“Isso não é um mashup, isso é um manifesto!”, escreve Paulo Beto, o mentor do Anvil FX, na descrição do curto clipe “Bossa Morta (João Gilberto is Dead)”, que publicou nesta sexta-feira, ao sobrepor “Garota de Ipanema” na voz e violão de João Gilberto sobre a bateria, guitarra e efeitos que abrem o marco zero da estética gótica na música pop dos anos 80, a eterna “Bela Lugosi is Dead”, do Bauhaus. Não é uma coincidência, a bateria sincopada que dá o tom de toda a música e que transforma, naquele momento, a banda de Peter Murphy numa espécie de Joy Division com quadris, é nitidamente inspirada no andamento de uma das células rítmicas mais conhecidas da história de nossa música.
Isso é maravilhoso na música, sua influência inconsciente, que se esgueira e fica (tipo “Louie Louie”, que era um cha cha cha, mas isso é outro história).
O designer norte-americano Peter Stults cogitou versões de filmes modernos refeitas com elenco e time de produção da era de ouro do cinema, criando uma galeria impressionante de filmes fictícios com grande potencial de ser foda. Dá uma sacada:
E tem muito, mas muito mais, no portfólio original do cara.
Mais um mashup do sagaz Raphael Bertazi reúne duas realidades numa mesma canção, mas desta vez Björk e Elza Soares se encontram longe da pista de dança – Elza entra com a faixa-título de seu emblemático Mulher do Fim do Mundo enquanto a islandesa comparece com sua épica “I’ve Seen it All”, tema do filme Dançando no Escuro. O título – Sambando no Escuro – é até previsível, mas o resultado é demais.
Um hit dos Talking Heads e vários spoilers da terceira temporada de Twin Peaks.
Obrigado a quem misturou os dois. Dica da Ana.
Alguém notou uma certa semelhança entre as duas aparições do Dr. Amp na nova temporada de Twin Peaks e emparelhou as duas cenas – a primeira do quinto episódio, a segunda do décimo segundo – e o resultado é de tirar o fôlego!
Pode ser só coincidência, mas não foi a primeira vez que isso aconteceu – você viu aquela cena da caixa de vidro…
Em sua participação no festival japonês Fuji Rock, o grupo Queens of the Stone Age voltou para seu primeiro clássico, o épico “Feel Good Hit of the Summer” de seu primeiro disco, depois de encaixá-lo em uma versão para “Clint Eastwood”, dos Gorillaz. Ainda bem que tinha gente da plateia filmando esse ótimo mashup.
De outro ângulo:
O episódio mais recente de Twin Peaks levou a série para perto de Júpiter, como nos lembram esses mashups que eu publiquei no meu blog no UOL.
Ainda estamos sentindo os primeiros tremores do espasmo sensorial que foi o oitavo episódio da terceira temporada de Twin Peaks – enquanto alguns tentam decifrar os códigos deixados nas entrelinhas e outros buscam o sentido metafísico em relação ao resto do seriado, muitos deixam-se levar pelo simples aspecto lúdico da exposição ao imaginário sombrio e transcendental de David Lynch e os primeiros filhotes já começam a surgir em forma de paródias, remixes e memes. Um dos melhores até agora é esse incrível mashup entre a deslumbrante cena da primeira bomba atômica ao som de “Echoes”, do Pink Floyd, na versão que o grupo tocou ao vivo em um teatro de arena nas ruínas da cidade de Pompéia, na Itália. Preciso dizer que há spoilers da série para quem não viu o episódio? Tudo bem, está dito:
Não é a primeira vez que “Echoes” se mistura a uma cena imediatamente clássica, deslumbrante e psicodélica. Os fãs do Pink Floyd devem reconhecer essa superposição genial entre a música que ocupa todo o lado B do disco Meddle e o terceiro ato do épico existencial de Stanley Kubrick, 2001 – Uma Odisséia no Espaço.
E é claro que iriam fazer o caminho de volta, recriando a cena do episódio histórico de Twin Peaks com a trilha sonora do clássico da ficção científica de Kubrick, “Réquiem para Soprano, Mezzo-Soprano, Dois Corais Mistos e Orquestra”, do compositor húngaro György Ligeti:
Já foi comentado o grau de parenteso entre as duas cenas e a trilha sonora utilizada por Lynch em sua cena original, a tensa “Threnody to The Victims of Hiroshima” do compositor polonês Krzysztof Penderecki já havia sido usada pelo próprio Kubrick em outro de seus clássicos, o filme de horror psicológico O Iluminado, de 1980. É uma composição de tirar o fôlego:
Ainda estou digerindo o episódio e devo escrever sobre seu significado em relação ao resto da série em breve.
O mashup Princess Leia’s Stolen Death Star Plans – que postei na íntegra no meu blog no UOL – é uma obra-prima pós-moderna.
Hoje é 4 de maio, o tradicional dia que os fãs da saga Guerra nas Estrelas criaram para celebrar esta religião moderna a partir de um trocadilho infame (o quatro de maio, em inglês, chama-se “May the Fourth”, que soa como o eterno lema Jedi “May the Force be with you” – “que a Força esteja com você”) e que tal revisitar a pedra fundamental da história imaginada por George Lucas pelo ponto de vista do mais clássico disco dos Beatles? Hein?
Foi o que fez a dupla norte-americana Palette-Swap Ninja, formada pelo vocalista Dan Amrich e pelo tecladista Jude Kelley, revisitando todo o Episódio IV, o primeiro filme que George Lucas fez sobre a saga (que completa 40 anos este ano), como uma paródia construída sobre o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (que completa 50 anos também este ano). Um mashup épico e meticuloso, que pode ser baixado gratuitamente no site da dupla, mas que funciona ainda mais quando assistimos à sua versão em vídeo, Princess Leia’s Stolen Death Star Plans é uma obra-prima pós-moderna.
Fico pensando em quais discos poderiam funcionar com os próximos filmes… O Álbum Branco com o Império Contra-Ataca? Tenso!
O designer curitibano Butcher Billy mergulhou no coração de hits do passado para voltar com livros de terror inspirados em suas letras – e o resultado é fascinante. Listei todos os livros – e suas versões em VHS – lá no meu blog no UOL.
Canções pop podem esconder significados bem mais complexos do que podem ser percebidos em uma simples audição. A letra de “Every Breath You Take” do Police pode ser sobre uma paixão obsessiva ou simplesmente sobre obsessão – no sentido mais doentio do termo. A balada “Lady in Red”, do lacrimoso Chris de Burgh, pode ser sobre um assassinato? E será que podemos levar músicas como “Maneater” (em que Daryl Hall e John Oates descrevem uma mulher “devoradora” de homens) ou “Everytime You Go Away” (“você leva uma parte de mim?”, continua Paul Young) ao pé da letra?
Tais duplos sentidos podem dar origem a teorias conspiratórias ou paranoias fundamentalistas, mas o designer curitibano Butcher Billy preferiu transformar estas interpretações literais em arte, criando uma série de mashups capas de livros de terror a partir de títulos e trechos de canções pop de todas as épocas – dos Righteous Brothers aos Arctic Monkeys, passando pelos Bee Gees, Gloria Gaynor, Depeche Mode, Joy Division, Smiths, entre outros. Se você entende um pouquinho de inglês já dá pra ter uma ideia…
Aproveitando a onda, ele também fez as versões de fitas VHS para adaptações cinematográficas dos livros que criou, transformando seus artistas em atores e letras inteiras em sinopses de cunho poético sobre filmes B dos anos 80. Mas ele mesmo avisa que os livros são muito melhores.
Ele também transforma as ilustrações em pôsteres e camisetas através de um link em seu portfólio digital na rede social Behance, além de aceitar sugestões. Algumas músicas brasileiras seriam ótimos títulos para estas séries – quase todas do Legião Urbana, por exemplo. Você tem alguma outra sugestão?
Só o fato de cogitarem um filme que conte os bastidores do plano real como se fosse uma mistura de Onze Homens e Um Segredo, Vingadores e Cães de Aluguel já era motivo para fazer o Adnet esmurrar a parede de inveja. Mas, pior que isso, vai existir um filme contando essa saga (que provavelmente chega à TV aberta até 2018):
Mas como o melhor do Brasil é o brasileiro, basta um mero mashup (dica do Jomar, valeu!) pra desmascarar essa farsa.
Confesso que Bemvindo Siqueira como Itamar Franco é um toque de genialidade irônica (quem lembra do Brasilino Roxo, que ele fazia na Escolinha do Professor Raimundo neste mesmo período):
Mas o Agildo Ribeiro seria um Fernando Henrique mais convincente, não? Não vejo a hora de fazerem um filme desses sobre o Collor…













