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Sócrates (1954-2011)

A notícia da morte do doutor não foi fácil de digerir nem veio num momento tranqüilo. Às vésperas de um clássico Corinthians x Palmeiras com cheiro de final, entre perceber que a situação de Sócrates parecia irreversível durante o sábado e deparar-me cético com seu triste fim no mesmo dia do jogo que consagraria o pentacampeonato do time indissociável ao seu nome, a notícia da morte de Sócrates inevitavelmente engatilhou uma série de flashbacks na cabeça de milhões de corintianos pelo Brasil que certamente funcionou como um momento coletivo sobre a natureza do corintianismo de cada um.

Não costumo demonstrar meu apreço pelo meu time por aqui, mesmo porque o futebol já não faz parte da minha vida há anos (costumava ir ao estádio com freqüência, ainda que morando em Campinas, entre 1994 e 1996), mas ser corintiano é algo indissociável à minha personalidade e olhando em retrospecto, a escolha consciente entre torcer pelo bando de loucos no início dos anos 80 estava intrinsecamente associada à presença de Sócrates. Ele e Casagrande foram personagens que me pareciam melhores heróis e ideais a ser perseguido do que outros ícones da época. Pareciam mais humanos porque erravam, porque traziam o futebol para a rotina fora do campo, para o dia-a-dia, para a rua, para o bar, para a noite. É claro que essas referências foram se calcificando à medida em que fui crescendo e entendendo melhor o significado de coisas tão diferentes quanto o fato de ser formado em medicina, de gostar de beber e de ser o irmão mais velho do Raí. Mais que seu futebol preciso, era sua presença como líder em campo e fora dele que me fez corintiano. Ele vestido com o uniforme listrado preto e branco é a imagem mais próxima que a de um super-herói que já devo ter acreditado. Nem ele vestido com o uniforme da seleção tinha um impacto tão foda quanto a caráter corintiano.

O mínimo que posso fazer nesse momento é vir publicamente agradecer ao doutor (“eu não me engano…”) e declarar-me seu devoto. E linkar algumas homenagens que ele recebeu durante o domingo.

Uma das primeiras delas, do Bressane, já havia sido escrita antes mesmo de sua partida, quando a saúde de Sócrates havia piorado:

Hoje aposentado dos campos – embora vez ou outra tirando onda nos churras dos amigos; quase imóvel joga mais do que todo o atual escrete alvinegro –, o Doutor é raríssimo representante do clube dos ex-craques que pensam com a própria cabeça e ainda sabem escrever. Bom, fora o também médico Tostão, você lembra de mais alguém? Mas, ao contrário do abstêmio ex-10 do Cruzeiro, Sócrates descende da nobre estirpe de atletas e artistas boêmios, sempre viveu assim e tem orgulho de seu lifestyle. Se, jogando, o Magrão já parecia um homem de outro tempo – do tempo em que homens não fugiam da responsa e usavam a inteligência para driblar de beques a censores –, por que não o seria na arte de jogar conversa fora? Na tal entrevista que deu ao Fantástico, ao ser perguntado pelo repórter se seria alcoólatra, respondeu com um misto de bonomia e desfaçatez: “Sim, claro”. Certeza de que por pouco não mandou um “Tá me tirando, véio?”.

Flavio Gomes mata a pau (leia o texto todo, termina fiel):

Aí quando eu estava lá embaixo no meio daquele milhão de pessoas pedindo para votar para presidente, o cara sobe lá no palanque, em cima do viaduto, ergue o punho direito, ou o esquerdo, e grita que queria a mesma coisa. Do meu lado, gente de todas as cores e credos ludopédicos erguem seus punhos, também, e aplaudem o cara, que resolveu não jogar na Europa porque queria estar aqui para ver de perto o fim daqueles anos em preto e branco.

Não deu nada certo, não votamos para porra nenhuma, e dias depois, ou semanas, não me peçam para lembrar os quandos e ondes, mas acho que era no Morumbi, e o cara enfia a bica da intermediária, nosso goleiro sem pescoço pula e não pega nada, ele ergue o punho de novo e eu xingo o cara com todas as minhas forças, doutor do caralho, filho da puta, vai tomar no cu.

Antes, Copa do Mundo na Espanha, Brasil versus União Soviética. Estamos lá na zona leste, num puxadinho junto com um monte de gente que eu também não conhecia direito, uma TV com bombril na antena, umas brahmas, gol dele, o empate, se bem me lembro. Abraços e beijos, doutor do caralho, filho da puta, joga demais, vamos, porra.

O Arnobio Rocha lembra da importância política de Sócrates:

O Corinthians já tinha experimentado uma primeira revolução democrática com o surgimento da Gaviões da Fiel em 1969, que nasceu como forma de combater Waldih Helu, presidente do time e um dos comandantes da Arena o partido da ditadura. Com os métodos do regime perseguiu torcedores com repressão aberta e cacetetes policial. Alguns membros fundadores da Gaviões foram vítimas do regime militar.

Esta centelha de clube/torcida contestador, terá grande desdobramento no começo dos anos 80. Depois de péssimos resultados em 1980/81 caiu a gestão Mateus e sobe Waldemar Pires, o sociólogo Adilson Monteiro Alves vira Diretor de Futebol, em abril começa uma pequena revolução de costumes no futebol brasileiro: A Democracia Corintiana. Em plena ditadura, quebrou paradigmas, time era bom demais, ganhava títulos, tinha compromisso social e político. As decisões do futebol eram discutidas e votadas pelos jogadores, comissão técnica, roupeiro, massagistas.

Sócrates, Vladimir, Zenon, e o jovem Casagrande, eram os maiores expoentes da Democracia Corinthiana, fruto das célebres greves do ABC, movimento pela anistia, o país começava a respirar novos ares pelas liberdades e um dos maiores times de massa, no estado mais rico do país entra em plena sintonia com este momento, as célebres mensagens nas camisas, ou faixas carregadas na entrada ao gramado pedindo, por exemplo, Diretas já ou Eu quero votar para Presidente, ou ainda o lema do time: “Ganhar ou perder, mas sempre com Democracia” foi revolucionário demais.

Os gols de Sócrates comemorados com punho cerrado, símbolo da esquerda, da necessidade de se insurgir contra os milicos, festa da Democracia, aqueles tempos de 1982 a 1984 foram os mais importantes da história do Corinthians, o time foi capaz de galvanizar o sentimento social e o Doutor Sócrates com sua maestria e genialidade se tornou um líder natural. A participação dos maiores ídolos do Corinthians nos comícios das Diretas Já, a faixa prendendo os cabelos de Sócrates até me emociona, quase leva às lágrimas.

O mesmo fator é sublinhado num post do Edmundo, no blog do arquivo do Estadão, que resgata a foto abaixo:

A postura política é indissociável ao Magrão, como nos lembram os gêmeos Moon e Bá

…e essa homenagem feita por Henfil, tirada de uma série de outras caricaturas de Sócrates reunidas pelo Universo HQ.

E ainda há essa entrevista feita no ano passado pela revista Susak Press, em que Sócrates fala porque acha que o futebol se parece mais com arte que com um confronto:

E, pra finalizar, um pout-porri de alguns de seus mais belos gols…

…e sua inconformação ao constatar que, no primeiro jogo do Brasil na Copa de 1986, colocaram para tocar o Hino da Bandeira no lugar do Hino Nacional…

Esse era o cara. Valeu, doutor!

PS – E não custa lembrar que o vascaíno Dodô cogitou homenagear o nome do novo estádio do Corinthians com o nome do Doutor Sócrates Brasileiro, instantaneamente apelidado de “Magrão”.

Disco novo dos Los Hermanos em 2012?

De acordo com o Bruno Medina, em entrevista ao Terron, não conte com isso:

Claro que é totalmente possível que a lista dos shows divulgados aumente, a depender do que estiver ao alcance entre abril e maio do ano que vem, o período em que todas as agendas estarão em função da banda. Quanto à gravação de um disco, acho bem menos provável, até porque não é algo que se faça sem dedicação exclusiva, e isso, no momento, para nós seria impossível.

Na foto acima, Barba substitui Takara em um show do novo disco de Camelo, no dia 17 passado, em São Carlos, quando o baterista do Hurmold (banda que acompanha Camelo ao vivo, não pode comparecer.

Alan Moore x Frank Miller

Na mesma entrevista à Honest, o mago aproveita para desancar os resmungos fascistas de Frank Miller contra o movimento Occupy:

“Well, Frank Miller is someone whose work I’ve barely looked at for the past twenty years. I thought the Sin City stuff was unreconstructed misogyny, 300 appeared to be wildly ahistoric, homophobic and just completely misguided. I think that there has probably been a rather unpleasant sensibility apparent in Frank Miller’s work for quite a long time. Since I don’t have anything to do with the comics industry, I don’t have anything to do with the people in it. I heard about the latest outpourings regarding the Occupy movement. It’s about what I’d expect from him. It’s always seemed to me that the majority of the comics field, if you had to place them politically, you’d have to say centre-right. That would be as far towards the liberal end of the spectrum as they would go. I’ve never been in any way, I don’t even know if I’m centre-left. I’ve been outspoken about that since the beginning of my career. So yes I think it would be fair to say that me and Frank Miller have diametrically opposing views upon all sorts of things, but certainly upon the Occupy movement.

“As far as I can see, the Occupy movement is just ordinary people reclaiming rights which should always have been theirs. I can’t think of any reason why as a population we should be expected to stand by and see a gross reduction in the living standards of ourselves and our kids, possibly for generations, when the people who have got us into this have been rewarded for it; they’ve certainly not been punished in any way because they’re too big to fail. I think that the Occupy movement is, in one sense, the public saying that they should be the ones to decide who’s too big to fail. It’s a completely justified howl of moral outrage and it seems to be handled in a very intelligent, non-violent way, which is probably another reason why Frank Miller would be less than pleased with it. I’m sure if it had been a bunch of young, sociopathic vigilantes with Batman make-up on their faces, he’d be more in favour of it. We would definitely have to agree to differ on that one.”

Alan Moore + OccupyWallStreet

Finalmente Moore nos deu seu parecer sobre o movimento identificado por um ícone que ajudou a resgatar. Primeiro em entrevista ao Guardian:

“I suppose when I was writing V for Vendetta I would in my secret heart of hearts have thought: wouldn’t it be great if these ideas actually made an impact? So when you start to see that idle fantasy intrude on the regular world… It’s peculiar. It feels like a character I created 30 years ago has somehow escaped the realm of fiction.”

(…)

“That smile is so haunting. I tried to use the cryptic nature of it to dramatic effect. We could show a picture of the character just standing there, silently, with an expression that could have been pleasant, breezy or more sinister. (…) And when you’ve got a sea of V masks, I suppose it makes the protesters appear to be almost a single organism – this “99%” we hear so much about. That in itself is formidable. I can see why the protesters have taken to it.”

(…)

“I think it’s appropriate that this generation of protesters have made their rebellion into something the public at large can engage with more readily than with half-hearted chants, with that traditional, downtrodden sort of British protest. These people look like they’re having a good time. And that sends out a tremendous message.”

Na mesma entrevista, ele riu do fato da Time Warner – que é dona da DC Comics que é dona dos direitos de V de Vingança, o quadrinho que deu origem à máscara – faturar dinheiro com royalties nas vendas do ícone dos Occupy:

“I find it comical, watching Time Warner try to walk this precarious tightrope. It’s a bit embarrassing to be a corporation that seems to be profiting from an anti-corporate protest. It’s not really anything that they want to be associated with. And yet they really don’t like turning down money – it goes against all of their instincts. I find it more funny than irksome.”

Em outra entrevista, à revista Honest, ele diz o ele acha que deva mudar em nosso sistema político:

“Everything. I believe that what’s needed is a radical solution, by which I mean from the roots upwards. Our entire political thinking seems to me to be based upon medieval precepts. These things, they didn’t work particularly well five or six hundred years ago. Their slightly modified forms are not adequate at all for the rapidly changing territory of the 21st Century.

“We need to overhaul the way that we think about money, we need to overhaul the way that we think about who’s running the show. As an anarchist, I believe that power should be given to the people, to the people whose lives this is actually affecting. It’s no longer good enough to have a group of people who are controlling our destinies. The only reason they have the power is because they control the currency. They have no moral authority and, indeed, they show the opposite of moral authority.”