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A ascensão e queda do Clash: um mito

O documentário de Danny Garcia vai para além da clássica história dos punks que expandiram seus horizontes ao descobrirem o reggae na Jamaica e o hip hop em Nova York e examina mais de perto a segunda parte da história do Clash, quando o grupo deixou de ser um dos principais nomes do punk inglês para assumir o título de “the only band that matters” e talvez o posto mais alto no showbusiness do rock’n’roll do início dos anos 80. Histórias de traições, mentiras, decisões motivadas por dinheiro e sentimentos ruins entre ex-amigos são o combustível que acabou ajudando o próprio rock’n’roll a se amaldiçoar e na biografia do Clash – uma banda politizada e idealizada – ganham contornos de mito no documentário The Rise and Fall of the Clash. Parece ser finíssimo.

Dica do Douglas, que retomou – e bem – seu velho blog, que agora é o site Soy Nosotros.

Frank Ocean em câmera lenta

Slim K começou com o single de “Pyramids” (abaixo), mas depois esticou o conceito por todo o Orange Channel de Frank Ocean, levando um dos melhores discos de 2012 para uma freqüência abaixo. Seu Channel Purple autoexplica-se no subtítulo – é um “slowdown remix” e parte, por princípio, em reduzir os BPMs de todo o disco original para picotá-lo de forma mais precisa, como um sushiman. O resultado é um disco mais encorpado e gangsta, nem melhor nem pior que a versão laranja original, quase um irmão gêmeo mau. O disco inteiro pode ser baixado no site do Slim K.

Arte e emprego – o divino e o terreno, por Pitty

Uma frase no livro novo do Arnaldo fez a Pitty escrever um post no Facebook sobre arte e trabalho, que o Bruno republicou na fanpage do URBe (já curtiu?) – daí eu perguntei pra ela se podia publicar aqui, ela ficou encabulada, porque escreveu o texto sem maior pretensão, mas no fim liberou. A discussão é bem pertinente – e a foto que ilustra o post foi tirada pela Pitty, no SXSW desse ano:

“As pessoas gostam de falar mal das bandas que cedem às pressões do mercado, mas fazem a mesma coisa todo dia de 9 às 6.”

Arnaldo Branco, em seu novo livro, sintetizando um pensamento que volta e meia me ocorre.

Mas aí me ocorreu um outro: por quê sentimos isso em relação a arte e não a um emprego, entre aspas, comum? Talvez porque intuimos (ou nos condicionamos, ou aprendemos) que a arte é sagrada, e partindo desse suposto caráter “divino” não pode ser maculada ou influenciada por quaisquer questões demasiado terrenas tais como ter que pagar o aluguel no final do mês. E talvez não sintamos isso em relação a empregos “comuns” por uma culpinha cristã: se você exerce uma atividade que não gosta e é extenuante, sua compensação, se não emocional e intelectual, deve ser financeira. Se escolheu fazer o que gosta- privilégio de desaforados pois “estamos aqui para sofrer”, nada mais justo que seja punido por esta insolência com a miséria.

Romantizamos os artistas falidos, os que sofreram, passaram perrengues em nome da arte porque aos nossos olhos tornam-se mártires: penaram e pagaram com sua própria existência para que outros artistas, num futuro mais brilhante pudessem exercer o ofício dignamente. É um quase se “jesusificar”; eu me sacrifico para que um dia possa ser melhor. É como uma promessa de pureza, pueril e idealista; idealizada e nobre, porquanto bela.

Gosta-se de heróis, precisa-se deles… mas confesso maior simpatia pelo anti-herói, aquele que não é necessariamente o antônimo, mas que apenas se permite ser humano e fazer suas cagadinhas pelo meio do caminho. Que se desvela do tal suposto caráter divino, que abdica de ser santo e mártir e assume que pagar as contas é algo bem legal. E mais ainda, que é mágico: constrói com maestria a ilusão de que está jogando o jogo e dá a volta em todos os mecanismos, e os usa a seu favor.

No final, o mais legal e o mais difícil é aquele que consegue abarcar o melhor dos dois mundos; o divino e o terreno. Que consegue manter sua arte imaculada no sentido de liberdade criativa, mas que não se sente culpado de ser remunerado por ela. E que entende que certas concessões se justificam lá na frente, que tudo tem peso e medida, e que recuar no campo de batalha é só estratégia para se posicionar melhor e mais forte.

Voltando a Arnaldo: talvez por conveniência, talvez por covardia, ou quem sabe por justiça; a sentença me vestiu como o mais bem cortado terno.

Valeu, Pitty.