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A abstração sonora entre as canções

O Metá Metá esteve mais uma vez no palco do Bona nesta quarta-feira, quando fez uma apresentação um pouco mais ruidosa que da outra vez que esteve na casa de shows no bairro do Sumaré. Como na outra apresentação feita no local no início do ano (na primeira que o grupo tocou na casa), o grupo baseou a noite em seu repertório clássico que já está consolidado desde que voltou aos palcos com o fim da pandemia, mas desta vez saiu do formato canção para experimentar sonoridades amorfas quando saíam dos versos e refrães. Foi bonito ver Juçara Marçal, Thiago França e Kiko Dinucci submeter o público que lotou a casa a mais de dez minutos de abstração sonora, com cada um dos integrantes abrindo canais de som paralelos – Kiko tangendo o violão com metais e papéis, Thiago usando até as teclas do sax para fazer som e Juçara mostrando porque é uma das maiores vozes que temos hoje -, todos se entrelaçando num improviso intenso e imprevisível, antes de cair lindamente na intensa “Oyá”. E em outras músicas foram abrindo espaço para momentos intensos desta natureza (além de visitar “Século do Progresso” de Noel Rosa e dedicar “Cobra Rasteira”, inspirada pela música de Cabo Verde, aos “heróis desta Copa”, como disse Kiko ao mencionar a seleção africana), mostrando porque eles são a melhor banda do Brasil hoje. Só não consegui ficar até o final porque logo em seguida iniciaria a comemoração dos três anos do Inferninho Trabalho Sujo.

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Alto nível

O tratamento que a dupla Juçara Marçal e Thais Nicodemo dá ao repertório escolhido para sua apresentação conjunta já colocava as canções – compostas basicamente por novos nomes da moderna música brasileira – em um outro patamar. O piano preparado de Thais e os efeitos sonoros que Juçara dispara enquanto solta sua voz implacável abriam uma nova camada de ousadia e risco natural das músicas de Maria Beraldo, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Negro Léo, Kauê Batista, Eduardo Climachauska, Guilherme Held e Thiago França quando elas ainda faziam seus primeiros encontros no palco e depois quando o levaram para o disco, com o primoroso Dessemelhantes, lançado no mês passado. Mas ao levar o disco para um palco tão emblemático quanto o do teatro do Sesc Pompeia, elas ampliaram ainda mais o nível do encontro, deixando tudo suntuoso e clássico ao mesmo tempo em que arrojado e arriscado, sem perder o minimalismo inato do abraço dado entre voz e piano. E assim as duas puderam se jogar mais intensamente no público – Thais usando o “microfone da Madonna” para cantar enquanto toca em algumas canções pontuais, Juçara fisicamente, ao deixar microfone e palco em segundo plano e caminhar para a plateia por dois momentos da noite. Mas o centro da apresentação estava no detalhismo sutil que as duas propunham a si mesmas ao fazer o público entrar num refúgio emocional delicado que fazia-nos esquecer todo o mundo lá fora, como por exemplo quando nos puxaram para tão dentro de “Maria” de Maria Beraldo a ponto de suspender o fôlego coletivo – e tão bom ouvir depois Juçara explicar que, ao gravar os vocalises fantasmagóricos que disparava enquanto cantava a canção original, cantarolou músicas com outras Marias conhecidas, citando Ary Barroso, Tom Jobim, Chico Buarque, Biu Róque e a recente “Maria Esmeralda”. Alto nível.

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Distopia periférica

Acontecimento – título da temporada que o trio formado no Rio de Janeiro Crizin da Z.O. apresentou às segundas-feiras deste maio no Centro da Terra – também é uma boa forma de descrever a última noite dessa safra de apresentações ao vivo. Cris Onofre, Danilo Machado e Marcelo Fiedler acresceram à sua formação um segundo percussionista (Gênesis Chagas, baterista da banda carioca Cidade Partida) para receber Juçara Marçal, que ativou sua faceta Delta Estácio Blues, com aparelhos eletrônicos e afeita aos beats pesados e ao tambozão funk que movimenta a parede de ruído erguida pela banda. Foi demais vê-la entrando na zona oeste do Rio de Janeiro do som da banda, ela mesma nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e deixando aflorar todo groove contagiante do funk com o peso e a distorção elétrica dos efeitos à disposição, ao mesmo tempo que fazia o grupo entrar no modo distopia que filtra seu segundo álbum, fundindo sonoridades e temáticas no mesmo clima apocalíptico, que ainda colocou os anfitriões da temporada para enveredar por “Sem Cais”, que Juçara compôs com Kiko Dinucci e Negro Léo, numa versão inacreditável. Chave de ouro.

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Crizin da Z.O.: Acontecimento

Enorme satisfação em receber mais uma vez no Centro da Terra o trio fluminense Crizin da Z.O., que ocupa as segundas-feiras de maio com temporada Acontecimento, em que utiliza o palco do teatro como um espaço-tempo imprevisível. E assim Cris Onofre, Marcelo Fiedler e Danilo Machado convidam diferentes artistas para criar nestes instantes e a cada segunda-feira recebem novos parceiros. A primeira,a dia 4, vem com Kiko Dinucci abrindo caminhos. Depois, dia 11, recebem a dupla Deaf Kids. No dia 18 é a vez de receberem os produtores MNTH, Lcuas Pires e Mbé e encerram estes acontecimentos com a presença de Juçara Marçal no dia 25, sempre misturando funk carioca com elementos de vanguarda, noise e eletrônica. As apresentações começam pontualmente a partir das 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Juçara Marçal e Thais Nicodemo chegam ao disco

Eis a capa de Dessemelhantes, disco que Juçara Marçal lança ao lado da pianista Thais Nicodemo depois de passear por alguns palcos da cidade desconstruindo canções contemporâneas no próximo dia 9 de maio, e que ela antecipa em primeira mão para o #trabalhosujo. “São xilos com matrizes ligadas a tipografias”, explica Juçara sobre a arte feita pela irmã de seu compadre Kiko, Gina Dinucci. “Ela vai fazendo sobreposições dessas matrizes criando um efeito muito interessante, que parece legível, mas não é. A série de onde saiu a ideia da capa chama-se ‘Indizíveis’, de 2017, e quando chamei a Gina pra pensar numa arte pro disco, ela mostrou, entre várias possibilidades, essa série, que achei q tinha tudo a ver com a concepção do disco: algo que parece simples mas encobre uma complexidade na feitura.”

“E também a ideia do indizível… Indizível porque faltam palavras?… ou porque está para além delas?”, continua Ju. “No caso do nosso disco, dá pra pensar ainda nos sons que se somam às palavras e as fazem transbordar de sentidos, sensações… e pra mim isso é uma outra forma muito precisa de definir a canção!”

Além de músicas de Kiko, Maria Beraldo, Rodrigo Campos, Kauê, Negro Leo, Clima e Rômulo Fróes, o disco ainda tem uma colaboração das duas com Thiago França, justamente a que o batiza. “Melodia dele, letra minha e única inédita do disco, que chegou um dia antes de eu e Thais entrarmos no estúdio pra gravação”, lembra a vocalista.

“Eu e Thiago fizemos essa música mais ou menos em 2018 e chegamos a testar num ensaio do Metá Metá, mas acabou não rolando e ficou esquecida. Criei a letra inspirada numa postagem que a poeta e ensaísta Rosane Preciosa fez no Instagram e conversando com uma amiga recentemente, lembrei dela. Thiago me ajudou a recuperar nos perdidos de gravações de ensaio e acabei achando que tinha a ver incluir no disco. Thais fez um arranjo super bonito explorando ostinatos à lá Meredith Monk e ela chegou chegando – e virou nome do disco.” Feito, como ela mesma cita, “’às próprias custas S.A.’, como diria Itamar, tive apoio da YB na mixagem, masterização e no lançamento nas plataformas.” Estamos esperando!

Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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Agnès Varda via Juçara Marçal

Juçara Marçal e Agnès Varda num mesmo momento: me belisca porque parece que eu tô sonhando. São duas apresentações no IMS de São Paulo nos dias 7 e 8 de abril, quando a cantora mistura as canções próprias, de artistas brasileiros e do espetáculo que faz em homenagem a Brigitte Fontaine, além de outras de Toto Bissainthe, artista haitiana que morava em Paris e foi registrada pela cineasta e fotógrafa francesa, acompanhada por Kiko Dinucci e Juliana Perdigão, sobre a exibição dos curtas A Ópera-Mouffe (1958) e Os Panteras Negras (1968), da homenageada da noite, que ainda terá a exibição de fotografias dos filmes Salut les Cubains (1963), La Pointe Courte (1954) e Papa Bon Dieu (1958). As apresentações fazem parte da excelente mostra Fotografia Agnès Varda Cinema, que está sendo realizada no Instituto. A entrada para os shows é gratuita, com senhas distribuídas uma hora antes das apresentações (que começam às 19h30) e cada pessoa só pode retirar uma senha. Programaço!

Dois universos da canção

Mais uma noite com Sophia Chablau no Centro da Terra, esta anunciada como um dos grandes momentos de sua temporada Guerra, uma vez que reunia dois universos distintos da canção contemporânea brasileira, quando ela chamou Dora Morelenbaum e Juçara Marçal para a mesma noite. Ela começou acompanhada da dupla com a qual montou o power trio que atravessa as noites deste mês de março, com ela mesma na guitarra e vocais, Marcelo Cabral no baixo e eletrônicos e Theo Ceccato na bateria, chutando a vibe punk rock logo de cara com uma canção inédita e dedicando sua “Quantos Serão No Final?” à escola iraniana que foi bombardeada pelos EUA no início do mês. Depois, sozinha com seu instrumento, passeou por outras inéditas (como uma que compôs para os bares da marquise da Alfonso Bovero, vizinhos do teatro, e outra em inglês). Depois, ainda só à sua guitarra, chamou a primeira convidada da noite, quando dividiu com Dora os vocais de sua “Cinema Total”, de outra inédita, composta na semana passada para a própria cantora carioca, batizada ainda no rascunho como “Corpos Jogados”, de “Petricor”, da própria Dora, e de “Vem Comigo” de Sophia gravada por Dora, as três últimas acompanhadas por Cabral (que fez um solo fabuloso na última). Os dois deixaram Sophia sozinha de novo no palco, que passou por sua “Segredo” e por outra inédita, antes de chamar a segunda convidada da noite. E ao chamar Juçara para o palco (bem como Theo e Cabral), começaram passeando pela “Lembranças Que Guardei”, que Ju compôs com Kiko Dinucci e Fernando Catatau, para depois entrar em uma parceria inédita das duas (batizada temporariamente de “Sumiu Sumi”), de “Meninos de Itaquá” (que Sophia já havia mostrado nas noites anteriores e confessou ser inspirada no Delta Estácio Blues de Juçara) e outra inédita das duas, “O Céu Já Não”, que encerrou a noite em grande estilo. Showzaço que só pecou por não juntar Dora e Juçara numa mesma canção, mas que seguiu mantendo o alto nível da temporada.

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Sophia Chablau: Guerra

A primeira temporada de 2026 no Centro da Terra não poderia ser mais certeira, afinal Sophia Chablau, que vai tomar conta de todas as (cinco!) segundas-feiras deste mês de março no teatro, batizou sua residência no teatro com o título de Guerra no exato momento em que o mundo parece colapsar em mais um conflito bélico mundial. “Palavra temida que escancara o conflito, repetida na canção, metonímia ou metáfora de conflitos externos a nós, conflitos internos ou conflitos românticos”, explica a cantora paulistana. “Em último caso a vida sendo uma guerra contra a morte, o monumento fazendo guerra ao tempo, a canção fazendo guerra a desordem do universo. As grandes guerras, as pequenas guerras, as guerras. – Pra variar estamos em guerra. Não é um eixo temático, é uma provocação, é um anúncio – é preciso declarar guerra.” E para essa declaração ela reúne sessões que prometem ser históricas. A primeira acontece nesta primeira segunda (dia 2) quando recebe sua banda Enorme Perda de Tempo para mostrar novidades que eles vêm trabalhando. Nas segundas seguintes ela mantém o baterista Theo Ceccato e chama o baixista Marcelo Cabral para acompanhá-la na guitarra quando recebe duplas de peso. Na segunda (dia 9), ela chama Kiko Dinucci e Jonnata Doll. Na outra (dia 16) é a vez de receber Dora Morelenbaum e Juçara Marçal. Na quarta segunda do mês (dia 23) ela convida o casal Ava Rocha e Negro Leo e encerra sua temporada de ouro na última segunda do mês (dia 30) com as presenças de Vítor Araújo e Zé Ibarra. Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda pelo site do Centro da Terra – mas corre que eles estão acabando!

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A primeira vez no Bona

Por incrível que pareça, esta quarta marcou a primeira vez que o Metá Metá tocou no Bona. Integrantes da melhor banda do Brasil já haviam passado pelo palco da casa do Sumaré em outras formações, mas as duas apresentações que marcaram para esta semana foram as primeiras que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França fizeram juntos naquele palco, espalhando o já conhecido e arrojado feitiço musical forjado em São Paulo – embora nenhum de seus integrantes seja paulistano – para os ouvidos atentos que foram ouvi-los no meio desta última semana de janeiro. O repertório é o mesmo que apresentam há anos, juntando músicas de seus três álbuns com versões para canções de Jards Macalé, Maurício Pereira, Siba Veloso, Douglas Germano e Itamar Assumpção – que deixaram para tocar no bis, com a assertiva “Tristeza Não” -, sempre deixando violão, sax e vozes ganhar corpo próprio e dominar todos os presentes. Sempre aquele descarrego energético feito pra gente voltar leve pra casa.

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