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Ninguém segura os Boogarins!

É impressionante como estar numa banda pode elevar o estado de espírito coletivo de seus integrantes a ponto de fazê-lo conectar-se com o de todos os presentes – e em todo show dos Boogarins eles chegam nesse ponto. A simbiose entre seus integrantes já transcende a fala e o gesto de tanto que eles dominaram a arte do improviso coletivo, usando ganchos pontuais de suas canções como marcações sonoras para atravessar diferentes pontos da noite em seus shows. Quando o mapa da noite é longevo Manual, segundo disco da banda que começou a festejar sua primeira década de existência no final do ano passado, essa conexão entre músicos e plateia talvez chegue em sua sintonia perfeita. Primeiro porque esse é o álbum que forjou o som da banda até hoje, em que seus atuais quatro integrantes participaram de todas as etapas e cujas canções refletem tanto o início de sua maturidade musical tanto como compositores quanto como instrumentistas. Essa força decana do disco conecta-se inclusive com a nova geração de fãs da banda goiana, contemporâneos de suas lives durante a pandemia, dos dois volumes da compilação Manchaca, da retomada aos palcos depois do período de trevas do início da década e da criação e lançamento de seu disco mais recente, Bacuri, tido como obra-prima para essa nova safra de adeptos do som da banda. Fpra, estes que em sua maioria lotaram o teatro Paulo Autran neste sábado em mais uma apresentação em homenagem ao disco de 2015, quando o grupo visitou o álbum como deve ser – seguindo-o na ordem e com direito a longos trechos improvisados, o que rendeu momentos catárticos para o público. Depois de agradecer a presença de todos e reforçar a importância de existir por causa da música, o grupo emendou um bis com duas músicas do disco mais recente (“Amor de Indie” e a faixa-título) e uma do disco Lá Vem a Morte de 2017 (a canção-assinatura “Foi Mal”) para coroar um show que ainda teve a já tradicional prancha do baixista Fefel, quando ele abandona sua peruca, e uma mudança significativa na parte técnica da banda, fazendo inclusive iluminação e telão funcionarem em harmonia perfeita. Se o show de abertura desta turnê no Cine Joia já tinha sido impressionante, este mais recente subiu ainda mais o patamar. Ninguém segura os Boogarins!

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Bruce Springsteen celebra Mineápolis

Bruce Springsteen vem se tornando uma das principais vozes da classe artística estadunidense contra o regime que Donald Trump baixou em seu país, chegando ao cúmulo de ter sua milícia particular assassinando pessoas inocentes, especialmente na cidade de Mineápolis, que tornou-se o epicentro dessa nova tragédia nos EUA. E depois de esbravejar em shows e entrevistas, ele resolveu eternizar essa era de trevas em seu país em uma canção. “Streets Of Minneapolis” em que retoma o tom das canções de protesto à Bob Dylan para descrever o estado decrépito que seu país afunda em violência, mencionando por nome, tanto as vítimas fatais do governo norte-americano (Alex Pretti e Renee Good) quanto os patifes que orquestraram essa desordem, os palhaços de extrema-direita Stephen Miller (vice-chefe do gabinete de políticas públicas da Casa Branca), Kristi Noem (secretária de segurança interna) e, claro, o agente laranja que escangalha de vez os EUA, chamado por Bruce na música de “Rei Trump”. A capa do single não deixa meios-termos ao mostrar um protesto dos cidadãos daquela cidade contra a polícia particular de Trump.

Ouça abaixo:  

Charli XCX ♥ Sky Ferreira

Mal lançou The Moment, pseudodocumentário inspirado na turnê de seu disco-fenômeno Brat, Charli XCX parte para a nova fase de seu plano de dominação do mundo do cinema, ao trazer mais detalhes sobre seu próximo disco, que também é a trilha sonora para a nova versão do clássico O Morro dos Ventos Uivantes, romance que a inglesa Emily Brontë publicou em 1847 e que sazonalmente é adaptado para a telona. A nova versão estreia nos EUA neste mês e conta com direção de Emerald Fennell e Jacob Elordi e Margot Robbie no papel do casal protagonista. Charli já lançou três músicas deste novo disco (“House”, composta e gravada ao lado de ninguém menos que John Cale, “Chains Of Love” e “Wall Of Sound”) e agora antecipa a ordem das músicas do disco que sairá no dia 13 de fevereiro e terá uma colaboração com uma de suas artistas favoritas, Sky Ferreira. Sem lançar álbuns desde seu primeiro disco, Night Time, My Time, de 2013, ela vem travando uma batalha judicial contra sua gravadora Capitol e seu segundo álbum, Masochism, que deveria ter saído em 2015, segue sendo adiado. De lá pra cá, a própria Charli chamou-a para colaborar em uma faixa (“Cross You Out”) em 2019, mesmo ano em que ela lançou o primeiro single desde o disco de 2013, “Downhill Lullaby”. De lá pra cá, Ferreira lançou mais duas músicas, “Don’t Forget”, lançada em 2022, e “Leash”, lançada no ano passado para a trilha do filme Babygirl. “Eyes of the World”, a colaboração com Charli na trilha sonora de O Morro dos Ventos Uivantes, é a quinta faixa que Sky Ferreira lança desde o anúncio de Masochism que, depois do movimento dos fãs por sua liberdade (chamado de “Free Sky Ferreira”), parece que finalmente vai ser lançado este ano.

Veja a lista das novas faixas de Charli abaixo:  

Quem também vem é a Jessie Ware!

Jessie Ware abre seu 2026 dando mais um passo rumo ao topo do estrelato ao anunciar seu sexto álbum, Superbloom, para o início de abril. Vindo de uma sequência magistral de discos (de Glasshouse de 2017 ao What’s Your Pleasure? de 2020 e That! Feels! Good! de 2023), ela parece também estar distanciando-se da pista de dança rumo a um platô pop que, temo, possa fazê-la perder seu charme e sua ousadia musical – um pequeno declive que, por exemplo, transformou o instigado disco de 2020 (uma interrogação) em um extasiado novo capítulo (uma exclamação) três anos depois. O próprio fato do single que anuncia o novo álbum se chamar “I Could Get Used To This” (e seu clipe opulento, veja abaixo) funciona como termômetro dessa transformação, que a veem falando de Grace Jones, Barbra Streisand e Whitney Houston como inspirações. Tomara que ela mantenha a verve anterior.

Assista ao clipe de “I Could Get Used To This” abaixo:  

Veio o Sugar!

Como previsto, o Sugar anunciou oficialmente a volta às atividades para além do par de shows e do single que soltaram no ano passado. Quem puxa as atividades de 2026 é o single “Long Live Love” (veja o clipe abaixo), que seu compositor, o líder da banda e fundador do seminal Hüsker Dü, Bob Mould, desenterrou da época em que morou em Washington, capital dos EUA, em 2007, e que reflete a fase DJ que ele atravessava. Bob inclusive menciona a semelhança da canção com um dos seus discos favoritos da vida, o segundo do Garbage (!). Além do novo single (que será vendido como um compacto junto com a música que lançaram ano passado, “House Of Dead Memories”), o grupo também anunciou dezenas de shows durante o ano começando por Nova York, nos EUA, no início de maio para depois fazer Europa até junho e retomar a turnê pelos Estados Unidos entre agosto, setembro e outubro. E nada de América Latina, Oceania ou Ásia por enquanto. Fora que veio mais um single, vieram (muito) mais shows, mas o disco ainda está por vir… Esperamos.  

E que tal assistir ao documentário sobre o início da carreira solo do Paul McCartney no cinema?

Man on the Run, o documentário sobre o início da carreira solo de Paul McCartney e sobre a criação de sua segunda banda, os Wings, chega ao Amazon Prime no final do mês. Mas o clamor dos fãs (inclusive deste que vos escreve) deve ter ecoado junto às partes envolvidas e Paul anunciou que o filme terá sessões no cinema em apenas um dia, 19 de fevereiro. Mas ainda não sabemos quantas sessões serão e em quais países será exibido. Para saber, basta cadastrar-se no site do filme para ser informado destas sessões, que começarão a ter seus ingressos vendidos no dia 4 de fevereiro. Caso não passe por aqui, resta esperar a estreia no streaming da Amazon, dia 27.

Spice Girls de volta em 2026?!

1996 marca o aniversário de 30 anos do primeiro disco das Spice Girls e desde que as cinco se reencontraram em 2024 para comemorar o aniversário de 50 anos de Victoria Beckham, a Posh Spice, as especulações sobre a volta do quinteto pop inglês aumentam cada vez mais. Ano passado a mesma Victoria causou um rebuliço ao publicar um stories em sua conta no Instagram descrevendo o show do Oasis que viu em Londres como “tentador”. E depois de um encontro de quatro delas na semana passada para comemorar o aniversário de 50 anos de Emma Bunton, a Baby Spice, foi a vez de Mel C, a Sporty Spice, comentar num programa de rádio na Inglaterra que a última volta do grupo aos palcos, em 2019, não contou com a presença de Victoria e que ela precisa ter essa experiência. “Nos sentimos mais próximas do que nunca depois de muito tempo e sempre tenho meus dedos cruzados”, comentou, na torcida para uma reunião das cinco no palco – a última vez que isso aconteceu foi na cerimônia de encerramento dos jogos olímpicos em Londres em 2012. Pelo jeito é só questão de tempo…

Assista abaixo:  

“La Perla” palestina

Rosalía pôs um ponto final na falsa polêmica ao redor de seu posicionamento politico em relação ao genocídio palestino ao fazer uma aparição surpresa no Concert-Manifest x Palestina que aconteceu nesta quinta-feira, no Palau Sant Jordi, em Barcelona, capital da província em que nasceu, a Catalunha, na Espanha. Depois de apresentações de Zaho de Sagazan, Ana Tijoux, Aurora, Bad Gyal, Tinariwen, Amaia e Morad, ela surgiu com o silêncio e a escuridão da expectativa ao redor de uma surpresa deste porte e fez bonito ao cantar o flamenco “La Perla” para delírio do encantado público presente. Muito bem, dona Rosalía…

Assista abaixo:  

Wilco + J Mascis ♥ Neil Young

No meio desse mês, o Wilco realizou seu tradicional festival Sky Blue Sky num resort em Cancún, no México, presenteando seus fãs com uma sequência de atrações curada pelo grupo que além de reunir nomes como Yo La Tengo, Dinosaur Jr., Dr. Dog, os Jayhawks, Michael Shannon e Jason Narducy tocando R.E.M., entre outros, ainda contou com quatro shows diferentes do Wilco e outros de bandas paralelas de seus integrantes (além de ter perdido o show solo do geese Cameron Winter, que não pode comparecer ao show). E é claro que um evento desses renderia momentos maravilhosos como essa versão de treze minutos que o Wilco fez para “Cortez the Killer” do Neil Young com a participação do mago da guitarra J Mascis, do Dinosaur Jr. Que momento!

Assista abaixo:  

Simon Reynolds conta a história do que chamamos de indie

20 anos depois do tratado Rip It Up and Start Again: Postpunk 1978–1984, o crítico inglês Simon Reynolds deixa de teorizar sobre o passado e o futuro da música pop (temas de seus livros mais recentes: Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past, de 2011, e Futuromania: Electronic Dreams from Moroder to Migos, de 2020) para retomar a linha histórica do ponto em que deixou após contar a história do pós-punk, livro que, por sua vez, continuava a saga que o colega de profissão Jon Savage havia começado a contar em outro livro clássico da história da música, England’s Dreaming, de 1991, sobre o punk inglês. Ele acaba de anunciar a publicação de Still in a Dream: Shoegaze, Slackers and the Reinvention of Rock, 1984–1994, em que pega o fio da meada do livro anterior para falar sobre o surgimento de um noise pop anglófono do meio dos anos 80 que influenciou diferentes bandas underground dos dois lados do Atlântico e que foram a base para a explosão do rock alternativo na década seguinte. Essa história é resumida nos nomes de algumas bandas que ornam a capa rosa da edição, que enfileira clássicos modernos como My Bloody Valentine, Sonic Youth, R.E.M., Jesus & Mary Chain, Pixies, Hüsker Dü, Cocteau Twins, Dinosaur Jr., Teenage Fanclub, Smiths, Nirvana, Replacements, Mercury Rev, Spiritualized, Butthole Surfers, Stereolab, Galaxie 500, Felt, Pavement, Spacemen 3, entre outros. O livro, já em pré-venda, será lançado em junho deste ano e parece epitomizar a estética e ética que hoje chamamos de indie. Conhecendo a grandeza de seu autor (também conhecido por ter cunhado o termo pós-rock) e que ele viu essa época que descreve pessoalmente no início de sua careira, dá pra cravar que é leitura obrigatória