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Camadas e camadas

Entre me levantar da poltrona em que vejo a apresentação até cumprimentar os artistas em seguida (algo que leva entre cinco e dez segundos), ouvi três vezes comentários que usavam a palavra “camadas” – sempre no plural – logo após a terceira noite da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. vem fazendo no Centro da Terra, em que receberam o produtor de Guarulhos MNTH e o conterrâneo carioca Lcuas Pires. Só a configuração de palco já foi radicalmente diferente das noites anteriores, em que seus respectivos convidados (Kiko Dinucci e Deafkids) trouxeram guitarras e incitavam a percussão. Esta última até esteve presente na noite, embora tocada com apenas um atabaque e disparadores mecânicos de beats. Em sua terceira segunda-feira, a temporada Acontecimento mergulhou na eletrônica, distorcendo timbres, letras, sequências e até transmissões de rádio para criar justamente as tais camadas mencionadas em voz alta por vários dos presentes após a noite, criando uma trama ambient de noise que abriu uma outra dimensão na textura sonora do grupo. Hipnose de fim de mundo.

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Crizin da Z.O.: Acontecimento

Enorme satisfação em receber mais uma vez no Centro da Terra o trio fluminense Crizin da Z.O., que ocupa as segundas-feiras de maio com temporada Acontecimento, em que utiliza o palco do teatro como um espaço-tempo imprevisível. E assim Cris Onofre, Marcelo Fiedler e Danilo Machado convidam diferentes artistas para criar nestes instantes e a cada segunda-feira recebem novos parceiros. A primeira,a dia 4, vem com Kiko Dinucci abrindo caminhos. Depois, dia 11, recebem a dupla Deaf Kids. No dia 18 é a vez de receberem os produtores MNTH, Lcuas Pires e Mbé e encerram estes acontecimentos com a presença de Juçara Marçal no dia 25, sempre misturando funk carioca com elementos de vanguarda, noise e eletrônica. As apresentações começam pontualmente a partir das 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Um devaneio físico coletivo

Sempre que Negro Leo se propõe a levar um disco para o palco, seu desafio não é simplesmente soar parecido ou reproduzir os fonogramas com a força da música tocada ao vivo, mas transformar uma obra sonora em um espetáculo vivo em que a participação do público possa ser menos que passiva e a interação entre audiência e artista capture a essência conceitual da peça musical registrada em disco. E assim foi feito quando levou o ótimo Rela – seu primeiro disco pós-pandêmico – para o palco do Sesc Pompeia neste sábado. Disco eletrônico composto sobre bases rítmicas do boi maranhense (de sua terra-natal – apesar de carioquíssimo, Leo nasceu na pequena Pindaré-Mirim, no estado mais nortista do nordeste brasileiro), Rela trata das novas formas de lidar com o amor e o sexo a partir da interação humana feita pelas plataformas digitais. Se apenas transposto para o palco, essa faixa sonora bebe tanto no trap, no R&B e na música eletrônica experimental, mas não limita-se ao som, indo desde o figurino do artista (blazer de lantejoulas sobre o torso nu) às paisagens geradas por inteligência artificial nos telões. E por mais que a presença dos produtores musicais Vasconcelos Sentimento, Eduardo Manso, Lcuas Pires e do diretor do show e técnico de som da noite Renato Godoy tenham sido cruciais para mexer com o público, a chave da noite era o próprio corpo de Leo, entregue a uma performance em escala gigantesca. Logo na segunda música, ele já havia se jogado na plateia e aberto uma roda no meio do povo para puxar pessoas aleatórias (ou não) para dançar a dois no meio do público, trouxe sua companheira Ava Rocha para dominá-lo e chicoteá-lo no palco, puxou primeiro uma coreografia no fundo do palco (convidando todos para “o maior flash mob que o Sesc Pompeia já viu”), depois um trenzinho que fez todos circularem pela comemoria para terminar rastejando pelo chão até o backstage. Uma aparição intensa e um espetáculo pós-moderno que não bastasse transpor a sensação de bailão do disco de uma forma extrassonora, ainda terminou trazendo Twin Peaks para o norte do Brasil, transformando o tema da série de David Lynch em um pagodão eletrônico e colocando a própria Laura Palmer (mais uma vez uma criação de inteligência artificial) dançando como se fosse uma bailarina de música pop nordestina, num remix inacreditável para a mais inesquecível melodia de Angelo Badalamenti rebatizada como “Davi do Lins”. Um devaneio físico coletivo memorável.

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