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Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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Dois universos da canção

Mais uma noite com Sophia Chablau no Centro da Terra, esta anunciada como um dos grandes momentos de sua temporada Guerra, uma vez que reunia dois universos distintos da canção contemporânea brasileira, quando ela chamou Dora Morelenbaum e Juçara Marçal para a mesma noite. Ela começou acompanhada da dupla com a qual montou o power trio que atravessa as noites deste mês de março, com ela mesma na guitarra e vocais, Marcelo Cabral no baixo e eletrônicos e Theo Ceccato na bateria, chutando a vibe punk rock logo de cara com uma canção inédita e dedicando sua “Quantos Serão No Final?” à escola iraniana que foi bombardeada pelos EUA no início do mês. Depois, sozinha com seu instrumento, passeou por outras inéditas (como uma que compôs para os bares da marquise da Alfonso Bovero, vizinhos do teatro, e outra em inglês). Depois, ainda só à sua guitarra, chamou a primeira convidada da noite, quando dividiu com Dora os vocais de sua “Cinema Total”, de outra inédita, composta na semana passada para a própria cantora carioca, batizada ainda no rascunho como “Corpos Jogados”, de “Petricor”, da própria Dora, e de “Vem Comigo” de Sophia gravada por Dora, as três últimas acompanhadas por Cabral (que fez um solo fabuloso na última). Os dois deixaram Sophia sozinha de novo no palco, que passou por sua “Segredo” e por outra inédita, antes de chamar a segunda convidada da noite. E ao chamar Juçara para o palco (bem como Theo e Cabral), começaram passeando pela “Lembranças Que Guardei”, que Ju compôs com Kiko Dinucci e Fernando Catatau, para depois entrar em uma parceria inédita das duas (batizada temporariamente de “Sumiu Sumi”), de “Meninos de Itaquá” (que Sophia já havia mostrado nas noites anteriores e confessou ser inspirada no Delta Estácio Blues de Juçara) e outra inédita das duas, “O Céu Já Não”, que encerrou a noite em grande estilo. Showzaço que só pecou por não juntar Dora e Juçara numa mesma canção, mas que seguiu mantendo o alto nível da temporada.

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Sophia Chablau: Guerra

A primeira temporada de 2026 no Centro da Terra não poderia ser mais certeira, afinal Sophia Chablau, que vai tomar conta de todas as (cinco!) segundas-feiras deste mês de março no teatro, batizou sua residência no teatro com o título de Guerra no exato momento em que o mundo parece colapsar em mais um conflito bélico mundial. “Palavra temida que escancara o conflito, repetida na canção, metonímia ou metáfora de conflitos externos a nós, conflitos internos ou conflitos românticos”, explica a cantora paulistana. “Em último caso a vida sendo uma guerra contra a morte, o monumento fazendo guerra ao tempo, a canção fazendo guerra a desordem do universo. As grandes guerras, as pequenas guerras, as guerras. – Pra variar estamos em guerra. Não é um eixo temático, é uma provocação, é um anúncio – é preciso declarar guerra.” E para essa declaração ela reúne sessões que prometem ser históricas. A primeira acontece nesta primeira segunda (dia 2) quando recebe sua banda Enorme Perda de Tempo para mostrar novidades que eles vêm trabalhando. Nas segundas seguintes ela mantém o baterista Theo Ceccato e chama o baixista Marcelo Cabral para acompanhá-la na guitarra quando recebe duplas de peso. Na segunda (dia 9), ela chama Kiko Dinucci e Jonnata Doll. Na outra (dia 16) é a vez de receber Dora Morelenbaum e Juçara Marçal. Na quarta segunda do mês (dia 23) ela convida o casal Ava Rocha e Negro Leo e encerra sua temporada de ouro na última segunda do mês (dia 30) com as presenças de Vítor Araújo e Zé Ibarra. Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda pelo site do Centro da Terra – mas corre que eles estão acabando!

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A primeira vez no Bona

Por incrível que pareça, esta quarta marcou a primeira vez que o Metá Metá tocou no Bona. Integrantes da melhor banda do Brasil já haviam passado pelo palco da casa do Sumaré em outras formações, mas as duas apresentações que marcaram para esta semana foram as primeiras que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França fizeram juntos naquele palco, espalhando o já conhecido e arrojado feitiço musical forjado em São Paulo – embora nenhum de seus integrantes seja paulistano – para os ouvidos atentos que foram ouvi-los no meio desta última semana de janeiro. O repertório é o mesmo que apresentam há anos, juntando músicas de seus três álbuns com versões para canções de Jards Macalé, Maurício Pereira, Siba Veloso, Douglas Germano e Itamar Assumpção – que deixaram para tocar no bis, com a assertiva “Tristeza Não” -, sempre deixando violão, sax e vozes ganhar corpo próprio e dominar todos os presentes. Sempre aquele descarrego energético feito pra gente voltar leve pra casa.

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Reverenciando Itamar no aniversário de São Paulo

Foi um dia antes do aniversário da cidade, mas deu pra lavar a alma da pequena multidão que se aglomerou debaixo do vão do Masp no sábado para assistir a Suzana Salles, Juçara Marçal e Kiko Dinucci iapresentar o espetáculo que fazem há anos ao redor do repertório de Itamar Assumpção. Especial ouvir “Sampa Midnight” ao lado do Trianon e sob o vão do museu citados na música, mas mais forte ainda perceber o quanto a obra de Itamar vai cada vez mais perdendo a aura equivocada de maldito para assumir seu lugar como arcano maior da sensação de paulistanidade evocada naquele encontro, reunindo três ícones da música da cidade. Para ganhar a estatura exata, o show no entanto precisaria estar num palco alguns metros mais alto (apenas cem centímetros já melhoraria bastante a experiência) e com o som poucos decibéis acima. Mas mesmo esses pequenos revezes ampliavam a presença da cidade ao redor – a conversa das pessoas, o som do trânsito, o barulho das árvores, a fina garoa que insistia cair em pleno verão -, o que não chegou a comprometer um sensacional sábado à tarde. E ouvir Juçara e Suzana conduzindo os vocais do público para entoar “Nega Música” com o violão de Kiko como único acompanhamento instrumental foi maravilhoso…

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Saudando Xangô numa sala de concertos

É muito bom quando a música transpõe barreiras que muitos consideram pétreas, demolindo paredes imaginárias para mostrar que tudo é música, tudo é som. É o que tem acontecido com frequência na Sala São Paulo, quando a clássica sala de concertos paulistana abre espaço para músicos de diferentes frentes da música popular, transformando a imponência e austeridade da sala, quase sempre associadas à música erudita, em celebrações que passam longe da afetação típica dos concertos. A série Encontros Históricos é um dos melhores exemplos disso e só esse ano a São Paulo Big Band recebeu encontros inacreditáveis entre Gabriel Sater e Sá & Guarabyra, Ivan Lins e Gustavo Spínola, João Bosco e Adriana Moreira, Rosa Passos e Vanessa Moreno, Péricles e Arlindinho, entre outros, encerrando sua temporada 2025 neste sábado ao trazer Marcelo D2 e Juçara Marçal juntos para aquele mesmo palco. A Big Band deu a tônica da noite ao começar com um arranjo uma versão instrumental para “Se Não Fosse o Samba”, do Bezerra da Silva, antes de chamar os convidados para o palco. D2 e Juçara dividiram vocais em algumas músicas (a maioria da carreira solo de Marcelo, como “Kalundu”, “Povo de Fé”, “Tempo de Opinião” – que tem a participação do Metá Metá, grupo que Juçara faz parte), mas a maior parte da apresentação foi composta de músicas isoladas de cada um deles com a Big Band. Juçara cantou “Vi de Relance a Coroa” de seu Delta Estácio Blues, “Ladeira” que gravou com o Sambas do Absurdo, “Jardim Japão” de Rodrigo Campos e “Orunmilá” e “São Jorge”, clássicos do Metá Metá, enquanto D2 cantou “Tô Voltando”, “Fonte Que Eu Bebo” (quando quebrou o protocolo e desceu para a plateia, para dançar com sua esposa, Luiza Machado), “Até Clarear”, “Maldição do Samba” e, pegando todos de surpresa, “Mantenha o Respeito” do Planet Hemp. Mas apesar da boa intenção, o resultado foi apenas protocolar, com a Big Band trabalhando com arranjos comportados e sem aproveitar a química musical que o encontro parecia pedir, com os pés na roda de samba, no terreiro e na periferia que poderiam abrir possibilidades jazzísticas ousadas. Mas apesar disso não ter acontecido, foi uma noite feliz e os dois encerraram cantando juntos mais uma música do Metá Metá, fazendo a saudação a Xangô de “Obá Iná” ecoar pelas paredes da quase centenária estação Júlio Prestes, transformada em sala de concertos há um quarto de século.

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Transcendendo entre o orgânico e o sintético

Maravilhoso o encontro entre Juçara Marçal e Thais Nicodemo que aconteceu nesta terça-feira no Centro da Terra. De frente uma pra outra, elas vinham em suas estações sonoras díspares: Juçara, além de cantar, soltava samples inusitados (sobrou até pro Hermeto!) e criava texturas eletrônicas estranhas, enquanto Thais, passeando por seu piano preparado, dava ao instrumento acústico timbres improváveis e tortos, além de ela mesma também cantar. Foi assim que atravessaram mais de uma hora no palco com seu espetáculo A Gente Se F* Bem Pra Caramba, usando canções para criar cápsulas de tempo para seguir o roteiro de cada música e desvirtuá-lo no percurso. Assim, a dupla abriu começou a noite com uma música da própria Juçara (“De Reis”, que ela escreveu para a peça Avenida Paulista, de Felipe Hirsch) e seguiu com músicas do Clima (“Isso É o Que Se Diz Irmão” em parceria com Guilherme Held, “Não Reparem”, esta com Juçara, e “Eu Não Duro” de seu primeiro disco solo), Rodrigo Campos (“Cavaquinho” e “Japonego”, outra parceria com Juçara), Brigitte Fontaine (“Il Se Passe des Choses”), Maria Beraldo (“Maria”), Manu Maltez (“Gasolina Cabaré”), Kau (“Merecedores”), Negro Leo (“Eu Lacrei”) e Kiko Dinucci (“Quem Te Come” e a música que dá título ao show, que encerrou a primeira parte da noite com o público sussurrando o mantra do refrão), além de “Hermética”, de Ava Rocha, que funciona como um bom exemplo da transposição da escritura original rumo à transcendência sonora criada a partir do atrito entre sons orgânicos e sintéticos. Um arraso musical que ainda pode contar com o chiaroscuro da luz de Olívia Munhoz como alicerce cênico.

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Juçara Marçal + Thais Nicodemo: A Gente Se F* Bem Pra Caramba

Satisfação poder receber o encontro de Juçara Marçal e Thais Nicodemo no palco do Centro da Terra nessa sexta-feira, quando unem forças musicais – Juçara com sua voz, synth e sampler, Thais no piano preparado – para passear por canções contemporâneas de autores como Eduardo Climachauska, Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Brigitte Fontaine, Negro Leo, Kiko Dinucci, entre outros. No espetáculo A Gente Se F* Bem Pra Caramba elas ao mesmo tempo em que exploram o encontro dos timbres acústicos e eletrôncos que dominam, entre a canção e o improviso livre. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Hipnose coletiva

Uma viagem sem sair do lugar. Em uma hora cravada de som, Luciano Valério – apresentando-se como MNTH -, Juçara Marçal e Douglas Leal – com o codinome Yantra – levaram o público do Centro da Terra nesta segunda-feira a uma outra dimensão de sensibilidade, trazendo diferentes sentimentos e sensações sem precisar movimentar centímetros no palco. Cada um em seu canto, Juçara com sua voz transcendental e seus apetrechos de luxo, Valério com o synth em camadas de texturas e Douglas trocando flautas e batendo percussão criaram uma longa faixa de hipnose coletiva coberta pelas luzes bruxuleantes que Mau Schramm criava sobre os três, trabalhando tonalidades e sombras enquanto esculpia seu lazer pela lateral do palco a partir da fumaça que lentamente tomava a apresentação, mais uma noite incrível proporcionada pela maturidade do selo Desmonta, que está ocupando as segundas de outubro no teatro. Foi de arrepiar.

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Abrindo os trabalhos

Fui na abertura do novo espaço da Casa de Francisca nesta quinta-feira, desbravado naturalmente por dois veteranos do lugar que conheciam tão bem a primeira versão da Casa, ainda nos Jardins, quanto já frequentaram em inúmeras formações os atuais dois palcos do Palacete Tereza, no Centro. Como de praxe, o próprio Rubens Amatto, que idealizou e realizou esse sonho forte, foi quem abriu os trabalhos recepcionando os 44 presentes (mesmo número de lugares do velho endereço) no novíssimo terceiro palco do lugar, orgulhoso não apenas de estar ampliando sua visão como de ter dois camaradas pra começar essa nova fase. E por mais que Juçara Marçal e Kiko Dinucci sejam familiares do lugar e tenham optado por seu tradicional show de vozes e violão baseado no histórico álbum-encontro Padê de 2008, os dois passearam por outras canções de seu repertório comum até incluir novas versões, como o samba-enredo “Paulistano da Glória” de Geraldo Filme e a pesada “Batuque” de Itamar Assumpção. E por mais que o novo espaço seja intimista e acolhedor, os dois não tiveram problema em ultrapassar os decibéis possíveis, seja com a bateria embutida no violão de Kiko ou nos limites inalcançáveis da voz de Juçara. A Sala B é outra experiência da Casa e mesmo com outro show bombando no salão principal, ela manteve-se inabalável em seu intimismo.

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