Antes de passarmos para a fase mais controversa da carreira de Gainsbourg, vale abrir um parêntese para mostrar que, mesmo antes de se transformar num svengali do pop adolescente francês, ele já buscava novos rumos para sua música, visitando o continente africano décadas antes que qualquer outro popstar americano ou europeu. Ouvindo discos africanos sem parar, chegou à conclusão que era uma das formas que o pop francês poderia se contrapor ao cantado em inglês graças à percussão de suas antigas colônias. Gravado com muita percussão e corais femininos, Gainsbourg Percussions, de 1964, é um dos principais trabalhos de Serge nos anos 60 e, mesmo que tenha tido pouco sucesso comercial na época, tem o mérito histórico de ser um dos pioneiros a traçar uma conexão entre a música africana não-americanizada e a música pop – e fazendo-a soar tão pop quanto ela poderia ser, sem lançar olhos de colonizador sobre ritmos e músicalidade fora de seus padrões europeus.
Serge Gainsbourg – “Quand mon 6,35 me fait les yeux doux”
Já mencionei o Glass duas vezes por aqui (num Vida Fodona e num Cinco Vídeos), agora pinço esse DJ Set que a dupla formada pelo nova-iorquino Dominique Keegan e pelo berlinense Glen Brady (que moram em suas respectivas cidades e fazem música à distância) fizeram para a Sirius Radio. Como no hit “Wanna Be Dancin'” a pegada fica entre o electro e o techno, mas começa a ficar um pouquinho mais pesada à medida que o set vai avançando. Na mistura, só finesse: Orbital, Martin Solveig, Ursula 1000, Knightlife e faixas produzidas ou remixadas pelo próprio Glass. Vai na fé.
Ouviram a nova da Britney? “3” abole a sutileza e ela convida toda uma geração para encarar o sexo a três como uma coisa normal. “Are you in?”, ela pergunta em tom sedutor e desafiador, lembrando que “what we do is innocent”, que “livin’ in sin is the new thing” e que “everybody loves ***”. A música em si não tem nada de memorável, é mais um single para bater cartão nas paradas de sucesso. Mas a letra pode cutucar ainda mais uma revolução sexual que está em vias de explodir (para dentro ou para fora) na próxima década.
“Comecei a simplificar na Odeon, uma das principais capas dessa época é a do Noel Rosa –com uma rosa no lugar do “o”. Eu via as vitrines confusas, todos fazíamos capas muito confusas. E não havia TV para fazer propaganda -as capas tinham de vender o disco! Aí lembrei que o Marshall McLuhan chamava isso de ruído visual e comecei a simplificar ao máximo. Os discos da Elenco brigavam nas lojas com os discos das multinacionais, eles tinham de sobressair. A simplificação das capas foi uma maneira de chamar a atenção para eles.”