Sambas do Absurdo em modo remoto

O segundo volume dos Sambas do Absurdo que reuniu Juçara Marçal, Rodrigo Campos e Gui Amabis num trio tão preciso já estava em processo de composição de forma remota mesmo antes da pandemia começar. “Rodrigo apresentou os sambas no início de 2019. Via whatsapp!”, ri Juçara. “Estávamos os três com agenda muito corrida e, durante o ano, nas brechas de tempo, Gui foi armando com Rodrigo os arranjos, que a gente só conseguiu sentar pra ouvir juntos em fevereiro de 2020.” Mas a partir da quarentena eterna que começou em março do ano passado, o trio seguiu o trabalho de forma ainda mais remota e finalmente começa a mostrar o novo disco, que deve ser lançado ainda neste ano, com o belo single “Ladeira”, que ainda conta com o baixo do Regis Damasceno.

Ouça aqui.  

Os melhores de 2020 no Brasil… pra gringa!

O Lewis Robinson, do selo britânico Mais Um Discos me convidou para elencar os grandes trunfos musicais daqui no ano passado, ao lado de vários outros olheiros de música espalhados pelo mundo. Falei dos discos do Kiko, da Luedji, da Letrux, do BK, do Tantão, do Gui Held, do seu Mateus Aleluia, do Acorda Amor, do Rico Dalasam, da Larissa Conforto, do Negro Leo, do Zé Manoel, do Thiago e do Schiavo, além dos shows do Bixiga com a Luiza Lian, da Juçara cantando seu Encarnado sem energia elétrica, do Romulo revisitando o Transa, do Kiko Dinucci, das lives do Paulinho da Viola e do Caetano Veloso e do documentário do Emicida (tudo em inglês). E minha retrospectiva 2020 começa em breve…

I’ve been to 34 concerts in 2020 and in less than three months this quota of live music fulfilled me through the year (John Cale was the last one I’ve seen and got a chance to see Juçara Marçal three days in that same last week – what a thrill!). 2020’s been a weird year, full of haunting and dramatic Brazilian new milestones, classic acts streaming online and some of those concerts I’ve been able to watch (and film, yes, I’m one of those people) in those first “normal” months… Here’s twenty great moments of Brazilian music in 2020, in any particular order.

Guilherme Held – Corpo Nós
A psychedelic guitar hero and an afrossamba aficionado that axed most Brazilian music in the last decade, gather his friends to a deep turn into the black heart of the country.

Kiko Dinucci – Rastilho (live at Sesc Pompeia)
Kiko’s raw and gripping second solo album grow an extra dimension when performed live – and what is this samba choir…

Letrux – Letrux aos Prantos
The drama diva dives into the seas of deep sadness, laughing just to stay sane – if that’s possible in 2020.

BK: O Líder Em Movimento
One of the best rappers in Brazil today, BK’ is also the best audio director in Brazilian pop music, leading the listener to different regions of Rio de Janeiro and his third album is a masterclass about political racism in our country.

Romulo Froes canta Transa com Jards Macalé (live at Sesc Belenzinho)
Romulo manages to gather a gang of aces (Marcelo Cabral, Guilherme Held, Richard Ribeiro and Rodrigo Campos) to craft his own deconstructed version of Caetano’s most emotional album, inviting one of its masterminds, the ominous Jards Macalé, to stage – just to call “bora Macao” at his guru, just as Veloso did on record.

Luedji Luna – Bom Mesmo É Estar Debaixo D’água
This goddess finally made an album worth her majesty: a lavishly black blending of soul, samba and funk melted into the same pearl.

Luiza Lian + Bixiga 70 (live at Sesc Pinheiros)
The meeting between the electronic pixie and the nine-headed groovy hydra works almost as a mythological tale.

Juçara Marçal Encarnado Acústico (live at Centro da Terra)
Juçara is an entity and she revisited her bold and epic Encarnado in a really acoustic way: no mics, no amps, audience onstage in a journey she led escorted by Kiko Dinucci, Thomas Rohrer and Rodrigo Campos.

Caetano Veloso Live (Globoplay)
The old professor gathered his sons to visit his golden era (from 1968 to 1992) in a widely watched live concert.

Acorda Amor
Cultura Livre’s TV host Roberta Martinelli and Bixiga 70’s drummer Decio 7 assembled five of the most poignant contemporary Brazilian female voices (Liniker, Letrux, Maria Gadu, Xenia and Luedji) to visit a cannon of political songs from the country’s repertoire.

Mateus Aleluia – Olorum
There’s a submerged continent in between Brazil and Africa and the only stone we can see over the sea level is this old Tincoã.

Negro Leo – Desejo de Lacrar
An exercise about cancelment culture, online behavior and how it’s affecting our days.

Emicida – AmarElo – É Tudo Pra Ontem (Netflix)
The paulista rapper got into the sumptuous Theatro Municipal de São Paulo and get the chance to link it to the story of samba, the story of Brazilian hip hop culture, our black political movement and the meaning of being Black in Brazil.

Rico Dalasam – Dolores Dala Guardião do Alívio
So painfully good, Rico’s one the best new singers and composers in Brazil, reinventing R&B through his own point of view.

Tantão e os Fita – Piorou
2020’s ugly face – look at it! Look! At! It”

Zé Manoel – Do Meu Coração Nu
What happened if Tom Jobim and Dorival Caymmi were a the same pernambucano maestro? Zé Manoel is the answer.

Thiago França – KD VCS
Metá Metá’s saxman goes completely solo in studio: just one takes, no post production, no electronic effects, just the man and his instrument, using it like a lamp in it’s own cave.

Bruno Schiavo – A vida só começou
The untranslatable involuntary pun (which mixes “Life’s just begun” with “Lone life has begun”) add a layer of sweetness and is an improbable mix of songcraft and avant-garde.

ÀIYÉ – Gratitrevas
Ventre’s former drummer, Larissa Conforto metamorphosed into Àiyé, fusing electronics, percussion, ancient traditions and artivism in the same scale.

Paulinho da Viola Live (Globoplay)
The Brazilian prince of samba is a national treasure.

10 more? 10 more!
Josyara e Giovani Cidreira – Estreite
Bonifrate – Diversionismo
Cadu Tenório – Monument for Nothing
Carabobina – Carabobina
Joana Queiroz – Tempo Sem Tempo
Marcelo Cabral – Naunyn
Pelados – Sozinhos
Tatá Aeroplano – Delírios Líricos
Pipo Pegoraro – Antropocósmico
Fellini – A Melhor Coisa Que Eu Fiz (box set)

Vida Fodona #669: Culpe o frio

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Um pouco mais introspectivo…

Stephen Malkmus – “Love the Door”
Def – “Paraquedas (Boddah)”
Clash – “One More Time”
Tatá Aeroplano – “Deixa Voar”
Kamasi Washington – “Truth”
Bruno Schiavo – “Lambada”
Tommy James & The Shondells – “Crimson & Clover”
Fernê – “Consolação”
Deerhunter – “Heatherwood”
Nomade Orquestra + Juçara Marçal – “Poeta Penso”
Clairo + Danielle Haim – “Bags”
Boogarins – “João 3 Filhos”
Unknown Mortal Orchestra – “Secret Xtians”
Laura Lavieri – “Desastre Solar”/”Radical”
Ariana Grande – “Thank U, Next”

Juçara Marçal: Encarnado Acústico

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Que honra poder receber durante quatro terças-feiras uma versão nova para um clássico moderno da música brasileira vinda de sua própria autora. A querida e implacável Juçara Marçal volta ao palco do Centro da Terra para mais uma temporada, quando relê seu Encarnado com os mesmos músicos com quem o gravou mas de uma forma completamente nova: sem eletricidade. Encarnado Acústico ocupa as terças de março no Centro da Terra a partir deste dia 10 (mais informações aqui).

“Foi ideia do Thomas (Rohrer). que estava programando um festival na Leviatã, um espaço cultural no centro da cidade, focado nos sons mais experimentais, improvisos livres, performances, e sugeriu de a gente fazer essa versão sem amplificação, até porque o espaço não comportaria o show de outra forma”, a própria Juçara me explica, lembrando desta única apresentação no fim do ano passado. Além de Thomas, tocando viola, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos também participam dos shows.

“Fizemos apenas algumas músicas e o resultado foi surpreendente”, lembra a cantora. “Os arranjos mudam sensivelmente porque o Kiko está usando uma viola dinâmica e ele acaba tendo que pensar nas frases que faz de um jeito diferente. No todo, o som acaba mudando também. O fato do Rodrigo usar violão de aço e não guitarra também muda bastante o som.” O formato obviamente também impacta em seu canto: “Não ter que me preocupar com dois microfones e pedais dá uma bela diferença, fico mais livre e a voz também, inevitavelmente.”

Serão quatro shows idênticos, ao contrário das temporadas de segundas-feira, que cogitam diferentes possibilidades a cada apresentação. “Em princípio, sim”, ela continua. “Vamos vendo o que funciona, tanto do ponto de vista do repertório, como nossa posição no palco”. Quando pergunto se há músicas de outros trabalhos que podem surgir no repertório, Ju é categórica: “Em princípio, não.”

Ela reforça a importância do teatro neste novo show. “A conexão palco-plateia é diferente, a atenção é outra, a dispersão diminui”, enumera. “As pessoas têm uma possibilidade maior de embarcar na história que de certa forma contamos num show.”

Nada de disco novo? “O próximo disco não tem muito a ver com o Encarnado não. #aguardeeconfie”, ela ri fazendo a hashtag.

Centro da Terra: Março de 2020

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A programação de fevereiro do Centro da Terra invade o próximo mês quando Beto Villares encerra a sua temporada Amostras Emocionais no dia 2 de março, mostrando pela primeira vez seu novo disco, Aqui Deus Andou, ao vivo. No dia seguinte, na terça, dia 3, Felipe S., vocalista do Mombojó, começa a mostrar músicas inéditas no espetáculo Notícias Recentes (mais informações aqui), quando divide o palco com nomes como Habacuque Lima, Bruno Bruni, Barbarelli, entre outros. Na outra segunda, dia 9, é a vez do produtor e percussionista Guilherme Kastrup começar a temporada Feminino Fatorial (mais informações aqui), quando convida as artistas visuais Edith Derdik e Carol Shimeji, as percussionistas Beth Belli e Jackie Cunha e a dançarina Morena Nascimento para um espetáculo contínuo, que vai mudando a cada nova segunda-feira. A programação do mês se encerra com chave de ouro, quando mais uma vez recebemos a deusa Juçara Marçal para recriar seu Encarnado no palco do Centro da Terra, só que em versão acústica (mais informações aqui), convidando Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rhorer para recriar este marco da música brasileira deste século ao vivo. Que mês!

Um gosto de Lira Paulistana

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Prestes a lançar seu segundo disco, o grupo Amanticidas escancara sua principal influência, a vanguarda musical que girava ao redor do teatro Lira Paulistana durante os anos 80 e convida uma de suas principais seguidoras desta linhagem, no single que antecipa o novo lançamento. “Paisagem Apagada” é um pequeno e importante aperitivo de Teto, que foi produzido por Fernando Catatau, e está sendo antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. A faixa também é um comentário sobre o Brasil de 2020 ao cantar que “Foi minha distração, sou eu que sou culpada, agora condenada assistir o desmonte do meu mundo”.

“A gente escolheu a Juçara muito tempo atrás, ela que foi ficar sabendo depois! Quando o Alex (Huszar, baixista e vocalista) chegou com essa canção, voz e violão, lá em 2017, foi imediato e unânime: a gente quer, a gente precisa, ouvir isso na voz dela”, explica o guitarrista e vocalista João Sampaio. “Não sabemos se é a letra, o clima, tudo isso junto: a gente sabia que tinha que ser a Juçara. Aí no ano passado durante as gravações nosso produtor Fernando Catatau – sem palavras, que homem – fez a ponte e o negócio virou realidade. Trabalhar com ela foi um prazer, uma honra e uma aula: é sempre bom quando você é fã de uma pessoa faz tempo e descobre que além do talento ela também é generosa, gente boa e uma baita profissional.”

João continua fazendo a conexão entre a cena que inspirou a criação do grupo, cujo nome saiu de uma música de seu maior ídolo, Itamar Assumpção, e a cena atual. “O legado mais forte talvez seja essa afirmação de que é possível fazer música autoral, original, diferente e interessante nessa cidade esquisita e imensa. Que tem gente pra fazer, gente pra ouvir, que não é fácil mas que vale a pena. Mas é um pouco difícil falar em descendência porque o pessoal da vanguarda original via de regra ainda tá por aí a mil, lançando coisa nova, então as gerações vão se confundindo, trocando. A gente quer mais é entrar nessa confusão”.

E não mediram esforços para se misturar: além da inspiração em Itamar, o grupo já dividiu o palco com alguns dos principais protagonistas daquela cena (Arrigo Barnabé, Banda Isca de Polícia, Ná Ozzetti, Alzira E, Suzana Salles, Orquídeas do Brasil, entre outros) e de se enturmar com artistas que orbitam ao redor deste grupo (como Tulipa Ruiz, Tom Zé, Maurício Pereira), além de ter seu primeiro álbum produzido por Paulo Lepetit. “A inspiração, na verdade, veio um pouco da necessidade”, continua João. “Lá nos idos de 2012 o Alex já tinha juntado a gente pra fazer um som assim meio vanguarda paulista. Tínhamos ensaiado umas poucas vezes, começado a levantar um repertório e conversado sobre as influências – Itamar já era a maior -, mas tudo naquele estágio bem preliminar de banda que quase-existe. Aí uma outra banda que o Sampaio tinha acabou e eles tinham um show marcado pra dali a duas semanas; ele ligou pra todo mundo, a gente escolheu o nome, se matou de ensaiar – algo que logo se tornaria um hábito -, levantou um show e seguiu dali.” Além de João e Alex, a banda ainda conta com Luca Frazão (violão de sete cordas e voz) e Joera Rodrigues (bateria).

O guitarrista lembra dos primeiros contatos que fizeram com os integrantes da vanguarda paulistana: “Teve um marco inicial bem claro nisso tudo que foi um evento em 2015 no qual tocamos antes da Isca de Polícia – a ideia dos produtores era justamente esse encontro de gerações. Aí tiramos um arranjo bem cascudo do Itamar pra impressionar – “Peço Perdão”, do disco Às Próprias Custas S/A – e funcionou: conhecemos o pessoal todo da Isca e o Lepetit falou pra gente que tinha um estúdio e adoraria que a gente gravasse lá. Dito e feito, em 2016 sai nosso primeiro disco com produção dele, que trouxe junto as participações incríveis de Arrigo Barnabé e Tom Zé. Com esse impulso inicial do Lepetit a gente foi indo atrás dos nossos caminhos pra buscar todo mundo daquela geração, querendo aprender: dividimos palco com Suzana Salles e Vange Milliet, com as Orquídeas do Brasil, Alzira E, gravamos no disco do Tom Zé, só alegria. Em 2018 fizemos uma turnê estadual em que cada show teve uma participação diferente desse pessoal, como o Maurício Pereira e a Ná Ozzetti. Estamos sempre nessa busca, que enxergamos um pouco como um longo processo de pesquisa mas também como uma realização pessoal e profissional gigante.”

“O jeito que esse processo de pesquisa se traduz no nosso trabalho é um pouco misterioso pra nós mesmos, continua o guitarrista. “A gente tenta assimilar, se apropriar e depois fazer do nosso jeito, mas o que sai e o que soa fica por conta do ouvinte. Mas claro que existem algumas inspirações mais diretas e conscientes, como estar no nosso processo de arranjo a coisa Itamarística das linhas instrumentais individuais se somando, um negócio meio contraponto até, que sempre nos fascinou e que a gente enxerga muito também nos trabalhos de um pessoal mais recente aqui de SP que admiramos demais, como Metá Metá, Passo Torto, Juçara Marçal…”

Teto será lançado nesta sexta-feira.

Os 100 melhores discos dos anos 10

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Estive entre a centena de votantes que Marcelo Costa convidou para resumir a década passada em disco em seu Scream & Yellaqui você confere os 50 discos nacionais mais votados e aqui os 100 internacionais. Meus votos seguem abaixo (a lista com todos os votantes e seus votos está neste link), mas em breve publico minha própria lista aqui no Trabalho Sujo (onde você sabe que eu não faço essa separação entre brasileiros e estrangeiros).

Melhores discos nacionais – 2010 a 2019
1) Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo
2) Juçara Marçal – Encarnado
3) Criolo – Nó na Orelha
4) Serena Assumpção – Ascensão
5) Metá Metá – MM3
6) Ava Rocha – Ava Patrya Yndia Yracema
7) Céu – Tropix
8) Siba – De Baile Solto
9) BaianaSystem – Duas Cidades
10) Cidadão Instigado – Fortaleza

Melhores discos internacionais – 2010 a 2019
1) Beyoncé – Lemonade
2) Chromatics – Kill For Love
3) Frank Ocean – Channel Orange
4) Radiohead – A Moon Shaped Pool
5) The Internet – Hive Mind
6) Daft Punk – Random Access Memories
7) Rihanna – Anti
8) Kendrick Lamar – To Pimp a Butterfly
9) Arctic Monkeys – AM
10) Warpaint – Heads Up

Vida Fodona #615: O último programa de 2019

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Raspando o tacho do ano.

Tulipa Ruiz + João Donato + Edgar – “Manjericão”
Fountains D.C. – “Big”
Tame Impala – “Patience”
Georgia – “About Work The Dancefloor”
Chromatics – “You’re No Good”
Ariana Grande – “NASA”
Stephen Malkmus – “Forget Your Place”
Caroline Polachek – “So Hot Youre Hurting My Feelings”
Clairo – “Bags”
Caribou – “You and I”
James Blake + Rosalía – “Barefoot In The Park”
Luiza Brina + César Lacerda – “De Cara”
MGMT – “In the Afternoon”
Yumi Zouma – “Right Track / Wrong Man”
Brockhampton – “Sugar”
Lil Nas X + Billy Ray Cyrus – “Old Town Road”
Sharon Van Etten – “Seventeen”
Luedji Luna + Attooxxa + Omulu – “Tô Te Querendo”
Charli XCX + Christine and the Queens – “Gone”
Mura Masa + Slowthai – “Deal Wiv It”
Lizzo – Juice
Francisco El Hombre – “Chão Teto Parede (Pegando Fogo)”
Dua Lipa – “Don’t Start Now”
Little Simz – “Boss”
Nill – “Mulher do Futuro Só Compra Online”
Michael Kiwanuka – “Hero”
The Comet is Coming + Kate Tempest – “Blood Of The Past”
Nomade Orquestra + Juçara Marçal – “Poeta Penso”

Juçara Marçal: Curima

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Que prazer receber Juçara Marçal no Centro da Terra neste mês de outubro, quando ela toma conta das segundas-feiras com sua temporada Curima (mais informações aqui). “É uma palavra que vem do quimbundo e designa várias coisas ligadas a um rito: o próprio rito, a música, a dança, o canto, a festa, a brincadeira”, me explica na entrevista abaixo, em que disseca o que pensou para este mês. Curima parte de trabalhos estabelecidos da cantora carioca, cujo trabalho é pilar fundamental de duas grandes instituições da músicia independente brasileira, os grupos A Barca e Metá Metá. Mas em paralelo a estes trabalhos, ele sempre envolveu-se com colaborações, parcerias e outros experimentos sonoros, justamente os que revive durante este mês, trazendo elementos que ela vem flertando há pouco tempo: o improviso livre e a presença da dança em sua obra.

Na primeira data, dia 7, batizada de Outras Curima ela convida Rodrigo Brandão para um mergulho do canto falado, ao lado da baixista Clara Bastos, do trompetista Rômulo Alexis e da bailarina Aysha Nascimento. Na segunda, dia 14, que ela chamou de Curima 24h, ela mergulha no improviso ao lado do velho compadre Thomas Rhorer e de Marco Scarassatti, além da dançarina Marina Tenório. No dia 21, ela visita as canções eternizadas pela francesa Brigitte Fontaine, em Curima para Brigitte, quando leva este seu já conhecido trabalho para o campo do improviso, ao lado dos comparsas de Metá Metá Kiko Dinucci e Thiago França, além de Lincoln Antonio e do bailarino Ernesto Filho. Finalmente, no dia 28, ela invade o terreno de seu trabalho Anganga, feito ao lado de Cadu Tenório, na noite Anganga Curima, que contará com as presenças de Cadu e a volta da bailarina Aysha Nascimento. Ela conta a concepção geral da temporada e como ela conversa com a preparação de seu segundo disco solo na entrevista abaixo:

O que é Curima?
É uma palavra que vem do quimbundo e designa várias coisas ligadas a um rito: o próprio rito, a música, a dança, o canto, a festa, a brincadeira. Por isso, achei que seria um bom nome para as sessões que farei no Centro da Terra. Essas segundas-feiras serão abertas a essas várias maneiras de ritualizar o encontro.

Como você dividiu este conceito em quatro noites?
Quatro encontros de improvisação. Em cada um, o nó acontece a partir de algum projeto já existente, juntando amigos com quem já improvisei antes, e outros que convido para improvisar pela primeira vez. Em todos, uma bailarina – ou bailarino – interagindo com o som.

Fale sobre os convidados e o clima da primeira noite, Outras Curima,
Pra abertura, chamei Rodrigo Brandão. E essa aconteceu com a ajuda do acaso. Rodrigo está morando em Lisboa. Calhou de estar aqui para a tour Outros Espaço, com os músicos da Sun Ra Arkesrta. Quando soube disso, não tive dúvida, chamei-o pra abertura que acontece um dia após o fim da tour pelo interior. E a coincidência vinha a calhar. Eu participei do álbum do Rodrigo, o Outros Barato, de spoken word mergulhado no improviso livre. Além de participar cantando, um texto meu acabou entrando no disco. Então, o que era pra ser uma simples participação, foi momento de experimentação e descoberta também pra mim. Assim, Outras Curima celebra o encontro com Rodrigo, com o spoken word, com o improviso… Todas matérias novas na minha vida de cantora.
Chamei também a Clara Bastos, baixista da banda Orquídeas do Brasil. A gente já tocou junto no som do Paulo Padilha, por bastante tempo, mas é a primeira vez que nos juntamos para uma sessão de improviso. O trompetista Rômulo Alexis foi toque da Clara. Já tinha ouvido falar bastante dele, mas nunca rolou de tocarmos juntos. Nos conheceremos no palco. Desafio sempre instigante. E na performance corporal, a atriz, bailarina, diretora, que eu tive a sorte de conhecer mais de perto na montagem de Gota d’água {Preta}, Aysha Nascimento.

Depois temos Curima 24h. O que é isso?
O segundo dia é uma deferência ao parceiro de longa data, Thomas Rohrer, um dos maiores improvisadores que conheço. Tocamos juntos desde o grupo A Barca. Depois o chamei pra compor o trio que me acompanhava no Encarnado. Recentemente, a gente formou esse Duo 24Horas pro Festival de Moers, que rolou em junho. Já tínhamos feito algumas sessões de improviso, sempre com mais gente, inclusive o Marco Scarassatti, que também é convidado desse segundo dia. Marco tem um trabalho incrível como improvisador e criador de novos instrumentos sonoros. Voltando ao 24Horas, pro festival, eu e Thomas propusemos um show do duo, que precisava ter um nome. Esse nome surgiu de uma brincadeira dele, da época d’A Barca. Nas pesquisas que fazíamos, nos deparávamos frequentemente com músicas tão encantadoras que a gente não queria nunca mais parar de tocar. Cada vez que surgia na roda uma música com essa vocação, o Thomas já anunciava: “Música 24 Horas”. Daí a chegar no nome do duo, foi um pulo!
A performance corporal desse dia é da Marina Tenório, atriz e bailarina que quando vi dançando numa sessão de improviso, com Thomas e Philip Somervell, fiquei encantada. Foi por causa desse dia que tive a ideia de fazer as sessões com participação de performers corporais. A Marina foi muito inspiradora nesse sentido.

Como Curima conversa com seu espetáculo em homenagem à Brigitte Fontaine? Quem mais toca contigo neste terciero dia?
Pro dia da Curima para Brigitte, a ideia é que as músicas que canto dela surjam em meio aos movimentos improvisados que vamos criar. Eu, Kiko e Lincoln já temos no repertório algumas das músicas da Brigitte arranjadas. Então o desafio será puxar essas canções em meio ao improviso. O Lincoln é parceiro de longa data – de antes d’A Barca até. Mas nunca estivemos juntos numa sessão de improviso. Por isso, resolvi propor o desafio pra ele e pra mim. Pra completar o time e a trama de improviso, chamei o outro parceiro do Metá Metá, Thiago França.
Na performance corporal, o Ernesto Filho, que é um aficcionado pela Brigitte Fontaine. Ele até fez um filme inspirado em suas canções. Por isso, no dia 21, teremos também a projeção desse filme, como elemento mobilizador das performances, que se chama: Pas Ce Soir (Esta Noite Não).

E a última noite, Anganga Curima, como conversa com seu trabalho com Cadu Tenório?
Este dia vai ser dedicado ao repertório do disco Anganga, que fiz em parceria com o Cadu. Com a Aysha Nascimento de volta pra fechar o ciclo. Ideia semelhante ao da segunda anterior. As músicas que já tocamos no Anganga, mas num contexto ininterrupto de improvisação. Os arranjos já estruturados surgirão – ou não! – em meio aos movimentos sonoros que formos criando na hora.

Curima já é uma preparação para seu próximo disco solo? Em que pé está este processo?
Estou bem interessada em cada um dos encontros ser momento de experimentar a elasticidade do canto, do verso, em meio aos movimentos sonoros improvisados. Testar possibilidades rítmicas da voz, timbres, pedais, buscar saídas diferentes pra algo já arranjado. Acho que a abertura natural de uma sessão de improviso vai me ajudar a aprofundar algumas questões que estou investigando pro disco novo. Mas não haverá nada do disco… Até onde eu sei!

O fato de você realizar esta temporada num teatro muda muito em relação a apresentá-lo em casas de show tradicionais?
Só o fato de a temporada poder ser pensada de forma mais experimental, pra apresentar um processo, não necessariamente um show pronto, já muda totalmente o jeito de encarar cada apresentação. E o fato de ser num teatro como o Centro da Terra torna tudo mais especial, pois é um teatro muito aconchegante. Propício a experiências mais intimistas, e também mais radicais.

Vida Fodona #593: O complexo de épico pra lá

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Mais um programa do solto

Clash – “The Card Cheat”
Nill – “Stay High”
Can – “Future Days”
Jupiter Apple – “Welcome to the Shade”
Massive Attack – “One Love”
Supercordas – “3000 Folhas”
Of Montreal – “Touched Something’s Hollow”
Frank Zappa + The Mothers of Invention – “What’s the Ugliest Part of Your Body (Reprise)?”
Rush – “Red Barchetta”
Ava Rocha – “Doce é o Amor”
Percy ‘Thrills’ Thrillington – “Long Haired Lady”
Nomade Orquestra + Juçara Marçal – “Eró Iroko”
BaianaSystem + Antonio Carlos & Jocafi + Edgar + BNegão – “Salve”
Black Alien – “Jamais Serão”