Trabalho Sujo - Home

Impressão digital #0039: O ano de Zuckerberg

E na minha coluna de ontem no Caderno 2, falei sobre o ano de Mark Zuckerberg.

O ano de Zuckerberg
O pai do “Feice” é o nome de 2010

2010 foi o ano do Facebook. Não apenas dele, claro: na retrospectiva que estamos fazendo em três partes no caderno Link (a terceira parte sai na edição de amanhã), escolhemos, além da rede social, os aplicativos e geolocalização como três dos principais temas do ano. Mas o Facebook foi além do universo digital e ganhou o planeta. Não foi à toa que seu criador, Mark Zuckerberg, foi eleito a Personalidade do Ano segundo a revista Time.

Exagero? Vejamos: um universitário cria um site que conecta estudantes de Harvard. O site cresce e começa a permitir estudantes de outras universidades americanas. Cresce ainda mais e abre para o público em geral. E deixa de ser só um concorrente do Orkut, graças a uma série de programas e ferramentas (os tais aplicativos) que o transformam em um lugar em que é possível jogar games, fazer compras, agendar eventos, discutir em grupo, enviar mensagens, armazenar vídeos, fotos e se informar. Mais do que um simples site de relacionamento, o Facebook aos pouco se tornou um ambiente virtual facilmente familiarizável a todos que usam computador e internet atualmente.

E em 2010 foi quase todo mundo mesmo: o site passou o meio bilhão de cadastrados; criou o botão “Curtir”, que possibilitou a integração da rede social com todos os outros sites do mundo; abriu escritórios em ainda mais países; passou o Orkut na Índia, único país, além do Brasil, em que a rede social do Google dominava.

No Brasil, ele só faz cócegas no Orkut: são 8 milhões de usuários do Facebook contra 43 milhões de cidadãos da rede do Google. Mas já dá para perceber os sinais de seu avanço – quem está no site há tempos já deve ter percebido que, de uns meses para cá, os novos cadastrados na rede social não são mais jovens adultos, gente do meio digital ou de comunicação. São parentes mais velhos, vizinhos, conhecidos, gente que até outro dia se conformava apenas com o Orkut. E arrumaram um apelido específico para o site, chamando-o apenas de “feice”, abrasileiramento que colocamos na capa da primeira edição de retrospectiva do ano, há duas semanas.

O Facebook pode se tornar a grande rede social do mundo de fato – alguns países (como Rússia e China) nem sequer começaram a ser “colonizados” pelo site. Se isso acontecer, Zuckerberg substituirá Bill Gates. O pai da Microsoft, nos anos 80, foi um dos inventores do computador pessoal e criou o sistema operacional Windows, um ambiente virtual que ainda domina, 30 anos depois, a paisagem digital.

O Facebook pode virar uma espécie de Windows da web – e esta é a ambição de Zuckerberg: fazer com que todos naveguem na internet sem precisar sair de seus domínios.

Ajuda também o fato do criador do Facebook passar a ser uma figura pública, principalmente após o lançamento do filme A Rede Social, que já está recolhendo prêmios pelos EUA e que tem grandes chances de se tornar o principal concorrente ao Oscar do ano que vem.

Não que isso afete os planos de dominação de Mark. Mas graças ao filme, seu rosto na capa da Time não é mais apenas o de um certo geek desconhecido.

Link 2010

Fiz um breve balanço do que rolou no ano, só que do ponto de vista de quem acompanha o dia a dia do caderno. Resumo rápido: foi altos.

Link 2010
Ano intenso – e não só por causa do mundo digital. Em 2010, o Link cresceu, saiu do papel e espalhou-se pela internet, além de reunir nomes de peso e novos talentos por suas páginas

iPad, Kinect, Marco Civil da Internet, política 2.0, direitos autorais, smartphones e redes sociais – temas que foram assunto em 2010 e ocuparam as cabeças de todos os que fizeram o Link neste ano. Mas os últimos doze meses foram intensos nos bastidores da notícia, como você pode ver nesta página.

Ele começou logo, quando, em janeiro, mudamos a cara e a alma do nosso site – além do novo layout, a versão online e diária do Link hoje funciona na plataforma WordPress. Surgiram novos blogs (em 2010, só havia o do repórter de Renato Cruz), totalizando 13 ao fim do ano – mais de um blog novo por mês. O caderno também saiu do papel em duas oportunidades: uma vez em três dimensões, no primeiro suplemento totalmente em 3D produzido no Brasil, e outra na primeira edição da série Encontros Estadão & Cultura.

Mas foi no dia a dia na redação do jornal que a intensidade fluía solta, com uma equipe apaixonada pelo assunto e disposta a fazer um veículo em papel (mesmo que falando digital) ser tão vivo e ativo quanto uma publicação online. Tenho orgulho de chefiar um time com pessoas tão queridas e competentes. E em 2011 tem mais! Boas festas e até lá!

Vida Fodona #241: Captain Beefheart (1941-2010)

Um réquiem para um gênio incompreendido.

Captain Beefheart & His Magic Band – “Sure ‘Nuff ‘n Yes I Do”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Woe-is-uh-Me-Bop”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Dachau Blues”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Safe as Milk”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Abba Zabba”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Big Eyed Beans from Venus”
Captain Beefheart & His Magic Band – “I’m Gonna Booglarize You Baby”
Captain Beefheart & His Magic Band – “The Smithsonian Institute Blues (or the Big Dig)”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Tropical Hot Dog Night”
Captain Beefheart & His Magic Band – “My Human Gets Me Blues (Instrumental)”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Trust Us”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Ella Guru”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Electricity”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Flash Gordon’s Ape”
Captain Beefheart & His Magic Band – “She’s Too Much for My Mirror (Instrumental)”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Nowadays a Woman’s Gotta Hit a Man”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Zig Zag Wanderer”
Captain Beefheart & His Magic Band – “Grow Fins”

Straight ahead.

Beefheart – e outros – sobre Beefheart

“Ouçam, quietos, prestem atenção à música deste homem. Por que senão, poderão estar perdendo algo importante”
Frank Zappa

“Eu posso estar com fome, mas com certeza não sou esquisito”
Don Van Vliet

“A densidade convulsiva de ‘Flash Gordon’s Ape’, em Lick My Decals Off, Baby literalmente me assustava – até que eu fiz a conexão com o processo de compreensão e libertação codificados no caos magnífico do disco Free Jazz de Ornette Coleman e do solo de guitarra de Lou Reed em ‘I Heard Her Call My Name'”
David Frickle, editor da revista Rolling Stone

“Eu faço discos pra mim. Me satisfaz o fato que as pessoas que ficam chateadas me ouvindo gostam da música que me chateia”
Don Van Vliet

“Eu levei o Trout Mask Replica pra casa e coloquei pra ouvir. Era a pior coisa que eu já tinha ouvido na vida. Então pensei: ‘Frank Zappa produziu isso, vou ouvir de novo’. Toquei de novo e pensei: ‘Soa horrível, mas esta é a intenção deles’. Pela terceira ou quarta audição, ele começou a crescer em mim. Da quinta ou sexta vez eu já estava apaixonado. Pela sétima ou oitava vez eu o achava melhor álbum jamais feito. Ainda acho”
Matt Groening, criador dos Simpsons

“As pessoas gostam de músicas afinadas porque ouviram-na afinada o tempo todo. Eu quero romper com isso”
Don Van Vliet

“Eu não vejo como você pode ouvir este disco (Trout Mask Replica) e não sair com a sensação de ter sido mudado, se você deixar. Não dá pra entender – tentar compreender a música de Don é como tentar compreender a coreografia de uma abelha. Mas está lá para se admirar e pensar e esperançosamente levar um pouco daquela luz consigo”
Tom Waits

“Um pouco de paranóia funciona como bom propulsor”
Don Van Vliet

Todo Captain Beefheart


Safe as Milk (Buddah, 1967)
A estréia em álbum do grupo traz mais uma banda branca de rhythm’n’blues cedendo às extravagâncias da psicodelia. A encarnação mais pesada do grupo alça vôos consideráveis em faixas como “Electricity”, “Abba Zabba”, “Zig Zag Wanderer” e “Call On Me”, mas era apenas o começo. É a única aparição oficial de Ry Cooder como guitarrista do grupo.


Strictly Personal (Blue Thumb, 1968)
Renegado pelos músicos originais, este disco marca a transição fundamental que transforma a Magic Band para sempre. Guiado pelo free jazz, ele faz com que todos os músicos sigam seus instintos (a regra subliminar da narcótica “Trust Us”) enquanto Beefheart transforma seu surrealismo beat num blues de um universo paralelo. É a primeira vez que um personagem básico do novo som da banda aparece em público: o baterista John “Drumbo” French.


Trout Mask Replica (Straight, 1970)
“Composto em oito horas e meia”, como reza a lenda, Trout Mask Replica é o resultado de um ano inteiro vivendo na lendária casa de Entrada Drive, em Los Angeles, e o começo da estranha química e da tensão negativa imposta por Vliet aos outros músicos. Vivendo a pão e água, eles passavam tardes e noites inteiras ensaiando sem parar. Drumbo saiu antes do disco ser lançado e seu nome foi cortado dos créditos, mas sem ele (e a guitarra de Zoot Hoot Rollo e o baixo de Rockette Morton), o disco seria completamente diferente.


Lick My Decals Off, Baby (Straight, 1970)
Com Ed Marimba no lugar de Antennae Jimmy Semens, a mesma banda de Trout Mask Replica embala mais um álbum duplo cheio de desafios à compreensão mediana dos limites da música. Faixas como “The Smithsonian Institute Blues (The Big Dig)”, a cubista “Woe-Is-Uh-Me-Bop”, “Flash Gordon’s Ape” e “Doctor Dark” nos levam aos mesmos confins da criatividade do disco anterior. O disco marca o envolvimento de Don com sua esposa Janet (que dura até hoje), o que pode ter contribuído para o tema ser basicamente sexo.


Mirror Man (Buddah, 1971)
Strictly Personal originalmente seria um álbum duplo e se chamaria It Comes to You in a Plain Brown Wrapper (referência ao envelope de papelão que acabou se tornando a capa de SP). Mirror Man é a parte gravada do que seria o segundo disco do original de 68, caso a gravadora não tivesse pedido para reduzir os custos. O disco é composto por longas faixas com poucos acordes, uma espécie de Velvet Underground californiano tocando um blues de Muddy Waters no lugar de “Sister Ray”. Lançado em 1971 devido ao sucesso cult experimentado pelo grupo, que foi até capa da Rolling Stone no ano anterior.


The Spotlight Kid (Reprise, 1972)
Novamente com um segundo guitarrista (no caso Winged Eel Fingerling), cujo estilo contrastava com o de Zoot Horn Rollo. O choque entre as duas guitarras torna-se semelhante ao do bateria com o baixo e a presença da marimba é tão hipnótica quanto a do vocal inspiradíssimo do líder do grupo. Mais blues que os discos anteriores, The Spotlight Kid é uma obra-prima menor, cheia de grandes momentos, como a assustadora “Grow Fins”.


The Clear Spot (Reprise, 1972)
Começa a pior fase do grupo, por influência do empresário Andy DiMartino e do produtor Ted Templeman (que já havia trabalhado com Van Morrison e os Doobie Brothers). Mesmo os bons momentos – como a memorável “Big Eyed Beans from Venus” – não conseguem evitar fiascos como “Too Much Time”” e My Head is My Only House Until It Rains”, os momentos mais comerciais (no mau sentido) da história da banda.


Unconditionally Guaranteed (Mercury, 1974) / Bluejeans & Moonbeans (Mercury, 1974)
Os dois discos da Mercury são tidos como a pior fase da carreira de Beefheart, iludido com a possibilidade de sucesso comercial. As poucas músicas que se salvam desta época não dariam um EP decente, sequer.


Shiny Beast (Bat Chain Puller) (Warner, 1978)
Novamente sombrio e caótico, mas sem perder os vínculos com estruturas quebradas de ritmo e soluções musicais improváveis, o disco traz Van Vliet mais complacente com os novos músicos que, talvez por isso mesmo, soem tão à vontade através das canções. Além da faixa título, um dos grandes momentos é “Tropical Hot-Dog Night”, que traz o mágico casamento das marimbas de Art Tripp com o trombone baixo de Bruce Fowler.


Doc at the Radar Station (Virgin, 1980) / Ice Cream for the Crow (Virgin, 1982)
Don deixa-se influenciar pelo espírito jovem de seus novos músicos e volta à velha forma. Colhendo os frutos de seu legado em artistas tão diferentes quanto Sonic Youth, Devo e Pere Ubu, o velho Beefheart se aposenta após dois grandes discos, para apenas mostrar-nos o quanto era importante enquanto estava na ativa.

Captain Beefheart e além

Aproveitei o lançamento de duas coletâneas em 1999 pra contar a história do velho capricorniano. Na época ele já era inacessível, excêntrico, incomunicável e, dizia-se, talvez doente terminal. E agora aproveito sua passagem para lembrar daquela história. E era mais ou menos assim…

Muito além da música

Duas coletâneas – a antologia The Dust Blows Forward e a caixa Grow Fins: Rarities 1965-1982 – traçam a carreira errática de uma das bandas mais influentes da música popular moderna: Captain Beefheart & His Magic Band

A fronteira final da música talvez seja a base de sua atual sustentação. Uma série de códigos e regras que, seguidos à risca com a porção certa de criatividade e talento, podem nos proporcionar momentos de prazer e diversão inigualáveis. Mas poucos percebem que a técnica, ao contrário de uma ferramenta, pode ser uma barreira que limita a criatividade. Noções de ritmo, afinação, arranjo, harmonia e melodia restringem as possibilidades humanas de exercer sua própria individualidade através da música. É aí que entram Captain Beefheart & His Magic Band.

Relembrados através de dois lançamentos recentes (a coletânea The Dust Blows Forward, da gravadora Rhino, e a caixa Grow Fins: Rarities 1965-1982, da gravadora Revenant), o mutante grupo californiano chefiado pelo excêntrico Don Van Vliet, “o único que merece o título de gênio nesta história de rock’n’roll”, segundo o respeitável radialista inglês John Peel. Com as duas antologias (dupla e quíntupla, respectivamente), o bando de Beefheart ganha duas versões distintas: uma bela história oficial (reunindo os singles antes do primeiro disco, trechos de gravações com Frank Zappa e versões raras) e uma extensa análise audiovisual através dos bastidores da Magic Band, com um livro de 110 páginas escritas por uma das armas secretas do grupo, o baterista prodígio e multiinstrumentista John “Drumbo” French.

Don nasceu no dia 15 de janeiro de 1941, num subúrbio de Los Angeles. Desde pequeno já mostrava talento para a arte, quando impressionava parentes e professores (e, mais tarde, outros artistas) com suas pinturas e esculturas. Temerosos que o mundo da arte pudesse engolir seu filho (principalmente seu pai, Glenn, que pensava em “gay” sempre que ouvia falar em “arte”), o casal Vliet mudou-se com seu filho único – então com treze anos – para o interior da Califórnia, em uma cidade chamada Lancaster, no meio do deserto Mojave.

Em Lancaster, as coisas começariam a mudar. Primeiro foram os discos de blues descobertos pelo jovem Don (que começaria a assinar com o “Van” do meio – que não é de batismo – a partir dessa época). Como para parte de seus contemporâneos, o rock’n’roll foi só a porta de entrada para o mundo mágico do blues, com suas lendas urbanas e mitos modernos. Nomes como Muddy Waters, Sonny Boy Williamson, John Lee Hooker, Howlin’ Wolf, entre outros, passaram a fazer parte de uma galeria de super-heróis inatingíveis, e, como a maioria de seus pares, Vliet passou a tocar um instrumento, no caso a gaita.

Nesta mesma época conheceu Frank Zappa, que mais tarde abriria seu primeiro estúdio (o Estúdio Z) na minúscula cidade de Cucamonga, perto de Lancaster. No estúdio de Zappa, sessões de rock’n’roll, country, doo-wop e surf music se arrastavam enquanto o jovem proprietário e aprendiz de empresário tentava apurar sua veia pop produzindo singles. Nas horas vagas, o estúdio funcionava como laboratório para as idéias bizarras de Zappa, entre elas a trilha sonora para um filme imaginário chamado Captain Beefheart versus The Grunt People. O nome Captain Beefheart fora inventado por Zappa a partir de uma história contada por Don, de um tio seu, um velho major do exército, que gabava-se do tamanho de seu pau, comparando-o a um pedaço de carne do tamanho de um coração humano. Em pouco tempo, Zappa passaria a chamar Vliet de Captain Beefheart e o apelido pegou – Vliet então passou a inventar explicações ainda mais absurdas (mas menos constrangedoras) para falar de seu nome.

O estúdio Z também servia de sala de ensaio para algumas bandas amigas de Zappa e alguns músicos ficavam lá direto, tocando com todos que aparecessem. A partir daí começava a surgir a Magic Band. A base desta estava no grupo The Omens, um supergrupo de rhythm’n’blues com 11 integrantes. Beefheart juntava-se ao grupo de vez em quando, tocando gaita e cantando. Sua voz era seca e rasgada, lembrando os velhos discos de Howlin’ Wolf e ele não apenas tocava gaita bem como sabia várias músicas de cor, a ponto de inventar seus próprios blues na hora em que cantava. Ele ganhou o respeito do baixista Jerry Handley e do guitarrista Alex Snouffer. Em pouco tempo, Snouffer e Handley se juntariam ao guitarrista Doug Moon e ao baterista Paul Blakely (ou mesmo Frank Zappa e mais tarde Vic Mortensen) em jams que mostravam que algo novo poderia sair dali.

Mortensen sairia e Snouffer assumiria a bateria, deixando a segunda guitarra nas mãos de Richard Hepner. Com esta formação, conseguiram um contrato com a gravadora A&M, com quem gravaram o single Diddy Wah Diddy, em 1965, uma velha canção de John Lee Hooker. Uma jovem banda de rhythm’n’blues, a já batizada Magic Band destoava das outras de sua época pelo vocal envelhecido de Don e pelo peso ao vivo, responsável por bem sucedidos shows. Mas mesmo tendo caído no gosto de um dos DJs mais cultuados dos anos 60, Wolfman Jack, o primeiro single do grupo encontrou um pequeno obstáculo pela frente: uma banda chamada Remains havia gravado a mesma música do outro lado dos Estados Unidos e o sucesso das duas versões fez com que ambos grupos falhassem em alcançar o sucesso em todo país.

Ao mesmo tempo, o grupo começava a experimentar. Trocando a cerveja por maconha e LSD, o grupo mergulhou na psicodelia como a maioria das bandas de então. Mas foi motivo suficiente para que Beefheart aos poucos assumisse o controle do grupo, escolhendo as músicas e compondo novas letras. Cada vez mais influenciado pela poesia beatnik e pela conexão da psicodelia com o surrealismo, Don queria soltar as suas idéias musicais, cada vez mais influenciadas por jazzistas como Ornette Coleman, John Coltrane e Albert Ayler. Mesmo sem saber tocar nenhum instrumento, começava a ensinar (cantando e assobiando as partes) para seus músicos o que queria. Esta nova opção musical os tirou da A&M, que os achou muito “negativos”. Mas eles encontraram novo lar na gravadora Buddah, de Los Angeles.

Sem Hepner, a segunda guitarra foi assumida por Ry Cooder (que tocava num grupo de Lancaster chamado Rising Sons). Nesta época, um velho fã do grupo entrou na banda tocando bateria e a entrada de John French liberou Alex Snouffer de volta à guitarra. Mas o novo som que Beefheart vinha conduzindo na banda, assustou o guitarrista Doug Moon, que deixou a banda antes que ela gravasse Safe as Milk em 1967. Bem recebido pela crítica, o disco logo se tornaria comercial demais para o amálgama de free jazz e blues tradicional que a banda vinha conduzindo. Ry Cooder deixou o grupo e Jeff Cotton entrou em seu lugar e a banda cada vez mais se afundava na versão particular e libertária que Beefheart tinha para a música. Sua música interior não tinha barreiras e provava isso ao começar a trazer instrumentos de sopro para o ensaio, tocando-os sem nunca ter aprendido uma nota na vida. O caos desordenado propulsionado pela música de Don começava a infectar os antigos músicos, que deixaram a banda pelo mesmo motivo de Moon (não sem antes lançar o desconexo Striclty Personal). Assim, Handley saiu para a entrada de Mark Boston e Snouffer deu seu lugar para Bill Harkleroad.

Começa a grande metamorfose da banda. Todos se mudam para a mesma casa em Entrada Drive, no subúrbio de Woodland Hills, em Los Angeles, e passam a ensaiar continuamente, seguindo as instruções de Don. Sem conhecimento musical nenhum, Beefheart ensinava seus músicos as partes que queria ouvir e para isso faz com que cada músico aprenda após repetir por horas a mesma frase, sem com ele ao seu lado, assobiando o jeito certo. Isto gerava um nível de tensão que grudava na música, do mesmo jeito que a tristeza parecia sair do blues. A raiva com que os músicos tinham para contra a música tradicional era apimentada pela insistência insuportável de Vliet, que era visto pelos outros como um misto de maestro, guru e irmão mais velho. Respeitado e odiado, Beefheart ia aos ensaios só para dar palpites nas partes dos outros, passava a maior parte do tempo dormindo e ainda rebatizou os músicos com apelidos bizarros: Boston tornou-se Rockette Morton, Cotton era Antennae Jimmy Semens, French seria o Drumbo, Harkleroad tornaria-se Zoot Horn Rollo e o bicão Victor Hayden, The Mascara Snake. Era motivo de sobra para irritar a todos. Mas sempre que ele sugeria algo novo, os músicos – tomados por aquela tensão – respondiam com virulentas convulsões de ritmo, harmonia e melodia que se tornariam um dos mais ricos e subestimados álbuns de todos os tempos, Trout Mask Replica.

Lançado pelo selo de Frank Zappa na Reprise, Straight, o disco subvertia todas as noções de música tradicional conhecidas usando o rock’n’roll como base. Baixo e bateria travavam duelos constantes, preenchendo as lacunas deixadas pelos outros instrumentos com agressividade e ritmos atravessados. As guitarras zuniam frases que poderiam ser trechos de solo de blues, exercícios de atonalismo ou a simples repetição de notas desordenadas – muitas vezes as três coisas ao mesmo tempo. Por cima, Beefheart entoava seu canto primal, agressivo e multioitavado, em letras cujo nonsense parecia ter algum sentido, embora, como a música, indecifrável, amaldiçoado. Às primeiras audições, o disco afronta o bom gosto. Mas a intenção é justamente esta e logo ele está desafiando a sua lógica e lhe ensinando níveis de compreensão musical nunca alcançados antes na história da música popular moderna.

French (responsável com Harkleroad pela maioria das soluções para os problemas musicais sugeridos por Don) saiu da banda pouco antes do lançamento do disco e teve seu nome limado na capa. Em seu lugar, o músico erudito Art Tripp candidatou-se para a vaga. A aquisição de Tripp tinha como trunfo o fato do músico saber tocar teclados e instrumentos de percussão em geral e Don sugeriu que ele colocasse uma marimba (aquele parente caribenho do xilofone) na formação, tornando-se ele próprio Ed Marimba. Mas Drumbo voltou à banda no meio de 1970 e Ed ficou apenas no instrumento de seu sobrenome, que ganhou pontos com a saída de Jeff Cotton. Com a marimba fazendo as partes da segunda guitarra, gravaram Lick My Decals Off, Baby, o disco favorito do grupo e tão importante quanto Trout Mask Replica, cujo tema era basicamente sexo (“o sentido da vida”, segundo o dono da banda).

Contratados pela gravadora-mãe da Straight, a Reprise, o grupo grava dois discos quase seguidos e semelhantes, The Spotlight Kid e Clear Spot. Ambos discos foram rejeitados pelo conjunto por soarem muito blues, direção que a gravadora preferia que o grupo seguisse. Esta fase assiste a entrada de dois músicos da banda de Frank Zappa; o guitarrista Elliot Ingber, que torna-se Winged Eel Fingerling, e o baixista Roy Estrada, renomeado Orejón, além da volta de Alex Snouffer à terceira guitarra. A banda muda novamente de gravadora (indo para a inglesa Mercury) e lança outros discos sob a influência do empresário Andy DiMartino, que queria transformá-la numa banda comercial, Unconditially Guaranteed e Bluejeans & Moonbeans.

Insatisfeitos com a forma que Vliet vinha tocando a banda, a Magic Band deixou Beefheart sozinho às vésperas da turnê de lançamento de Unconditionally…. DiMartino juntou uma banda às pressas para acompanhá-lo, recrutando músicos de rock da noite de Los Angeles, sujeitos com calças jeans e jaquetas de couro, que não tinham a menor noção do que se passava na cabeça de Don. Esta versão da Magic Band entrou para a história corretamente como a Tragic Band. A antiga Magic Band lança alguns discos com o nome de Mallard (Harkleroad, Boston e Tripp, ao lado do vocalista Sam Galpin, um projeto paralelo que não deve nada aos bons momentos com o velho capitão.

O ano de 1975 assiste a reconciliação de Vliet com Frank Zappa, com quem havia brigado após sua saída da Straight. Conhecido pelos fãs de Zappa por seus vocais em uma de suas faixas mais conhecidas (Hot Rats, de 1971), Vliet torna-se membro honorário da banda do velho amigo, os Mothers of Invention, no disco One Size Fits All, e entra em turnê com o grupo em shows que mais tarde viriam ao público com o nome de Bongo Fury, creditado aos dois artistas. No mesmo ano, Don volta a reativar a Magic Band recrutando velhos comparsas (French e Ingber) e novos cúmplices, antigos fãs do trabalho do grupo: o percussionista Jimmy Carl Black (Indian Ink), o trombonista (que tocava as partes do baixo) Bruce “Fossil” Fowler e o guitarrista Greg Davidson (Ella Guru). Com esta formação, a Magic Band toca um lendário show no festival de Knebworth, na Inglaterra, sendo aclamada por mais de 25 mil pessoas, antes dos shows do Pink Floyd e da Steve Miller Band. O show tornou-se um dos mais conhecidos discos pirata da banda.

Em 1976, reúne uma nova banda, formada por jovens entusiasmados pela então explosão de possibilidades do punk rock. Além de Don e French, a nova Magic Band é formada pelos guitarristas Jeff Morris Tepper (White Jew) e Denny Walley (Walla Walla) e pelo tecladista John Thomas. Novamente, Frank Zappa surge na história de Beefheart, desta vez como produtor do disco Bat Chain Puller, um álbum abortado em cima da hora pelo próprio Zappa, que queria ter controle sobre as fitas master do disco (embora o próprio Frank afirmasse que não havia produzido o disco, que teria sido bancado – através de seu recém-demitido advogado, Herb Cohen – com os royalties dos discos de Zappa). Arquivado, o material do disco só veria a luz do dia oficialmente nos próximos três discos do grupo, embora a versão original seja outro conhecido pirata de Beefheart.

Bat Chain Puller se tornou o subtítulo do novo disco de Beefheart, Shiny Beast, que contou com uma nova Magic Band. Tanto a versão pirata como a oficial mostravam a banda expurgando os dias de Andy DiMartino com gosto, voltando às experimentações dos primeiros discos e indo além. Com o sangue novo de músicos como o baixista e tecladista Eric Drew Feldman (Black Jew Kitaboo), o baterista Robert Williams (Wait for Me), o guitarrista Richard Redus (Mercury Josef), Shiny Beast marca a volta de Beefheart aos bons tempos e a boa forma ainda lhe daria paciência e disposição para outros dois ótimos discos, Doc at the Radar Station (de 1980) e Ice Cream for the Crow (de 1982), ambos lançados pela Virgin. Passou a se dedicar à pintura e, devido a conselhos de gente do meio, largou a música para se dedicar exclusivamente às telas, terreno em que foi recebido com os mesmos elogios que tinha na música, tendo exposições freqüentes com seu nome. Nunca mais gravou nada e se recusa a dar entrevistas – principalmente se o assunto for música.

As duas compilações traçam com perfeição sua extravagante e criativa carreira. The Dust Blows Forward traz desde as faixas dos tempos da A&M (as ótimas Diddy Wah Diddy e Frying Pan) até trechos de Bongo Fury e da trilha sonora do filme Blue Collar, que Vliet participou em 1978 e é o melhor cartão de visitas para a discografia errática de Beefheart. Já Grow Fins é para iniciados. O primeiro CD traz várias demos e versões inéditas para faixas da fase pré-Safe as Milk. O segundo é dedicado à transição de banda psicodélica ao combo esquizofrênico que o grupo se tornaria. O terceiro – um dos melhores – nos presenteia com vários trechos de ensaios do mágico Trout Mask Replica, quase todos sem vocais, nos deixando livres para apreciar às mudanças climáticas das canções. O quarto disco traz trechos em vídeo de algumas apresentações da banda, em shows, na TV e até na praia (!). O último CD compila raridades da década de 70, com vários shows, demos e outtakes, além de entrevistas para rádios em que Beefheart dá canjas por telefone. Qualquer um dos lançamentos faz jus à importância que Beefheart tem para a música moderna, embora esta ainda esteja longe de ser medida em toda sua amplitude. Escolha um e vá fundo – se você gosta de música moderna, não há como se arrepender.