
Os curitibanos do Copacabana Club ressurgem no início do ano com uma dupla de singles ensolarados – “Human” e “Up” – pra aproveitar o calor do verão 2015.

Tulipa termina de gravar seu terceiro disco, cuja gravação começou há um mês, nesta sexta-feira e os envolvidos são os mesmos dos discos anteriores: seu irmão Gustavo Ruiz na produção e também nas guitarras, numa banda que ainda inclui o pai da cantora Luiz Chagas na outra guitarra, o baixista Márcio Arantes e o baterista Caio Lopes (único que não esteve no primeiro disco, gravado com Duani na bateria). O disco é mais uma vez bancado pela Natura e a novidade é que ele está sendo gravado no estúdio da Red Bull no centro de São Paulo. Mais novidades em breve…

Tudo fica mais tranquilo quando sabemos que tem uma música nova das queridas Warpaint entre nós. Ao lançar “No Way Out (Redux)” sem grande alarde, o quarteto californiano anuncia que a faixa é “a primeira de uma série de músicas novas que serão lançadas este ano.” Maravilha!

O coletivo pós-rock canadense Godspeed You! Black Emperor volta a dar sinal de vida com o anúncio de seu primeiro disco em três anos. Asunder, Sweet And Other Distress é o sexto disco do grupo e será lançado no fim do mês que vem. Para começar os trabalhos, o grupo liberou um trecho editado da primeira faixa do disco, “Peasantry or ‘Light! Inside of Light!”, pra já marcar território.

Eis a capa (sim, são dois gatinhos) e a primeira faixa do novo disco do Built to Spill. “Living Zoo” é a primeira faixa do disco Untethered Moon, o primeiro da banda em seis anos. Não é das faixas mais inspiradas, mas tá lá as cortantes voz e guitarra de Doug Martsch.

Não sei vocês, mas eu tava esperando o disco dessas meninas há tempinho…

Christina Aguillera participou do programa de Jimmy Fallon e topou uma brincadeira em que ela cantaria músicas imitando outros artistas. Convenientemente – e coincidentemente – ela tirou apenas cantoras da sua área, divas da pista de dança, e fez bonito imitando a Cher, a Britney Spears e a Shakira.

Escrevi sobre a tradução do calhamaço Graça Infinita, a grande obra de David Foster Wallace, para a revista Brasileiros do mês passado.
Entretenimento Fatal
Com mais de mil páginas, sendo 100 delas de notas de rodapé, o desafio Graça Infinita, de David Foster Wallace é o último candidato a Grande Romance Americano do século passado e finalmente é lançado no Brasil
A busca pelo Grande Romance Americano atravessou todo o século passado motivando autores hoje consagrados e assombrando outros que tentavam fugir desse Santo Graal. O posto foi criado como uma forma de distinguir a literatura da antiga colônia inglesa da produção britânica e logo clássicos como Moby Dick e As Aventuras de Huckleberry Finn se configuraram como os primeiros candidatos ao posto. Mas à medida em que o século 20 foi passando e os Estados Unidos foram se confirmando como o país mais influente do mesmo período, o título passou a pesar sobre ombros de diferentes autores e obras: F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Vinhas da Ira, John dos Passos, O Apanhador no Campo de Centeio, Saul Bellow, Lolita, O Arco-Íris da Gravidade, John Updike, William Gaddis, Don DeLillo. Todos confrontados com o desafio de traduzir a essência deste país autodenominado América em páginas de papel.
Mas um nome candidatou-se a esse trono como se aceitasse um desafio. Um metadesafio, afinal. O século americano chegava ao fim e um autor considerado prodígio dedicou três anos de sua vida a uma obra que não apenas sintetizasse a importância cultural dos Estados Unidos para o resto do mundo nos últimos cem anos como também funcionasse como uma radiografia para uma sociedade que passou a primeira metade do século cultivando uma nova altivez e nobreza, ao alcance de todos, e a segunda metade remexendo nas próprias entranhas enquanto perguntava-se o que havia acontecido de errado. David Foster Wallace completava 34 anos no mesmo fevereiro de 1996 que via o lançamento de sua obra-prima precoce, o exaustivo e enciclopédico romance Infinite Jest, que finalmente é lançado no Brasil, como Graça Infinita. O título não é retirado apenas de uma frase qualquer de Shakespeare, mas do momento em que Hamlet encara o crânio sem vida de Yoruck que comumente associamos ao monólogo em que nos encontramos com o “ser ou não ser”. Em vez disso, o príncipe dinamarquês confronta a ossada do bobo-da-corte e contempla-a. “Ah, pobre Yorick!”, suspirava o personagem, “uma pessoa de infinita graça, da mais fina fantasia, carregou-me às costas umas mil vezes, e agora, quão abominável me parece.” A caveira na capa da edição brasileira escancara a sutil constatação hamletiana sobre os EUA.
No livro homônimo, Graça Infinita é um filme experimental realizado pelo senhor James Orin Incandenza Jr., que antes de dedicar-se ao cinema, era especialista em óptica, fundou a Academia de Tênis Enfield e cometeu suicídio enfiando a própria cabeça num microondas. Mas ao contrário de outros filmes que produziu, Graça Infinita – que também é conhecido apenas como Entretenimento ou “samizdat” – era considerado perigoso por induzir seus espectadores a um estado de desinteresse por tudo que não fosse o próprio filme – uma degradação psicológica que inevitavelmente levava à morte.
Eis o objetivo de uma caçada estática conduzida pelas mais de mil páginas de um único romance, em que notas de rodapé ao final do livro tomam conta de nada menos que cem outras páginas. É um calhamaço de dimensões atordoantes que não deixa barato ao ser desbravado: David Foster Wallace nos conduz por montanha russa de estilos, habitada por personagens verborrágicos em monólogos de frases gigantescas. Quase não há parágrafos e a sensação de estar à deriva em um mar de palavras é constante. É um livro mais extenso do que os longos romances russos – e que a própria Bíblia.
Graça Infinita nos apresenta aos Estados Unidos de um século 21 em que não houve um 11 de setembro, em que o consumismo, a publicidade e o mercado de entretenimento deformaram de vez a América do Norte. Não há nem mais os Estados Unidos como o conhecemos e sim uma mutação entre a Alca e a Otan chamada Organização das Nações da América do Norte (referida apenas como Onan – isso mesmo). Neste novo país, não existem preocupações ecológicas e todo o lixo tóxico é catapultado na antiga região da Nova Inglaterra, no nordeste dos antigos EUA. Os anos não são mais referidos com a numeração tradicional e são vendidos às marcas que pagarem mais – e assim os primeiros anos do século em que vivemos são referidos como “o ano do Whopper”, “o ano do Frango Maravilha Perdue” ou “o ano da fralda geriátrica Depend”.
Neste mundo habitam dois personagens que acompanharemos pelas centenas de páginas: o prodígio no tênis Hal Incandenza, filho caçula do autor do filme, e o ex-viciado Don Gately, que habitam dois universos diferentes – a já citada Academia de Tênis Enfield e a Casa Ennet de Recuperação de Drogas e Álcool. Através dos dois visitamos duas dos principais prazeres da escrita de David Foster, o tênis e reuniões de Alcóolatras Anônimos, situações que viveu pessoalmente. A primeira por ter sido, ele mesmo, um jovem tenista, o que garante páginas e páginas do esporte por escrito, por vezes exaustivas como uma partida no saibro. E Wallace começou a frequentar reuniões do AA não por causa da bebida, mas por seu vício passivo em assistir televisão. A partir das reuniões ele pode perceber as transformações em diferentes personagens, além da relação da América do século 20 com qualquer tipo de dependência – sendo o consumismo e o entretenimento de massas duas de suas principais manifestações. Os dois personagens, paralelamente, ainda fazem o leitor passear por descrições sobre todo o tipo de drogas e efeitos diretos ou colaterais, como se parte do autor fosse habitada por William Burroughs e Hunter Thompson.
Mas não se engane: não são os únicos temas de Graça Infinita. Seu número assustador de páginas funciona como uma passarela para Wallace desfilar seus extensos conhecimentos em áreas completamente diferentes, além de costurá-los com observações inusitadas e frases deliciosamente escritas. E aqui é possível perceber seu parentesco com Thomas Pynchon, Kurt Vonnegut, Don DeLillo, William Gaddis e John Barth. Por mais que atravesse sagas maçantes ou procedimentos burocráticos, ele sempre o faz de forma elegante e exagerada, eloquente e exaustiva – às vezes de todas estas formas. Em seu segundo romance, David Foster Wallace exibe uma maestria típica dos grandes nomes da literatura pós-moderna norte-americana, encarnando, no papel, a “literatura da exaustão” do manifesto de Barth.
E entre relatos intermináveis e narradores implacáveis, acompanhamos Hal e Don em busca do tal filme mortal, cada um com suas próprias motivações, enquanto seguimos o grupo terrorista separatista de Quebec Les Assassins des Fauteuils Rollents, cujos integrantes sem pernas querem usar Graça Infinita como arma. Entre estes personagens há centenas de outros, desde a família Incandenza aos alunos da Academia de Tênis, passando pelos pacientes da Casa Ennet – todos falando sem parar sobre todo tipo de assunto.
O sentimento de desamparo e solidão da leitura interminável ao ser contraposto à avalanche de descrições detalhadas, teses fundamentadas e muito material técnico transforma o próprio livro numa provocação em si mesmo e fica evidente o metadesafio encarado pelo autor. Ao contrário do filme que o batiza, Graça Infinita não induz o leitor à catatonia passiva – é uma missão a ser cumprida, uma aventura racional (até demais) num bizarro mundo de letras. “Queria fazer um livro triste”, disse o autor em entrevistas dadas à época do lançamento, frisando que era a tristeza que afluía quando não se há mais motivo para buscar-se a felicidade, a principal motivação dos cidadãos norte-americanos.
O grande rei pálido
Como o criador de Graça Infinita, o filme, o autor de Graça Infinita, o livro, também deu fim à sua própria vida. David Foster Wallace havia parado de tomar as medicações para depressão e já havia tentado o suicídio no início de 2008, mas no dia 12 de setembro daquele ano, foi para a garagem de sua casa, em Claremont, na Califórnia, escreveu uma carta de duas páginas, deixou arrumado o manuscrito de seu livro mais recente, o inacabado The Pale King, amarrou seus braços e se enforcou. Tinha 46 anos e sua morte consagrava de vez um dos principais novos nomes da literatura norte-americana da virada do século.
Graça Infinita foi seu maior feito artístico, mas estava longe de ser o único. Além do livro com mais de mil páginas, ele escreveu apenas outros dois romances, The Broom in the System (que o lançou em 1987) e o póstumo The Pale King, que concorreu ao Pulitzer do ano em que foi lançado, 2011. Além destes três livros, ainda lançou três coletâneas de contos: Girl with Curious Hair (1989), Brief Interviews with Hideous Men (1999) e Oblivion: Stories (2004).
Sua figura caricata e sempre usando uma enorme bandana na cabeça contrastava com a personalidade tímida e quieta que mal sabia se comportar em entrevistas. Rato de biblioteca, Wallace foi criado por pais acadêmicos, além de ter sua vida na universidade, inclusive como professor.
Contratado como escritor freelance, David Foster Wallace publicou nos principais veículos dos EUA textos sobre todo tipo de assunto: a indústria de efeitos especiais para o cinema, o atentado do 11 de setembro, um festival de lagostas no Maine e muito tênis. Seu artigo sobre o tenista Roger Federer para o New York Times em 2006 (“Roger Federer as a Religious Experience”) é um dos grandes textos deste século.