Capuccino, Frapuccino…
Vi aqui;
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Escrevi o texto na capa do Link dessa segunda-feira.
O futuro sem Jobs
Ele não inventou nada, mas envernizou criações alheias com encanto e expectativa que mantiveram vivo o sonho americano
No início deste mês, no programa de entrevistas de Bill Maher, o astrônomo Neil DeGrasse Tyson, uma das principais autoridades em sua área no mundo atualmente, lamentou o fato de a crise econômica dos EUA ter obrigado o governo americano a cancelar o programa espacial. Ele disse que o rombo financeiro daquele país é astronomicamente maior do que todo o orçamento da história da agência espacial americana, a Nasa, e salientou que a importância de explorar o espaço vai além da astronomia: “Você se lembra de como era nos anos 60 e 70?”, explicava, “toda semana tinha uma matéria na revista Life sobre ‘a casa do amanhã’, ‘a cidade do amanhã’, ‘os transportes do amanhã’… Tudo isso acabou logo que paramos de viajar para a Lua. Nós paramos de sonhar.”
Ele se referia ao fim do sonho americano, que já vinha definhando desde o assassinato de Kennedy, passando pela Guerra do Vietnã e culminando com o escândalo de Watergate. É claro que o fim das viagens à Lua também mexeu com a autoestima do norte-americano, mas houve uma sobrevida, que aconteceu logo que os hippies ajudaram a transformar o Vale do Silício em uma das regiões mais inovadoras de todo o mundo. E é claro que essa transformação foi produto do trabalho de várias pessoas, mas um deles, o visionário, foi quem melhor encarnou o novo espírito.
Steve Jobs deixou, última quarta-feira, 24, o cargo de CEO da empresa que fundou em 1976 e que, há menos de um mês, chegou ao topo do mundo dos negócios, ultrapassando a Exxon Mobil no ranking das maiores de seu país. Uma trajetória fantástica, cheia de altos e baixos, que daria um filme bem mais interessante do que o feito sobre o Facebook, no ano passado.
Computador pessoal, interface gráfica, mouse, MP3 player, desenhos animados feitos em computadores, loja de distribuição digital, smartphone, tablet. Ele não inventou nada disso. Mas foi ele quem soube as cobrir com um verniz de encanto e expectativa a aparição de máquinas que apenas seguiam o conceito do sonho americano forjado nos anos 50.
São apenas eletrodomésticos, mas, como se referia Tyson em relação às invenções proporcionadas pela Nasa, eles nos ajudavam a criar uma noção de futuro. Nos davam uma perspectiva de horizonte próximo que nos fazia imaginar como seriam os próximos 5, 10, 50 anos.
A saída de Jobs da linha de frente da Apple coloca não apenas o futuro da empresa em xeque mas também o papel dos Estados Unidos na construção deste novo futuro. O país que regeu o século passado, o fez à base de produtos e aparelhos. Todo o chamado “imperialismo norte-americano” não seria bem sucedido caso não contasse com o aparato tecnológico que tornou carros, discos, tênis, jeans e camiseta, rádio, cinema, celulares e computadores parte do cotidiano de todo o planeta.
Mas o mundo mudou. E o presidente Barack Obama anunciou para seu país, no início do ano, que Google e Facebook, invenções norte-americanas, poderiam dar início ao que ele que se referiu como “o momento Sputnik da nova geração”, citando o primeiro satélite russo lançado no espaço, que deu origem à corrida espacial que colocou os EUA na Lua antes da União Soviética. Mesmo que isso aconteça, não veremos a possibilidade de um novo século americano. Pelo menos não do mesmo jeito que aconteceu no século passado.
Para começar, Google e Facebook não são produtos, são serviços. Ninguém os compra, todos apenas aderem a eles pelo fato de serem gratuitos. Não são palpáveis, não podem ser exibidos como símbolos de status e, por melhores que sejam, podem sim ser copiados e cair em desuso tão rápido quanto ascenderam. Além disso, ambos serviços vivem à sombra do fantasma e um totalitarismo digital, que faz o Google repetir “don’t be evil” (“não faça o mal”) como uma espécie de mantra para não cair em tentação e a figura de Mark Zuckerberg ser vista por mais de uma geração não como um visionário idealista, mas como um robô obcecado por controle.
Google e Facebook não têm ninguém tão carismático e reconhecido pelo público como a Apple tinha. Jobs segue a tradição dos grandes nomes que se consolidaram nos EUA, que une Benjamin Franklin, Henry Ford, Alexander Graham Bell, Levi Strauss, Thomas Edison e Bill Gates, homens que inventaram máquinas que deram origem a indústria inteiras, ao mesmo tempo em que personalizavam estas invenções. Jobs é o filho caçula desse cânone e, ao menos por enquanto, não surgiu ninguém que possa reivindicar o posto de prodígio temporão. Também não surgiu ninguém deste porte vindo da Índia, Rússia, China ou Brasil, o que dá alguma folga para os EUA.
A saída de Jobs de cena não é, como parece, o anúncio de sua morte. E, sim, o ocaso final do sonho americano. Aquele em que é possível chegar e acontecer, mostrar que é possível sair do nada e se tornar alguém apenas com uma ideia e a própria perseverança. Foi Jobs quem proveu os aparelhos que mantiveram o sonho americano vivo até hoje. Ao deixar seu principal palco, pode estar apressando a saída dos EUA do pódio do imaginário mundial, mesmo que a contragosto. E assim, quem sabe, começamos para valer o século 21.
Minha coluna no Caderno 2 de domingo foi sobre a importância de Steve Jobs.
O digital é pop
Porque Jobs é tão importante
A principal notícia da semana foi a aposentadoria prematura de Steve Jobs. Já é possível prever a preguiça do leitor ao ser confrontado, de novo, com um tema que, teoricamente, lhe diz respeito apenas lateralmente. Mas mesmo que você não ache o iPad tudo isso, mesmo que não tenha nenhum tipo de smartphone, mesmo que tenha horror a computadores e os tenha que usar apenas pela imposição do mundo moderno, é inegável a contribuição do pai da Apple para a paisagem do século atual.
Ele não é apenas o inventor do computador pessoal. O verdadeiro pai da nova máquina é seu parceiro Steve Wozniak, mas foi Jobs que viu potencial comercial num aparelho que parecia não ter lugar na casa dos anos 70. Foi ele também quem pensou em mudar a cara desse mesmo cenário ao cogitar um computador pessoal que não precisava ser montado peça a peça – bastava comprá-lo na loja e sair usando. Também surrupiou duas ideias que estavam no limbo das invenções do mítico laboratório da Xerox, o PARC, e tornou-as não apenas pop, mas também cruciais no desenvolvimento deste mercado: a interface gráfica (antes, para se usar um computador, era preciso saber uma série de comandos digitados em uma tela preta com texto escrito em verde) e o mouse.
Ele também não inventou a distribuição digital, mas foi esperto o suficiente para perceber que as gravadoras estavam perdendo o bonde da história ao processar os consumidores que aprenderam a baixar música graças ao Napster. Notou a lacuna no mercado e transformou, em 2003, seu programa para ouvir música em uma loja online, a iTunes Music Store, e convenceu, aos poucos, as mesmas gravadoras que lutaram contra o download ilegal a vender música pela internet através da nova plataforma, tornando sua empresa, na primeira década do século, mais importante para o mercado musical do que qualquer outra gravadora. Aproveitou a deixa para impulsionar as vendas do MP3 player que havia lançado em 2001. E o iPod virou sinônimo desse tipo de aparelho. O sucesso de ambas iniciativas o cacifaram para voos mais altos.
Em 2007 nos apresentou ao iPhone e mudou completamente o conceito de smartphone, que antes era associado a executivos teclando em BlackBerrys. Aproximou o telefone a um computador portátil e tornou-o fácil e divertido de usar, criando, na mesma tacada, o mercado de aplicativos. E pavimentou o caminho para seu iPad, lançado ano passado, que hoje ameaça a existência do computador pessoal que inventou décadas antes.
O que há em comum em suas invenções é a facilidade de uso, o acabamento visual e um certo ar moderno e cool, verniz que Jobs sempre priorizou. E, com isso, transformou o mundo digital para sempre. Antes, nerds e computadores eram antissociais e inacessíveis. Depois de Jobs, eles se tornaram corriqueiros e legais. Eis a medida de sua importância.
Vi na Goma.
De novo, os Girls acertam na veia.