Lost por Eugênio Vieira
* Eugênio Vieira é o Cosko.
* Eugênio Vieira é o Cosko.
* Sério que eu ainda preciso apresentar o Arnaldo? Sério que você não conhece o melhor humorista do Brasil? (engraçada essa palavra… “Humorista”)
Falta pouco! Mais exatamente faltam duas horas e meia para o fim daquela que — mesmo que muita gente discorde comigo ao chamar de A Melhor Série da História da TV de Todos os Tempos Ever — mudou a maneira de se contar histórias seriadas na televisão.
Se existe uma coisa que resume Lost em uma palavra é: perguntas. Há uma lista quase que oficial delas e uma maior de perguntas que provavelmente nunca serão respondidas. Enquanto muitos acham que não responder todas elas é motivo certo de decepção quando domingo acabar. Já os roteiristas apostam que muito pelo contrário, responder a todas as perguntas, seja em duas horas e meia ou ao longo de seis anos, é a pior coisa para a série. O segredo de Lost está no chamado espaço negativo literário.
O conceito de espaço negativo é mais famoso nas artes visuais. Dominar o espaço não ocupado pelo seu desenho é, segundo os mestres, tão importante quanto o desenho em si. Algumas obras usam propositalmente o espaço negativo para mostrar uma coisa que você não vê inicialmente. Mas ao contar histórias, especialmente histórias fantásticas como Lost, o espaço negativo literário também é uma ferramenta importantíssima.
O pesquisador do MIT Geoffrey Long contou, quando esteve no Rio para participar do Descolagem ano passado que um dos maiores motivos de ser completamente vidrado em Star Wars foi todo o espaço que George Lucas deixou para a imaginação da molecada. “A gente passava o recreio inteiro discutindo quem era Boba Fett. Eu achava que ele era um irmão perdido de Han Solo.” Por anos a imaginação dos fãs ficou criando uma história para o caçador de recompensas até que um dia, ao lançar o Episódio II: Ataque dos Clones descobrimos quem era Fett… e provavelmente todo mundo achou a explicação uma porcaria. (o filho-clone do Jango Fett? Sério Jorge?)
Ao deixar partes da história no espaço negativo os criadores de Lost sabem que não é uma questão de competir com a versão que as pessoas tem na cabeça para uma resposta. Eles estão competindo com o processo de imaginar e discutir com os amigos o que cada mistério significa. Revelá-lo vai simplesmente acabar com essa conversa. É muita crueldade, é pior que vinte Jar Jar Binks.
No penúltimo podcast oficial de Lost Damon Lindeloff e Carlton Cuse nos convencem de que não queremos saber exatamente o que é a Ilha, o que é ser um candidato e ter cada mistério explicado. Outros já fizeram exatamente isso antes e falharam. “Nós não vamos ter uma cena do arquiteto como em Matrix: Revolutions.”
Matrix, uma série de filmes também cheia de mistérios e revelações teve aquela que provavelmente foi a cena mais chata da história do cinema pop onde um personagem barbudo explica tim-tim por tim-tim — por quase oito minutos! — para o herói que porcaria toda era aquela. Não só a resposta era pra lá de caída como a explicação era tão chata e professoral que provavelmente ninguém conseguia lembrar exatamente o que era aquilo tudo depois dos créditos finais.
No livro oficial da criação de conteúdo transmídia — escrito pelo professor de Geoffrey Long — Matrix é um exemplo (agora) acadêmico de como não se contar uma história. E Lost, que estava começando a ser exibido quando o livro foi escrito, um exemplo de como contá-las bem, com ou sem espaço negativo.
Lost parte do princípio de que tudo que o espectador vai fazer é assistir os 45 minutos semanais de conteúdo e, se gostar do que viu, comentar com os amigos. Lost não requer, como Matrix, que você jogue o videogame, veja os curta-metragens animados ou leia os gibis empacotados exclusivamente junto com embalagens de cereal Acme vendidos apenas nos Kwik-E-Mart vendidos no lado norte de Springfield.
Se você quiser participar do ARG, contribuir para a Lostpedia, ouvir o podcast oficial, ir na Comicon… ótimo, você terá uma experiência muito mais legal do que os meros mortais que só ficam na frente da TV. Mas os produtores nunca se esquecem que, no fim das contas, a maioria das pessoas fica na base dessa pirâmide do engajamento e o conteúdo dado a elas deve ser mais do que suficiente para deixá-las vidradas por seis anos na série.
Sim, é importante saber quem vai substituir Jacob, o que são os flash-sideways e por que Rodrigo Santoro precisava ficar indo ao banheiro toda hora. O resto fica por conta do espaço negativo. Aliás, deixa eu contar minha teoria de quem é o Homem de Preto…
* Cris Dias é outro que também é dos tempos da internet a diesel no Brasil…
Acho que devia ser entre 2005 e 2006, no intervalo entre a primeira e a segunda temporada de Lost. Nos EUA, a série já estava mais que bombada. Por aqui, começava a dar sinais de que não seria só mais uma. Portanto, fomos convocados – eu, Carina Martins, Kátia Lessa e o big boss Lúcio Ribeiro – para elaborar um especial do tipo “enciclopédia”, para a Editora Abril.
É até difícil de lembrar, mas naquela época Lost lançava dezenas de perguntas por episódio, além de enfiar um zilhão de “pistas” que poderiam ter alguma relação com a história (com o passar dos anos acabamos descobrindo que a maioria não tinha). Foi um pesadelo definir os verbetes da tal enciclopédia. Como você explica os filósofos Locke, Hume e Carlyle em dez linhas apertadas?
Ao mesmo tempo, que série de televisão é essa que faz você pensar em filósofos? E em livros, de O Senhor das Moscas a Ardil 22, passando por The Shape of Things to Come e Matadouro 5. Era, no mínimo, um programa de televisão que poderia te levar a outras coisas. Poderia, porque esses outros caminhos não eram essenciais para a sua diversão. Dava para ficar ali só curtindo as emoções, tipo “caralho, tem um urso polar na ilha!” ou “meu Deus, existem outras pessoas lá!”. Sempre com um ponto de interrogação no fim. Talvez por isso, mas não só por isso, Lost também tenha funcionado na TV aberta.
E aí eu fico imaginando como seriam as “enciclopédias” de séries como Friends e Seinfeld – que eu adoro, veja bem. No máximo se limitariam a personagens, algumas referências do universo pop, talvez algumas locações. Duvido que alguma delas tivesse o verbete “taoísmo”.
Por falar em verbetes, lembrei-me que um grande número deles terminava com a referência “Ver: Dharma”. E nós nos esquecemos de colocar exatamente um verbete na enciclopédia… Adivinha qual? Por outro lado, no universo de Lost a falta de informação faz tanto sentido que, olha só, ninguém reclamou.
* Paulo Terron é o capo do With Lasers – e colecionador de autógrafos, olha isso:
Pois é, cara: eu vi as primeiras duas temporadas de Lost e alguns episódios soltos na casa do Fred, quando ainda era o Tchose Inn, ali na Princesa Isabel. Se não me engano, vi com o Ivan e (talvez) Tatu. Achei bem massa e fiquei a fim de acompanhar, mas sei lá, nunca deu o CLIQUE necessário pra tanto. Especialmente quando vi essas duas primeiras temporadas inteiras. Vi na GLOBO, durante um período da minha vida em que eu estava viajando pra caralho e ficava em vários buracos onde só tinha TV aberta. Enfim, minha opinião sobre o assunto é: se tivesse tido apenas 3 ou 4 temporadas, talvez virasse um HIT CULT do futuro, estilo TWIN PEAKS. Mas como insistiram em deixar aquela trama cada vez mais complexa e bizarra, acho que virou meio Hunter Thompson nos últimos 5 ou 10 anos de vida: uma CARICATURA de si mesmo.
* Que eu saiba, só existe um Cardoso.
* A Chiquinha é demais.
Desde que o primeiro personagem abriu o olho e em seguida um urso polar numa ilha tropical comeu umas pessoas que milagrosamente conseguiram sobreviver sem nenhuma fratura a uma queda de avião que se partiu em dois a milhões de metros de altura por causa de uma carga magnética absurda e que ainda bateu como um tijolo no mar, a história dos seriados de TV foi mudada para sempre.
Nenhuma série tinha alcançado o “range” de “Lost”, que ia de assunto para conversa de bebedouro e botequim até curso de universidade. Até dinheiro me deu, porque já tive a oportunidade de editar um especial da série para uma grande editora.
Se você, como eu, aceitou toda a premissa “cascata” da série, arriscou sua própria teoria (furada), não sossegava enquanto não baixava o seriado duas horas depois que ele tinha passado nos EUA (Costa Leste, que passa primeiro que a Oeste), viu a história se mover em flashback, depois em flashfoward, DEPOIS EM FLASHSIDEWAYS, e a porra da nuvem negra assassina, e a porra toda, tenho uma coisa pra dizer.
A partir de domingo, quando “Lost” acabar, e na semana seguinte e em quaisquer semanas seguintes formos privados de ouvir a frase “Previously on Lost”, vai dar a impressão que morremos e estamos num purgatório.
* O Lucio você conhece.
A primeira coisa que eu falei pro Matias quando ele me chamou pra escrever sobre Lost foi um simples “não”. Afinal de contas, diferente da maior parte das pessoas que estão lendo as séries de posts de Lost no Trabalho Sujo, eu não estou acompanhando o seriado. Pra ser mais exato, eu abandonei Lost mais ou menos em S03E05 ou S03E06, quando percebi que não ia conseguir acompanhar as temporadas num ritmo adequado. Preferi, então, dizer não e me mantar à parte do tumulto da final.
Mas, veja como eu aprendi logo nas primeiras temporadas, não é tão fácil abandonar a ilha. Ou, melhor dizendo, não é tão fácil a ilha abandonar você. O Matias insistiu e eu me dei conta: mesmo sem continuar assistindo Lost de fato, eu acompanhei a maior parte da trama por fragmentos que chegaram até mim através de conversas próximas, posts rápidos em blogs ou comentários em redes sociais. Não vou saber descrever com detalhes o destino dos personagens, mas, mesmo sem querer, chegaram até mim notícias de que a coisa ficou realmente feia e incluiu viagens no tempo e realidades paralelas, uma grande sacanagem com os personagens de qualquer trama pop.
O ponto é o seguinte: em vez de eu acompanhar Lost, Lost é que me acompanhou. Pedaços da trama, entrevistas com os produtores e reações de fãs volta e meia orbitavam a minha vida mesmo que eu não quisesse ter nada a ver com o assunto. Obviamente isso não acontecia por acaso (acaso? Em Lost?). O seriado é um dos produtos ícone de uma nova leva de entretenimento meticulosamente desenhado para se espalhar, não apenas no que diz respeito aos formatos de mídia mas inclusive no conteúdo. Não é qualquer trama que suporta tamanha amplitude.
Como tudo hoje já nasce com teoria e explicação, compartilho com vocês a pirâmide invertida que fotografei num workshop da 42 Entertainment, empresa responsável por ARGs célebres como Why So Serious pro Cavaleiro das Trevas e Year One do Nine Inch Nails. Ela oferece uma visão bastante interessante que explica de forma clara o fenômeno Lost.
Em 2008, depois de participar desse workshop no Festival de Publicidade de Cannes, escrevi: “Essa pirâmide aí em cima mostra os níveis de envolvimento que o público pode ter com um ARG (clica na imagem que ela aumenta). Na ponta lá embaixo estão os louquinhos que rastreiam todas as pistas, formam comunidades pra resolver, atravessam a cidade até um telefone público para receber uma informação gravada, largam a namorada pra se dedicar ao ARG. Logo acima, no nível dois, estão os que acompanham as comunidades e participam do ARG de um jeito um pouco mais light, meio que sentado na cadeira em frente ao computador. O nível três diz respeito a quem sabe que um ARG está rolando, dá uma olhada de vez em quando e, se descobrir uma pista, passa para um amigo. O nível zero é o mainstream, que não sabe muito bem que negócio é esse, mas olha que legal a reportagem na TV sobre o ARG.”
Pois então.
O ensaísta Douglas Rushkoff chama de “moeda social” tudo aquilo que é usado pra gerar conexões entre pessoas. É uma espécie de medida de riqueza que determinados conteúdos ou produtos podem agregar a relações pessoais. O grande sucesso de Lost residiu na distribuição inteligente de moeda social para todos os níveis dessa pirâmide. Até mesmo os pobre maltrapilhos da base invertida como eu, que não tinham muito contato com o seriado, saíram com umas moedinhas no bolso. Se não muito pra dizer que fez parte da comunidade de um novo tipo de produto de entretenimento, ao menos o suficiente pra escrever um post no blog de um parceiro.
* Mini é dOEsquema.
Lost é apenas o começo.
Acredito que muito do impacto de Lost reside no fato de ser a primeira grande série que estreou com a internet mais consolidada entre as pessoas. Esse detalhe potencializou todo o ecossistema criado em torno da série.
O interessante é que a série ajudou a quebrar e a provar certas premissas.
Primeiro, provou que o consumo de vídeos de longa duração na web era viável. Meio óbvio falar isso hoje em dia, mas até pouco tempo atrás existia um mito de que as pessoas somente teriam paciência para assistir a vídeos de até 3 minutos na web. Hoje é comum conhecer pessoas que assistiram a toda série sem nunca terem se sentado diante de uma televisão. Consumiram tudo em frente a tela de um computador.
Mais: Lost também provou que um modelo menos restritivo de distribuição é possível.Um dia após a exibição na TV, os episódios eram disponibilizados no site da ABC, inclusive via streaming, tecnologia cada vez mais endossada pela indústria de música e filmes.
Aliás, Lost foi uma das primeiras séries a estar disponível na loja online iTunes, chegando a servir de carro-chefe para a inauguração da versão alemã da loja da Apple.
Depois de Lost será difícil assistir a uma série como antes. Sem ter a alguns cliques de distância os episódios para assistir quando e onde quiser, as teorias das conspirações, as comunidades online para discutir cada detalhe da série, os remixes publicados no YouTube, os ARGs, enfim todo o rico ecossistema criado em torno da série.
No caso de Lost, assistir a um capítulo era apenas o início da experiência. Reflexo de que, hoje em dia, o consumo de um conteúdo (seja uma notícia, música, filme) deixou de ser apenas o ponto de chegada. É o início da experiência.
* Tiago Doria é um dos poucos caras que escreve sobre mídia e tecnologia no Brasil que precisa ser lido sempre
A grande sacada de Lost foi ensinar ao homem comum a se portar feito um mané. Depois de anos sendo motivos de chacota entre a sociedade civil, fãs de Arquivo X, Star Trek e Star Wars tiveram enfim o gostinho da vingança.
Uma não-trama de eternos seis anos conseguiu segurar na frente do computador uma infinidade de pessoas como eu e você, que nunca foram fãs de metal, dão um rolé no shopping com a namorada, eventualmente vão a praia e, vai saber, talvez nem tenham um perfil no Twitter.
Isso porque, principalmente no início, Lost soube disfarçar muito bem. Enquanto ficava apenas sugerindo o que havia de cretino em sua história, a ilha passava muito bem por um entretenimento decente para o cidadão de bem. Tínhamos dramas pessoais plausíveis, ainda que entre sussurros e defuntos na floresta, com personagens até interessantes.
Enquanto tudo era apenas sugerido, como em um soft porn do Multishow, havia beleza e bom entretenimento. Os últimos anos do programa foram como se tivessemos closes ginecológicos em um soft porn do Multishow, destrinchando coisas que não estavam necessariamente acontecendo.
E quando passamos a descobrir o que realmente estavam nos contando, foi um tapa na cara da sociedade – e ficou uma marca estilo “vida longa e próspera” do trekker devidamente vingado.
* Chico Barney é um dos ícones da internet brasileira.