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Vintage 80s

Falando no Chromeo, no papo que tive com eles, Dave citou como o título do próximo disco do Chromeo reforça a identidade musical que escolheram para eles mesmos – de celebrar os anos 80 sem a ironia dos anos 90, festejando aquele princípio de sofisticação artificial que ensinou uma geração inteira a ser adulta.

O disco chama-se Business Casual e é o traje executivo casual que passou a dominar os anos 80 à medida em que a geração yuppie ganhava dinheiro e, antes dos trinta, brincava de ser milionário.

Isso impregnou-se no imaginário de tal forma e criou uma cultura sintética, eletrônica, clean e infame.

É o oposto da estética trash 80s, um conceito que tem a ver com uma lógica oitentista que eu e o Luciano aplicamos à Gente Bonita desde o início. Brincávamos que iríamos comprar um Gol GTi só para chegar nas festas. Eu até já tinha falado disso no ano passado, citando o Cavaleiro das Trevas do Frank Miller com as trilhas sonoras dos filmes do John Carpenter (feitas por ele mesmo).

Dave disse que essa estética guia o Chromeo desde o início – a começar pelo mashup de Chrome com Romeo que batiza a dupla – e que os dois sempre colocaram essa dicotomia entre o “business” e o “casual” como referência sonora da banda, citando o personagem de Don Johnson no seriado Miami Vice como ícone do que tipo de som que eles querem ter.

Eu mesmo me amarro nesse tipo de som, esse soul branco meio bregoso, de baixo emborrachado, bateria cheia de agudos, solos de sax e esse look de playboy desenhado pelo Angeli. Era o que tocava no rádio quando eu era moleque, culpe a geração, mas não me envergonho de gostar disso não…

Música, rabino!

Mas vamos parar de falar de comércio e política – e voltar a falar de música.

VENDIDO!

Reforço aqui: não há problema algum se um artista resolve apoiar um candidato, fazer um jingle, vir a público endossar um produto. Mas há como fazer isso sem precisar apelar, sem abrir mão das características que fazem do artista ser quem ele é. Exemplo brasileiro clássico: os Mutantes. Vejam os comerciais que eles fizeram para a Shell.

A música “Algo Mais”, especificamente, é um jingle. Veja as propagandas nos jornais e páginas de revistas que saíam, com os Mutantes, na época, no vídeo abaixo:

E a letra:

Olha meu irmão
Vamos passear
Vamos voar
Tira a partida
Acelera a vida
Vamos amar
Ande depressa
A vida tem algo
Mais pra lhe dar
Olha meu irmão
Vamos passear
Vamos voar
Vida no tanque
Subiu no sangue
Vida no ar
Ande depressa
A vida tem algo
Mais para lhe dar
Giro aflito
Beijo e grito
Algo mais
Algo mais

Não bastassem todas as metáforas para carro e velocidade (“vida no tanque”, “ande depressa”, “dê a partida / acelere a vida”), a música era batizada simplesmente com o slogan da Shell na época, “algo mais no seu tanque”. Mas no meio disso tudo, há o piano hillbilly improvisado do Arnaldo, um arranjo que, ironicamente, não sai do lugar, e a paisagem literária dos Mutantes – a imagem quebrada do “giro aflito, beijo e grito” remete à ficção científica B da banda pouco antes de entrar num refrão monocórdico, transformando slogan e título de música numa onomatopéia visual do seriado do Batman. E, além de tudo, a música está presente no segundo disco da banda, que não a encara como uma obra à parte, mas justo o contrário.

Na quarta passada, a dupla canadense Chromeo esteve em São Paulo para participar de um evento de lançamento de um produto e pude entrevistá-los numa mesa redonda com a Lalai, a Ana Laura, a Cristel e o Alex. O magrelo Dave 1, a metade intelectual da dupla (o cara é professor de literatura francesa em Columbia), falou sobre o modelo de negócios que adotaram para não se vender completamente para as gravadoras. E citaram o clipe de “Night by Night”, que é um comercial que fizeram para dar uma música de graça para o público, como exemplo de alternativa à venda de CDs, distribuindo música de graça e ganhando dinheiro de outra forma. Mais desse papo na minha coluna de domingo no Caderno 2 do Estadão.