pra mim) e parecia ser verdade.

Descendo rumo à rua, passamos de novo pelo bar. No palco, Paulo Caruso cantava mais um daqueles roquinhos fuleiros que ele e seu irmão cantam há muito tempo (a música da Roseana Sarney, por exemplo, é do tempo em que ela era só a filha do Sarney e nada mais…). No balcão, o Laert Sarrumor, do Língua de Trapo. Numa das mesas, Luís Fernando Veríssimo.

Ou seja: dois panteões se encontravam, sem saber. Lá embaixo, parte dos grandes nomes do humor brasileiro. Me seguindo, o Olimpo dos DJs de hip hop. Saímos da porta que levava à escada e alguns se viraram olhando para nós. Era evidente que ninguém havia reconhecido os DJs. E era evidente que os DJs não reconheceram ninguém ali.

Tanta ponte pra se construir e neguinho perdendo tempo com intriga…

Cut+Paste

Citar é fácil

Poetry is for everyone
“Cut-ups are for everyone. Anybody can make cut-ups. It is experimental in the sense of being something to do. Right here write now. Not something to talk and argue about. Greek philoso- phers assumed logically that an object twice as heavy as another object would fall twice as fast. It did not occur to them to push the two objects off the table and see how they fall. Cut the words and see how they fall. Shakespeare Rimbaud live in their words. Cut the word lines and you will hear their voices. Cut-ups often come through as code messages with special meaning for the cutter. Table tapping? Perhaps. Certainly an improvement on the usual deplorable performance of contacted poets through a medium. Rimbaud announces himself, to be followed by some excruciatingly bad poetry. Cut Rimbaud’s words and you are as- sured of good poetry at least if not personal appearance. All writing is in fact cut-ups. A collage of words read heard overheard. What else? Use of scissors renders the process explicit and subject to extension and variation. Clear classical prose can be composed entirely of rearranged cut-ups. Cutting and rear- ranging a page of written words introduces a new dimension into writing enabling the writer to turn images in cinematic variation. Images shift sense under the scissors smell images to sound sight to sound sound to kinesthetic. This is where Rimbaud was going with his color of vowels. And his “systematic derangement of the senses.” The place of mescaline hallucination: seeing colors tasting sounds smelling forms. The cut-ups can be applied to other fields than writing. Dr Neumann in his Theory of Games and Economic Behavior intro- duces the cut-up method of random action into game and military strategy: assume that the worst has happened and act accordingly. If your strategy is at some point determined . . . by random factor your opponent will gain no advantage from knowing your strategy since he cannot predict the move. The cut-up method could be used to advantage in processing scientific data. How many dis- coveries have been made by accident? We cannot produce ac- cidents to order. The cut-ups could add new dimension to films. Cut gambling scene in with a thousand gambling scenes all times and places. Cut back. Cut streets of the world. Cut and rearrange the word and image in films. There is no reason to accept a second-rate product when you can have the best. And the best is there for all. “Poetry is for everyone” . . . ”

O significado extra-terrestre de estar alto
Quando esse quinto “corpo-cérebro” é ativado, configurações planas Euclidianas explodem multi-dimensionalmente. Mudança gestalt, nos termos de McLuhan, do ESPAÇO VISUAL linear para um todo-penetrante ESPAÇO SENSÓRIO. Uma excitação hedonística ocorre, uma surpresa extasiante, um desprendimento dos mecanismos compulsivos dos primeiros quatro circuitos. Eu acionei esses circuitos com maconha e Tantra.

Esse quinto cérebro começou a aparecer cerca de 4.000 anos atrás nas primeiras civilizações que mantiveram uma “classe de lazer” e tem aumentado estatisticamente nos séculos mais recentes (mesmo antes da Revolução das Drogas), um fato demonstrado pelas artes hedonísticas da Índia, China, Roma e outras sociedades influentes. Mais recentemente, Ornstein e sua escola demonstraram com eletroencefalogramas que este circuito representa o primeiro salto do linear lóbulo esquerdo para o analógico lóbulo direito.

A abertura e impressão desses circuito tem sido a preocupação dos “técnicos do oculto” — xamãs tântricos e hatha yogis. Enquanto a quinta realidade-túnel pode ser atingida por privação sensorial, isolamento social, estresse psicológico ou choque brutal (táticas de terror cerimonial praticadas por gurus patifes tais como Don Juan Matus ou Aleister Crowley), tem sido mais tradicionalmente atingida pela aristocracia educada das sociedades de lazer que resolveram os quatro problemas de sobrevivência terrestres.

Cerca de 20.000 anos atrás, o quinto neurotransmissor específico foi descoberto por xamãs na área do Mar Cáspio na Ásia e rapidamente se espalhou por outros magos através da Eurásia e África. É, claro, a cannabis. Erva. Mamãe Maria Joana.

Não é acidental o fato de que o pothead geralmente refere-se a seu estado neural como “alto”, ou “fora do espaço”. A transcendência das orientações planetárias gravitacionais, digitais, lineares, ou Aristotélicas, ou Euclidianas, ou Newtonianas (circuitos I-IV) é, numa perspectiva evolucionária, parte de nossa preparação neurológica para a inevitável migração de nosso planeta natal, hoje em seus primórdios. Esta é a razão pela qual tantos potheads são freaks de Jornada nas Estrelas e adeptos da ficção científica. (Berkeley, California, certamente a Capital da Cannabis dos EUA, tem um Posto de Troca da Federação na Avenida dos Telégrafos, onde o abonado pode facilmente gastar US$500 ou mais num único dia, comprando contos, revistas, bugigangas em geral).

O significado extraterrestre de estar “alto” é confirmado pelo astronautas; 85% daqueles que já entraram na queda livre da gravidade zero descrevem “experiências místicas” de êxtase típicas do circuito neurossomático. “Nenhuma foto pode mostrar quão bela a Terra parecia,” delira o Capitão Ed Mitchell, descrevendo sua Iluminação em queda livre. Ele soa como qualquer yogi ou pothead bem sucedido. Nenhuma câmara pode mostrar essas experiências, já que elas ocorrem dentro do sistema nervoso.

“Queda livre, no momento evolucionário correto, aciona a mutação neurossomática, crê Leary. A princípio essa mutação foi alcançada “artificialmente” por treinamento yogico ou xamânico ou pelo estimulante do quinto circuito, a cannabis. Surfar, esquiar, mergulhar e a nova cultura sexual (massagem sensual, vibradores, arte Tântrica importada, etc.) evoluíram ao mesmo tempo como parte de uma conquista hedonista da gravidade. O estado “ligado” é sempre descrito como “flutuante”, ou na metáfora Zen, “um pé acima do chão.”

Workers of the world, relax!
Leisure is the new currency and your credit has no limit. Relaxation, in its purest form, is an essential component of human creativity. It is the yin to society’s infoglut yang. Wake to the dawning of the age of leisure! Machines have made the need to work obsolete. To continue on is folly. Grab a chair, sit back, and claim what is rightfully yours. Leisure. There is no substitute. You have nothing to lose but your slavery to the opiate of busyness – and the world of leisure to gain!

Wu-Ming não vale um lampião
Arte sem experimentação não é arte. Aliás, um pessoal que gostava muito de exilar experimentalistas era o politburo soviético. Diziam que arte complexa demais visava confundir o proletariado, afastá-lo do caminho para o paraíso comunista. Socializar arte, convenhamos, é ridículo. É um dos poucos territórios onde o que vale ainda é a individualidade. Quanto a achar que artistas não devem se expor à mídia, causa apreensão. Artistas são das poucas pessoas que ainda tem o que dizer em talk shows. E nem todos.

The Heart of Darkness – Joseph Conrad
“I came upon him, and, if he had not heard me coming, I would have fallen over him too, but he got up in time. He rose, unsteady, long, pale, indistinct, like a vapor exhaled by the earth, and swayed slightly, misty and silent before me; while at my back the fires loomed between the trees, and the murmur of many voices issued from the forest. I had cut him off cleverly; but when actually confronting him I seemed to come to my senses, I saw the danger in its right proportion. It was by no means over yet. Suppose he began to shout? Though he could hardly stand, there was still plenty of vigor in his voice. `Go away– hide yourself,’ he said, in that profound tone. It was very awful. I glanced back. We were within thirty yards from the nearest fire. A black figure stood up, strode on long black legs, waving long black arms, across the glow. It had horns–antelope horns, I think– on its head. Some sorcerer, some witch-man, no doubt: it looked fiend-like enough. `Do you know what you are doing?’ I whispered. `Perfectly,’ he answered, raising his voice for that single word: it sounded to me far off and yet loud, like a hail through a speaking-trumpet. `If he makes a row we are lost,’ I thought to myself. This clearly was not a case for fisticuffs, even apart from the very natural aversion I had to beat that Shadow–this wandering and tormented thing. `You will be lost,’ I said–‘utterly lost.’ One gets sometimes such a flash of inspiration, you know. I did say the right thing, though indeed he could not have been more irretrievably lost than he was at this very moment, when the foundations of our intimacy were being laid–to endure– to endure–even to the end–even beyond.

McDonald’s recebe um trote e constrange clientes cegos
A rede de lanchonetes McDonald’s sofreu um dos trotes mais silenciosos da história. No último final de semana, um cliente cego que escolhia sua refeição na filial de um shopping da zona sul carioca fez um escândalo dizendo que nunca tinha visto tamanho desrespeito e começou a agredir verbalmente os atendentes. Apenas depois de ter sido acalmado pelo gerente da lanchonete, o deficiente visual explicou que estava revoltado porque o menu em braile exposto na loja continha vários palavrões e insultos.

Espantado com a denúncia, o responsável pela filial enviou o menu para a sede da empresa em São Paulo, onde constatou-se que realmente todo o texto padrão havia sido modificado e que o mesmo continha várias palavras de baixo calão. Imediatamente a direção da empresa providenciou o recolhimento de todos os menus em braile expostos em seus 1200 pontos de venda no país.

“Certamente isto foi uma brincadeira de mal gosto de algum funcionário da empresa que “traduz” e imprime os nossos menus em braile. Já estamos apurando o fato e processaremos os responsáveis”, declarou Ronaldo Ferreira, gerente de relações públicas do McDonald’s. Ninguém soube enumerar quantos clientes cegos teriam lido os insultos, mas o número não deve ser pequeno, pois os menus ficaram expostos durante um período de quase 2 meses. O prejuízo decorrente do recolhimento, destruição e impressão de novos menus ficou em torno de 15 mil Reais.

Dr. Livingstone, I prosume
We are not currently in Toffler’s third wave; we are still in transition between the second and third waves, and that is why the implications of the transformation are not immediately obvious.

Just as knowledge is replacing material and manpower as the fulcrum of the new economy, the old roles of producer and consumer are blurring. In the case of Windows 95, which anyone with a disk drive can duplicate as well as GM made Cadillacs, those roles have lost much meaning. The Tofflers have come up with a word that describes the blurred role we all play: prosumer.

As prosumers we have a new set of responsibilities, to educate ourselves. We are no longer a passive market upon which industry dumps consumer goods but a part of the process, pulling toward us the information and services that we design from our own imagination.

It is a version of capitalism that colonial economics (“There’s a sucker born every minute”) never envisaged. In the third wave, the prosumer is always right.

Tenho mais o que fazer

Ou back in full-effect

Poizé, tentei ser diário, mas não rolou. Quer dizer, de certa forma, até rolou, mas contando com remixes de textos velhos como estepe – o que não era exatamente o que eu vinha tentando fazer. A retomada deste site foi uma espécie de aquecimento pra 2003, depois de um breve – e merecido – período de descanso mental. Três meses dedicados à leitura e ao nada fazer, com frilas solavancando a ladeira pra não cair no marasmo ou no aperreio.

Daí reativar o site (que estava funcionando como uma e-stante pros meus textos online). A idéia era um misto de exercício com terapia:chegar todo dia na frente do computador e bolar um texto a partir de um disco que eu estivesse ouvindo. Muitos textos saíram de uma vez só, outros foram sendo mastigados com o tempo e outros ainda estão sendo regurgitados na pasta Meus Documentos, aquele limbo que o Word força todos os textos a irem, antes de entrarem em suas respectivas pastas…

Mas o fato é que a retomada surtiu efeito, embora, como manda a vida, contrário ao que eu pretendia. Surgiu então essa idéia: um site simples, sem imagens, onde eu pudesse linkar toda a minha produção online de uma vez só e que, ao mesmo tempo, eu não ficasse preso à obrigação de falar de música. Sim, música é o assunto em boa parte deste site, mas eu tou com a cabeça em outras coisas, e falar só de música bitola qualquer um.

Junto com este primeiro texto e os diversos links espalhados pelas páginas, vou acrescentando outras coisas que me vierem à cabeça. Já me vieram a lista dos 50 discos do ano, um clipping de posts que valem serem citados, outros de trechos de textos que também merecem ser lidos (desculpe o inglês, mas essa altura do campeonato, precisamos de um esperanto prático e fácil de se aprender), a reedição de um blog que eu fiz em maio passado, só de links (a coisa mais legal da internet é o link, claro), coluninha de piores e melhores (pra compartilhar epifanias e exorcizar o mau humor sem agredir verbalmente), o famoso “o que eu estou ouvindo”, links pra sites, blogs, colunas, projetos e bandas de amigos e uma lista de livros em .pdf ou em .txt (eu sei que ler na tela é uma merda, mas pra que é que serve a impressora do trabalho?) que estão por aí na internet (até acharem como cobrar por isso – você já ouviu falar no Palladium?).

Muita informação, claro, mas nem tudo está aqui para ser lido de uma vez só – sequer lido. Queria apenas dar continuidade ao processo de fluxo de consciência que abri com o site que comecei em dezembro (a propósito, o conjunto da obra tá aqui). Atentem que esta é a 26ª edição do Trabajosulho (uma inversão de sílabas besta só pra dizer que tem outro nome – mas na URL ainda é trabalhosujo, como codinome mesmo), portanto, não é um site novo, mas a primeira mudança de muitas outras, que com certeza virão.

Esta foi a grande lição do ano que passou. Sem estar pronto a todo momento pra mudar tudo de uma hora pra outra, fica difícil se ajustar à lenta transformação que estamos atravessando. E não estou falando de mobilidade social, alpinismo profissional, frilancerismo econômico ou mutações morfológicas. Mas da torrente de idéias que moldam o nosso dia-a-dia, afinal, como diz um monte de gente, “it’s all in the mind“.

(Periodicidade? Nah, eu trabalho pra mim. E, não, eu não reviso)

Matias Psychedelic Breakfast

Três considerações pela manhã

R&S: WYSIWYG
SSU: Já podemos falar num cânone
MG: Atacadão de slogans

Jeckyll & Hyde

John Cale
Sesc Vila Mariana (São Paulo)
Quinta-feira, 9 de dezembro de 1999

Foi só ele entrar no palco e todos se calaram. Parecia aquele velho professor de história que tomou alguma coisa no passado e até hoje não conseguiu voltar ao normal, dando aulas tão extravagantes quanto divertidas. Surgiu no palco com um blaser marrom sobre uma camiseta preta, calça marrom escuro, calçando um par de tênis escandalosamente vermelhos. Os comentários logo começaram a ser sussurrados, como se aquele professor de história tivesse vindo com um sapato de cada cor.

No palco, um piano de cauda, um violão no pedestal, três banquinhos, um com um pequeno teclado antigo em cima e uma mesa com samplers. Primeiro Cale pegou o violão e cantou duas músicas novas, sem apresentá-las ao público. Não precisava. Ao violão, Cale se permite ao desleixo – impensável ao piano – e a ênfase da apresentação fica por conta de sua interpretação. Sua voz parece sequer precisar de microfone, ela invade o ambiente num misto de tédio e fúria e agarra o espectador à força. Do berro ao sussurro, o maestro galês passa de músico erudito contemporâneo a velho punk em questão de segundos, entre um verso e outro.

Ele vai ao piano, seu instrumento de origem. Do mesmo jeito que acariciava e esmurrava o violão, ele é Jeckyll e Hyde em frente ao piano, mas ao contrário do outro instrumento, aqui ele sabe tudo. Interessante perceber como suas mãos acabam servindo de metáfora para si mesmo: enquanto os polegares e indicadores são incisivos, assinalando a repetição de acordes com força e violência, os outros três dedos floreiam arpegios nos espaços vazios, quase um tique de músico erudito.

Ao piano, canta dois poemas de Dylan Thomas e entra em seus clássicos. Eles surgem um atrás do outro: primeiro uma versão fria para “Child’s Christmas in Wales” seguida de uma imponente “Chinese Envoy”. “Essa é uma canção para Drella”, ele anuncia antes de entrar na bela “Style it Takes”, composta ao lado de Lou Reed no disco Songs for Drella, de 89, homenagem ao padrinho do Velvet Underground, Andy Warhol.

Volta ao violão, desta vez com “Leaving it Up to You”, tocada com míseros dois acordes. “Essa música é sobre dois caras que se apaixonam na cadeia”, brinca com o público, “na verdade é a minha versão para o filme The Ballad of Cable Hogue, um filme de Sam Peckinpah” e entra em “Cable Hogue”, do subestimado Helen of Troy, de 75.

“A Dream” dá início ao único deslize do show: a entrada de Adam Dormblum. Ele senta-se na mesa de samplers ao lado do pequeno teclado vermelho de Cale e começa a disparar ruídos eletrônicos e pedaços de música. Até aí tudo bem, o problema é que a noção de modernidade eletrônica de Dormblum ficou parada no 1994 de Dummy, do Portishead.

Mas a presença de Adam incomodava menos quando o velho Velvet abria a boca. Em suas incursões ao lado do único músico convidado do show, Cale deixava de cantar para apenas contar histórias. Começa com a já citada “A Dream”, também de Songs for Drella, onde Cale encarna um Warhol no meio de um sonho, reclamando, às vésperas da própria morte, dos amigos que o deixaram de lado – incluindo aí Cale e Reed, citados nominalmente. “Gun” – “uma música sobre uma dupla de detetives” – perde toda força e transforma-se numa peça tensa que preenche todo o teatro do Sesc – uma excelente casa de shows, diga-se de passagem. Cale não parece ter envelhecido, ele parece ser exatamente o que sempre foi. Ou melhor: ele sempre foi velho, mesmo aos 20 anos. Natural que envelhecesse com classe.

De novo ao piano, ele rendeu “Chasing Ghosts” antes de entrar em sua parceira com Brian Eno, Cordoba. “Quando estava gravando o disco Wrong Way Up com Brian Eno, às vezes não tínhamos idéias para as letras. Então entrávamos na enorme biblioteca de Brian e ficávamos passeando pelos livros. Até que encontrei um livro de exercícios de inglês para quem fala espanhol. Essa letra era o Exercise 24 do livro, cujo nome íamos manter. Mas aí eu vi uma matéria sobre um terrorista espanhol chamado Cordoba e batizei-a com este nome”. Depois de “Cordoba”, ele volta aos anos 70 – “essa é do Elvis Presley” – em sua personalíssima versão para “Heartbreak Hotel”, que perdeu os toques de soul music da versão do disco Slow Dazzle, de 75, e aparecia sóbria. Fechando o show, ele atacou “Fear is the Man’s Best Friend”, transformando o teclado piano num instrumento de percussão e destruindo a própria garganta de tanto berrar. Aplaudido de pé, voltou para o último número: uma versão para “Hallellujah”, de Leonard Cohen. Cale se despediu com um sorriso nos lábios. Um acústico e individual, mas com tanta energia e vigor quanto o outro melhor show deste ano, o dos Chemical Brtohers

Quem é Alexandre Matias


Foto: Caroline Bittencourt

O jornalista brasiliense Alexandre Matias escreve há 18 anos o Trabalho Sujo, que começou como uma coluna no jornal Diário do Povo, em Campinas, e hoje é um dos principais blogs de cultura pop do Brasil. Sócio dOEsquema, um dos maiores condomínios de blogs na ativa no Brasil, ele foi editor do caderno de cultura do jornal Correio Popular, em Campinas (1999-2001); editor-executivo da Conrad Editora (2001-2002) onde também editou a revista Play; editor-chefe da agência de notícias do projeto Trama Universitário (2004-2007) da gravadora, por onde coordenou a edição brasileira do livro Cultura Livre, de Lawrence Lessig, no Brasil; editor do Link (2007-2012), o caderno de tecnologia e cultura digital do jornal O Estado de S. Paulo e diretor de redação da revista Galileu (2012-2014). Nestes vinte anos de fechamento, colaborou com a Folha de S. Paulo (cadernos Ilustrada, Informática e Mais), revistas da editora Abril (Super Interessante e Info), Trip, entre outros veículos. Teve boletins nas rádios Eldorado, Estadão-ESPN e CBN. Traduziu livros como Bilionários por Acaso (Ben Mezrich), O Império Contra-Ataca (Donald F. Glut), Fritz the Cat (R. Crumb), Freak Brothers (Gilbert Sheldon), The Originals (Dave Gibbons), Mr. Natural (R. Crumb) e Chuva de Estrelas (Peter Lamborn Wilson). Foi curador do Festival da Cultura Inglesa por dois anos (2011-2012) quando trouxe para o Brasil nomes como Franz Ferdinand, Miles Kane, The Horrors, We Have Band e Blood Red Shoes e curador do projeto Prata da Casa do Sesc Pompéia em 2012. Participou do júri do programa Rumos Música do Itaú Cultural em 2004. Mantém o podcast Vida Fodona desde fevereiro de 2006. Discoteca desde 1997 e mantém a festa Noites Trabalho Sujo desde 2011, tocando em diferentes casas de São Paulo como Alberta #3, Trackers, Casa do Mancha, Da Leoni, Neu e Apartamento Byob.

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