E o Pitchfork mostrou ao mundo a segunda música dos Mutantes no século 21. Felizmente, “Teclar” passa longe da pavorosa “Mutantes Depois“, a primeira música que o grupo – Sérgio Dias, no fim das contas – se empolgou em lançar. Se fosse lançada sem a chancela dos Mutantes, a nova faixa até passaria tranqüila, não é boa, mas também não é ruim – o que, em perspectiva, é uma senhora evolução. E ainda acena para esta nova psicodelia que vem surgindo à medida em que o MGMT deixa de ser assimilado como mera picaretagem de gravadora (a letra e a cítara têm uma vaibe muito cantina de escola de arte). O problema é que, mais do que em insistir no próprio passado como opção de presente, a banda insiste em reveberar a antiga sonoridade dos tempos da Rita Lee para os dias de hoje. Não faz o menor sentido – quer ser psicodélico, seja; mas deixe o passado no passado. O melhor exemplo, nesta nova faixa, é o arranjo de vocais, que tenta emular os belos jogos de voz do grupo, como em “Technicolor”, mas que deixa “Teclar” com cheiro daqueles grupos vocais brasileiros do início dos anos 80 (feliz é você que não conheceu um tempo em que o pop nacional, pré-rock da década de 80, era composto por “bandas de MPB”, como 14 Bis, Boca Livre, A Cor do Som, Rumo e Roupa Nova – e olha que eu gosto dessas bandas…).
O verão de 1972 em Salvador foi um dos mais efervescentes que se tem noticia. Em plena ditadura militar as coisas aconteciam num universo paralelo e a malucada sabia onde encontrar diversão e alternativas para o ambiente cinzento do Brasil da era Garrastazu Médici.
Andando pelas ruas do centro da cidade, cartazes colados nas paredes anunciavam um show dos Mutantes para o dia 28 de fevereiro daquele ano na Concha Acústica do Teatro Castro Alves e eles chamavam a atenção não apenas pelo colorido das letras, mas pela atração anunciada e pelo aviso que dizia: “1000 watts de puro som”. O burburinho daquela apresentação correu rápido naquele final do verão do underground.
Nesta altura dos acontecimentos, Rita Lee já tinha caído fora do grupo depois da gravação do LP Mutantes & Seus Cometas no País dos Baurets e de se separar de Arnaldo Baptista. Sem ela, o grupo mantinha a sua formação clássica com o próprio Arnaldo nos teclados e no vocal, seu irmão Sérgio Dias na guitarra e vocais, Liminha no baixo e Dinho na bateria..
O show estava marcado para as 21 horas e as arquibancadas da Concha já estavam completamente lotadas com mais de uma hora para o seu início. As encostas da Concha ali pelos fundos das Sacramentinas estavam repletas de invasores que pularam o muro do colégio e para lá se dirigiram.
Uma incrível ansiedade pairava no ar. As luzes da platéia se apagam, as luzes do palco se acendem e quando os Mutantes surgem o público vibra e fica de pé. Arnaldo com uma camisa de listras horizontais pretas e brancas se dirige ao teclado e fala ao microfone um sonoro “boa noite”. Dinho inicia uma marcação inacreditável, os vocais puxam “uláriii…uláriiii”… e a banda vai atrás. “Top top”. Pronto, o rock´n´roll baixou de com força na terra da magia e ninguém mais ficou parado. Os hits se alternavam e aqueles anunciados 1000 watts de puro som se confirmavam a cada segundo. Tudo perfeitamente equalizado – instrumental e vozes, e o carisma da banda impressionava todos os presentes.
O repertório selecionado a dedo não deixava a peteca cair. “Balada do Louco”, “Minha Menina”, “2001”, “Dunne Buggy”, “Não Vá Se Perder Por Aí”, “It’s Very Nice Pra Chuchu”, “Batmacumba”, “Panis et Circenses”, “Beijo Exagerado” e chegava ao ponto de ebulição com “Ando Meio Desligado”, “Posso Perder Minha Mulher Minha Mãe Desde Que Eu Tenha o Rock and Roll” sendo que esta era emendada com um medley de rockões antigos: “Blue Suede Shoes”, “Jailhouse Rock”, “Rua Augusta”, “Banho de lua”, “Johnny B. Goode”. Durante o show eles também inseriam covers: coisas dos Beatles, Stones, “You’re So Vain” de Carly Simon, “Listen To The Music” do Doobie Brothers, “Angel” de Hendrix. A banda não escondia a emoção pela calorosa recepção que recebia e alguns mais afoitos e doidões não hesitavam em pular de cabeça naquela rasa piscininha da Concha que separava o público do palco.
Dava para perceber que os caras da banda estavam completamente chapados e Arnaldo era o que dava mais bandeira. E já perto do final da apresentação quando eles tocavam “Meu Refrigerador Não Funciona”, ele começou a balançar violentamente a torre de teclados, moogs, mellotrons que se equilibravam numa base de um órgão Hammond. Os roadies corriam para segurar e Arnaldo, então, parecia se acalmar.
O show já tinha passado das três (!) horas de duração quando os Mutantes, depois de vários bis e voltas sucessivas ao palco, anunciaram a última música. O publico dançava e a banda dava tudo de si. E aí o Arnaldo num solo alucinado novamente começa a balançar a torre de teclados e desta vez nem deu tempo dos roadies se aproximarem. Tudo se espatifou no chão e o ruído provocado por isto se encaixava no som.
Arnaldo apanha uma vassoura largada ali por algum servente, a levanta e dá “voltas olímpicas” em torno do palco. Corre em direção ao equipamento que ele tinha derrubado e pisa e pula sem parar sobre eles. Os Mutantes continuavam mandando ver, os roadies também dançavam no palco, a platéia urrava de emoção. O show acaba. As luzes se apagam.
Poucos meses depois, a notícia: Arnaldo deixava os Mutantes por problemas de “saúde”. E, ali sim, a banda perdia sua força musical principal. Talvez seja precipitado afirmar isso, mas, certamente, aquela apresentação dos Mutantes em 28 de fevereiro de 1972, em plena Concha Acústica do Teatro Castro Alves tenha sido a mais memorável da carreira deles. Para mim, pelo menos, foi o melhor show que vi em minha vida. Uma espécie de iniciação ao que significa presenciar um verdadeiro concerto de rock´n´roll. E olhe que eu já assisti muito show bacana.
Já viram esse curta rodado em 1970 com a banda circulando pela cidade?
O curta foi dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, que dirigiria mais tarde a clássica pornochanchada existencialista Espelho de Carne (também conhecido como o filme em que o Dênis Carvalho perde o roscofe pro Daniel Filho numa mesa de poquer).
No ano passado, o Márcio e a Carol me convidaram pra conhecer a Discoteca Oneyda Alvarenga, que funciona ali no Centro Cultural Vergueiro. Além da visita, eles aproveitaram para bater um papo comigo sobre discos velhos para o programa Crônicas de Toca-Discos – e como eu não tenho essa onda de conhecedor de vinil ou arqueólogo de edições anteriores (me importo mais com o conteúdo do que com o suporte), preferi buscar por uns discos que pudessem servir de base para comentários sobre o que está acontecendo hoje na música enquanto indústria e como funcionavam engrenagens antigas desse negócio no Brasil, além de ceder inevitavelmente a momentos de nostalgia. No som, Beatles, Chico Buarque, Originais do Samba, Ritchie, Fevers, Velvet Underground, Plunkt Plact Zum, Baiano e os Novos Caetanos e Mutantes.
Falando em Rita Lee anos 70, muita gente já ouviu falar mas pouca gente ouviu o disco do primeiro projeto solo de Rita logo que saiu dos Mutantes. Enquanto os meninos brincavam de rock progressivo nos idos de 72, Rita, entediada, procurava o que fazer – e a idéia original de seu projeto paralelo era uma banda formada apenas por mulheres. Sem conseguir concretizar a idéia, ela juntou-se com a amiga Lúcia Turnbull e juntas formaram a dupla Cilibrinas do Éden, cuja estréia foi agendada para o dia da inauguração do palácio de convenções do Anhembi e o show foi um desastre, graças ao fato do público ser basicamente dos Mutantes (que tocavam rock pesado, longe do som light da dupla) e porque Lúcia, ao ver a multidão, travou de medo no palco.
Mesmo com o fiasco do show de estréia, a dupla gravou um disco que, depois de pronto, foi engavetado. O disco não é um primor como tudo que vinha com o selo de qualidade Mutantes da época e parece mais uma brincadeira de meninas com rock’n’roll do que propriamente um disco de verdade. O grande momento é, de longe, “Mamãe Natureza”, que Rita regravaria discos mais tarde, com o Tutti Frutti – banda que, aliás, é quem toca com as Cilibrinas em seu único álbum. Entre o glam rock, experimentalismo de araque (dá-lhe theremin!), musicalidade beatle e simpatia juvenil, Cilibrinas do Éden é um disco simpático e divertido, como deve ser um projeto paralelo. A lenda diz que o disco foi suspenso pelo próprio André Midani – o que levou Rita a juntar-se com outro recém-desafeto do produtor sírio-francês, Tim Maia, e destruir o escritório do executivo da gravadora. Mas boa parte do repertório do disco foi aproveitado por Rita em outras situações: “Nessa Altura dos Acontecimentos” apareceu em uma coletânea no início dos anos 80, “Bad Trip” virou “Shangri-lá” anos depois, “Mamãe Natureza” foi a única música aproveitada no disco seguinte de Rita, Atrás do Porto tem uma Cidade, “Gente Fina é Outra Coisa” virou “Locomotivas”.
Essa faixa, inclusive, tem uma história engraçada com a censura da época. Sua letra (“Não vá se misturar/ Com esses meninos cabeludos que só pensam em tocar/ E você escuta o papai dizendo/ Que gente fina é outra coisa… Hoje mesmo te vi/ pensei que fosse seu pai/ Não, não, não, mas que decepção/ Eu fiquei triste de ver/ A sua vida começando pelo lado errado”) foi interpretada da segunte forma pelo censor José do Carmo Andrade num documento de 30 de agosto de 1973: “Na letra em exame, uma jovem insurge-se contra o pátrio-poder, ao tentar persuadir um amigo a desacreditar de seu pai para juntar-se a um grupo juvenil de comportamento duvidoso. A mensagem é negativa e induz aos maus costumes”.
Mas não ter sido lançado oficialmente fez com que o disco ganhasse aspectos de culto e ares mitológicos, que não fazem jus à qualidade nada épica do disco – que foi relançado ano passado na Europa em vinil e em CD, graças à iniciativa de um grupo de brasileiros morando no exterior. O mesmo grupo também montou um MySpace para o disco, que ainda conta com informações sobre a banda Persona, o grupo de Lee Marcucci e Luís Carlini que depois se tornaria o Tutti-Frutti. O versão européia do disco das Cilibrinas ainda conta com duas faixas extra: uma demo para “Hoje é o Primeiro Dia do Resto de sua Vida”, do último disco que Rita gravaria com os Mutantes, e “Mande um Abraço para Velha”, da fase final do grupo, que só saiu em compacto.
Britney Spears – “If U Seek Amy”
Rita Lee & Os Mutantes – “Amor Branco & Preto”
Marcelo D2 – “Vem Comigo Que Eu Te Levo Pro Céu”
Mallu Magalhães – “O Preço da Flor”
Little Joy – “Unattainable”
Johnny Pate – “Brother on the Run”
Belle & Sebastian – “Like Dylan in the Movies”
She & Him – “Why Do You Let Me Stay Here?”
Fleet Foxes – “Quiet Houses”
Black Keys – “Strange Times”
A-Trak – “Say Whoa”
Hot Chip – “Touch too Much (Fake Blood Remix)”
Franz Ferdinand – “The Fallen (Justice Remix)”
DJ Earworm – “Funky Goes to Hollywood”
R.E.M. – “Near Wild Heaven”
Lykke Li – “Dance, Dance, Dance”
Black Lips – “I Saw a Ghost (Lean)”
Vaselines – “The Day I Was a Horse”
Ladyhawke – “Dusk Till Dawn”
Guns N’Roses – “Chinese Democracy”
É isso aí: uma pincelada rápida nos shows que se passaram, algumas músicas novas e Vida Fodona novo só daqui há duas semanas. Até lá!
Jesus & Mary Chain – “Snakedriver”
Caetano Veloso- “Olha o Menino”
Spoon – “I Turn My Camera On”
Kaiser Chiefs – “Never Missed a Beat (Cut Copy Remix)”
R.E.M. – “Electrolite”
Peggy Lee – “Spinning Wheel”
TV on the Radio – “Crying”
Of Montreal – “Wicked Wisdom”
Why? – “The Vowels Pt. 2″
Birthday Party – “Big Jesus Trash Can”
Fireman – “Sun is Shining”
Medeski Martin & Wood – “Muchas Gracias”
MGMT – “Love Always Remains”
Bon Iver – “Team”
Mutantes – “Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo”
Aproveitando o lançamento do documentário sobre o Arnaldo Baptista, fiz um VF Soundsytem dedicado a um dos meus artistas brasileiros favoritos. Arnaldo é mais do que um mito para mim, é um referencial pop tão importante quanto Syd Barrett ou Jimi Hendrix – isso em termos pessoais, claro. E o programa é só uma desculpa pra enfileirar provas do talento do cara, seja ao lado dos Mutantes ou sozinho. Não liga pros primeiros segundos em silêncio – esqueci de cortar fora do arquivo.
Arnaldo Baptista – “Não Estou Nem Aí”
Mutantes – “Ave Lúcifer”
Arnaldo Baptista – “Ciborg”
Mutantes – “Trem Fantasma”
Arnaldo Baptista – “Será Que Eu Vou Virar Bolor?”
Mutantes – “Virginia”
Mutantes – “Desculpe, Babe”
Arnaldo Baptista – “Desculpe”
Arnaldo Baptista – “Te Amo Podes Crer”
Arnaldo Baptista – “Coming Through the Waves of Science”
Arnaldo Baptista – “Bomba H Sobre São Paulo”
Arnaldo Baptista – “Vou Me Afundar na Lingerie”
Mutantes – “Beijo Exagerado”
Mutantes – “Saravah”
Mutantes – “Uma Pessoa Só”
Arnaldo Baptista – “Uma Pessoa Só”
Rita Lee – “Superfície do Planeta”
Arnaldo Baptista – “Cê Tá Pensando que Eu Sou Lóki?”
Arnaldo Baptista – “Hoje de Manhã Eu Acordei”
Arnaldo Baptista – “Sitting on the Road Side”
Arnaldo Baptista – “É Fácil”
Mutantes – “Dom Quixote”
Mutantes – “Dia 36″