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Um festival ornitorrinco

O tal festival No Line Up, que uma cerveja bancou neste sábado de graça para 2500 pessoas em São Paulo poderia ter sido bem melhor se não tivesse sido feito tão às pressas. E por mais que tenha dado palco para shows memoráveis, era uma espécie de ornitorrinco, um mamífero que bota ovos, que é tão estranho quanto simpático, mas está longe de ter a exuberância que poderia ter. Tudo bem não querer revelar o elenco, mas então por que espalhar dicas sobre os artistas pouco antes de um evento que já teve problemas para distribuir os ingressos? Essa indecisão também estava presente durante o festival, que poderia ter avisado sobre os horários dos shows à entrada, mesmo sem revelar os artistas, preparando o público para as trocas de palco. O público no geral parecia ser de convidados da marca e em quase todos os shows pessoas desinteressadas na música conversavam sem parar – o que foi péssimo para as atrações do palco principal (foi triste ver a indiferença do público ao TV on the Radio, por exemplo) à exceção da deslumbrante Chaka Khan, que hipnotizou a todos e valeria o evento por si só. Esse desinteresse do público pelos shows funcionou sem querer para as atrações do pequeno palco Noise, que era tão escondido que poucos sabiam onde era, tornando-o refúgio para quem estava interessado em música, recebendo shows sensacionais do Metá Metá, do Negro Leo e o absurdo show do Thalin, que montou uma senhora banda para fazer um dos melhores shows da noite. O palco intermediário sofreu com o som, que só se salvava quando se chegava mais perto do palco. A duração extensa prejudicou a possibilidade de mais gente assistir ao Don L (que foi muito cedo) ou ao DJ set da Arca (no fim de tudo) e Mano Brown deveria ter ido para o palco principal no lugar da insuportável Tierra Whack. Mas dada as condições, o festival foi melhor do que o desastre que poderia ser e com um planejamento menos improvisado (que tal menos artistas pra mais público tocando em menos tempo?) poderia fazer bonito mesmo. Pelo menos a maioria dos artistas escolhidos seguraram bem a noite, o que é ponto para a curadoria. Tomara que tenha outro ano que vem.

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Um festival de música que não conta quem vai tocar

Vocês viram que semana que vem tem mais um festival em São Paulo – e dessa vez ninguém sabe quem vai tocar. O No Line-Up Festival é um evento assinado pela cerveja Heineken, que trará 15 atrações em doze horas de shows, no próximo dia 25, na Fábrica de Impressões, na Barra Funda, em São Paulo. A ideia de fazer um evento sem contar quem serão as atrações parece apenas uma daquelas sacadas de publicitário pra tentar colocar a experiência à frente das atrações, mas com a curadoria assinada pelo jornalista Lúcio Ribeiro (que faz o Popload Festival) e pelo dramaturgo Felipe Hirsch (que também é curador do C6 Fest) há um mínimo de segurança de atrações convincentes e contemporâneas, puxando mais prum lado indie e dance, do que pra outros gêneros musicais, embora possa ter um pouquinho de música queer e um tanto de rap também. Outra vantagem é que o festival é gratuito e é preciso se inscrever no aplicativo do evento para garantir os ingressos. Tem uma graça nesse formato que é a possibilidade de assistir a shows de artistas virtualmente desconhecidos, sem precisar que a popularidade ou o hype balizem o evento. Nesse sentido, ele pode se tornar o extremo oposto de um publifestival, quando o público será apresentado aos nomes na hora em que os artistas subirem no palco. É uma confiança quase cega na curadoria – que se acertar pode fidelizar o público de um jeito bem interessante – e que exige que o público entre de coração aberto para a novidade. Mas ao mesmo tempo é uma faca de dois gumes, pois qualquer deslize pode botar tudo a perder. A ver.