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Marjane Satrapi (1969-2026)

A morte precoce de Marjane Satrapi nesta quinta-feira (que, pesado demais constatar isto, morreu de tristeza) vai acelerar sua canonização no panteão dos quadrinhos, mas sua importância ainda há de ser medida. Mais do que autora de um Maus persa que viveu em primeira mão (seu Persépolis é autobiográfico, ao contrário do clássico de Art Spiegelman, uma história contada a partir de um relato alheio), ela é uma personagem importantíssima no movimento feminista deste século, não só como agente e autora, mas como inspiração e força contínua. Mas prefiro indicar o obituário feito pelo Érico Assis em sua newsletter obrigatória Virapágina, um dos melhores veículos sobre quadrinhos atualmente. Deixo um trecho a seguir:

“Marjane Satrapi, há quinze anos: ‘A primeira coisa a se lembrar é que não é uma graphic novel. É um gibi. O povo tem medo de dizer essa palavra, gibi. Porque aí vem aquela imagem do homem adulto espinhento, de rabo de cavalo e uma pança. Se você fala graphic novel, essa imagem vai embora. Só que não: é tudo gibi.’

Há 27 anos, Satrapi não se chamava Satrapi. Era uma ilustradora iraniana em Paris tentando a carreira no mercado de livros infantis, que dividia o Atelier des Vosges com vários autores de quadrinhos. Passava horas contando aos colegas – David B., Émile Bravo, Christophe Blain – da sua vida no Irã, dos perrengues que tinha passado na Áustria, de como chegou a Paris. Eles disseram que ela tinha que transformar aquilo em quadrinhos e deixaram Maus na mão da moça.

‘Passei por uma mega depressão. Aí, sabe o que aconteceu? Eu estava muito deprimida e, quando eu fico deprimida, eu não respiro. O ar não entra. Aí teve uma noite em que eu estava sozinha e minha respiração ia parar. Liguei pra emergência e disse: ‘Eu não consigo respirar.’ Aí vieram, me enrolaram no alumínio como se eu fosse um frango assado, me botaram um cobertor, me colocaram na maca e começaram a me descer pela escada, que era em espiral. Acabou que eu caí, desabei escada abaixo e cortei a cabeça. Tiveram que dar quatro pontos! Aí minha depressão acabou. Foi tanta dor que minha respiração voltou e ali eu decidi: Vou ter que fazer alguma coisa. Aí escrevi Persépolis.’

É muita pulsão de vida, abalada fatalmente pelo fim de um relacionamento, quando seu companheiro, como a própria família disse no comunicado sobre sua passagem: “morreu de tristeza pouco mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e amor de sua vida.” Confira a íntegra do texto do Érico aqui.