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BaianaSystem + Nação Zumbi!

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Duas das maiores potências sonoras do Brasil, BaianaSystem e Nação Zumbi unem forças no single “Alfazema”, lançado neste dia de Iemanjá.

E o soundsystem baiano injetou aquela dose de energia que parece ter tirado a Nação de uma aparente letargia musical. Será que pintam mais parcerias entre os dois grupos?

25 discos brasileiros para o segundo semestre de 2017

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Eis os 25 brasileiros escolhidos na categoria melhor disco do segundo semestre deste ano pelo júri da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), do qual faço parte.

1) Apanhador Só – Meio Que Tudo é Um
2) Baco Exu do Blues – Esú
3) Barbara Eugenia e Tatá Aeroplano – Vida Ventureira
4) Chico Buarque – Caravanas
5) Djonga – Heresia
6) Edy Star – Cabaré Star
7) Far From Alaska – Unlikely
8) Flora Matos – Eletrocardiograma
9) Guilherme Arantes – Flores e Cores
10) João Bosco – Mano Que Zuera
11) Letrux – Em Noite De Climão
12) Linn da Quebrada – Pajubá
13) Maglore – Todas as bandeiras
14) Nação Zumbi – Radiola NZ
15) Negro Leo – Action Lekking
16) Nina Becker – Acrílico
17) Os Paralamas do Sucesso – Sinais do Sim
18) Otto – Ottomatopeia
19) Pato Fu – Música de Brinquedo 2
20) Paulo Miklos – A Gente Mora No Agora
21) Rimas & Melodias – Rimas & Melodias
22) Rodrigo Ogi – Pé no Chão
23) Tiê – Gaya
24) Tim Bernardes – Recomeçar
25) Vitor Ramil – Campos Neutrais

É a segunda lista de discos que soltamos este ano – a do primeiro semestre pode ser lida aqui. O júri é composto por mim, José Norberto Flesch e Marcelo Costa e o Pedro a publicou em primeira mão linkando todos os discos para ouvir em seu blog no Estadão.

Nação Zumbi tocando Specials

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“A gente sempre curtiu Specials, muitas pessoas não notam”, me explica Jorge du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, sobre a versão que a banda fez para “Do Nothing”, dos Specials, mais uma versão de seu disco Radiola NZ, que chega às plataformas digitais nessa sexta-feira, e que a banda descolou em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo, bem como a capa do disco, feita pelo artista gráfico Shiko.

Além de Specials, Secos e Molhados e da versão para “Refazenda” do Gilberto Gil, o disco ainda contará com versões para “Não Há Dinheiro Que Pague” de Roberto Carlos, “Tomorrow Never Knows” dos Beatles (que o grupo já toca ao vivo há tempos), “Sexual Healing” de Marvin Gaye, “Dois Animais na Selva Suja da Rua” do Taiguara, eternizada por Erasmo Carlos, “Balanço” de Tim Maia) e “Ashes to Ashes” (David Bowie). “E é o volume 1, vamos fazer outros discos de versões no futuro, com tempo”, explica o vocalista.

Cinco discos para o Cultura Livre

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A Roberta Martinelli me chamou pra escolher cinco discos para o quadro Cinco Sons, de seu programa Cultura Livre, e eu escolhi seis, misturando Nação Zumbi, Lô Borges, Arnaldo Baptista, Curumin, Elis Regina e Otto numa seleta de álbuns clássicos da música brasileira.

Tudo Tanto #33: Você samba de que lado?

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Escrevi sobre a onipresença do samba, este fator de unificação nacional, na minha coluna Tudo Tanto na edição de julho da revista Caros Amigos.

Você samba de que lado?
Cem anos depois, o gênero que ajudou a disfarçar o racismo brasileiro e a unificar o país como nação sobrevive à espreita

Alexandre Matias

Essa cena: “Por volta das nove da noite, cerca de 150 homens, funcionários da prefeitura municipal, municiados de marretas, alavancas e pé de cabra, obedeceram à voz de comando e arremeteram contra o alvo. O bruxulear dos archotes usados para iluminar a operação militar conferia maior dramaticidade à cena. Uma multidão, contida ao largo pelo contingente armado, assistia à distância, como um espetáculo sinistro, a destruição madrugada adentro. O elemento surpresa impediu possíveis reações organizadas por parte dos desalojados. Em meio à barulhenta penumbra, homens, mulheres e crianças, antes encafuados nos desvãos dos pequenos imóveis, corriam atônitos pelas ruelas tentando salvar um ou outro pertence tido como mais valioso: colchões, alguns poucos móveis, trouxas de roupa, tralhas de cozinha. Na manhã seguinte, no entanto, sob o sol do verão carioca, foi possível constatar o tamanho do estrago: nada escapara à demolição. Resto, no local, apenas uma montanha poeirenta de entulho.

‘Foi um espetáculo bonito’, definiu um dos jornais de maior circulação à época, O Paiz. ‘A impressão moral daquele feito era como se aos golpes ruidosos, em vez de rolarem pedras, rolassem crenças, ruíssem tradições’, analisou o matutino. Outra publicação, O Tempo, foi mais explícita: ‘Metemos uma lança em África, espostejando a Cabeça de Porco’. A imprensa foi unânime em glorificar a ‘medida civilizatória’ imposta à paisagem da cidade pelo primeiro prefeito da história do Rio de Janeiro, Cândido Barata Ribeiro, médico e intelectual baixinho, magricela e míope, de testa larga e barbas longas, um dos nomes mais proeminentes do movimento republicano brasileiro.

Essa cena aconteceu no dia 26 de janeiro de 1893 e foi recriada pelo escritor cearense Lira Neto, biógrafo de Getúlio Vargas e do Padre Cícero em dois grandes épicos (os três volumes de Getúlio e o tomo único Padre Cícero – Poder, Fé e Gueera no Sertão), como um dos momentos iniciais de seu novo desafio, contar “a história do samba moderno urbano”. O livro Uma História do Samba – As Origens foi publicado no início do ano pela Companhia das Letras (editora dos outros livros do autor) é o início de uma nova trilogia, que pretende mostrar como o gênero, que antes ser estilo musical era sinônimo de festa, barulho e confusão no final do século 19, firmou-se entre a elite e as classes populares brasileiras, saiu do submundo onde era tratado como fora da lei e tornou-se popular a ponto de se tornar um fator de unificação nacional.

Lira Neto na verdade joga uma lupa sobre o tal “mistério do samba”, iluminado pelo antropólogo Hermano Vianna no livro de mesmo nome, lançado em 1995 pela editora carioca Jorge Zahar. Neste volume, Hermano parte de um “noite de violão” em 1926 que reuniu, sob o mesmo teto, os sociólogos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda (ambos já matutando ideias que paririam os dois livros que os tornam clássicos da cultura brasileira, respectivamente Casa Grande e Senzala, de 1933, e Raízes do Brasil, de 1933), o músico Heitor Villa-Lobos e os sambistas Pixinguinha, Patrício Teixeira e Donga. “O encontro”, título do primeiro capítulo da publicação, é o ponto de partida para entender como o samba deixou de ser criminoso e maldito para se tornar aceito, amado e entrado na textura da noção de nacionalidade brasileira.

Pois o samba era vil, visto como sendo de mau gosto, chulo, fora da lei – “eufemismos” dados para o ponto central da questão: o samba era negro. A recente abolição dos escravos obrigou a elite brasileira a conviver com os ex-escravos sem a hierarquia do regime escravocrata e a solução para continuar esta ascendência era enquadrá-lo em outra lei – a da vadiagem. Sambistas eram negros, negros eram sambistas: o samba, portanto, era diagnóstico de que algo não estava bem – para a elite, essencialmente racista.

A cena descrita no início do texto não é apenas pesada – ela é atual. Fora a iluminação policial (embora lanternas no escuro deem tanta dramaticidade quanto archotes), a destruição do enorme cortiço conhecido como Cabeça de Porco ou Pequena África no Rio de Janeiro é das inúmeras “reintegrações de posse”, neologismo orwelliano para aplacar o impacto real da situação, em que famílias inteiras veem seus lares sendo devastados pela truculenta força militar para que abram-se alas para o progresso. Quantos morros, favelas e quebradas não sucumbiram a esse trator racista durante todo o século passado – até hoje?

Mas impressiona mesmo a reação aberta contra as origens africanas de uma nova cultura popular. Vianna descreve a chamada “belle époque carioca, período no qual muitos autores identificavam uma total separação entre a cultura das elites e a cultura popular no Rio de Janeiro”, em seu Mistério do Samba. “Essa é, por exemplo, a opinião de Jeffrey Needell, para quem na belle époque ‘tropical’, que vai de 1898 a 1914, a tendência dominante era de ‘pôr um fim ao Brasil antigo, ao Brasil ‘africano’, que ameaçava suas pretensões à sofisticação, apesar de se tratar de uma África bem familiar à elite’ (Needell, 1993: 77). Essa também é a opinião de Mônica Velloso, que escreve em As Tradições Populares na Belle Époque Carioca: ‘o endeusamento do modelo civilizatório parisiense é concomitante ao desprestígio das nossas tradições (…) Mais do que nunca, a cultura popular é identificada com negativismo, na medida em que não compactuaria com os valores da modernidade’ (Velloso, 1988: 8/9). E continua: ‘Nos salões da moda, nos cafés e conferências literárias, a referência ao nativo atinge o máximo de desqualificação’ (Velloso, 1988: 17).”

Um país racista que disfarçou seu racismo glorificando uma música (e uma cultura) antes tida como pobre e negra. O racismo brasileiro não pode ser dito – afinal, todos sambam.

E mais de um século depois o samba persiste, seja como trilha sonora de comercial de cerveja, no palco globa do carnaval e em nichos como o novo disco de Criolo (Espiral de Ilusão, dedicado ao gênero), no novo de Rodrigo Campos (Sambas do Absurdo, ao lado de Juçara Marçal e Gui Amabis), o heróico reconhecimento póstumo de Almir Guineto na Folha de S. Paulo (descrito pelo Bernardo Oliveira, do selo Quintavant) ou na celebração dos vinte anos do disco Afrociberdelia, da Nação Zumbi, que repete insistente a pergunta sobre “de que lado você samba?”. Ele sobrevive matreiro, à espreita, pronto para chegar. E sempre chega.

Vida Fodona #557: Muita música de 2017

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Demorou, mas eis o primeiro VF de maio…

Beto Cajueiro – “Sistema da Vida”
Boogarins + John Schmersal – “A Pattern Repeated On”
War on Drugs – “Thinking of a Place”
Haim – “Right Now”
Fleet Foxes – “Fool’s Errand”
Ney Matogrosso + Nação Zumbi – “Amor”
Black Lips + Yoko Ono – “Occidental Front”
Angel Olsen – “Who’s Sorry Now”
Whitney – “You’ve Got A Woman”
Tiê – “Mexeu Comigo”
Amber Coffman – “No Coffee”
Lana Del Rey + Weeknd – “Lust for Life”
Johnny Jewell – “Stardust”
LCD Soundsystem – “American Dream”
PJ Harvey – “A Dog Called Money”
Curumin – “Boca de Groselha”
Rincon Sapiência – “Ponta de Lança (Verso Livre)”
BaianaSystem + Yzalú – “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”

Ney Matogrosso + Nação Zumbi: “Suave coisa nenhuma”

Já é uma tradição do palco Sunset, do Rock in Rio, reunir diferentes nomes da música que nunca trabalharam juntos num mesmo show. O encontro da Nação Zumbi com Ney Matogrosso é uma das promessas da edição deste ano e os dois acabam de lançar a versão que fizeram para “Amor”, clássico dos Secos e Molhados:

A conexão, no entanto, ficou aquém do esperado. A junção entre os vocais de Jorge Du Peixe e Ney deixou ambos deslocados, como coadjuvantes em busca de um protagonista, e a guitarra pesada de Lucio Maia dá uma conotação errada para o verso “suave coisa nenhuma” imortalizado pela canção. Acho que se enfatizassem no lado mais doce e bucólico do disco mais recente da Nação e deixassem claro que Ney é a estrela do encontro (como ele é em qualquer situação em que esteja), as coisas fluirem melhor e soariam mais fluidas. Tomara que azeitem melhor isso.

Siba e Nação Zumbi juntos na Troça Elétrica

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Dois ícones da música pernambucana se reúnem para brincar o carnaval paulistano no Vale do Anhangabaú, quando a Naçao Zumbi recebe Siba para a segunda edição de sua Troça Elétrica: “As troças carnavalescas são agremiações onde amigos se juntam para saírem pelas ruas animando os foliões com instrumentos acústicos e estrutura menor que os grandes blocos de carnaval”, explica o baterista da Nação, Pupilo. O termo “troça” escancara o aspecto zombeteiro da brincadeira, que a Naçao transformou em uma versão elétrica no ano passado.

“A primeira edição aconteceu em 2016, no Rio de Janeiro, com a participação da banda Eddie e a Orquestra de Frevo Henrique Dias. O intuito é fazer de forma intinerante para interagir e ajudar a formatar o carnaval em outras cidades”, continua o baterista, que explica a conexão com o convidado deste ano, Siba. “Siba é um amigo e parceiro de longa data. É um folião e uma figura importante no resgate da cultura popular, inclusive no carnaval, com um trabalho maravilhoso junto aos maracatus rurais da zona da mata pernambucana.” Além de Siba, a Orquestra de Frevo Henrique Dias repete sua participação.

A Troça Elétrica de 2016 (Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções)

A Troça Elétrica de 2016 (Foto: Alfredo Alves/Dom B Produções)

Mas a brincadeira não disfarça o tenso clima político pelo qual o Brasil atravessa, pauta dos dois artistas, que não deve ficar de fora do carnaval: “A arte sempre estará pronta para apontar e se manifestar contra o que é nocivo ao povo. Mas é preciso construir algo que saia do campo das manifestações e entre na consciência política como um fator de mudanças concretas. Estamos orfãos de lideranças com capacidade intelectual para nos representar lá onde as decisões são tomadas.”

A edição deste ano da Troça Elétrica acontece neste domingo, dia 19, no Vale do Anhangabaú, a partir das 19h e a entrada é gratuita. Mais informações aqui. O grupo também faz outra versão da Troça na quinta-feira antes do carnaval, desta vez no Recife, ao lado do grupo Bixiga 70 (mais informações aqui).