Vida Fodona #649: Arqueologia recente

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Previously, on Trabalho Sujo

PJ Harvey – “Sheela-Na-Gig (Demo)”
Burt Bacharach + Daniel Tashian – “Bells of St. Augustine”
Crime Caqui – “Your Forehead”
Sharon Van Etten + Josh Homme – “(What’s So Funny Bout) Peace, Love and Understanding”
Michael Stipe + Big Red Machine – “No Time For Love Like Now”
Jarv Is – “Save the Whale”
Àiyé – “Pulmão”
Jair Naves – “Irrompe (é quase um milagre que você exista)”
Gang of Four – “Forever Starts Now”
Flaming Lips – “Flowers of Neptune 6”
Tika + Kika + João Leão + Igor Caracas – “Astronauta”
Zé Manoel – “História Antiga”
Cat Power – “Toop Toop (A Tribute to Zdar)”
Mano Mago – “Estrelas Mortas”
Angel Olsen – “New Love Cassette (Mark Ronson Remix)”
Chromeo – “6 Feet Away”
Poolside -“Around The Sun (Body Music Remix)”
Kassin – “Relax (DJ Memê Remix)”
Guilherme Held + Letieres Leite – “Sorongo”
Hatchie + The Pains of Being Pure at Heart – “Sometimes Always”
Elvis Costello – “No Flag”
Bob Mould – “American Crisis”
Black Pantera – “I Can’t Breathe”
Stooges – “T.V. Eye (Radio Edit)”

Guilherme Held convoca Letieres Leite

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O guitarrista Guilherme Held está preparando lentamente seu primeiro disco solo, chamado de Corpo Nós, projeto que vem acalentando há uma década. “O cara que mais me pôs pilha pra gravar esse disco foi o Rômulo Froes, que vem me falando sobre isso há uns dez anos. Quando o chamei para fazer a direção artística do disco, ele topou”, me conta o guitarrista, que está lançando o terceiro single deste seu disco de estreia, “Sorongo”, uma homenagem ao mítico percussionista autor do clássico Krishnanda, que conta com a participação de ninguém menos que o maestro baiano Letieres Leite, que não só fez o arranjo da banda como providenciou metais e percussão para este afrossamba à paulistana, que será lançado nesta sexta-feira nas plataformas digitais e que ele antecipa em primeira mão no Trabalho Sujo, num vídeo dirigido por Luan Cardoso.

“‘Sorongo’ é uma faixa instrumental que veio como um afrossamba e eu já tinha a ideia de fundir isso com elementos de música eletrônica e timbres que remetessem aos anos 80, apesar de ela soar bem setentista, porque eu uso um fuzz na parte do final que sugere aquela onda na psicodelia setentista nigeriana”, ele me explica, antecipando como convidou o maestro baiano para participar da faixa. “O Let é um amigo de longa data, a gente trabalhou pela primeira vez juntos no disco Cavaleiro Selvagem da Mariana Aydar e ficamos amicíssimos, ele é um ídolo e um cara que tenho uma consideração muito grande. E com isso a gente teve a ideia de chamar a Orquestra Rumpilezzinho, que é um projeto que ele tem em Salvador, que reúne jovens carentes com um talento musical inacreditável – as percussões e os metais são deles. A ideia desta fusão de Bahia com São Paulo, trazendo elementos do synthbass do Marcelo Cabral, da linguagem da bateria do Serginho Machado, para entender essa sacada da música africana com elementos de música eletrônica, foi o time perfeito.” A capa do single (abaixo) foi feita por Diego Max.

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“Sorongo” é o terceiro single que o guitarrista já lançou do novo disco, depois de “Pólvora” (que contava com as participações de Tulipa e Gustavo Ruiz) e “Direito Humano” (com Ná Ozzetti e Juliana Perdigão) e as participações em cada single são só uma amostra do time que ele conseguiu reunir um time de artistas, músicos e intérpretes que resumia sua trajetória musical. “Desde o começo, a gente já sabia que era um disco do meu lado compositor mais que guitarrista”, ele continua. “Até porque eu já toquei tanto esse meu lado em tantos discos e shows, que faltava mostrar esse outro lado. Nisso, observando as músicas, percebi que cada música remetia a pessoas que eu já acompanhei, cantores e músicos que fazem parte da minha caminhada. Na empolgação disso tudo, a gente acabou cedendo pra ser um disco de confraternização de meus amigos da música, que tem uma ficha técnica extensa, tem cinco bateristas, cinco baixistas, dezessete cantores…”

Ele começa a enumerar: “Criolo, Maria Gadu, Lanny Gordin, Letieres Leite, Rodrigo Campos, André Lima, Simone Sou, Pedro Fontes, Cuca Ferreira, Daniel Gralha, Thalma de Freitas, Iara Rennó, Douglas Antunes, Thomas Harres, Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Rubel, Curumin, Mariana Aydar, Ná Ozzetti, Péricles Cavalcanti, Fernando Catatau, Ròmulo Froes, Felipe Catto, Juliana Perdigão, Beto Bruno, Marcelo Mitsu, Kika, Thiago França, Sérgio Machado, Décio 7, Felipe Roseno, Dustan Gallas, Fabio Sá, Bruno Buarque, Marcelo Cabral, Rômulo Nardes, Maurício Badé… Até eu canto!”, ri, falando sobre a faixa de abertura do disco.

O processo de produção foi um mergulho naquilo que Rômulo chamou de “o baú do Gui Held”, uma pasta no computador do guitarrista em que ele ia gravando várias ideias musicais. “São inúmeras músicas, completas, incompletas, fatias e pedaços de músicas, só harmonias, riffs, cacos sortidos, que a gente pra juntava um caco de um ano com um caco de outro. Somando tudo devem dar uns três mil arquivos de uns dez, doze anos que venho juntando, sempre guardando daquele jeito que músico compõe e guarda. A gente fez uma peneira, chegamos em 75 músicas, depois em 35 e fechamos em 17”, fechando o disco que é produzido pelo próprio guitarrista, que está começando a mexer com isso.

“É o primeiro disco que eu produzo e foi quase um ano de agendas”, ele explica. “Apesar de não ser um disco tão guitarrístico, ele tem um polimento e cuidado com timbres e escolhas de caminhos de linguagem a partir dos equipamentos que tenho, pedais antigos, guitarras de décadas e estilos diferentes, microfones… Ele tem todo um cuidado estético”.

Elza chama BaianaSystem, Letieres e Virgínia Rodrigues

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“Eu não vou sucumbir”, brada a diva Elza Soares em “Libertação”, primeiro single de seu próximo álbum, batizado de Planeta Fome, que reúne três pesos pesados da música baiana: Letieres Leite, Virgínia Rodrigues e BaianaSystem.

Os 75 Melhores Discos de 2016 – 41) Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz – A Saga da Travessia

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A trilha da diáspora africana.

Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 Rotações

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Conforme prometido, eis aqui, em primeira mão no Trabalho Sujo, o filme que o mestre Eugênio Vieira fez das gravações do projeto Goma-Lama, concebido pelo Ronaldo Evangelista e a Biancamaria Binazzi em 2014. O projeto reúne artistas contemporâneo para resgatar músicas brasileiras que só foram registradas em acetatos de cera de carnaúba (ou goma-laca, daí o título). No documentário, vemos o maestro Letieres Leite conduzir os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes e Sérgio Machado em uma viagem atemporal de uma conexão musical secular entre o Brasil e a África para receber vocais de Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana. Saca só:

Goma-Laca, o filme, vem aí

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Nesta sexta-feira agora, Ronaldo e Eugênio lançam o filme Goma-Laca aqui no Trabalho Sujo. O filme registra o processo de arranjo e gravação do disco que o maestro Lettieres Leite gravou com Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana em cima de músicas brasileiras que so foram registradas em discos de 78 rotações por minuto (falei do projeto em uma das minhas primeiras colunas na Caros Amigos). ” o filme é um olhar sobre o processo de criação e gravação do disco, Goma-Laca – Afrobrasilidades em 78 Rotações”, explica Eugênio. “A ideia de documentar foi do Ronaldo, que dizia que não poderíamos deixar de registrar o encontro do maestro Letieres Leite com os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes, Sérgio Machado e cantores Lucas Santtana, Russo Passapusso, Juçara Marçal e Karina Buhr. E não deixamos. Quis registrar tudo que via, tudo que acontecia, mas sem atrapalhar o fluxo de criação da banda. Precisava em pouco tempo ganhar confiança dos músicos para que pudesse registra-los em momentos íntimos. Foram quatro dias testemunhando um encontro mágico e único.” Ronaldo também escreveu sobre o encontro no site do projeto.

O trailer está aí:

Filmei o show desse disco, que aconteceu no ano passado (Russo não pode vir e Duani o substituiu):

Tudo Tanto #002: MP3 em 78 rotações

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Na minha segunda coluna na Caros Amigos eu falei do projeto Goma Laca, cuja edição de 2014 teve Letieres Leite comandando disco e show com Lucas Santtana, Karina Buhr, Juçara Marçal e outros recuperando pérolas esquecidas da música brasileira registradas em discos de 78 rotações. Fiz uns vídeos desse show:

MP3 em 78 rotações
Projeto Goma Laca resgata canções da primeira metade do século passado nas vozes de novos nomes da música brasileira

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Quem chegasse no Centro Cultural São Paulo (CCSP), próximo à Estação Vergueiro do metrô paulistano, no início da noite do dia 23 de agosto poderia achar que a nova música brasileira estivesse celebrando João Donato. Numa banda comandada pelo maestro Letieres Leite, o mago baiano dono da Orkestra Rumpilezz, Lucas Santtana, Duani e Karina Buhr repetiam os versos de “Cala a Boca, Menino” que Donato eternizou em seu clássico Quem é Quem, de 1973.

Mas “Cala a Boca, Menino”, embora tenha sido popularizada por João, não é nem de Dorival Caymmi, cujo crédito estampa o rótulo do velho vinil. Na verdade suas origens remontam à capoeira do início do século passado e o primeiro registro musical desta canção não apareceu sequer em vinil. A faixa foi registrada pelo mítico Almirante em 1938, na mesma época em que o sambista levou pela primeira vez ao rádio um instrumento “rudimentar e bárbaro” (palavras da época) chamado berimbau.

A faixa foi regravada na terceira edição do projeto Goma-Laca, núcleo de pesquisas sobre a música brasileira da primeira metade do século 20 desenvolvido pelo jornalista Ronaldo Evangelista e pela pesquisadora Biancamaria Binazzi. Desde 2009 a dupla fuça velhas bolachas que rodam a 78 RPM e desenterra pérolas para serem regravadas por novos nomes da música nacional.

A pesquisa é feita principalmente na discoteca Oneyda Alvarenga, do próprio CCSP, que conta com um acervo de mais de 44 mil discos brasileiros e uma das maiores coleções de discos em 78 rotações do Brasil. “Chamamos a discoteca de ‘Casa do Goma-Laca’, não só pelo acervo mais por seu conceito”, explica Biancamaria. “Ela foi criada em 1935 pelo Mário de Andrade, quando ele era diretor do departamento de cultura de São Paulo e a ideia dele era criar um espaço para músicos, que permitisse acesso à música ‘estranha aos ouvidos’. Ele queria promover o acesso à música regional do Brasil e à musica de concerto contemporanea, ir muito além do que tocava no rádio, o que de certa forma é o que fazemos com o Goma Laca. Como dizia o próprio Mário: ‘buscar fazer coisa nova, desencavando passados’”.

A edição de 2014 além da gravação e único show também se materializou em disco (as outras edições só foram disponibilizadas em MP3) e focou especificamente no que eles rotulam de “afrobrasilidades”. O disco reuniu Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso (que não pode comparecer ao show e foi substituído pelo carismático Duani) e Juçara Marçal para que eles pudessem reviver músicas com títulos como “Minervina”, “Babaô Miloquê”, “Guriatã” e “Passarinho Bateu Aza” (com ‘z’ mesmo), tudo sob a batuta – a flauta, no caso – suingada do maestro compenetrado e possuído que é Letieres Leite, que releu as velhas e ingênuas canções com um groove denso e ancestral, mas sem perder o vínculo com a tradição.

O disco pode ser comprado pelo site www.goma-laca.com, que ainda conta com as faixas das edições anteriores em MP3 para quem quiser apenas ouvi-las – além das versões originais imortalizadas em discos prensados numa mistura de cera de carnaúba com pó de goma laca. O núcleo de pesquisas segue à toda: “A ideia é continuar fazendo shows, rodas de escuta, programas de rádio, discos e o que pintar relacionado a esse universo setenteônico”, conclui Biancamaria.