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O iPod das letras

Textinho meu no site do Link de hoje.

Apple pode mudar tudo hoje – de novo

Anúncio do novo tablet que acontece em São Francisco às 15h de Brasília pode matar o Kindle e criar um iPod das letras

É verdade… Estou testando o tablet da Apple pelas últimas duas semanas e ele é impressionante“.

twitter-calacanis

O silêncio já vinha sendo quebrado desde antes do fim do ano, quando apenas rumores sobre um anúncio que seria feito pela Apple no início de 2010 fizeram as ações da empresa saltar, e à medida em que janeiro passava, surgiam ainda mais notícias e novidades relacionadas a mais um produto da empresa de Steve Jobs, cujo anúncio ocorre nesta quarta-feira, em São Francisco, nos EUA, a partir das 15h (em Brasília). Até que o blogueiro e empreendedor Jason Calacanis começou a twittar na madrugada desta quarta-feira, 27:

A melhor parte do tablet é um sintonizador de TV digital com gravador de vídeo – além de um jogo de xadrez“, “o tablet da Apple é realmente impressionante para jornais. A videoconferência é super estável, mas nada novo“, “o preço será entre US$ 599, 699 e 799 depenendo do tamanho e da memória no tablet. Ele também tem um teclado sem fio e conexão do monitor para a TV“, “sim @HappyDrew, o tablet da Apple tem um sistema operacional parecido com o do iPhone com a possibilidade de manter múltiplos aplicativos rodando simultaneamente“, “ele conta com duas câmeras: uma na frente e outra nas costas (ou pode ser apenas uma lente dupla), assim ele grava tanto você quanto o que está à sua frente“, “os games do tablet da Apple são ótimos. Do nível de inovação da Nintendo. O aplicativo para o Farmville é insano. Mark Pincus (dono da Zynga, criador do Farmville) fará uma demonstração do aplicativo amanhã“.

São muitas novidades. Ao que parece, o novo dispositivo da Apple não será meramente um “iPhonão” como previsto – não é apenas um dispositivo que permite acessar a web como conhecemos hoje de forma menos espremida do que no celular. Também não parece ser só um meio termo entre o netbook e o smartphone, um aparelho que permite conectar-se à internet de forma prática e de qualquer lugar. Pelos relatos e rumores que já surgiram, especula-se que o território que a Apple quer desbravar não é apenas o da interação e conectividade, mas também o de conteúdo e entretenimento. Especula-se que o novo dispositivo da Apple venha elevar o conceito proposto pelo Kindle – o leitor eletrônico 1.0 – a um nível sequer sonhado pelo dispositivo da Amazon – aí sim, multimídia, interativo e diferente de tudo que já foi visto antes.

O que se espera é que a Apple lance o que a Amazon parecia ter lançado: um iPod das letras. E não apenas dos livros, como o Kindle. Mas que abranja para além do mercado livreiro, o editorial como um todo, incluindo não apenas jornais e revistas, mas provedores de conteúdo online e, em última instância, até blogs. Mais do que isso: o dispositivo, se for tudo o que promete, pode integrar de vez conteúdo multimídia ao texto, provocando um terceiro salto evolutivo em uma série de tecnologias que estão mudando nossa relação com o conteúdo. Primeiro veio a web, que tornou possível livro, jornal, TV, música, telefone, rádio e cinema num mesmo ambiente, ainda que primitivo. Depois veio a web móvel, que reempacotou tudo isso em nosso bolso – e em que a Apple foi capital (primeiro com o iPod, depois com o iPhone). E é possível que estejamos às vésperas de um salto ainda maior, que torne nossa relação com a web móvel tão corriqueira e natural quanto o manusear de uma revista ou de um jornal e nos livre, de vez, do computador.

No final de uma matéria de segunda-feira no LA Times em que o jornal detalhava os acordos que algumas empresas (como a editora Conde Nasté e o jornal New York Times) vinham fazendo com a Apple em relação ao novo tablet, o analista do Instituto Gartner Allen Weiner explicava que haveria muita tentativa e erro antes que os editores tradicionais descubram o que fazer com suas edições digitais.

“Ninguém vai comprar um tablet para ler e-books. O Sony Reader mais barato custa 199 dólares e é ótimo para ler livros. Mas onde está a oportunidade? Está em criar experiências de leituras. É colocar vídeos e atualizações feitas pelo autor em um livro de culinária. É uma oportunidade porque você pode cobrar algo extra por isso”.

O que nos leva a um post de setembro do ano passado do Fake Steve Jobs, o blogueiro que posta como se fosse o fundador da Apple falando sem papas na língua (mas que na verdade é o jornalista David Lyons), quando a especulação sobre o tablet já existia. Ele começa citando outro blog, o Gizmodo:

“O Brian Lam do Gizmodo dá uma dica esta manhã, mas vale uma explicação mais profunda. Uma pequena dica: não é sobre tecnologia. Eis o trecho do artigo de Lam sobre como ele acha que nós estamos querendo reinventar jornais, livros e revistas:

‘O objetivo final é fazer com que editores criem conteúdo híbrido que tenha áudio, vídeo e gráficos interativos em livros, revistas e jornais, onde o layout no papel é estático. Com as datas de lançamento do Courier da Microsoft ainda à distância (a MS apresentou seu tablet na CES deste mês, o Slate) e o Kindle preso à tinta eletrônica relativamente estática, parece que a Apple está se movendo rumo à liderança na distribuição da próxima geração de conteúdo impresso (…)’

O itálico em ‘conteúdo híbrido’ é meu. Pois aí está o ponto central. E é isso que Brian acerta quando ele fala sobre ‘redefinir’ jornais e outros produtos feitos de árvores mortas.

Novas tecnologias abrem novas formas de contar histórias. Eis o que é verdadeiramente excitante aqui. Não é o tablet, mas o que ele significa para as notícias, para o entretenimento, para a literatura. Sacou? É isso que o Tchekov queria dizer quando falava que o meio é a mensagem. E é por isso que o tablet é tão profundo.

Não faz sentido mudar para e-readers se formos fazer só o que já fazemos em papel. É por isso que o Kindle é tão ruim. Eles só abriram a picada. E é por isso que seguramos o nosso tablet – não porque não tínhamos a tecnologia, mas porque quem lida com conteúdo é tão devagar que eles não conseguem criar algo que valha a pena ser colocado no tablet.

É impressionante como poucos grandes nomes do mercado editorial realmente entendem isso. Nós convidamos alguns deles para reuniões e enquanto estávamos conversando, nós meio que passávamos um pequeno questionário para eles resumido em uma única pergunta: para onde você acha que o mercado editorial irá? A maioria deles não conseguia pensar em outra coisa a não ser no que já vinham fazendo no passado. Para eles é só um detalhe, uma pequena mudancinha em seus negócios, como os jornais deixando de ser preto e branco para ganhar cores ou mudando de formato, por exemplo.

Mas não tem nada a ver com isso. Estamos falando de uma forma completamente nova de transmitir informação, uma que incorpore elementos dinâmicos (áudio e vídeo) com estáticos (texto e fotos) mais a habilidade para o ‘público’ se tornar criador, não apenas consumidor.

O engraçado é que os caras do mercado editorial se consideram do lado ‘criativo’ do negócio, mesmo que eles não tenham visão alguma. Para eles, nós que lidamos com tecnologia somos um bando de parasitas. E se perguntam porque, em plena era digital, somos nós quem estamos colhendo a recompensa financeira.

Minha aposta é que o conteúdo verdadeiramente revolucionário não virá dos editores de velha guarda. Virá dos novos, dos moleques que cresceram no digital. Esta noção de fundir elementos é natural para eles. E em algum lugar há um gênio esperando ser descoberto – o Orson Welles da mídia digital, alguém que irá criar uma linguagem completamente nova para contar histórias. Se você estiver lendo isso, Orson Jr., entre em contato. Temos algo que queremos mostrar para você”

Pode ser ficção, pode vir em tom de piada, pode ser ríspido em vários trechos (e eu peguei leve na tradução), mas o fato é que as considerações do Steve Jobs de mentira têm um efeito profundo à luz do que a Apple de verdade pode anunciar mais tarde.

Damon Lindelof fala sobre Lost

Acima, temos a íntegra do bate-papo de um dos criadores em novembro do ano passado na Golden Apple de Los Angeles (falei disso na época) e vale ficar atento ao finzinho do papo (em que ele começa falando sobre o gibi que estava lançando, o Ultimate Hulk vs. Wolverine, e até fala da adaptação de Dark Tower que está fazendo em quadrinhos), quando ele solta algumas coisas legais sobre o final de Lost.

E nesta entrevista para a blogueira de TV do Chicago Tribune, Maureen Ryan, ele e Carlton Cuse comentam sobre o impacto que pode ter a cena final da série. Cuidado que aí na frente tem spoiler de Battlestar Galactica, Sopranos e do St. Elsewhere, portanto, se você não viu, se liga:

Lindelof: Yeah, you can’t break up with somebody and say, “Let’s not go out anymore, but I still want to sleep together, I still want to live in the same house, and we should still go on dates all the time.” No. If it’s over, it’s over.
We’re trying to create a season that really feels like it’s over as opposed to [left open-ended]. People keep saying, “Is there going to be a Sopranos movie?” And I actually feel the question in itself is offensive to anybody who likes the cut-to-black [ending] because it completely neutralizes the deftness. Carlton and I happen to be huge fans of the “Sopranos.” But to do a “Sopranos” movie, you could never watch that series finale again with any level of respect [if you know] know that something followed it.
Cuse: The other phenomenon which is interesting is that the immediate interpretation of the ending of “Lost” may not be the same as the ultimate interpretation of the ending of “Lost.”
I mean, you as a “Battlestar” fan probably have experienced the sensation that there was an immediate reaction to how “Battlestar” ended, and [now] it seems like there’s a bit of and evolving reaction to how “Battlestar” ended. And we anticipate that the same thing might happen with “Lost.”
There’s an instantaneous sense of loss, and using the “Sopranos,” again as an example — a lot of people were sort of outraged because the story ended and it wasn’t conclusive, but then with some perspective and a little distance from the show, the metaphor of what Chase was doing there became clearer and that seemed to resonate better over time than in the immediate aftermath.
Lindelof: What was so impactful about that ending is, as a huge “Sopranos” fan myself, I can tell you almost nothing about that episode other than that Anthony Jr. was considering going into the military and then he got into a car accident. But the episode itself is like completely like sand through my fingers. I don’t remember anything about it. All I remember is that [last] scene…
Ryan: The only other thing I remember, apart from the final scene, is Meadow trying to park the car.
Lindelof: Right. All I remember is that Journey song. What are people going to take away from the final episode of “Lost?” Will it be the final image?
Cuse: Will it be the episode in its totality?
Lindelof: We keep getting asked about the final image and we’re like, “Yeah, sure, we know what it is.” But people are acting like the final image of the show is revelatory in some way, as opposed to maybe [what’s revelatory] is what happens in the first hour of the finale.
Cuse: But what’s happened is, I think people have expectations that have grown from other shows, where that last moment is such a sting. Whether it’s all of a sudden you see a snow globe [as in “St. Elsewhere”] or you cut to black or somebody wakes up and it’s all been a dream. Whatever it is, it’s like that final twist negates or completely overshines everything that’s come before it.
Lindelof: Which is amazing because the fact that people invested six years of their lives and over 120 hours on “Lost” and they’re going to pay it all off in this 30-second scene. “That is going to change the entire way that I feel about the show.”
Cuse: We hope it doesn’t.