Todo relacionamento amoroso tem lá suas falsas promessas. O meu, durante três anos, foi um só: ver Lost. A Bem Amada, com quem conversava de cinema, cultura trash, televisão e qualquer bobagem, do dia pra noite resolveu só falar dessa porra, que em 2004 me parecia ser apenas um derivado do filme Náufrago.
Ela passava finais de semana fazendo as tais maratonas, tentava me explicar o que era RMVB, Lost in Lost, Equação de Valenzetti, Buracos de Minhoca… E eu ainda de luto pelo final de Friends (pois é).
Em 2007, em uma semana de folga no estágio, que deveria servir para eu começar o TCC, resolvi alugar na locadora da esquina a 1ª temporada de Lost. “A nível de” curiosidade. Antes de pôr o disco no DVD player, ainda liguei e fiz piada.
Aqui estou, três anos depois, sem nunca ter visto um novo episódio longe dela novamente…
Lost teve um tremendo impacto na minha vida, não apenas na pessoal – inclusive ajudou a desenferrujar meu #nerdpride. Mas também na profissional. Virei, veja só, repórter de séries: Lost me apontou que as melhores histórias, aquelas mais ousadas, dispostas a fazer o meu cérebro explodir, estavam na TV (americana), não mais no cinema.
Antigamente o sucesso de um programa televisivo era medido por conversas de bares, bordões que se espalhavam pelas escolas, telefonemas pro Projac sobre o nome do estilista da protagonista da novela das oito. Com Lost a medição foi feita no Orkut, fóruns, Twitter, ARGs, podcasts, blogs, YouTube… O programa foi uma síntese da comunicação deste começo de século. Lost foi um universo, uma espécie de hub, que fez da internet a sua rua.
No começo deste ano, tive a oportunidade de participar de uma coletiva em Pasadena com o elenco e com os produtores/cabeças Carlton Cuse e Damon Lindelof. Sabia que tinha tempo para uma única pergunta, mas os jornalistas americanos me engoliam, a fim de conseguirem alguma novidade sobre a 6ª temporada.
Não parava de olhar para o relógio, morrendo de medo de perder a única oportunidade de falar com os responsáveis por minha série predileta. Talvez a ilha tenha desejado, sei lá, mas tomei coragem, peguei o microfone, ergui o tom da minha voz o máximo que pude e avisei que tinha vindo do Brasil só para falar com eles.
A sala ficou quieta e fiz uma pergunta que nem tinha anotado: o legado futuro de Lost. “Desejamos que as pessoas lembrem da experiência de assistir a Lost, e de como elas se sentiram gratificadas e felizes por terem dedicado 120 horas de tempo e energia a ele”, resumiu Lindelof.
Foi a melhor resposta que eu podia ter.
* Gustavo Miller também é cria do Link e fez a matéria sobre a última temporada da série no início deste ano, quando entrevistou Carlton e Damon – e hoje está no G1, também falando de Lost.
“Think of the island as a record, spinning on a turntable, only now, that record is skipping.”
Viagem no tempo é um dos assuntos que mais me interessam, mesmo quando as histórias não fazem muito sentido. Seja em filmes, em séries, nas teorias científicas mais mirabolantes ou em um simples sonho. Quem nunca imaginou ver um show histórico da sua banda preferida? Rever um querido que morreu? As possibilidades são infinitas.
Em Lost, conhecemos pelo menos três tipos de viagem no tempo: os flashes mentais de Desmond, os personagens viajando pelo passado dentro da própria Ilha e os flashbacks/flashfowards, que funcionam como narrativa de viagem no tempo e nos mostra que uma nova linha-do-tempo não é criada – os personagens só visitam um ponto diferente nessa linha que sempre vai existir.
A série não assassina a principal lei dos time-travellers: de que o passado não deve ser alterado. Vai além, todas as situações do passado parecem ser perfeitamente coerentes. Em um dos vídeos da Dharma, quando Dr. Chang diz que os eventos da Ilha são resultado da “matéria exótica“, ele se utiliza da única maneira que um físico real explicaria estas experiências surreais. Portanto, fica claro que os realizadores da série tiveram muito cuidado ao abordar o assunto.
Citações feitas ao longo da série mostram que o passado é sagrado. “O que aconteceu, aconteceu” (Faraday), “O que foi feito, foi feito” (Sawyer), “Não seja louco! Existem regras”(Dr. Chang) são bons exemplos de que não se pode mudar o que está no lá atrás. E se o desejo de alterar o passado está bombando nas veias, sabe-se que fazê-lo “simplesmente” criaria uma realidade paralela e o passado permaneceria intacto. É como se duas agulhas tocassem um só disco ao mesmo tempo, em rotações diferentes.
Lost usa viagem no tempo como metáfora para a luta entre livre arbítrio vs. destino. Como humanos, temos a necessidade de fazer nossas próprias escolhas, trilhar os nossos caminhos. Mas o pensamento de que algumas coisas acontecem porque simplesmente devem acontecer não nos deixa em paz. Em que devemos acreditar, Razão ou Coração? Sempre o velho dilema.
Os Losties escolheram o vôo 815 ou já estavam destinados a embarcar no mesmo avião? Jack escolheu ser guardião da Ilha ou estava escrito que seria ele? A única certeza que temos é que nem sempre nossas escolhas trazem o resultado – ou a realidade – que queremos.
Todos os personagens são variáveis e cada um vive seu presente, independente do tempo ou lugar. A pergunta é: onde estarão no último episódio?
* Babee é a DJ do Boo Monster Bop e faz o melhor podcast do Brasil, o Boombop Shuffle.
Assisti a primeira temporada de LOST na TV aberta. Sem paciência de esperar a Globo exibir a segunda e sem TV a cabo em casa, organizei um tráfico de fitas VHS gravadas por amigos para poder continuar acompanhando a série. Quando os amigos não puderam gravar o season finale da segunda temporada, peguei um DVD pirata comprado no centro por um colega de trabalho. Na terceira temporada, comecei emprestando episódios baixados por um amigo hacker e no final, no famoso “we have to go back!”, eu já estava um expert em torrent. E a partir da 4a. temporada, pelo menos para mim, já não fazia o menor sentido chamar LOST de “programa de TV”. Acredito que não foi só para mim que a série foi se desincorporando da TV.
A única maneira, hoje em dia, de ter a genuína “experiência LOST” – assistir um episódio sem saber de nada – é assistir pela internet. Quando a TV brasileira exibe o episódio, uma semana depois, já é praticamente reprise, todo mundo já leu na Internet tudo que aconteceu. Pô, quando a TV americana exibe o episódio inédito já é quase reprise, menos de uma hora depois de passar no Canada!
O mais legal de LOST sempre foi extra-TV. Acompanhar e tentar entender LOST sempre foi um esforço coletivo. A série não tem a menor graça para quem não corre pra internet depois de assistir, não debate com uns amigos, não vai atrás das referências espalhadas nos episódios, nunca jogou os joguinhos de realidade alternativa (nome interessante, levando em conta a ultima temporada) ou nunca acessou o site da Oceanic ou da banda do Charlie. Ou se nunca jogou os “números” na mega-sena esperando que algo mirabolante acontecesse. O legal da série era te deixar em “modo LOST” por muito tempo depois do fim do episódio. E para mim o que media a qualidade de um episódio não era o episódio em si – direção, roteiro, fotografia – mas a capacidade do episódio de me deixar encafifado depois que ele terminasse. LOST sempre foi legal pelo que gerava além da TV, e agora chega ao final dispensando totalmente a TV. Talvez ainda não haja um nome para que tipo de obra é LOST, mas certamente já não é mais um “programa de televisão”.
O que eu espero do season finale é isso. Não quero explicações, quero ficar encafifado, pensando durante muito tempo sobre o que foi que eu assisti. Quero o velho “nó LOST” na cabeça. Se o final for
mastigadinho, vai ser muito frustrante.
Até porque, se LOST se espalha para além da TV como o monstro de fumaça, o último episódio não vai ser o fim, vai ser no máximo o começo do fim. Enquanto estiverem discutindo e destrinchando o season finale e a série como um todo, ela não vai ter terminado. Se a série já dispensou a TV para existir, por quê o mero fim dos episódios inéditos iria acabar com ela?
* Daniel Araújo é o ouvinte número 1 do Comentando Lost. Sempre comentou todos os episódios – fiz questão de chamá-lo para escrever. E a ilustra é dele.
Eu chego ao final de Lost certamente como cada uma das pessoas que acompanhou a série por 6 anos chegará: com uma sensação de vazio. Afinal, por mais que tenhamos buscado respostas por todo esse tempo, não é fácil abandonar o universo e personagens que aprendemos a gostar.
Lost foi a única série em que eu sempre precisei estar atualizado. Não podia esperar acabar a temporada ou acumular episódios para assistir tudo de uma vez, tinha que ser o ato religioso semanal. Adiar Lost era não ter assunto com os amigos ou então precisar fugir de qualquer texto sobre a série na internet.
Eu sempre gosto de dizer que, independente de seu final, Lost é um produto que alterou para sempre a indústria do entretenimento. Para produtores, espectadores, emissoras de TV, cinema, games, marcas, etc. Tudo foi atingido de algum maneira pelo blockbuster colossal da ABC.
E sim. Queremos as respostas nesse domingo. Não as teremos, obviamente, pelo menos não a maioria delas, mas fica a sensação de que J.J. Abrams tinha razão o tempo todo: o que mais importou foi a jornada, e não o final. Até porque, Lost sempre foi muito mais eficiente em criar mistérios e expectativa do que dar respostas.
Algo que me decepcionou muito na série foi a total queda para o lado místico, para o sobrenatural. Isso contrariou totalmente os que os próprios roteiristas tinham afirmado na primeira temporada: de que tudo poderia ser respondido cientificamente. Eu nunca engoli a história da fumaça, do pêndulo da Dharma, e – SPOILER – ainda não fui com a cara dessa misteriosa caverna luminosa.
Não que eu seja avesso a ficção, pelo contrário, mas não é o que me foi prometido há 6 anos atrás. E quando tudo vira uma questão de fé, os roteiristas podem colocar qualquer coisa na tela, porque acreditar ou não só vai depender de você.
Mas sinceramente, isso não importa mais, e é algo que me ficou ainda mais provado depois do dramático episódio 14 dessa sexta temporada, “The Candidate”.
A ilha, ursos polares, Dharma, fumaça, viagens no tempo ou seja lá mais quais forem as nossas dúvidas, tudo isso ficou em segundo plano. Eu quero é saber o que vai acontecer com os personagens. Quero é entender o destino dessas pessoas que aprendemos a gostar, torcer e odiar pelos seis anos. Porque se existe muita curiosidade em desvendar os mistérios de Lost, também nos deparamos com a questão fundamental de qualquer boa história: com quem o mocinho vai ficar no final? Seja ele qual for.
* Carlos Merigo é manda e desmanda no Brainstorm 9.
Toda vez que ouço falar sobre Lost penso em Jornada nas Estrelas. Até acho legal esse público fiel, que acredita em todo um universo, cria toda uma linguagem que só quem acompanha entende. Na verdade, não assisti a tantos episódios Lost assim, mas esse negócio de tudo girar em torno de uma ilha me faz pensar na turma do Sr. Spock (de forma rasa, que fique bem claro, pois lá tudo acontecia em torno da Enterprise). Mas, na verdade, sou nerd da ala Jedi. Assim como sou muito mais Two And A Half Men do que Lost.
* Serjão é um dos poucos caras (o outro é o Roni) que podem dizer que fizeram parte da equipe do Trabalho Sujo.
Assumo um preconceito injustificado com séries americanas. Nos meus early twenties achava uma forma de arte menor, como gibis, novelas da globo e filmes com o Mark Wahlberg. Foi vendo o Mutley correndo pra casa pra assistir Friends que eu dei chance pra essa coisas, ainda reticente com a possibilidade de ser um tremenda BICHICE. (Antes, pra mim, só havia Seinfeld, que eu e um amigo gravávamos em VHS todos os dias, em dois horários na Sony, o que nos fazia chegar atrasados no trabalho regularmente. Imagina nossa cara quando lançaram a coleção completa em DVD).
Lost não escapava de me fazer sentir NOVELEIRO. Assumo que assisti as partes mais açucaradas, os episódios do Jin e da Chan e praticamente toda a terceira temporada apertando o FF do controle remoto. Nego gosta de dizer que Lost é um seriado sobre pessoas – o que me deixa meio puto já que TODOS os seriados são sobre pessoas (tirando o Geeks and Chicks). Lost é sobre mistério. FODA foi ver um monstro matando o piloto; Locke andando; um urso polar no meio do mato; um avião cheio de drogas; outros sobrevivente na calda; Os Outros; o lance com mulheres grávidas; os vídeos da Dharma; a porra dos números; brasileiros no gelo; “We have to go back!”. Tira isso e seria um seriado sobre escotismo.
A habilidade pra colocar até o fã mais nerd de cabeça pra baixo foi o que fez de Lost esse CULTO. Infelizmente na sexta temporada o nível de ansiedade da tchurma era tão absurdo que a gente já sabia o que ia acontecer antes de ver o episódio. E, ao vê-lo, decepção inevitável. Qualquer teoria dos fãs era mais ducaralho que essas respostas oficiais. Meu polegar passeou pelo FF do controle remoto algumas vezes. Mas não é hora de apertar o botão. É hora de esperar a contagem terminar pra ver o que vai acontecer. Apertem os cintos.
* Marcos Piangers manda no Espelunca.
11 Pontos para desconstruir LOST
(Ou como não falar do assunto proposto para apontar caminhos em termos nativos para a criação/destruição).
O Matias, esse sim experto das teorias cultura pop, me pediu um texto sobre o Lost. Tentei ser o homem dos 20 mil caracteres para jogar à altura do patrono, mas aqui é mais pá-pum, falta fôlego e dedo indicador para digitar. Assim, vai um texto com gosto de convite para conversa de nerds obsessivos e parcamente ilustrados e deformados.
Saí confuso depois do penúltimo episódio. Mas adianto: o único personagem “forte” pra valer nessa brincadeira toda depois de tanto enrola-desenrola é o Desmond Hume! Não vou arriscar futurologia – por mais óbvio que aparentemente pareça o fim da série –, porque acho desnecesário.
Resolvi prestar homenagem ao falecido e superlativo Ricardo Rosas, criador do portal rizoma.net – que, com certeza, estaria curtindo muito essa farra toda de 6 anos de duração e rivalizaria com o Matias nas observações sobre essa série fenômeno.
1. Lost in The Supermarket – no tiroteio das referências, essa música do The Clash serve como balizador da ideologia/projeto/conceito da série. E, ironia das ironias, reverbera novamente o filho de diplomata: o futuro não está escrito. Evoé Joe Strummer!
2. Lost = Charles Dickens. Sentimentalista e melodramática, jogos de moralidade. Inglaterra chega aos Estados unidos moderno – a crítica social e de costumes para a sarjeta. Da era vitoriana para o fundamentalismo cristão pós-moderno. Linhagem enviesada, linhagem enfraquecida. Muito a que se observar. A equação entre Orwell e Alan Moore, de Revolução dos Bichos à V de Vingança, linhagem coerente e sintomática de nosso tempo. Política. Ah, a Inglaterra. Soprano e Crime e Castigo. Bernard Shaw e Monty Python. Mark Twain e David Chapelle. Lost consolida e/ou encerra o período áureo das grandes narrativas em séries/folhetins teledramatúrgicos.
2. Nada é sagrado, tudo é permitido. Sincretismo religioso careta – nada que assuste a nós, brasileiros. Nos bastidores, o zeitgeist da cruza entre estadunidenses democratas, liberais, e judeus expatriados do grande capital do enterteinment. Nunca a religião se prestou tanto a ficção sem potência alguma.
3. Assim, se a religião foi o ópio das massas, hoje nosso ópio realmente está na TV – sem medo de parecer retórica esquerdista circa 1960. Medo e delírio. A banalização do bem e do mal – ou a elasticidade desses onceitos. Viva o ópio, viva o torpor. A religião para “religarmos” a TV.
4. a síntese máxima da conjunção do melhor que a literatura especulativa produziu (Fantasma de Lee Falk/HQ Adulta pós Gaiman-Moore-Morrison aportarem na Amérikkka/Hollywood dos filmes em série) – deslumbre com as possibilidades cênicas do capitalismo pós-fordista/limitações estruturais e/ou estruturantes, a ficção pós-moderna em seu ápice: constrói-se uma fortuna narrativa exemplar sem nenhum poder constituinte.
5. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica ad exaustão. Arte/mercadoria. Walter Benjamin rolando no túmulo. Os donos da série em orgias homéricas em mansões de L.A, curtição no Havaí. Espectadores ansiosos – a ansiedade alimentada pela indústria farmacêutica chega à TV Paga. Mal aí, Escola de Frankfurt: alienação wins!
6. Ainda em termos pós-modernos: o revés da ideia multitudinária ainda que plena em LOST – o revés da própria teoria ímplicita. A ilha como o Leviatã hobbessiano. Sawyer e Ana Lucia, Hugo e Libby, Sayid e a loira. Descontração no meio do pesadelo. A resolução pouco importa. Locke – vejam bem, Locke! – mata as possibilidades sociológicas radicais do texto. Logo, Bakunin é um personagem do quarto escalão com poucos recursos cênicos. O inconsciente estadunidense – essa besta com bombas atômicas comandando sinapses e o Apocalipse. Lost poderia ser a encenação do apocalipse bíblico. Não será.
7. Encruzilhadas do Labirinto. Cá entre nós: vale a pena pinçar cada uma das armadilhas em exercício mental botequeiro? Lost prova a descontinuidade do raciocínio e da historicidade como um exercício inevitável para o homem médio. Deixa Lost me levar, lost leva eu…
8. Ficção científica e a ideia de não estarmos sozinhos no universo. Bullshit. Mais um mote para a lata de lixo da história. O estranho em nós. Um, nenhum, cem mil. Personagens lineares: Jack e Hugo. A Amérikka profunda e débil, flácida em sua estupidez. Sedutora e engraçada, companheira, ao mesmo passo. O sonho americano – aqui cada vez mais tedioso e lento e contínuo como um elefante – em chave maior.
6. Seis anos e alguns estudos de caso da moralidade estadunidense – infelizmente – implícita. Pretos amarelos e terceiro mundistas explodidos, soterrados, afogados. Mortes violentas. Mesmo o consenso hollywoodiano democrata e o liberalismo judaico ressoando em cada episódio. Fim trágico do multicultarismo como promessa de um mundo globalizado.
7. o mundo não suporta/quer/demanda grandes narrativas estruturantes – foda-se Balzac e Proust e cavalgando alucinadamente da outra ponta mas em direção convergente, o Pynchon também – o que se espera/suporta/necessita-se são grandes narrativas não-constituintes. Será uma grande biblioteca de Alexandria de ponta cabeça, desorganizada, um remédio consentido entre as partes para finalmente enterrarmos a história, pra aliviar nossas dores?
8. Lost como cume de uma grande espiral de um gênero que se pretende como o “das ideias” em nosso tempo, a ficção especulativa, e mais centralmente a ficção científica, devidamente dopado e sintetizado ao DNA de uma cultura viciada e analgésicos e aliviadores de consciência – do Prozac aos construtores de consenso manufaturado. Transcender essa espiral, assim espero, somente com as surpresas dos samurais oriundos do Oriente profundo – para vingar os amarelos, negros, terceiro mundistas e demais párias devidamente jogados para debaixo do tapete da série para que soçobre um heroi bundinha tipicamente americano (eleja-se do caipira racista Elvis Presley, ao Ciclope dos X-men ao sem sal emolóide Jack Sheppard de LOST) que diz muito sobre o anima de um império decadente. Nem Obama nem Mao Tsé Tung. A devir, se ele guarda algo de grandioso para nosotros, terá mais que ver com uma narrativa Luther Blissetiana.
9.O caos reina. A cultura pop ganhando vulto de alma popular.
10. Diversão descompromissada? Jamais, Siegel e Shuster, Crumb e Shelton, irmãos Wachowski, irmãos Coen, irmãos Marx, Moore e Morrison, Pelé e Coutinho, Maradona e Careca, descontração e sedução de inocentes.
11. Inocentes? Ninguém é inocente, diria Sayid Jarrar, o personagem de onde começaria uma narrativa a moda do Brasil pós-Lula – o meu herói da série. Viva Lost!
P.S: um comentário ingênuo e objetivo: no meio da última temporada me sentia enganado, mas acabarei no domingo plenamente recompensado.
* Arthur Dantas é o Velot Wamba. Ou é o contrário?
Lost é um fenômeno cultural, não apenas uma série de TV. A narrativa cortada, os desdobramentos online e principalmente a maneira com que a estratégia do mistério foi capaz de engajar uma audiência global e simultânea é um marco. Se você não é fã da série e não aguenta mais esse assunto, prepare-se: é um acontecimento que será estudado e analisado por muito tempo ainda. É exatamente por isso que acompanhar a derradeira temporada tornou-se obrigatória não apenas para os maníacos pela ilha, mas por qualquer um com o mínimo de interesse nas muitas áreas do entretenimento.
Foi exatamente essa última porta que me trouxe ao último capítulo nesse domingo. Tendo acompanhado boa parte da primeira temporada e desistido de Lost por absoluta falta de paciência para ocupar a cabeça tentando desvendar a intrincada trama. Escaldado com a frustração da conclusão da trilogia Matrix, preferi deixar passar. Porém, antes da ducha de água fria, naqueles seis meses entre Matrix Reloaded e Matrix Revolutions qualquer encerramento da saga de Neo era possível. Em meio as intermináveis discussões sobre o que poderia acontecer, uma única certeza resistia: após o lançamento do terceiro filme provavelmente ninguém viveria esse período de especulações. A resposta estaria, para sempre, a um clique de distância.
Bombardeado pela apreensão dos fãs de Lost antes do início da sexta temporada, percebi que algo parecido estava acontecendo. Com a diferença de que era algo com alcance ainda maior, afinal Lost é um programa de TV. Se quisesse viver esse momento cultural histórico com o mínimo de envolvimento, incrementando a experiência social, a última chance era essa, nem que fosse entrando pela janela, através de resumos e mais resumos de cada uma das temporadas anteriores.
Seja como for, tornou-se impossível escapar do assunto, até quem não assistiu um episódio da série sabe um bocado sobre ela. Sugado pelos segredos da ilha, não demorou muito para entrar em rota de colisão com os fãs mais radicais. Um dia, ao fazer um comentário sobre a fotografia do episódio na noite anterior no Twitter (imaginando que se até eu já havia assistido, todos deveriam ter assistido também), falei mais do que devia e tive uma fatwa decretada em meu nome. Havia cometido o mais vil dos pecados, um spoiler, e questão de segundos estava chovendo xingamento para mim.
O ocorrido serviu para ilustrar como são delicados os tempos atuais em termos de informação. Ao mesmo tempo que os episódios são disponibilizados na rede menos de um hora após serem exibidos nos EUA, as pessoas continuam tendo cada uma o seu tempo para assistir. Tem os apressados que correm pra ver, tem gente que espera até final de semana, tem gente que espera acumular para assistir vários episódios em sequência. A mudança na distribuição do conteúdo interefere inclusive na maneira como algo tão banal quanto um programa de TV é conversado nas ruas. O fato de Lost, tão dependente da expectativa, ter conseguido prender atenção de milhões de pessoas nessas circunstâncias é uma vitória por si só.
Nesse domingo a série chega ao fim e estaremos todos finalmente livres para falar o quanto quiser sobre Lost e finalmente poder discutir o final dessa história. Isso é, se as respostas vierem. O que aliás, pouco importa e pouca gente quer. O segredo da longevidade de Lost promete mesmo ser o eterno mistério.
* Bruno Natal foi quem teve a idéia dOEsquema.
No último Encontro Estadão & Cultura, evento que ajudei a bolar no meu trabalho oficial como editor do Link, me vi mediando um papo com o Flavio Moura da Flip e o Samuel Titan do Instituto Moreira Salles. O tema à mesa era literatura em tempos digitais e pegávamos notícias e números sobre Amazon, Apple e Google para ampliar os rumos da experiência da leitura para além do papel. Logo instaurou-se um consenso de que o digital ainda engatinhava, mais deslumbrado com as possibilidades multimídia do que efetivamente usando-as de forma criativa, enquanto a narrativa escrita, textual, em que o autor tira a cabeça do leitor para dançar, fica cada vez mais reservada ao livro de papel, cujas melhores qualidades são exibidas apenas como metáfora nos dispositivos digitais de leitura.
Fala o Flávio (aos 2m25 no vídeo acima):
“Confesso que não tive nenhuma experiência estimulante e também não sou dos mais interessados, isso tem um lado muito daquele sujeito que gostava de jogar RPG, sabe aquele tipo que vai por essa linha? Por enquanto sou um pouco cético sobre essa possibilidade de você ter um livro que tem um vídeo ou um áudio esquisito do autor.
Acho que isso tudo tende a ser ruído na experiência de leitura. Pode ser uma postura conservadora. Mas você pega um autor super consagrado recentemente, esse alemão Sebald. Alguns livros dele têm imagens, fotos. Ele tem um tom um pouco autobiográfico, ensaístico, e à certa medida da narrativa você vê algumas fotos, geralmente preto e branco, embaçadas, e você acha que elas vão esclarecer alguma coisa da narrativa, mas na verdade elas deixam as coisas mais turvas, tornam o entendimento muito mais embaçado, complicam um pouco o que deveria ser uma tarefa da fotografia, elas não estão ali para ilustrar nada, elas estão ali pra lhe lembrar o tempo inteiro que você está num jogo entre verdade e ficção e que isso é o poder literário desse livro.
De certa medida é como se fosse um hipotexto em vez de um hipertexto, que é o negócio clássico da internet. Isso eu acho uma coisa interessante e extremamente literária, se houver gente capaz de pensar coisas nessa direção se valendo dessas novas possibilidades tecnológicas, eu acho maravilhoso. Agora só colocar uma entrevista com o autor no fim do e-book ou colocar um videozinho com um filme que remete àquele livro ou coisas meramente ilustrativas… Isso não me parece muito interessante. Só diz contra a experiência de leitura como uma coisa pessoal e que exija uma certa concentração e uma certa relação com seu tempo que é cada vez mais rara, que é poder se retirar dessa confusão.”
Samuel, do outro lado (aos 4m55 do mesmo vídeo), concordava:
“O Flávio tocou no ponto central. Nós estamos embarcando muito rapidamente e ingenuamente na idéia de que tudo tem que ser explicado, acessível, digerível, os enigmas têm de ser solucionados o mais rápidamente possível, quando qualquer leitor de literatura sabe que a experiência de leitura vai na contramão disso. Muito da experiência de ler um romance, uma peça, seja o que for, está em se deixar capturar pelo enigma. E nesse sentido a gente fica louvando as possibilidades de explicação, de acessibilidade, de resolução de problemas do livro digital como se essa fosse a questão central da leitura ou de qualquer leitor de literatura que de fato se entrega àquela experiência específica. Se você não está a fim dessa experiência, então vamos parar de falar de e-books e vamos falar de qualquer coisa, mas não vamos falar de leitura. E não que eu seja cético, é que eu acho que a questão está mal posta. Não é por aí que nós vamos tornar a leitura mais intensa ou mais produtiva ou mais interessante. As outras não ficarão mais interessantes porque basta eu clicar aqui ou apertar ali para que desta obra eu passe pro dicionário, pro site, pra entrevista e assim por diante. Então, acho que, pro domínio da literatura, não acho que há nada de muito interessante já em curso. E eu não consigo imaginar, dado esse caráter de claro enigma, pra citar o Drummond, que talvez esteja no coração da literatura, eu não sei que tipo de aporte que o livro digital poderia trazer.
Parece que uma nova era se abriu com a chegada na cena do Kindle, do iPad e do Sony e-reader e assim por diante. Mas se a gente voltar um pouquinho, qual é o prólogo, qual é o capítulo imediatamente anterior desse momento que a gente vem vivendo? E a gente pode tentar imaginar quais são os vários vetores por trás dessa transformação que a gente tá vivendo agora. Há muito tempo, a comunicação e a produção científica, a troca de idéias na comunidade científica vem se fazendo não só na forma impressa, mas na forma de documento digital. O PDF, que ainda tem esse aspecto simpático, que pode ser aberto em qualquer em qualquer computador, não está preso a esta loja ou àquela marca, se transforma no veículo universal da comunicação acadêmica. Se eu publico um artigo numa revista tal, em vez de mandar pro Flávio o número da revista porque provavelmente é muito caro e toma muito tempo até chegar à caixa postal dele, eu mando em formato de PDF. E ele faz o mesmo com as coisas que publica. Nas ciências naturais, isso é vertiginoso. Os físicos trocam idéias via PDF há muito tempo, trabalhos, papers. O paper científico só se chama papel no nome, porque há muito tempo ele é um veículo digital.
Corta pra sábado, dez de outubro do ano passado, num saguão de um hotel com vista pro Times Square, em Nova York, eu perguntava pro Clay Shirky:
Dá para comparar as mudanças que vemos hoje com alguma outra mudança histórica?
Sim, com a invenção da cultura impressa, outro período em que o enorme acesso à informação mudou tudo. E quando ela apareceu, havia o temor de que ela centralizaria a cultura. A nova tecnologia permitiria que todos pudessem ter acesso a livros, mas sempre aos mesmos títulos, e a noção de cultura se tornaria mais massiva, ainda mais porque era controlada a pela Igreja Católica. O que aconteceu foi o contrário – e até hoje eu fico impressionado como a Elizabeth Einseinstein fala bem sobre essas mudanças sociais em seu livro A Revolução da Cultura Impressa (Ática, 1998).
Em vez de um mesmo livro ser lido por milhares de pessoas, uma pessoa podia ler milhares de livros. E o choque da diversidade – de formas de pensar e viver – virou o mundo de cabeça para baixo. A internet é uma ferramenta para acessar informação, isso é óbvio, mas é uma ferramenta muito mais importante para conectar uns aos outros. E a variedade de formas de pensar e viver está apenas começando a crescer porque, de repente, a idéia de nicho – você achava que era a única pessoa do mundo que gostava de determinada coisa ou que fazia uma atividade de um jeito diferente – pode ser expressa socialmente. Antes da consolidação da internet assistimos a diferentes movimentos – como a questão ambiental, a luta pelos direitos civis ou os direitos do consumidor – que começaram localizados e se tornaram globais.Essa mudança poderia acontecer sem a invenção da internet?
Perceba o seguinte: embora a revolução científica não fosse possível sem a invenção da cultura impressa, ela não foi a causa da revolução científica. O que vemos com a internet é a ascensão de uma plataforma que permite o pensamento global numa época de problemas de escala global. Esse foi o ponto da revolução científica: não foi que os cientistas descobriram que havia a mídia impressa em que eles poderiam publicar suas descobertas, mas o fato de eles perceberem que precisavam de uma cultura em que uns lessem o que os outros estavam fazendo e em que pudessem se desafiar uns aos outros. O foco agora deve ir para essas normas culturais que podem mudar a forma como usamos a internet.
Volta pra Livraria Cultura, dia 14 de maio de 2010, em São Paulo, do lado da Livraria Cultura. Com a palavra, Samuel (aos 7m01):
Todos concordamos que estamos num momento de limiar. E estamos nos primeiros capítulos do que vem pela frente. E a melhor aposta é numa fecundação dos vários veículos, das várias linguagens, que estão à nossa disposição. O mais tedioso num certo tipo de discussão sobre o digital que se alastrou pela imprensa e pela web nos últimos meses é que agora todos somos digitais e isso é uma espécie de tabula rasa, que todos nós devemos passar por cima todas nossas experiências, para começar como que do zero. Acho uma versão pobre dos acontecimentos e uma versão pobre do digital. Acho que o mais interessante do digital, para quem vem vivendo isso nos últimos quinze anos, é o tipo de possibilidade e de intercâmbio que ele abre com outras formas, com outras linguagens, com outras plataformas. É esse âmbito que promete coisas mais interessantes.
Daqui a pouco começa The End.
* Eu não vou me apresentar, né… Já foi esquisito dar esse título e fora que eu acho que quando a pessoa começa a se referir na terceira pessoa é o primeiro sintoma evidente de maluquice. Quem quiser saber mais sobre o meu vício em Lost leia a entrevista que eu dei pro Vírgula. Quem quiser ler outro texto que escrevi sobre a série, tente minha coluna de hoje no Caderno 2. O texto sobre o final de Lost vai demorar um pouco pra aparecer, semana que vem é quase uma semana de folga. Mas o último Comentando Lost vai ao ar amanhã, junto com a edição do Link da semana, etc. O Sujo segue indo, mas em ritmo de dub.