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Lost por Kátia Lessa

No dia 8 de janeiro de 2007, entreguei a primeira das 4 listas de palavras que o amigo e então chefe Lucio Ribeiro havia me pedido para organizar para um Almanaque sobre LOST. Lembro que fiquei responsável por 15 termos que relacionavam a série ao Brasil, e 16 “termos não ligados a série”, ou seja, eu não explicava quem era Jack, e sim o verbete David Hume, ou Charles Dickens. Aos poucos, notamos como esse trabalho era complicado, porque afinal, como explicar John Locke ou Rousseau?

E essa foi a beleza da série. Mistério atrás de mistério, até fritar a sua cabeça com conexões deliciosamente perturbadoras e fazer com que os episódios virassem papo em mesas de bar, blogs que discutiam as referências secretas que surgiam a cada cena, ou até aulas de filosofia (eu tive uma, amigos).

Devo admitir publicamente que traí Lost duas vezes. Durante a terceira temporada troquei Jack por Dr. House, mas logo fui curada e em 3 dias, voltei para a ilha com a ajuda de uma maratona dos DVDs piratas do meu pai, que a essa altura estava tão viciado, que já tinha um fornecedor especialmente para essa entrega. Ninguém escapou.

Nunca vou esquecer o dia em que fui fazer uma reportagem sobre refugiados haitianos na República Dominicana. Eu não falo francês, nem creole, e o contato estava difícil. Mas na minha mochila tinha um botton (nerd) da Dharma, com o número 42, e um dos caras da comunidade reconheu, apontou e disse: LOST. Vai entrar no avião depois disso…

E mesmo sem ter visto nenhum dos episódios dessa última temporada, estou ansiosa pelo final. A rede de informações em torno da série é tanta, que foi possível acompanhar os acontecimentos depois de desviar da rota, e ficar desconectada do mundo (projeto Kaos unplugged). Nesse 23 de maio, o show acaba, muitos dos mistérios continuarão indecifráveis e nós é que vamos ficar um pouco perdidos. Aliás, Matias, se quiser tomar uma cerveja na madruga de terça horário costa leste de baixar a série semana que vem, liga ae. Existe vida após a Ilha (acho).

* Kátia Lessa é a rainha do Ka-kaos – e a cerveja eu já declinei, porque eu não bebo cerva.

Lost por Bia Granja

Virei Lostmaníaca depois de velha. Não eu, a série! Digo isso porque só comecei a assistir Lost esse ano, 6 meses atrás, quando a série já tava no final. Como não comecei a ver no 1o ano, peguei mega bode da galerinha que ficava falando sobre a série como se ela fosse uma obra-prima. E sim, ela é! Constatei isso quando, depois de passar 18 horas seguidas assistindo, me peguei twittando como louca sobre o assunto, esperando episódios ansiosamente, não conseguindo dormir pensando nos absurdos mistérios e coisa do tipo.

Poréééém, confesso que tô meio de saco cheio dessa coisa toda. Claro, claro, tô acompanhando. Mas nem perco mais meu tempo tentando entender o que se passa. É tanta mirabolância, tanto surrealismo, que qualquer coisa cabe. Rola toda uma banalização do mistério que me irrita. Pra que tanto, gente? É como eu disse: quando você acha que está começando a obter respostas, os roteiristas vão lá e mudam as perguntas! #putafaltadesacanagem

* Bia Granja é editora da Pix.

Lost por Alexandre Esposito

Se tem uma coisa que aprendi na vida é que a gente nunca sabe quando uma paixão vai surgir. E nem estamos preparados para ela. Claro que eu não seria nem louco de querer comparar Lost com uma mulher, mas quando a série entrou na minha vida, também me pegou de surpresa.

Claro, eu acompanhei todo o hype pela estréia e a repercussão dos seus primeiros episódios. Mas a verdade é que na época eu não liguei pra isso, não dei muita importância. É tipo aquela menina linda dos tempos de escola que por ser mais na dela, discreta, só percebemos o quanto valia a pena anos depois, quando o contato já foi embora. Pra mim sorte, eu não precisei de anos para notar Lost. Bastou um domingo, na Globo. Aquele foi o estopim para que eu baixasse tudo que já tinha rolado e em uma semana estivesse já emparelhado com a exibição nos EUA.

O que me atraiu em Lost e ainda me atrai é que, por mais loucas e sem sentido que algumas tramas possam parecer em alguns (ok, em vários) momentos, a essência dela é a humanidade. Os nossos heróis estão perdidos, e nós também. Nós não temos respostas, e eles também não. Lost é um fenômeno porque coloca público e personagens na mesma condição. É fácil se identificar, fácil se relacionar. Não que a gente esbarre na rua o tempo todo com velhos carecas com coleções de facas, ou com ex-torturadores iraquianos. Mas quantos de nós não somos ou pessoas em que a vida deu rasteiras e que se sustentam vivas por causa da fé e da esperança como Locke, ou ainda pessoas perseguidas por traumas e fantasmas do passado como Sayid?

É por isso que tanta gente diz, e com razão, que Lost não é um seriado, é uma experiência. Que a gente não assiste, vivencia. E da mesma forma que Desmond teve sua constante em Penny, posso dizer que também tive nos últimos seis anos uma paixão como uma constante na minha vida: Lost.”

* Não conheço o Alexandre Esposito, mas ele edita o Vida Ordinária, que é bem bom, e foi o primeiro não-amigo a responder à convocação para escrever sobre a série que eu fiz ontem cedo.

Lost por Carlos Alexandre Monteiro

Se tem uma metáfora de que gosto demais é a do alinhamento cósmico. Sabem aquela conjunção de planetas e/ou estrelas que acontece uma vez a cada zilhão de anos, e que cientistas, estudiosos amadores, esotéricos etc. admiram por saber que nem tão cedo, talvez nunca, verão algo igual? De vez em quando isso acontece na vida alheia e na nossa também. E na arte. Só que há uma diferença notável entre os alinhamento reais e os simbólicos: enquanto astrônomos conseguem calcular quando os astros vão provocar estes fenômenos no Cosmo, os daqui debaixo às vezes só são compreendidos tempos depois que ocorrem.

Lost é um desses alinhamentos. E se torna ainda mais especial porque, desde seu primeiro episódio, nos avisou o que de fato era. Nos permitiu uma mistura de previsão e de certeza de que tínhamos algo espetacular diante dos nossos olhos. Os caras certos, escrevendo roteiros para os caras certos, com uma história bela, fantasiosa, cheia de alegorias e referências, recheada de elementos infalíveis. A fórmula da Coca-Cola sendo criada na nossa cara.

Que outra série de TV conseguiu colocar no mesmo balaio – e de forma muito bem trançada – Star Wars, Alice no País das Maravilhas, mediunidade, Stephen Hawking, Experimento Ludovico e Iluminismo? Se ainda havia uma pá de cal a ser jogada no túmulo dos ultrapassados bobalhões que apontam a televisão como inimiga da leitura e da reflexão, qual outro seriado fez esse serviço de forma tão competente? Qual outra série fomentou tantas discussões e debates inflamados em intervalos de aulas, mesas de bar, listas de e-mails e ambientes corporativos? E qual outra atração do gênero teve a manha de gritar aos olhos e ouvidos de espectadores do mundo todo que, hoje, os meios pertencem às histórias, e não mais o contrário, se estendendo em livros, jogos, videogames, webisódios…?

Criação individual e coletiva, nascida por todos os lados; aniquiladora de maniqueísmos, reverente a defeitos e a virtudes, fã ardorosa do ser humano; geradora de verdades singulares e, ao mesmo tempo, universais. A verdade é que Lost não cabe em si – e para serem justos e corretos com essa realidade, os produtores prometem deixar novos temas para debate, unindo interrogações às exclamações de seu ato final. Há os revoltados, que clamam por respostas diretas e concisas – idiotas da objetividade, alguém? -, mas sei que estes simplesmente não estão entendendo o que de fato nos foi proporcionado por todos esses anos e agora em seu momento máximo se garante como espetáculo inesgotável, que irá se irradiar para muito além de seu suposto encerramento: uma experiência única e inesquecível para cada um que, de verdade, resolve limpar os olhos e mergulhar naquilo que se vê no alto.

* Conheço o Carlão do tempo em que ele era só um dos melhores guitarristas de surf music do Brasil, antes de ele virar essa autoridade toda na série, a partir de sua central, o Lost in Lost, e da filial, o Tudo Está Rodando.

Lost por Belle

Quando fui convidada a escrever este texto, hesitei. É simples assim: eu não gosto de Lost. E tenho muito medo – e até vergonha – dessa opinião, do que os leitores de internet podem dizer para mim, de acusações a ameaças.

Mas aí, fui convencida de que tudo bem, de que pessoas que não curtem o seriado lêem o blog e que faria algum sentido escrever. Será?

Eu preciso explicar, eu não gosto de várias coisas que são unanimidades internacionais. Na lista estão Radiohead, Cortázar, filmes de ficção científica, programas de TV sobre o Nostradamus, chocolate. Talvez eu seja apenas chata. Mas eu acho que chato é o Lost.

Vi o primeiro episódio em 2005 na TV Globo. O locutor – juro! – anunciou o programa como “Lôst”, o que já foi meio ridículo e meio que virou piada na minha casa. Tudo bem, isso não tem nada a ver com o programa, mas acho que explica um pouco a minha falta de interesse. Afinal, pode ter sido uma história iniciada da maneira errada – com intervalo, dublado, etc. etc.

Mas o que pega é que eu não gosto de queda de avião. Não gosto de volta no tempo. Nem de coisas fantásticas, tipo urso polar em ilha paradisíaca. Também não transo gincana. E sou zero da aventura. Inseto me dá aflição, e eu tenho muito medo da morte (no caso de a teoria de que estão todos mortos seja o real fim).

Todos esses dados explicam porque Lost não me pegou. Agora, a situação piorou mesmo quando TODO MUNDO virou muito fã. Sim, porque a série é O assunto. E eu estou de fora. E é muito chato ficar de fora. Nas mesas, eu ouço numa boa por dez, vinte minutos. Mas aí, as pessoas passam duas horas falando e isso virou uma regra. Em todo lugar tem Lost. Na rua, na internet, nos jornais, uma febre.

Eu me sinto outsider, mas não tem jeito. Eu gosto mesmo é da Carmela Soprano.

* Isabelle Moreira Lima, fã de Sopranos e Mad Men, pediu pra ser creditada assim.

Lost por Delfin

Nada me tira da cabeça que, se os produtores de Lost fizessem Hurley voltar ao penhasco em que quase se suicidou na 2ª temporada da série, os fãs seriam muito mais surpreendidos do que com o final que virá no domingo. Resta pouca coisa a acontecer. Há poucas teorias a serem exploradas agora. Tenho algumas na cabeça – fora essa do Hurley, que fica de brinde.

Uma delas é a mais fácil de acontecer e, nela, haverá um embate final entre Jack e Flocke, o bem vencerá o mal, o Man in Black continuará preso na ilha e Jack, coitado, ficará por lá protegendo a ilha para sempre. O problema desta teoria é que ela não explica os sidebacks, tornando a linha alternativa de tempo em que todos caminham para um final feliz meio inútil.

Entra em campo outra teoria: como em Donnie Darko, o que se acredita ser a linha real de tempo desde o início da série é, na verdade, a linha alternativa, que deve ser destruída para preservar o tempo original — que são os sidebacks. Explico: quando a ilha foi movida e Daniel Faraday percebeu que a destruição da ilha era a solução, ele certamente vislumbrou a cisão do tempo em duas frentes em 1977. Então, a partir daí, TUDO o que ocorreu a partir da explosão da bomba naquele ano, e isso inclui CINCO temporadas, é um universo tangente. Apenas na sexta somos apresentados, no tempo certo, ao que chamamos de sidebacks, a vida real. Na qual apenas Desmond tem o poder, como a constante que é, de tornar todos os losties conscientes do que houve. O fim parece óbvio: deter John Locke. Para quê? Nesta linha de pensamento, boa pergunta.

Há uma terceira teoria, que combina um pouco as duas, mas com outra premissa. Mantém-se o esquema Donnie Darko, a bomba, o esquema das realidades invertidas. Mas, no processo da destruição, Flock é quem vence Jack. Nesse sentido, explica-se porque Desmond quer detonar Locke: porque este, nos sidebacks, é na verdade Flock. E ele, Des, precisa despertar todos os losties para, talvez com a ajuda de Eloise Hawinkg, que aparentemente também está consciente de tudo, destruir definitivamente o Man in Black e, então, todos viverem felizes para sempre.

Há outras coisas a se considerar. Por exemplo, Christian Sheppard. Lost tem uma relação muito intrínseca com nomes. Basta ver a relação agora estabelecida entre Jack e Jacob. Não parece estranho que todas as aparições do pai de Jack sejam bem diferentes das aparições do monstro de fumaça? Ainda acho que isso ainda vai surpreender a todos e deve ter a ver com a luta de Jack e Flock. Afinal, não se esqueçam que Jacob estava fora da ilha quando se encontrou com os losties. Será que Jacob não saiu da ilha e, para retornar, utilizou Christian Sheppard?

Outra: por que o Miles está vivo? Lapidus está mesmo morto? E Claire, por que Flock não a matou? Mas principalmente Miles: se ele consegue ouvir os mortos, e os sussurros são os mortos, então ele pode descobrir a chave para resolver a luta contra o Flock. É bem a cara do J. J. Abrams tirar o foco dos personagens secundários e dar a eles uma inesperada, mas lógica, importância ao final. Não se esqueçam que, como Fábio Yabu percebeu, Miles foi o único a não conversar ainda com o MiB e, portanto, apenas ele estaria apto a matá-lo.

Mas e Walt? E Vincent (que já sabemos que ainda está por lá)? E Aaron? E as cinzas da Ilana?
À parte de teorias, há coisas que não saberemos jamais, porque se perderam completamente na história. Por exemplo, se você esperava saber algo sobre Henry Gale, o balonista negro, esqueça. Equação Valenzetti, campeã dos ARGs de Lost? Sequer citada na série. Qualquer relação de Gary Troup com a realidade (qualquer delas)? Nada. Quem construiu a estátua de Tawaret? Dois mil anos de realidade, em algum momento aconteceu, mas não vão explicar.

De algum modo, me parece claro que há uma relação intrínseca entre o episódio piloto e o final. Tanto que, no domingo, a maratona de conclusão de Lost começará com a reexibição do piloto.

Lembro da reação que tive quando assisti àquele episódio inicial pela primeira vez. Foi na primeira exibição brasileira, no AXN. Era 2005 e eu tinha ido para um lançamento literário na Mercearia São Pedro na noite anterior e, por causa do adiantado da hora, parei para dormir, na volta à Campinas, na casa dos meus pais. Quando acordei, fui direto para a sala, porque lá, ao contrário da minha casa, tinha tevê a cabo. Liguei o aparelho bem na hora em que Jack, que até aquele momento era só o irmão certinho e mais velho de Party of Five para mim, abre os olhos na ilha. Estava na cara que era algo especial acontecendo ali. Eu já tinha ouvido algumas coisas sobre a nova série do criador de Alias, mas não me toquei na hora. Só sei que o mistério e a tensão daquelas duas horas me fizeram querer ver mais daquilo. E aí perdido estava eu, junto com milhões de pessoas no mundo.

Todo mundo já comentou sobre o fenômeno transmídia da série, sobre a revolução que Lost representa para a experiência de ser espectador finalmente ativo. Eu quero destacar outro aspecto, no entanto, que é a renovação narrativa que Abrams, Cuse e Lindelof trouxeram para a tevê. Conseguiram emplacar, para o mundo todo ver, um programa televisivo que não era representante legítimo de apenas um nicho em nenhum momento. Lost começou como um thriller, passou a série investigativa, depois uma série de suspense, passou por momentos de fantasia e realismo fantástico, depois nitidamente era uma série de ficção científica. Mas em nenhum momento ela deixou de ser todos estes estilos, somando-se a eles pitadas dos bons e velhos romance romântico, drama e comédia. Mas isso só funcionou por conta da qualidade dos textos apresentados ao público, ainda que muitas vezes interpretados por atores que não passariam nem nos testes das novelas de mutantes da Record. A força desses roteiros, em minha opinião potencializados no período em que Brian K. Vaughan, exímio roteirista de quadrinhos americano, esteve envolvido com Lost, é que fizeram com que a série conquistasse os fãs de cara e, com isso, tornassem naturalmente possíveis os planos do trio criador.

Foi assim comigo. E, acredite, mesmo que você não se dê conta, foi assim contigo também.
Assunto puxa assunto quando a gente fala de Lost e, como eu disse numa DM ao Matias, é foda escrever apenas um texto sobre isso. Este mesmo já foi reescrito umas quatro vezes, porque não podia ficar comprido demais (mais gente quer dar o seu pitaco por aqui). Dá vontade de falar de tudo e de coisas que muita gente nem se toca: a importância da Lostpedia no cenário wiki mundial; a música de Michael Giacchino e sua vital relevância; as homenagens a diversos escritores durante toda a série e as influências de cada um nos roteiros e na trama; as conexões de Lost com o Universo J. J.; a quantidade de gente que sistematicamente aposta os números malditos nas loterias em volta do globo (quem aí nunca fez isso?); a conexão misteriosa entre os campeonatos italianos ganhos pela Inter de Milão e o tempo de exibição da série; etc.

Seja como for, tudo se acaba no domingo. Ou, como estou propenso a acreditar, tudo apenas se encaminha para uma resolução que, ao contrário do que o título do episódio spoileia, ainda não será realmente o final. Para você ficar pensando aí, mando miniteorias que são incongruentes entre si:

– Tudo é mesmo uma piração do Hurley e ainda assim ele será feliz com a Libby no hospital;

– Desmond é o Donnie Darko da vez;

– Sawyer, o grande desajustado, será o herói do dia;

– O curso da história em que eu e você vivemos é o errado e é um erro estarmos aqui;

– Cada um de nós é o Man in Black.

See you in another life!

* Delfin está lançando a Machado.

Lost por Marcio K

Seis anos. Eu mudei, você mudou. Nosso mundo mudou, o mundo deles mudou.

Em 2004 começou lá fora, aqui só começou em 2005. Era via cabo, ou assistindo os DVDs no final. Mudança – hoje pode-se ver ao vivo, ou baixar em poucas horas. Mudou o mundo, em 2005 havia uma pessoa, outras passaram, como episódios melhores ou piores – quanta ironia que certas durações diminuíram junto com o tempo de espera, são tempos rápidos, confusos, fugazes.

E somente agora escrevendo me dei conta que Lost começou junto com os anos que a minha vida mudou. Dá para ficar brincando de paralelos – o mundo televisivo é um antes de Lost, o meu mundo também era outro antes de 2005. Ingenuidade, desconhecimento e a beleza da primeira temporada, onde tudo era descoberta de pessoas e de mundo; até a certa confusão e desagregação de tudo que aconteceu nessa última. Dá um belo paralelo também.

Também fiz minha lista de Charlie, dos Greatest Hits da vida, e a maioria deles aconteceu com Lost no ar. Personagens também apareceram e se foram. Não consegui ligar para Penny como Desmond fez, talvez em uma das sequências mais belas que já apareceram nas telas de TV – os telefones estavam sempre ocupados. Reaprendi a usar as pernas como Locke, e a olhar todos os novos passos, tem aventuras que perdemos por não podermos embarcar, mas elas funcionam, as pernas, no local correto. Pensei em uma camiseta, escrita “Eko & The Bunnymen”, com a cara do negão e coelhinhos, nunca feita. Já achei que fui Jack, querendo ser o Sawyer, mas na verdade costumava acabar como Hurley. Aviões entraram na minha vida, para ver novos amigos e mais que amigos – por sorte aqui não houve paralelo, nenhum se partiu ao meio, nem em vôos da Ocean Air.

Tivemos dias de Ben, mandando os meios às favas para conseguir os finais. Tentamos escapar de nossas ilhas. Flashbacks indicaram pistas pro futuro. Suspeitamos de Jacobs brincando com nossos destinos. Aceitamos qualquer sacrifício, como Sayid, para encontrarmos nossas Nadias, somente para ver que estávamos sendo enganados. Achamos identificações 4, 8, 15, 16, 23, 42 vezes. Ficamos apertando botões para sempre tentar adiar finais, mesmo sem saber quais seriam. Vimos monstros que demoramos a entender. Tivemos Kate na grade das nossas jaulas. Andamos pelas nossas ilhas sem rumo, tentando entender porquê estávamos ali.

E, coincidentemente (Desmond ficaria orgulhoso), Lost acaba juntamente com a vida na cidade que passei os últimos 21 anos. E que marca exatamente o final da fase da minha vida que começou lá junto com a série, em 2005. E acho que vai dar para olhar para trás e ver que, em Lost e na vida, muita coisa ruim e boa passou. E que, definitivamente, vou ver as razões de tudo isso.

Mas, claro, alguns vão dizer…Hallelujah.

Hora de vida nova. Que ela venha.

* Marcio K dá mole de não blogar mais.

Lost por Ana Bean

Tirando um certo crush pelo MacGyver nos anos 80, nunca gostei de séries e filmes de ação/drama centradas em um personagem ou em um “herói recorrente”. E, os meninos que me perdoem, incluo aí Jack Bauer e até os super-heróis da Marvel (e você também, James Bond). A meu favor, vejam bem, se isso lá for um aliado de respeito, tenho o Nick Hornby.

Eu adoro um trecho do livro Frenesi Polissilábico (não tive tempo de procurar o quote exato) no qual ele fala sobre o “não conseguir se solidarizar” com os heróis de livros de ação. Eu mudo esse argumento para filmes, aqui. Por que eu vou sofrer com o Jack Bauer se ele ainda tem mais 16 horas pela frente, antes que as 24 acabem? Como você vai me convencer que devo sofrer por você agora, com a mesma intensidade com que sofri há três episódios, quando você tinha uma bomba na virilha e mesmo assim não morreu?

É frustrante. Não sofro, não torço, quero mais é que morra logo. Mas eu sofri com o LOST e com os seus “personagen recorrentes” que eram às vezes heróis, às vezes vilões, e às vezes só babacas mesmo. Achei que valia a pena acreditar que o Jack poderia sim morrer engolido por uma fumaça preta em qualquer episódio. Quem passou pelo seriado sem sofrer, pesquisar, sem fundir a cabeça, sem entrar em fóruns de discussão, sem se irritar com spoilers… não “viu” LOST. A experiência é/foi justamente esse grau (exagerado) de envolvimento, essa participação e utilização de todas as ferramentas virtuais para montar um quebra-cabeça de peças beeem tortas. Eu faço parte dos que se divertem mais com o processo que com o produto final. Juntar as peças, tentar encaixa-las, decifra-las… quando o jogo vai chegando ao final, eu sento e observo. Já não me sinto mais no controle e daí perde a graça. Gosto de torcer para o vilão, ou melhor, torcer sem ter idéi a de quem é realmente o vilão. Sou do Team Ben & Team Locke! (*fazendo coraçãozinho com as mãos haha). Porque Jack, desculpa, é só um rostinho barbudo e bonito.

Seis anos depois, claro que exageramos. Inventamos mais teorias que os próprios roteiristas poderiam conceber. Achamos indícios e referências literárias, científicas, freudianas (por que não?) que não ajudaram em muita coisa… Demos atenção até ao que o Sawyer lia, às tatuagens cafonas do Jack, ao diário do Faraday… Moldamos personagens a torto e direito e fomos até ouvidos em alguns momentos.

Com tamanha expectativa, não há season finale que aguente. As frustrações serão proporcionais ao frenesi. A constatação de que – hey atenção amiguinhos do fórum – AS PEÇAS NÃO SE ENCAIXAM INTENCIONALMENTE vai fazer a bolsa de valores despencar. Gente se atirando dos prédios. Gente xingando muito no twitter. =)

E isso, acredito, também faz parte da brincadeira. Essa é a graça! Você vai ficar satisfeito se o final for exatamente como você esperava? Eu não. Prefiro ficar sem algumas respostas porque quero pensar na possibilidade delas existirem. Quero bolar meus finais alternativos, minhas realidades paralelas. Lembram daqueles livrinhos que a gente lia quando criança? Você escolhia se fulano pegava a faca (“pule para a página 26”) ou o serrote (“pule para a página 52”) e 72 escolhas depois, você tinha praticamente dezoito realidades paralelas em um livro de menos de 100 páginas. Os “what if?” do LOST ainda vão continuar por muito tempo online. “Você quer que o Jack aperte o botão (“alternativa a”) ou siga em frente (“alternativa b”)?” Provavelmente teremos uma versão 2.0 desse final “múltipla escolha” para que menos pessoas morram de depressão pós-finale e para que todos saiam dessa ao menos ilesos.

ps1: De todas as experiências estranhas que o LOST me trouxe, tenho que destacar duas.

1- A bizarrice do JustinTV. A fissura de ver LOST ao vivo e se submeter a um áudio capenga, imagem tosca e um bate-papo surreal na barra lateral. Gente do mundo todo tentando se entender, gente que nem falava inglês pedindo legenda real time, pedindo tradução simultânea (!!!)… Lembro de um brasileiro desesperado gritando em caps lock: “To usando 100% do meu inglês para entender 10% do que eles estão falando, HELP!!”. haha

2- Os DVDs pirateados do Stand Center. Quero agradecer ao senhorzinho que ficava lá na extinta loja da Augusta vendendo mashup de seriado em DVD. Para quem tinha preguiça e não tinha tempo de baixar os seriados em casa, ele colocava o último do LOST (no dia seguinte) com mais dois episódios de séries a sua escolha. Legendado, imagem ok. Ah, ele vendia os teasers também. Os TEASERS! #wtf

ps2: Poderia escolher várias frases dos diálogos entre Hurley e Miles, mas pensando bem, minha frase preferida do LOST ever é essa: “A 12-Year-Old Ben Linus Brought Me a Chicken Salad Sandwich. How Do You Think I’m Doing?” (Sayid, S05)”

* Ana Bean manda no Trash it Up.

Lost por Ana Freitas

Quando eu entrevistei alguns fãs de Lost para a edição do Link sobre a série, houve um ponto em comum nos depoimentos. Todos eles disseram nunca nenhuma outra série foi capaz de fazer o que Lost fez. Deve ser por isso que quando você começa a falar de Lost nas rodinhas colam os tipos mais variados pra oferecer os palpites e as teorias.

Lost teve todas essas coisas que mudaram a maneira como a gente assiste TV, mudaram a maneira como o espectador interage com uma série. Mas acho que a maior conquista (há os que considerem desgraça) de Lost foi nerdificar gente que em outros tempos jamais se imaginaria assistindo uma série de ficção científica, discutindo bolsões de eletromagnetismo e Efeito Casimir. Dá até pra dizer que Lost foi um dos responsáveis por tornar o nerd cool, também, essa transição magnífica que aconteceu depois da interwebs.

Outro motivo de identificação: as “coincidências” em Lost, que devem ser das coisas mais inteligentes que alguém resolveu enfiar no roteiro de um seriado. A maneira como as pessoas se conectam, sempre sob o famoso more ‘Everything happens for a reason’, atrai as pessoas porque, no fundo, todo mundo gostaria de saber que suas coincidências não foram coincidências, que existe um motivo por trás delas.

Lost não vai ter uma explicação científica no final. É que a série é sobre fé e ciência, mesmo. Eu não tô falando só dos dramas do Locke e do Jack: a Dharma é a ciência, a Ilha é a fé. É a história do homem avançando a ciência até um ponto em que a religião e o misticismo se fundam com a tecnologia. É uma cerca sônica que pode manter afastado um monstro de fumaça claramente místico, cientificamente inexplicável. A luz deve ser protegida para impedir o homem de avançar a ciência até a fé.

É impossível agradar todo mundo com um final baseado nessa premissa – eu mesma não sei se vou gostar (provavelmente, a essa altura). Mas acho que a ideia de um roteiro baseado nisso é fazer as pessoas pensarem na possibilidade de que tudo seja uma coisa só, ciência e religião. Aliás, você já pensou nisso?

* Tenho maior orgulho de trabalhar com a Ana. Serião. Ela é o máximo.