Golaço do Lollapalooza 2026

Não curto o formato do Lollapalooza conceitualmente: a ideia de dezenas de bandas em horas gigantescas por três dias em maratona é o oposto do que espero de um evento de música. Mesmo porque a escala gigantesca parece interferir diretamente na escolha dos artistas, quase sempre tratando o público como uma imensa massa amorfa sem gosto musical definido, abrindo brechas para artistas que existem mais na cabeça de seus agentes do que na vida real. É um desperdício de oportunidade, deixar de aproveitar o momento em que se reúne muitas pessoas para assistir a shows de artistas de maior escala para um evento em que o público possa ser apresentado a artistas que realmente estejam acontecendo e estejam passando longe do radar de muita gente. E parece que o Lolla entendeu isso e o elenco que reuniu para sua edição de 2026, apresentada nesta quinta-feira, é a prova viva de que é possível fazer com que um festival de música dessa escala volte a colocar música no centro de seus palcos – não apenas números, metas, views. O primeiro cumprimento vem ao impecável elenco principal, composto apenas por artistas contemporâneos – o único veterano dos grandes nomes, os Deftones, acabou de lançar um disco sem cheiro de nostalgia, pensando pra frente. Mas reuni-los num elenco que ainda inclui Lorde, Tyler the Creator, Sabrina Carpenter, Skrillex, Doechii, Turnstile e Chappel Roan mostra que é possível traçar um panorama do que está acontecendo de legal na música hoje sem sentir cheiro de naftalina. O grande salve, contudo, vem nas letras pequenas do festival. Além de trazer artistas que, se fossem reunidos em pares, garantiriam ótimos eventos indie de médio porte em São Paulo (Men I Trust, Addison Rae, Katseye, Djo, Interpol, Cypress Hill, Viagra Boys, Marina, Horsegirl, The Warning, entre outros), a edição do ano que vem do Lolla caprichou na escolha dos artistas nacionais, colocando nomes como Varanda, Jadsa, Nina Maia, FBC, Crizin da Z.O., Papisa, Oruã, Papangu, Stefanie, Terraplana, Cidade Dormitório, Jonabug e outros tantos, traçando não só uma ponte mais firme entre a cena independente e esse universo mainstream, como adubando seu futuro próximo para entender quem pode chegar a outros escalões de alcance. Mais do que só apresentar novos artistas para um público gigante, o festival reforça a aposta em artistas que, mesmo iniciantes, já têm maturidade para segurar um show dessa escala. Outras edições já faziam essa ponte, mas de forma tímida, o que virou passado com essa edição de 2026. Claro que há várias questões (que artista contemporâneo brasileiro poderia estar entre os grandes? Por que não temos mais artistas latinos circulando pelas outras praças que o festival também circula), mas a escalação deste ano foi um golaço. Particularmente gostei que eles não trouxeram nem a Charli XCX, o Magdalena Bay e a Clairo, porque talvez aí eu tivesse que ir pro evento. O festival acontece nos dias 20, 21 e 22 de março do ano que vem e os ingressos já estão à venda.