
Escrevi no blog do UOL sobre como a lenta morte do CD traz um questionamento importante sobre a preservação da memória do futuro digital. Veja lá: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/09/nao-jogue-fora-os-seus-cds-ainda/
Não jogue fora os seus CDs – ainda
Quem ainda compra CD? No mês passado a rede de cafés Starbucks anunciou que não venderia mais discos. O anúncio parece banal e corriqueiro, ainda mais num 2015 em que carros e computadores já saem das fábricas sem leitores de CD e em muitos lares o único CD player é o home-theater comprado para ver filmes ou assistir TV. Mas há dez anos a franquia hipster de frappuccinos parecia vir salvar esta indústria, que vivia seus dias de pane. No mundo da música digital e da renascença do vinil (ainda como um mercado de nicho) o CD virou um objeto estranho, uma mídia pária que vende cada vez menos mas que ainda é o denominador comum nas grandes coleções de música existentes, virtuais ou não. E embora sua morte já vem sendo anunciada desde o início do século talvez não seja a hora de você se desfazer de sua coleção de CDs. Nem de cravar que o CD morrerá em poucos anos.
Você se lembra de 2005. O século digital mal havia começado quando, em 1999, o Napster ateou o fogo do compartilhamento gratuito de arquivos entre computadores que abriu uma torneira de downloads piratas. Todo mundo baixava tudo que podia ao mesmo tempo em que uploadava raridades, discos favoritos, registros inéditos de suas próprias coleções. Desacostumadas a perder dinheiro de tal forma, as gravadoras multinacionais partiram para o ataque. A música digital causou um revés considerável na venda de discos e em vez de adotar o Napster para suas engrenagens, as grandes gravadoras passaram a vilanizar a internet e processar engrenagens que facilitavam o download ilegal. Além de promover uma guerra de desinformação que dizia que os piratas estavam “matando a música”, quando o que estava morrendo, na verdade, era apenas o suporte. Mas as gravadoras faziam questão de misturar os dois conceitos para jogar com a culpa de quem baixava música de graça. Enquanto isso Steve Jobs percebia a lacuna no ar e transformava seu software iTunes em loja online e vendia iPods como se estivesse reinventado a roda (ou, melhor dizendo, o Walkman).
E por mais que as majors tivessem conseguido derrubar o Napster, ele foi só o primeiro. Pelos anos seguintes gravadoras acionaram departamentos jurídicos para aniquilar novas empresas criadas por jovens programadores para ocupar o vácuo deixado pelo primeiro software. As empresas eram batizadas com palavras inventadas, sufixos e prefixos grudados a palavras que poderiam instigar alguma curiosidade em novíssimos consumidores: Audiogalaxy, Edonkey, Limewire, Shareaza, Kazaa, Emule, Gnutella, Grokster, Demonoid, Sharereactor, Rapidshare, Bitorrent, Soulseek, Megaupload, Isohunt, Mininova, ThePirateBay. De certa forma, esses serviços acabaram antecipando a era das startups, a economia dos aplicativos e as redes sociais.
A crise no mercado fonográfico inevitavelmente mexeu primeiro com as lojas de discos, da mesma forma que o CD já havia mexido dez anos antes. Era o momento da falência de templos da música antes inabaláveis, como as megastores Virgin e Tower Records, que em outras eras foram responsáveis pelo fechamento das pequenas lojas de disco. E se as lojas pequenas haviam fechado nos anos 90 (com a ascensão do CD) e as grandes pareciam seguir o mesmo caminho, onde o artista não-digital conseguiria vender seu disco físico?
Foi quando a rede Starbucks surgiu como uma das luzes no fim deste túnel e em 2005 lançou seu primeiro projeto musical, o CD Live at the Gaslight 1962 que flagrava um jovem Bob Dylan tocando em um café (hehe) do Village, em Nova York. O disco foi lançado pela Columbia (a gravadora de Dylan), mas a rede de cafés tinha exclusividade na venda do título pelo primeiro ano. Vieram outros discos e projetos e em dois anos a própria rede de cafés estava lançando seus próprios álbuns, de coletâneas do Sonic Youth a discos inéditos de Paul McCartney, Elvis Costello, James Taylor, Cars, Sia e Carly Simon, entre outros.
Tempos estranhos aqueles em que as gravadoras pareciam não se importar com música, e outras empresas, que vendiam outros produtos que não tinham nada a ver com música (como os cafés Starbucks ou a Apple), começavam não só a faturar o dinheiro que antes era dos vendedores de disco como a se tornar referência do novo mercado e lançadoras de tendências. A primeira metade da década passada viu bandas e artistas procurando patrocinadores que pudessem lhes dar uma nova forma de contato com o público. Discos eram vendidos dentro de aparelhos celulares como se o fato de um disco vir com a íntegra digital de um CD da Ivete Sangalo ou do Killers pudesse fazer diferença para quem o compra. As redes sociais viriam a seguir criando uma nova classe de artistas que se estabelecia diretamente junto ao público, criando cultos em sites de relacionamentos, multiplicando visualizações online de clipes ou quantificando comentários e concordâncias (em forma de likes ou RT) pra justificar o próprio preço no novo mercado. E se antes contávamos os milhares de discos vendidos, hoje contamos cliques e views, números que normalmente enchem o bolso de empresas que pouco se importam com música.
Aconteceu que entendemos que a música não é mais um produto e sim um serviço que pode ser oferecido através de diferentes dispositivos – até mesmo em CD. A morte do compact disc, já anunciada há anos, não virá tão rapidamente quanto a “morte” do vinil, que já deixou de ser fabricado no Brasil e hoje vive dias de ouro impensáveis há dez anos. O formato físico digital vem sendo esvaziado junto com seus outros dois primos DVD e Blu-ray, que ainda encontram sobrevida graças ao vídeo. As vendas de compact disc caem anualmente à medida em que aumenta o consumo de música digital, seja através do download pago ou de serviços de assinatura. O fato da rede Starbucks parar de vender CDs é só mais um novo prego nesse caixão fechado em câmera lenta.
E bota lentidão nisso, pois a sobrevida do CD não depende apenas de sua obsolescência e sim de uma forma duradoura de reter arquivos digitais, sejam de música ou não. Os formatos de armazenamento digital são inúmeros e ainda não há uma padronização plena para arquivos eletrônicos. Sistemas operacionais e aparelhos que também tocam música são atualizados e trocados com uma constância tão ágil que não raro impossibilita o acesso a formatos digitais de anos anteriores – sem contar empresas que abrem e fecham deixando links quebrados, serviços órfãos, clientes a ver navios. O vinil é impraticável para relançamentos mais extensos, como caixas com sessões raras de gravações de clássicos ou discografias inteiras que ultrapassam dezenas de horas. Mesmo as dezenas de milhões de faixas oferecidas pelos serviços de streaming não incluem versões alternativas, remixes obscuros, acervos de gravadoras esquecidas pelo tempo ou canções originais dos Beatles. O CD ainda é o mais próximo que temos de um padrão universal aceito para arquivar músicas atualmente. Nenhuma mídia é tão segura e prática ao mesmo tempo.
Sem contar a imensa quantidade de música que só foi lançada neste formato – são praticamente 30 anos de uma produção musical que só foi registrada em discos prateados que, se não forem guardados do jeito certo, podem descascar, empenar, riscar ou perder todos seus registros. Não apresse-se para jogar sua coleção de CDs fora como muitos fizeram com suas coleções de vinil – ainda vamos entrar na fase ~vintage~ do CD e veremos edições lacradas de discos dos anos 80 ganharem altos lances no eBay e listas dos CDs mais caros e raros de todos os tempos.
Na verdade, a morte do CD nos expõe um problema grave na nossa realidade digital: como registrar o acervo de toda a história que acontecerá nos próximos anos? O meio eletrônico é novo o suficiente para não conhecermos suas limitações a longo prazo e todos nós já perdemos informações preciosas por culpa de um problema num disquete, pendrive, HD ou drive online. Nem mesmo CDs estão imunes às bombas sujas do futuro que, com pulsos eletromagnéticos, podem apagar servidores de dados inteiros.
E, de repente, nos lembramos que o papel, tão anacrônico, politicamente incorreto e cafona nos dias eletrônicos, é um dos poucos suportes que atravessou milênios, em alguns casos intactos. Mas isso é outro papo.
E você, ainda compra CD?

Pronto, agora já dá pra falar: a partir de hoje estreio um blog no UOL. Não, o Trabalho Sujo segue firme e forte aqui. A ideia do blog, como descrevo no primeiro post, é falar um pouco mais sobre cultura de uma forma geral. Bookmarcaê: http://matias.blogosfera.uol.com.br/

Vamos parar de picuinhas e falar de coisa boa?
Cresci, felizmente, entre discos, livros, games, filmes, revistas, programas de rádio e TV, quadrinhos, shows e jornais. Gostava de brincar na rua, mas à medida em que envelhecia sentia uma necessidade de conexão com o resto do mundo – passado, presente e futuro – que conseguia a partir de casa, por meio de produtos e serviços culturais que encontrava. Estou falando dos anos 80, bem antes da popularização da internet, da globalização e da estabilidade econômica do Brasil.
Quem viveu essa época sabe como era difícil se informar sobre qualquer coisa. Um exemplo banal: hoje qualquer um entra numa megastore e pode comprar a caixa com toda a discografia do Velvet Underground sem sequer precisar importá-la – quando não faz o download dela via torrent ou a escuta via aplicativo de streaming ou pelo YouTube. Nos anos 80, o Velvet Underground ainda estava começando a ser descoberto pela indústria fonográfica e seus primeiros discos conseguiam uma tiragem maior do que as primeiras edições de seus clássicos. Lembro que era mais fácil ler sobre o Velvet Underground do que ouvir a banda. Consegui finalmente ouvi-los graças ao pai de um amigo que havia comprado a coletânea póstuma V.U. numa viagem para o exterior e a um professor de história que me gravou uma fita com o terceiro e o quarto discos da banda.
E o Velvet é só um exemplo. Mesmo os Beatles não tinham tantas referências à disposição – até sua hoje onipresente discografia nunca havia sido relançada no Brasil desde os anos 70, sobrevivendo graças a coletâneas com capas horríveis e canções manjadas. Foi preciso vir o CD que toda minha geração pudesse ouvir os discos dos Beatles na íntegra.
Isso sem contar a qualidade das informações. Quase tudo era rumor ou informações recauchutadas via uma ou outra publicação estrangeira que alguém conseguia comprar numa livraria que por acaso importava – com semanas de atraso – algum tabloide inglês ou revista americana. Mesmo as informações nas poucas revistas e nos cadernos de cultura eram parcas e imprecisas. Quantas vezes ouvimos falar que o baterista do Rush havia morrido em um acidente de moto? E me lembro direitinho dos quatro meses entre 1992 e 1993 que ninguém sabia dizer ao certo se os Pixies haviam acabado ou não – ainda mais confirmar que Black Francis havia dissolvido a banda por fax. A prateleira de livros sobre música nas livrarias passava de meio metro de livros colocados lado a lado – sendo que metade destes eram Songbooks da coleção de Almir Chediak.
E isso que música era uma das atividades mais populares e além do fato de estarmos vivendo a explosão do rock brasileiro dos anos 80 e a vinda do CD provocar relançamentos e reedições. O cinema vivia o início da era das videolocadoras e padecia igualmente de informações. Os primeiros clássicos da contracultura americana – os beats, Bukowski, Fante – finalmente eram publicados no Brasil ao mesmo tempo em que quadrinhos eram ainda mais alternativos que isso, embora tenha sido nessa época em que começaram a publicar graphic novels por aqui.
A falta de informação nos deixava mais curiosos e engajados em descobrir novos diretores, novas bandas, novos documentários, novas tirinhas, novos colunistas, novos seriados. E com cada nova descoberta vinham discussões, teorias, cruzamentos de informações e defesas de teses para justificar gosto. Descortinávamos diferentes mundos em cada novo livro, filme, disco ou HQ e criávamos nossas próprias galáxias culturais para habitarmos.
Veio a internet, a globalização, a estabilidade econômica e estamos agora cercados mais do que nunca por livros, filmes, discos, shows, programas de TV e de rádio, revistas e jornais e variações destes criadas pelo meio digital. Assistimos a mais filmes em um mês do que assistíamos antes em um ano, os discos se acumulam em pilhas na mesa do escritório e em inúmeras pastas no computador ou numa playlist interminável no celular, a lista de links que guardamos para ler depois é tão grande quanto a de livros que compramos por impulso e esquecemos que existem. Em cada esquina há um show de uma banda nova, em cada estádio há um show de uma banda gigante, em cada casa de médio porte um artista do passado voltando à ativa. A TV a cabo tem mais horas de programação em uma semana do que uma pessoa pode assistir numa vida inteira.
Ao mesmo tempo, estamos hiperconectados, hiperinformados, hiperlotados de informações que não sabemos se são verdadeiras, correndo atrás de hipérboles e modismos que aparecem e desaparecem com a velocidade da internet, mandando emails, mensagens via Whatsapp, trocando links pelas redes sociais, dando likes em centenas de fotos por dia.
Tanta informação, tão pouco tempo pra absorvê-la. Que dizer de frui-la.
Por isso começo esse blog convidando-os a fugir dessa tempestade de informações. Ela segue aí fora, mas pensei que esse espaço pode funcionar como um porto seguro para esse temporal. Não é uma marquise pra tomar fôlego antes de tomar mais chuva nem uma bolha que ignora a água que cai lá fora. Quero ter tempo para digerir informações, olhar assuntos diários com mais carinho e cuidado, buscar manifestações culturais que estão longe do olhar estreito das timelines. Não quero correr atrás do que está todo mundo falando só por correr atrás nem atiçar polêmicas vazias só pra garantir uma frase de efeito desconcertante num ambiente virtual. Quero mergulhar na cultura deste século com um olhar menos apocalíptico e pessimista do que o que paira sobre nossas cabeças.
Cubro cultura há vinte anos e já fui editor de caderno de cultura e de tecnologia em dois grandes jornais, editor-executivo de uma editora de médio porte, colunista de rádio, consultor de programas de TV, diretor de redação de uma revista de ciência, além de acompanhar de perto as transformações na cultura e no comportamento brasileiro nas últimas décadas. Nestes anos percebo um esvaziamento cultural que divide o público entre aqueles que se refugiam no passado e degradam tudo que é digital e aqueles que se deslumbram com o futuro eletrônico e desprezam o último século.
Essa polarização, no entanto, é ilusória – além de inútil. Lemos livros e emails, assistimos a filmes e a curtas online, ouvimos discos em vinil e músicas baixadas em nossos celulares, mas pendemos mais para o lado analógico ou digital de acordo com nosso gosto pessoal. Venho aqui lembrar que somos anfíbios entre o mundo online e o offline e não adianta fugir pra um lado que o outro sempre estará por perto.
Então vamos parar de picuinhas e falar do que há de legal acontecendo no mundo hoje?
Minha última coluna para o YouPix em 2014 é sobre… o ano de 2014 – e as lições que podemos tirar dele, além do oba-oba da Copa e do mata-mata das eleições.
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2014: um ano em processo
2014 foi o ano em que desejamos uma choupana num sítio encantado fora dos olhares egomaníacos da internet… o que deu errado?
Que ano! Esperávamos um 2014 turbulento pela inevitável conjunção entre Copa e Eleições que acomete o país a cada quatros anos, mas não esperávamos que acontecesse de forma tão intensa. Mas… será culpa da internet?
Dá essa impressão. E imediatamente imaginamos aquela idílica choupana num sítio encantado nas proximidades da cidade grande, alheia aos comentários enraivecidos, às brigas de foice, à avalanche de remixes e mashups feitos em cima da onda da vez, isolada da ansiedade pelo novo disco, pelo novo filme, pelo novo aplicativo, pela nova rede social. Gente sem Facebook nem smartphone, fazendo refeições que não irão ser fotografadas, que só olha o próprio rosto quando acorda, no espelho.
Acorde: essa vida não existe. As pessoas que moram nessa choupana imaginária gostariam sim de conversar sobre o disco que apareceu sem ninguém esperar, de postar um belo por do sol no Instagram, de não ter que ir ao banco para pagar contas que podem ser pagas online.
Criamos essa ideia de utopia afastada da internet e da intensidade da cidade grande mas não é curioso que nessa casinha tão bucólica tenha eletricidade e água encanada? Ninguém cogita abandonar a cidade grande ou o corre-corre da vida digital para ficar longe da praticidade de termos um supermercado, uma farmácia ou um hospital por perto.
Esse neorromantismo está incutido em todos nós que habitamos o Facebook, o Whatsapp, o Tumblr, o Pinterest, o Flickr, o YouTube, o Tinder, o Waze, o Google, o Twitter. No meio dessa tempestade de imagens, links, pessoas, RTs, notícias, matches, vídeos, likes, fotos e cliques paramos e cogitamos uma vida calma sem trânsito e com flores, com comida saudável e menos compras, menos luz fluorescente e menos monitores. Mas quantos de nós quer, de fato, largar tudo para plantar sua própria comida, limpar a própria fossa ou ter que colocar todo o telhado de volta depois de uma tempestade? Não sei, mas acredito que bem pouca gente.
É porque não precisamos sair da cidade nem da internet para criarmos momentos de paz e de tranquilidade. Porque esse chalé é mental.
E é isso que estamos aprendendo nessa segunda década do novo século – aos poucos constatando que nós mesmos somos parte da fonte de todo esse aborrecimento que nos incomoda e que não é preciso largar tudo para viver uma vida melhor. Uma série de manifestações fora da internet já vêm provando isso – desde a retomada das bicicletas aos alimentos orgânicos, passando pelos protestos na rua e pela retomada do espaço público, seja para festas gratuitas ou para o simples convívio diário.
Mas por mais que esse novo comportamento pareça funcionar alheio à internet, isso é só aparência – ele se conecta em redes sociais, usa Twitter, YouTube e Instagram para divulgar o que está sendo feito e conectar ainda mais pessoas, vive no Google Maps e no Foursquare para demarcar territórios.
Isso é só o começo. A própria vilanizada “gourmetização” é parte desse processo e sofre por ser vista apenas como uma forma de ganhar dinheiro em cima de comidas simples. É claro que tem gente pensando nisso, mas esse fenômeno específico não é meramente isso. Não estou falando de praças de food trucks em shopping centers, isso sim uma aberração. Mas de muita gente que se dispôs a trabalhar com comida e abriu seu próprio e pequeno negócio, não para se tornar a próxima sensação da coluna social da panelinha da gastronomia, mas para ver sentido na própria vida, encontrar pessoas ao vivo, cozinhar a própria comida.
Essa transformação social não diz respeito só a restaurantes e também inclui novos donos de cafés, boutiques, lojas de discos e de livros, casas noturnas, centros culturais, espaços para cursos e também novos estabelecimentos comerciais que fujam só que a gente costuma a rotular como cultura. E, como também estamos falando de internet, não são apenas lojas ou serviços geograficamente localizados, como as milhares de lojas que proliferam dentro ou por causa de sites de e-commerce, fora dezenas de aplicativos criados por dia.
Copa e Eleições serviram para intensificar nosso troca de conteúdo – produzido e reproduzido – além de juntar milhões de pessoas ao redor de um mesmo tema. Algo que antes era regra dissolveu-se em milhares de exceções. Não é que essa foi “a Copa do Twitter” ou “a eleição do Facebook”. Mas também foi a “eleição do Tinder” ou “a Copa do Pinterest”. Ou a “Copa do 99Taxi” ou “a eleição do Disk Cook”. As próximas também serão assim – e também a respeito das próximas manias e ferramentas que inventarem.
Copa e eleição são os últimos espasmos do que a gente já chamou de mainstream, essa massa de interesses coletivos que antes parecia pautar cada centímetro de nossas vidas. Hoje não há mais o grande filme do ano como também não temos a grande revelação, nem a novela ou seriado que todos acompanham ou o jogo que o país para para assistir. Do mesmo jeito dá pra cravar que a avalanche de memes, virais, vídeos da vez, personalidades relâmpago e hits da semana nunca mais vai parar.
Estamos soterrados por conteúdo de toda espécie e cada vez mais gente produz arte, cultura, informação. Todos estamos virando artistas. O Instagram abriu o olho fotográfico de ainda mais gente se compararmos com a explosão da fotografia digital do Flickr há dez anos. O YouTube é a nova MTV, em que todos podem lançar seus videoclipes – e não apenas de música. O Facebook, o Tumblr e o Twitter são os novos blogs para um monte de gente que começou a entrar na internet de vez nessa década. Cada vez mais produzimos arte, cultura e informação – e é inevitável que as consumamos cada vez mais e sem atenção.
É quando lembramos daquele chalé imaginário.
E aos poucos descobrimos que ele não é imaginário – e sim mental. A ascensão do vinil não é só um modismo hipster – é uma forma que muitos fãs de música encontraram para retomar o hábito da audição, de parar para ouvir um disco. Nesse sentido, o momento em que você para pra ouvir o disco e desconecta-se das redes sociais e da internet é o seu chalé mental. É o momento de se desligar do mundo lá fora para dar atenção ao que diz respeito a você.
A longo prazo isso não é apenas o caso de livros, discos, animais de estimação, refeições ou filhos. É preciso aumentar esse chalé mental para além do momento, esticá-lo para o resto da sua vida e é essa motivação que faz com que muitos comecem a querer tomar as rédeas das próprias vidas e depender menos dos padrões do século passado – como salário, patrões, status social, emprego, dinheiro.
No fim deste ano o Guardian publicou um texto em que listava quais as principais maiores mudanças nos últimos mil anos para a história da humanidade, divindindo-as por séculos. Enquanto o século 12 nos deu o conceito de lei e ordem, o 16 viu o declínio da violência pessoal, e o século 19 inventou o conceito de telecomunicações, o século passado foi aquele em que inventamos o conceito de futuro.
Para o Brasil isso é duplamente interessante pois além de sermos eternamente o país do futuro, finalmente, com a chegada do século 21, conseguimos enxergar um futuro para além do salário do fim do mês ou do emprego estável no fim do ano. Natural, portanto, não sermos empreendedores como nação, uma herança cultural portuguesa que ainda nos faz nos sentirmos merecedores de um bom emprego para o resto da vida (daí a febre dos concursos) ou de festejar lamentando os poucos trabalhos que arrumamos.
A segunda década deste século está mostrando que é possível sim pensar num futuro próximo a médio prazo. E enquanto a fuzarca é armada entre petralhas e reaças, entre os vai ter Copa e os não vai ter Copa, há uma parte inteira do país trabalhando em seus projetos, fazendo seus planos, desenhando seu 2015 independentemente de quem ganhar a Copa ou a eleição.
2014 foi, portanto, um ano de rascunho. Muitos já estão com seus projetos na rua, outros estão os colocando na prática na virada do ano e mais uns tantos fazem contas para quando mostrarão os seus. Todo mundo esticando seus chalés mentais para além de seu mundinho, para, aos poucos, melhorar o mundo a partir de casa. É uma mudança cultural gigantesca – e o papel da internet, como começo, meio e fim de muitos desses planos, não pode ser menosprezado.
Afinal, o processo é lento. Mas é um processo – não pode parar.
Feliz 2015 pra gente!

Na última edição da Galileu em que fui diretor de redação, entrevistei o filósofo italiano Domenico de Masi – e, agora, no fim do ano, lembrei que não a havia republicado aqui. Segue então a entrevista completa, além da edição enxuta que saiu na revista.
A vez do Brasil
Em seu novo livro, Domenico de Masi fala sobre o papel de nosso país
Estamos no rumo certo – pelo menos é o que diz o filósofo italiano Domenico de Masi em seu novo livro, O Futuro Chegou – Modelos de Vida para uma Sociedade Desorientada (Casa da Palavra, R$ 69,90). Nele, ao autor do já clássico O Ócio Criativo debruça-se sobre a história da humanidade para analisar seus principais modelos sociais e como a forma que os cidadãos são tratados foi crucial para o sucesso de sistemas tão diferentes quanto a sociedade grega e o estado comunista, por exemplo.
Mas a empolgação de De Masi é com o Brasil, que ele acredita finalmente ter superado o estigma de “pais do futuro”, cogitado originalmente de forma irônica e depois assumido pela ditadura militar como lema ilusório. Ele crê – e dedica o último capítulo do livro à tal crença – que o Brasil tem o melhor modelo social para este início de século.
Com a chegada da tecnologia digital e do computador, há uma sensação de que o futuro ficou obsoleto. O que você acha disso?
Não concordo. O advento da tecnologia da informação coincide com o da sociedade pós-industrial, que é baseada precisamente em uma projeção de futuro, que consiste de um padrão de vida que, no momento, não existe. Esta é a especificidade da sociedade pós-industrial. Enquanto as anteriores – a grega, a romana, a cristã, a liberal, a comunista, etc. – nasceram a partir modelos pensados anteriormente por profetas, filósofos, economistas ou políticos, a sociedade atual foi criada a partir da superposição de inovações rápidas e espontâneas em todos os setores. Isto resultou em uma desorientação geral, pois já não sabemos o que é bom e o que é mau, o que é direita e o que é esquerda, o que foi e o que é o mercado, que é o homem e o que é a mulher, o que está vivo e o que está morto. Nossa sociedade não apenas espera o futuro, o projeta. Enquanto respondo esta entrevista milhões de criativos, no mundo todo, estão inventando coisas, criando leis, espalhando ideias.
Há uma frase do escritor de ficção científica William Gibson que diz que “o futuro já chegou, só não foi distribuído”.
Concordo plenamente. O futuro depende de inteligência, criatividade, recursos econômicos, honestidade, solidariedade. Separar estes fatores entre si é caprichoso e injusto.
Mas a ficção científica não parece conseguir prever um futuro devido ao excesso de transformações que estão acontecendo agora. Você acha que isso restringe nosso conceito de futuro?
Sim. As transformações ocorridas nas últimas décadas, quando ocorreu a passagem da era industrial para a pós-industrial da sociedade, não dependem apenas de progressos científicos e de tecnologia, mas também da globalização, da disseminação dos meios de comunicação, de educação em massa e de mudanças culturais. Novos progressos futuros afetarão não só a tecnologia e a estrutura econômica, mas também as idéias, o comportamento, a cultura material e social.
O Brasil por muito tempo foi perseguido com a pecha de “país do futuro”. Você acha que isso pode ter causado problemas para a autoestima do país?
Sim. Por um lado isso deu esperança ao povo, mas por outro serviu para que fossem adiadas reformas que só agora foram realizadas. Isso serviu como álibi ilusório para o governo militar alcançar um maior consenso popular. Há uma enorme diferença entre a frase “Brasil, o país do futuro” dita por Jorge Amado com ironia em 1930, a dita com entusiasmo por Stefan Zweig em 1941 e a dita com astúcia por Emilio Garrastazu Médici, no final dos anos sessenta.
Mas você acha que o Brasil é o país do futuro?
Não, acho que o Brasil é o país do presente. Por 120 anos, vocês criaram o melhor modo de vida válido para a sociedade pós-industrial. Não é o melhor de todos os modelos possíveis, mas o melhor modelo já testado. Ainda não é um modelo para o futuro, mas é um modelo válido para já.
O que o Brasil pode ensinar ao resto do mundo?
Infelizmente, o contágio do consumismo nos Estados Unidos já poluiu muitos aspectos da vida urbana no Brasil. A isso devemos acrescer a tentação de ceder às exigências incultas do mercado externo que ceifam aspectos da brasilidade: o excesso de cor e som, a sensualidade desenfreada, o exotismo, a dissipação provinciana do patrimônio natural, que pode ser associada à falta de autoestima, a falta de compromisso público, a astúcia como substituta da inteligência, a falta de confiabilidade.
No entanto, apesar da colonização feita pela Europa e pelos Estados Unidos, o Brasil continua sendo original e os melhores aspectos da brasilidade ainda prevalecem sobre aqueles que são importados.
Escreve Gilberto Freyre: “A mentalidade brasileira não é ofendida pelo jogo de contrastes, comparações, paradoxos, contradições, misturas e sincretismo, a conjugação dos opostos, o Brasil vive um casamento que é irreconciliável à primeira vista”. Essa mistura de muitos fatores diferentes, que em outros contextos seria destrutiva, em seu caso, é benéfica. O conceito de “brasilidade” vem da reunião e remete imediatamente ao relacionamento interpessoal. de relações abrangem indivíduos. E viver significa “ter relações sociais.”
A harmonia do corpo, a sensualidade e a saúde, além de habilidades psicológicas, como a socialização, a simpatia, o senso de hospitalidade, a simpatia, a generosidade, o bom humor, a alegria, o otimismo, a espontaneidade, a criatividade e a fé, como a vida, estão relacionados aos conceitos de tolerância e curiosidade. A paciência, a capacidade de mover-se entre diferentes códigos de conduta e de reinterpretar regras e normas, são atitudes comuns no Brasil, bem como a tendência a considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, a emoção e a regra.
A sociedade brasileira é unificado pela “língua geral”: o sincretismo cultural, de grandes festivais civis e religiosos incorporados no modo de vida das pessoas, a música, o papel das mulheres na vida social, a sensualidade sem culpa – “Não existe pecado do lado de baixo do Equador “, canta Chico Buarque. Um nível mais intelectual é unificado pela notável capacidade de reciclar atividades culturais através de uma assimilação, adaptação e releitura permanentes – a antropofagia.
O Brasil é aberto ao novo e à mudança. E mesmo nos piores momentos enfrenta a realidade com sentimento positivo. Em comparação com o passado, os brasileiros têm dois novos elementos: sua consciência dos próprios desafios internos – a corrupção, a violência, a desigualdade, os déficits educacionais – está mais difundida e há a percepção de ser um país de ponta, diferente e positivo, mesmo fora sua própria maneira de ser.
Hoje, o Brasil vive uma situação única em relação a seus passado e futuro. Depois de copiar, a Europa por 450 anos e os Estados Unidos por 50 anos, vê esses dois modelos míticos em crise profunda – e pela primeira vez deve pensar, por conta propria, sobre seu futuro. É uma situação que pode parecer perturbadora, mas é o modelo de vida necessário para todas as sociedades pós-industriais.
Quando você acha que as pessoas irão abandonar as regras do trabalho criadas no século 18, como horas de trabalho, dias úteis e horas-extra?
Não sei. Essas regras, que hoje prejudiciais, estão enraizados em nosso inconsciente individual e coletivo. Talvez elas caiam quando a indústria for completamente substituída pela geração digital.
Até quando vamos continuar misturando progresso e prosperidade com crescimento?
Embora Adam Smith tenha descartado a possibilidade de uma ligação direta e automática entre riqueza e felicidade, o liberalismo e o neo-liberalismo sempre focaram na melhoria da qualidade de vida ao considerar ilimitada a disponibilidade de recursos naturais. Da minha parte, concordo com o Kennet Building, que diz que “aquele que acredita no possível crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista”.
No ano passado, o Instituto Gallup compilou um ranking de 148 países em que pessoas com a idade superior a 15 anos que foram entrevistados a respeito de seu dia anterior – se sentiram satisfeitos, respeitados, revigorados, se sorriram ou aprenderam algo interessante. Os dez países no topo deste ranking são Panamá, Paraguai, El Salvador, Venezuela, Trinidad e Tobago, Tailândia, Guatemala, Filipinas, Equador e Costa Rica. Como você pode ver, oito são da América Latina e todos têm PIB baixo.
O resultado de dois séculos de liberalismo é que um sexto da população mundial foi capaz de crescer às custas do resto do planeta, das gerações futuras, dos consumidores, dos trabalhadores e do terceiro mundo. Hoje, no entanto, todo o planeta está se transformando rapidamente em um grande sistema interligado e o rápido crescimento dos países emergentes – como o Brasil – obriga os países ricos a inverter a sua direção para onde marcham.
Para recuperar o que foi perdido, nos lembra de Serge Latouche, precisamos de “tempo para exercer a cidadania, prazer para a produção livre, o sentido de ter tempo para si, para o jogo, a contemplação, a meditação, a conversa artística e artesanal – ou, simplesmente, a alegria de viver”. Para além destas dimensões Cornelius Castoriadis nos lembra o amor à verdade, o senso de justiça, a responsabilidade, o respeito pela democracia, o elogio à diferença, o dever de solidariedade, o uso da inteligência. Em poucas palavras, a magia da vida.

Nesta quarta-feira uma sonda espacial vai tentar pousar num cometa, num feito histórico (se der certo, claro). Falei sobre isso na minha coluna do Brainstorm9 dessa semana – e o que isso tem a ver com a ficção científica.
Pousar num cometa
A Agência Espacial Europeia celebra um feito futuro apostando na ficção científica
Um mago e sua aprendiz tentam criar um sistema solar em miniatura a partir da manipulação da matéria através da mente. Trabalhando em um deserto rochoso, os dois fazem planetas e estrelas nascerem a partir da concentração, reunindo conjuntos de pedras flutuantes que, com a gravidade, tornam-se pequenos planetas. Mas algo está faltando…
Essa é a sinopse do curta Ambition, dirigido pelo polonês Tomek Bagiński e estrelado por Aidan Gillen e Aisling Franciosi. Filmado na Islândia, o filme foi exibido pela primeira vez no dia 24 do mês passado, durante a mostra Sci-Fi: Days of Fear and Wonder (Ficção Científica: Dias de Medo e Admiração), que foi realizada no British Film Institute, em Londres.
O curta é uma coprodução entre a Platige Image (a produtora de Bagiński) e a Agência Espacial Européia (ESA). O motivo da agência ter se envolvido no curta é revelado na metade da história, quando, ao cogitarem um dos motivos do nascimento da vida no planeta Terra, seus dois protagonistas lembram de um passado que ainda não aconteceu. Eles mencionam a Missão Rosetta, da própria ESA, que foi lançada há dez anos e no próximo dia 12 de novembro – também conhecido como amanhã – deve conseguir atingir seu propósito: pousar em um cometa.
Segundo os idealizadores da missão, a intenção do acontecimento é reunir informações e dados que possam falar mais a respeito da origem do sistema solar, da água em nosso planeta e, portanto, da formação da vida. Pode ser uma data histórica caso o pouso aconteça de acordo com o planejado.
“Tantas coisas poderiam ter dado errado”, diz o personagem de Aidan Gillen, conhecido por séries como “The Wire” e “Game of Thrones”. “Por um bom tempo, as origens da água e da própria vida em nosso planeta seguiram como um mistério completo. Foi quando começamos a buscar pelas respostas fora da Terra. Nos voltamos para os cometas. Um trilhão de bolas celestiais de gelo, poeira e moléculas complexas que sobraram do nascimento de nosso sistema solar. Eram vistos como mensageiros da morte e da destruição e ainda assim tão encantadores. Precisávamos pegar um deles: um plano incrivelmente ambicioso.”
A previsão é que a Missão Rosetta lance a sonda Philae para o centro do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko quando estiver a uma distância de 22 quilômetros de distância, às 5:35 no horário de Brasília, amanhã. Pode ser um feito histórico que pode mudar o que conhecemos sobre a vida, o universo e tudo mais.
Pode ser apenas uma tentativa, já que alguns segundos de erro de cálculo podem colocar todo o trabalho a perder. Mas o importante é que foi feito. E, mais do que isso, que foi imaginado. Como o personagem principal do curta bancado pela ESA, alguém pensou num plano incrivelmente ambicioso. Tão ambicioso quanto pousar na Lua, decifrar nosso DNA ou desenvolver a inteligência artificial.
Ideias que começaram nos livros, nos filmes. A relação entre a ciência e a ficção científica talvez seja o melhor exemplo do ditado “a vida imita a arte”. São inúmeros casos de leitores que começaram a se interessar por física, química, biologia, matemática, astronomia e outros ramos da ciência a partir do contato com as especulações cogitadas por autores de épocas diferentes.
O polonês Wernher von Braun, a cara da NASA durante os anos de conquista espacial, só cogitou a viagem para o espaço após ler os livros de H.G. Wells e Jules Verne e termos como “robótica” e “ciberespaço” apareceram pela primeira vez em clássicos do gênero (“Eu, Robô” de Isaac Asimov e “Neuromancer” de William Gibson, respectivamente).
E talvez toda a magia suposta no curta – que faz dois humanos recriarem o sistema solar como num laboratório – não seja nada mágica. Afinal, como dizia outro mestre da ficção científica, Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”
Eis a importância do pequeno filme: instigar a imaginação e a criatividade dos cientistas do futuro.
Na Impressão Digital dessa semana, agora no YouPix, falei sobre uma briga que está acontecendo bem debaixo de nossos narizes e pode mudar completamente a forma como interagimos com a internet.

A guerra do vídeo
A disputa de audiência entre Google e Facebook é só o prenúncio de uma mudança ainda maior – a passagem do texto para o vídeo
Há uma guerra acontecendo nos bastidores da web. Não estou falando de geopolítica digital nem de deepweb, pois essa briga acontece sob nossos narizes e não no submundo da internet. Somos todos cúmplices, vítimas e parceiros das mudanças que vêm ocorrendo – e ela definirá o futuro da web. É a guerra do vídeo.
Desde que a web se popularizou, no início dos anos 90, ela é um meio escrito. Por mais que a possibilidade multimídia já estivesse presente desde os primeiros rascunhos de Tim Berners-Lee, a grande comunicação através da rede acontece no formato de texto. O MP3 e o Flash permitiram que som e vídeo aos poucos entrassem entre os parágrafos, mas nem a popularização da música digital (via pirataria, iTunes ou sites de streaming) nem a aquisição do YouTube pelo Google (na maior transação financeira do mercado digital da década passada) foram suficientes para destronar o texto como principal formato da comunicação online. E-mails, SMS, newsletters, sites e blogs ainda são onipresentes e por mais que as redes sociais tenham assimilado recursos multimídia elas ainda se movimentam por palavras.
Ainda. Um dos grandes termômetros de que há algo prestes a expandir nossa comunicação para além do teclado (seja ele físico ou touchscreen) foi um número que pegou a todos de surpresa: desde o meio deste ano o Facebook exibe mais vídeos do que o YouTube em desktops.
Não é pouca coisa e o gráfico desenhado pela ComScore no mês passado é autoexplicativo: do meio do ano passado para o meio deste ano, o YouTube caiu de quase 16 bilhões de views por mês para pouco mais de 11 bilhões, enquanto o Facebook vem numa ascensão gritante, saindo de menos de um bilhão de views por mês para 12,3 bi em apenas um ano. E, assim, ultrapassando o YouTube em um bilhão de visualizações por mês. Repetindo: não é pouca coisa.

A ascensão do Facebook começou graças a um recurso ridículo que já deve ter saltado a seus olhos por diversas vezes – fazendo, inclusive, você cair no truque e contribuído para o crescimento dos números de Mark Zuckerberg – o autoplay. Vídeos que começam a passar sem que seja preciso clicar na tecla play, mas, espertamente, com o som desligado. Assim, enquanto você está “zapeando” de cima abaixo pela sua timeline, vídeos começam a tocar sozinhos, sem som, e chamam sua atenção a ponto de fazer você clicar no volume para ver aquele filhote de bicho, aquele acidente espetacular, aquela animaçãozinha engraçadinha – e aumentar as estatísticas do Feice.
Mas não é o prenúncio de uma queda, afinal estamos falando apenas de dispositivos fixos. Os números divulgados não computam audiências em tablets ou smartphones, cada vez mais utilizados do que desktops atualmente. O dado também exclui o número de visualizações da plataforma Vevo, a marca que o YouTube mantém ao lado das grandes gravadoras e que funciona como servidor para os grandes sucessos do site de vídeos – clipes de artistas pop. Fora que a reação do YouTube já começou – e não por acaso você está vendo anúncios de alguns canais brasileiros no site, como o Porta dos Fundos, em ambientes offline, como pontos de ônibus e termômetros de rua.
Mas essa guerra não é apenas entre Google e Facebook – e tem tudo a ver com a migração da web de dispositivos fixos para aparelhos móveis. Pois a tendência iniciada com o celular não para por aí – e vai rumo à tal tecnologia “vestível” dos atuais Google Glass e computadores de pulso, cuja tendência é liberar nossas mãos de vez, inclusive da digitação.
A interface acionada por voz dos dispositivos do futuro já vem engatinhando quando conversamos via Facetime ou trocamos arquivos de áudio via Whatsapp em vez de digitar longas mensagens num tecladinho minúsculo. A melhoria das condições de infraestrutura da rede permite não apenas aplicativos de streaming de música, mas que também possamos conversar por áudio ou por vídeo através da internet.
Num outro extremo há a fusão da TV com a internet ainda em câmera lenta – principalmente no Brasil – mas já em andamento. Em pouco tempo o diálogo entre os aplicativos do celular e da TV será fluido e natural na rotina das pessoas, fazendo com que elas utilizem a TV, que em breve vai ter modelos com câmeras, inclusive para conversar com parentes e amigos e, num segundo momento, vlogar-se para o resto do mundo.
Ainda catamos milho em teclados virtuais, usando controles remotos feitos para trocar de canais para digitar a senha do Netflix ou soletrar lentamente nosso email. É um estágio transitório e que verá o smartphone assumindo o papel do controle da TV e, por que não, sua própria câmera. A segunda tela não será apenas textual, composta por comentários ou tweets por escrito – e vamos nos acostumar a ver dois vídeos simultaneamente (há muitos que já fazem isso atualmente).
E quando isso acontecer, talvez parte da nossa interação com a rede – a forma como fazemos buscas, como assinalamos o site para onde queremos ir, senhas e a troca de mensagens no dia-a-dia – não seja mais em texto. E sim em vídeo.
Aí teremos uma nova fase em que, aí sim, vamos descobrir os novos popstars do futuro. Que não são artistas, nem autores, nem celebridades vindas de outras mídias, mas pessoas que transformaram a web em seu próprio reality show. Já conhecemos vários exemplos do tipo atualmente, mas eles ainda não são massivos porque a rede ainda é baseada em texto. E não em vídeo.

Na minha coluna dessa semana no Brainstorm9, falei sobre o vazamento do trailer do Vingadores 2 na semana passada e da forma como a Marvel encarou o contratempo, jogando a seu favor.
Jogando com a internet
Com o vazamento do trailer de “Vingadores 2: A Era de Ultron”, a Marvel aprende que não dá para controlar a internet, mas também ensina como é a melhor forma de lidar com ela
“Maldita Hydra!”, resmungou a conta do Twitter da Marvel na semana passada, horas depois do vazamento do primeiro aguardado trailer do filme “Vingadores 2: A Era de Ultron”.
O trailer estava programado para ir ao ar após o episódio de ontem, terça-feira, dia 28, do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.”, também produzido pela Casa das Ideias. Mas um imprevisto vazamento fez uma versão em baixa qualidade do trailer aparecer no início da noite da quinta-feira passada, dia 23. Em segundos sites de notícias de cinema, quadrinhos e cultura pop linkavam o vídeo pirata com o aviso para que seus leitores assistissem logo, pois o trailer iria sair do ar.
Afinal, esse é o hábito da indústria. Assim que um disco, filme ou seriado aparece online, há exércitos de programadores e advogados prontos para retirar o arquivo do ar, ameaçando sites e derrubando conteúdos através de acordos pré-estabelecidos com redes como YouTube e Facebook.
O YouTube especificamente conta com um algoritmo de reconhecimento de conteúdo alheio que simplesmente impede o dono de uma conta de publicar um vídeo caso ele tenha diagnosticado que aquele vídeo é de uma terceira parte, mesmo que seu publicador não a identifique.
Mas isso não quer dizer que consigam reduzir a pirataria digital. Diminuem o impacto, bloqueando os principais pontos de acesso – mas só para vídeo há dezenas de sites semelhantes ao YouTube que não contam com tecnologia tão ágil para retirada de conteúdo, o que obriga essa ação ser realizada manualmente, com advogados entrando em contato com departamentos jurídicos dos sites.
Além destes, as pessoas têm trocado conteúdo em redes de relacionamento fechadas, emails e fóruns e a versão pirata do trailer de Era de Ultron circulou inclusive via WhatsApp. O próprio YouTube pode ser enganado – e quase sempre o é – quando usuários alteram minimamente a velocidade do arquivo ou invertem horizontalmente a imagem ou a publicam dentro de uma moldura, impossibilitanto a inteligência artificial do site de reconhecer automaticamente a versão. Isso sem contar o mar de torrents, impossível de ser rastreado.
Mas a Marvel fez diferente. Ao twittar o resmungo contra a Hydra – a rede nazista que derrubou a S.H.I.E.L.D. nos filmes do estúdio – ela oficializou a pirataria, ao divulgar em seu próprio canal do YouTube o trailer em alta resolução – com toda a pompa, circunstância, cores e sons que deveria aparecer apenas hoje, na transmissão norte-americana do seriado Agents of S.H.I.E.L.D. Em vez de derrubar as milhares de versões piratas de seu trailer e causar a frustração em milhões de fãs que não conseguiram assistir ao filme, a Marvel baixou a guarda e faturou ela mesma aquela síndrome de atenção.
A Marvel está liderando a construção de uma nova narrativa a longo prazo que foi antecipada pelos delírios transmídia da década passada, quando “Matrix” e “Lost” mostravam as maravilhas que poderiam ser conseguidas quando se misturava a história principal do cinema ou da TV com quadrinhos, desenhos animados, videogames, além de inúmeras pistas espalhadas pela internet e outras tantas cogitadas pelos fãs.
Trabalhando em cima de uma mitologia clássica – seus próprios super-heróis – ela primeiro transpôs de forma bem sucedida os títulos dos quadrinhos para o cinema (com os primeiros filmes do “Homem Aranha”, “X-Men” e “Quarteto Fantástico”) e depois virou ela mesma um estúdio de cinema para produzir seus próprios títulos.
A partir de “Homem de Ferro” começou a contar uma história que se espalhava por outros filmes (“Thor”, “Capitão América”, “Homem de Ferro 2” e “Thor 2”) para culminar com o encontro dos heróis no primeiro Vingadores. O final dessa primeira fase ainda contou com a estreia do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.” que conversou com os filmes do Capitão América e com o segundo filme de Thor nas mesmas semanas em que estas produções estrearam mundialmente.
Estamos agora no meio da segunda fase da Marvel, que termina com o próximo Vingadores e já teve o segundo “Capitão América” e o terceiro “Homem de Ferro” (além de “Guardiões das Galáxias”) como episódios iniciais. O seriado produzido pela ABC também conversará com o fim desta segunda fase. E a terceira fase – anunciada ontem por Kevin Feige, em evento na California – contará com novos heróis e seriados, além de quatro séries estão sendo produzidas em parceria com o Netflix. Confira as datas:

“Capitão América: Guerra Civil” – 6 de maio de 2016
“Doutor Estranho” – 4 de novembro de 2016
“Guardiões da Galáxia 2” – 5 de Maio de 2017
“Thor 3: Ragnarok” – 28 de julho de 2017
“Pantera Negra” – 3 de novembro de 2017
“Capitã Marvel” – 6 de julho de 2018
“Inumanos” – 2 de novembro de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte I” – 4 de maio de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte II” – 3 de maio de 2019
O incidente envolvendo o trailer novo do segundo Vingadores mostra que a Marvel vem aprendendo a lidar com a internet, que sempre pode estragar a brincadeira ao revelar segredos antes da hora. Mas é didático para outras empresas de produção de conteúdo – não dá para controlar a internet, é preciso trabalhar com ela. Certamente o trailer do novo filme faria mais sentido após a exibição do episódio, que conversaria com o a Era de Ultron. Tanto que a Marvel anunciou que iria exibir uma cena inédita do novo filme junto com o episódio, para tentar diminuir o estrago.
Aos poucos isso vai ser testado com outros filmes e seriados – ainda mais agora que a DC Comics anunciou 10 filmes para compor seu multiverso ao redor dos filmes da Liga da Justiça, com Batman e Super-Homem à frente. Isso sem contar as inúmeras outras mitologias – originais e adaptadas – que serão filmadas nas próximas décadas…


Há tempo venho ensaiando a volta da minha coluna Impressão Digital, que mantinha primeiro no Caderno 2 e depois no Link do Estadão, e agora ela ressurge no YouPix. O tema segue o mesmo: o impacto da cultura digital em nosso comportamento, com mais ênfase na internet porque essa é a área do YouPix. E a pedido da editora do site Bia Granja reestréio a coluna fazendo um balanço das eleições desse ano – de uma perspectiva online.
Eleições 2014: entre a zoeira e o rancor
A internet brasileira superpõe duas realidades – a onipresença do Facebook e a cara violenta do Brasil – rumo ao nosso amadurecimento político
2014 foi um ano bem esclarecedor. Independentemente do resultado do time para quem você estava torcendo, Copa e Eleições em 2014 tiveram o tempero carregado da internet brasileira, metade zoeira, metade rancor. Milhões de brasileiros pendurados no Twitter ou no Facebook, fingiam que estavam trabalhando ou lendo mensagens no celular para ultrapassar o clichê dos 200 milhões de técnicos de futebol ou 200 milhões de analistas de política que a cada quatro anos nos incorpora.
O brasileiro online se move em hordas, grupos de conhecidos que gastam energia pegando pesado entre si e, muitas vezes, despejam bordoadas em semiconhecidos que só estão passando. A voracidade da presença do brasileiro na internet é comemorada não apenas na vice posição das maiores redes sociais do mundo mas também em hypes que vivem auges e depois desaparecem – como o Fotolog, o Formspring, o Old Reader e, aparentemente, há pouco tempo, o Ello.
Mas ela também é lamentada em jogos online por vários jogadores graças à sua natureza destrutiva – são famosos os clãs brasileiros que riem “huehuehuehue” e existem apenas para dizimar as construções de outros jogadores, sem motivo algum. O bullying online é constante nas redes sociais e isso traduz duas realidades que o Brasil vive ao mesmo tempo: a popularidade do Facebook e a história de violência do país.
Esta primeira realidade, que vivemos desde 2010, quando a rede começou a crescer exponencialmente no Brasil, também é a infância digital de milhões de pessoas. Desde os chamados millennials à pessoas da terceira e quarta idade começaram a conhecer a internet em um ambiente em que tudo que é escrito é publicado para todo mundo e quantificado com likes e shares. O Facebook é o primeiro blog, a primeira lista de discussão por email, o primeiro leitor de RSS, o primeiro fórum e o primeiro Flickr ou conta do YouTube de milhões de pessoas. Dezenas de milhões de pessoas.
Gente que vive a internet entre links, imagens, textos curtos ou gigantescos e vídeos que se movimentam entre o Whatsapp, o Facebook, o Twitter, o email e mensagens de SMS – e só. A multiplicidade de funções do Facebook e a onipresença das pessoas na rede social é uma draga de tempo e praticamente isola as pessoas do resto da internet. O que parecia ser uma enorme favela torna-se um feudo cada vez mais fechado, um castelo murado que isola a internet em uma insuportável troca de insultos, amigáveis ou não.
A segunda realidade é da natureza do Brasil. O país erguido sobre o exotique que exalta a exuberância disfarça uma das sociedades mais violentas do mundo. A face sorridente brasileira (Amazônia, mulata, Carmen Miranda, futebol, samba, Copacabana, carnaval) esconde uma história de tortura e sangue, extermínios e massacres, sadismo e crueldade. É um país de feitores, torturadores, bandeirantes, “dotôs delegados”, coronéis, milicianos. Resolver as coisas na base da coerção física sempre foi parte do cotidiano brasileiro e o século 20 foi eficaz em encobrir para debaixo do tapete toda essa história de violência. Mas ela continua aí.
Junte uma web 2.0 em profusão geométrica, com milhões e milhões de pessoas descobrindo a maravilha que é conversar com o mundo inteiro (e sozinho, ao mesmo tempo) com essa tendência a resolver as coisas no braço e eis a internet brasileira em 2014.
Na Copa, a violência ficou reprimida. Pois a simples percepção de que o maior evento do mundo, aquele que sempre crescemos acompanhando à distância, iria acontecer perto de casa criou uma situação de desequilíbrio mental em todos nós. Uma Copa do Mundo sendo realizada no Brasil nos chapou com uma loucura leve e mesmo os mais críticos não resistiram ao contato com os estrangeiros, às situações inusitadas que foram presenciadas nesta que não por acaso consagrou-se “a Copa das Copas”. O VTNC à Dilma no primeiro jogo do evento e o fatídico 7 x 1 foram momentos em que a face violenta do brasileiro ameaçou vir à tona, mas só aquela saraivada de piadas sobre o Podolswki em menos de 24 horas no Twitter já foram o suficiente para mostrar o quanto o país estava inebriado, flutuando no delírio de ser o país sede de uma Copa.
Já as eleições sintonizaram o dial do inconsciente brasileiro no outro extremo. Sim, a zoeira teve mais grandes momentos do que o rancor durante a Copa do Mundo, mas vamos lembrar que a eleição começou pra valer de uma forma trágica e pesada, quando o avião de Eduardo Campos caiu em Santos. A partir daquele 13 de agosto o Brasil entrava numa montanha russa de emoções sem precedentes na história recente – e propulsionada à toda força graças ao volume de troca de informação nas rede sociais.
Assistimos ao doutor Jeckyll da Copa do Mundo transformando-se no senhor Hyde das eleições repetindo a revelação final de Felipe Barreto em O Dono do Mundo – que ele não era bonzinho porra nenhuma e vocês vão ver só. A enxurrada de informação é estarrecedora. Piadas nonsense, trocadilhos afiados, montagens perfeitas, vídeos editados segundos depois de uma notícia ir ao ar, sites de notícias assumidamente falsas, blogs petralhas e blogs reaças, programas humorísticos de telejornalismo, canais no YouTube, páginas no Facebook, texto aplicado em foto, longos artigos exaltando ou condenando um país em que a esquerda é caviar e a direita é coxinha.
Os candidatos a cargos legislativo fizeram a festa nas redes e o Facebook virou o grande palanque de 2014, inclusive para a imprensa, que abraçou as redes sociais ainda mais avidamente que em eleições anteriores. Já os candidatos à presidência foram desconstruídos e reconstruídos dezenas de vezes por centenas de pontos de vista. Dilma, Aécio e Marina passaram por devassas pesadas de suas carreiras enquanto Luciana Genro e Eduardo Jorge deixaram o zoológico dos nanicos para ganhar voz e criaram bases sólidas para suas futuras carreiras políticas. Levy Fidelix saiu do armário do conservadorismo e deixou de ser o seu Barriga do aerotrem enquanto o Pastor Everaldo entrou para a história como a primeira pessoa a confessar ter peidado em um programa de TV no Brasil.
Mas mesmo com a vitória conservadora no legislativo e o país rachado politicamente entre Aécio e Dilma, estes aspectos são coadjuvantes frente a algo que assistimos neste ano – a intensa participação política dos brasileiros e nossos primeiros passos rumo a discussões civilizadas. A nação violenta animou-se com o teclado e passou a cuspir besteiras para quem quisesse se sentir ofendido. Tanto faz qual tendência política – é fácil pensar nas estrelas conservadoras e progressistas que se degladiam em diferentes mídias, encontrando-se nas redes sociais para equiparar links de colunas, programas de TV ou posts nas próprias redes. Essa fúria motiva as pessoas ao menos para se posicionar politicamente, pelos motivos certos ou não, em vez de fingir desinteresse por política para depois aliar-se ao vencedor.
Pois essa é outra característica brasileira: nunca há uma ruptura, um dissenso, uma tensão em qualquer mudança histórica do país. O Brasil tornou-se independente quase como uma herança, a abolição da escravatura foi aceita de imediato, a República também não foi contestada e foram preciso 15 anos para derrubar Getúlio, que voltou dez anos depois. Sua morte também foi assimilada rapidamente assim como a mudança do Golpe de 64 e a Nova República, Collor, Fernando Henrique e o PT. Essa raiva toda na internet não vai nos levar a uma guerra civil como muitos temem, mas faz parte de um processo de amadurecimento político brasileiro que está apenas começando… Por isso 2014 está sendo bem esclarecedor.

Na minha coluna dessa semana no Brainstorm9 eu segui insistindo no porquê me incomodou tanto a breguice do clipe da BBC, pois esbarrei com uma palestra que o Iggy Pop deu em nome da emissora que tem muito mais a ver com o legado deles do que aquele excesso de fofura do comercial. A transcrição da palestra segue em inglês lá embaixo – se alguém se dispor a traduzi-la eu a publico aqui.
Na minha coluna passada muita gente bateu de frente comigo porque eu desanquei o clipe com a versão de “God Only Knows” dos Beach Boys que a BBC fez para lançar seu novo portal de música, BBC Music. Uns me acusaram de saudosista por comparar com outro clipe, um pouco menos brega, que a emissora estatal britânica fez há 17 anos. Outros simplesmente discordaram porque gostaram do clipe e acharam que eu não podia achar o clipe brega. Uns poucos partiram pro ataque pessoal, essa arrogância agressiva é o que move as ondas das redes sociais.
Vou explicar: o clipe não é ruim. Ele é todo bem produzido, direção de arte caprichada, boa escolha de música e um bom elenco de intérpretes. Mas imagine se a Apple fosse a empresa que lançasse esse comercial? Todo esse panteão rococó destoaria drasticamente da imagem cool e minimalista que é a alma da imagem da empresa de Steve Jobs. Consegue imaginar o Spotify ou o próprio YouTube se vendendo dessa forma, com essa estética? É uma estética que tem mais a ver com a imagem que as grandes gravadoras gostam de passar, essa sensação de que todos os artistas estão juntos cantando uma mesma canção, com efeitos especiais sofisticados e que demonstrem uma certa sensibilidade.
O problema do clipe, na minha opinião, é seu excesso visual. É um apuro visual caro à Hollywood, à direção de arte exagerada dos filmes de Tim Burton, dos filmes que George Lucas fez de Guerra nas Estrelas na virada do milênio, da Asgard dos estúdios Marvel. Reunir vários artistas para cantar um clássico dos Beach Boys não é nada risível quanto ver um tigre saltando sobre o piano de cauda tocado por Brian Wilson, que se apresenta num palco de frente à orquestra que toca entre abajures que piscam. Sério que você não achou brega aqueles diamantes voando ao redor de Stevie Wonder?

Não é essa a imagem que a BBC nos passa. A British Broadcasting Corporation, fundada em 1922, é um ícone britânico tão importante quanto a família real, o ônibus de dois andares, os policiais, a cabine telefônica, o Big Ben, os Beatles e Harry Potter. A estatal é um poço de conhecimento, uma biblioteca multimídia do século 20, que produz jornalismo e entretenimento com uma qualidade tão célebre quanto seu nome. Pouquíssimas empresas têm um nível de exigência tão alto quanto a BBC – e não estou falando apenas de empresas de comunicação.
Essa excelência se traduz esteticamente. Toda uma fleuma, polidez e austeridade típicas do que se reconhece como essências da cultura britânica também são qualidades da emissora, que reforça essa imagem que o Reino Unido quer passar para o resto do mundo. Na BBC isso se traduz com uma paleta de cores contida, um minimalismo nas fontes, a sobriedade e a clareza nas expressões, tudo mínimo e comedido mesmo em seus espasmos de loucura (que não são poucos).
É vasto o legado cultural da emissora, que reúne as célebres BBC Sessions com os maiores nomes da história do pop mundial, os documentários de Adam Curtis e David Attenborough, comédias impagáveis como “Absolutely Fabulous”, “The Young Ones”, “Little Britain”, “Fawlty Towers”, “Coupling”, “Monty Python”, “Spaced”, “The Office” e “The IT Crowd”, programas musicais como o “Old Grey Whistle Test”, “Top of the Pops” e “Later with Jools Holland”, séries clássicas como “Life on Mars”, “The Hour”, “Black Mirror”, “Torchwood”, “Doctor Who”, “Skins” e “Sherlock”. Você não precisa ter visto todos esses programas para saber de sua relevância – e também para ter uma idéia do alto padrão estabelecido pela emissora britânica.
Em se tratando apenas de música, basta falar da importância de um único homem – John Peel. Morto há dez anos, Peel é praticamente um totem à importância da BBC como visionária musical. Por trinta anos DJ da emissora, ele ergueu as bandeiras da psicodelia, do rock progressivo, do rock de garagem, do punk rock, do reggae, do hardcore, da new wave, do pós-punk, da música eletrônica e do indie antes que todo mundo começasse a prestar atenção nos artistas destes gêneros, usando sua prestigiada posição de radialista de uma das principais emissoras de rádio do mundo não para impor regras ou determinar padrões musicais – ele era um farol que buscava o que a contemporaneidade parecia não ver, apontando saudáveis rupturas ao status quo musical.
Suas Peel Sessions reuniram os momentos clássicos de artistas vivendo seus respectivos auges – do Superchunk ao Supertramp, David Bowie e Pixies, Pink Floyd com Syd Barrett e Joy Division, Jimi Hendrix e Nirvana, Peel gravou com todo mundo. Foram 4 mil sessões com mais de dois mil artistas diferentes.
Sua importância é lembrada anualmente pela própria emissora desde 2011, quando a BBC resolveu estender sua participação no evento Radio Festival ao inaugurar a BBC Music John Peel Lecture, uma masterclass em que um nome importante da música lembre de aspectos relacionados à liberdade criativa que Peel tinha na emissora.
O evento acontece todo ano na University of Salford, em Manchester, na Inglaterra, e celebra a cultura do rádio e das transmissões de áudio. A primeira John Peel Lecture, em 2011, foi ministrada pelo fundador do The Who, o guitarrista e vocalista Pete Townshend. A deste ano foi dada por ninguém menos que Iggy Pop, no último dia 13 deste mês.
Foi a primeira palestra que Iggy Pop deu na vida – e o mero convite à palestra é outra amostra do grau de risco que a BBC gosta de correr. Iggy Pop é uma lenda do rock por ter inventado o punk rock bem antes deste ter esse nome, quando numa cidadezinha no subúrbio de Detroit, juntou com uns malucos no final dos anos 60 para tentar imitar o Doors e pariu dois dos discos mais barulhentos da história do rock, The Stooges (nome que também batizava sua banda) e Funhouse.
Desde então seu nome esteve envolvido em bastidores clássicos do rock e situações de perigo extremo sempre envolvendo álcool, sexo, drogas, violência e barulho. Iggy Pop quebrava garrafas no palco e rolava no chão enquanto cantava, saía na porrada com fãs durante os shows, passou algumas décadas – os anos 60, 70 e 80 – sem estar sóbrio. Hoje, quase 50 anos depois daquele tempo, Iggy especializou-se em ser uma lenda viva do rock, fazendo coisas que nunca fez na vida a partir desse novo título. Não por acaso vem apresentando um programa semanal na própria BBC (BBC 6, todo domingo à tarde) e aceitou dar a palestra da semana passada.
Por uma hora Iggy Pop falou sobre o tema escolhido – “Música livre (ou gratuita) em uma sociedade capitalista”, numa palestra que pode ser resumida na importância de se fazer o que se gosta por gostar, nunca por dinheiro. “Se eu quiser fazer música, a esta altura da vida, prefiro fazer o que quero e de graça, que eu faço, ou pelo menos a um preço barato, que eu possa pagar. E banque isso através de outros meios, como um orçamento pra um filme ou um site de moda – já fiz os dois. Isso parece funcionar melhor para mim do que os discos corporativos de empresas de rock’n’roll que eu tenho feito. Desculpa. Se eu quisesse dinheiro, que tal vender seguros de carro?”
Na palestra Iggy falou sobre pequenas gravadoras (citando-as nominalmente como onde encontrar música boa hoje em dia – “XL, Matador, Burger, Anti, Epitaph, Mute, Rough Trade, 4AD, Sub Pop”), sobre Jack Holzman da Elektra e Richard Branson da Virgin, sobre a Vice e o Guardian, critica o U2 e a Apple a aplaude Thom Yorke e o BitTorrent, além de falar sobre o porquê de ouvirmos tanta música ruim no rádio. A palestra dada no Quays Theatre da University of Salford pode ser ouvida em streaming por quatro semanas neste link, baixada neste outro link e a transcrição se encontra neste link e abaixo (se alguém quiser se aventurar à tradução, basta postá-la nos comentários).
Resumo da ópera: a BBC é uma emissora que coloca o maior delinquente da história do rock para dar uma palestra sobre música de graça no sistema capitalista dentro de uma aula magna em homenagem a um ex-funcionário especialista em descobrir músicas que as pessoas iriam ouvir no futuro. E o que se ouve é uma hora de pensamento articulado, claro, bem humorado, mesmo quando quer chocar. Nada a ver com Elton John vestindo um paletó cheio de borboletas vivas.
***
“Hi, I’m Iggy Pop. I’ve held a steady job at BBC 6 Music now for almost a year, which is a long time in my game. I always hated radio and the jerks who pushed that shit music into my tender mind, with rare exceptions. When I was a boy, I used to sit for hours suffering through the entire US radio top 40 waiting for that one song by The Beatles and the other one by The Kinks. Had there been anything like John Peel available in my Midwestern town I would have been thrilled. So it’s an honor to be here. I understand that. I appreciate it
Some months ago when the idea of this talk came up I thought it might be okay to talk about free music in a Capitalist society. So that’s what I’m gonna try to talk about. A society in which the Capitalist system dominates all the others, and seeks their destruction when they get in its way. Since then, the shit has really hit the fan on the subject, thanks to U2 and Apple. I worked half of my life for free. I didn’t really think about that one way or the other, until the masters of the record industry kept complaining that I wasn’t making them any money. To tell you the truth, when it comes to art, money is an unimportant detail. It just happens to be a huge one unimportant detail. But, a good LP is a being, it’s not a product. It has a life-force, a personality, and a history, just like you and me. It can be your friend. Try explaining that to a weasel.
As I learned when I hit 30 +, and realized I was penniless, and almost unable to get my music released, music had become an industrial art and it was the people who excelled at the industry who got to make the art. I had to sell most of my future rights to keep making records to keep going. And now, thanks to digital advances, we have a very large industry, which is laughably maybe almost entirely pirate so nobody can collect shit. Well, it was to be expected. Everybody made a lot of money reselling all of recorded musical history in CD form back in the 90s, but now the cat is out of the bag and the new electronic devices which estrange people from their morals also make it easier to steal music than to pay for it. So there’s gonna be a correction.
When I started The Stooges we were organized as a group of Utopian communists. All the money was held communally and we lived together while we shared the pursuit of a radical ideal. We shared all song writing, publishing and royalty credits equally – didn’t matter who wrote it – because we’d seen it on the back of a Doors album and thought it was cool, at least I did. Yeah. I thought songwriting was about the glory, I didn’t know you’d get paid for it. We practiced a total immersion to try to forge a new approach which would be something of our own. Something of lasting value. Something that was going to be revealed and created and was not yet known.
We are now in the age of the schemer and the plan is always big, big, big, but it’s the nature of the technology created in the service of the various schemes that the pond, while wide, is very shallow. Nobody cares about anything too deeply expect money. Running out of it, getting it. I never sincerely wanted to be rich. There is a, in the US, we have this guy “Do you sincerely wanna be rich? You can do it!” I didn’t sincerely want to be rich. I never sincerely felt like making anyone else that way. That made me a kind of a wild card in the 60’s and 70’s. I got into the game because it felt good to play and it felt like being free. I’m still hearing today about how my early works with The Stooges were flops. But they’re still in print and they sell 45 years later, they sell. Okay, it took 20 or 25 years for the first royalties to roll in. So sue me.
Some of us who couldn’t get anywhere for years kept beating our heads against the same wall to no avail. No one did that better than my friends The Ramones. They kept putting out album after album, frustrated that they weren’t getting the hit. They even tried Phil Spector and his handgun. After the first couple of records, which made a big impact, they couldn’t sustain the quality, but I noticed that every album had at least one great song and I thought, wow if these guys would just stop and give it a rest, society would for sure catch up to them. And that’s what’s happening now, but they’re not around to enjoy it. I used to run into Johnny at a little rehearsal joint in New York and he’d be in a big room all alone with a Marshall stack just going “dum, dum, dum, dum, dum” all my himself. I asked him why and he said if he didn’t practice doing that exactly the way he did it live he’d lose it. He was devoted and obsessive, so were Joey and Deedee. I like that. Johnny asked me one day – Iggy don’t you hate Offspring and the way they’re so popular with that crap they play. That should be us, they stole it from us. I told him look, some guys are born and raised to be the captain of the football team and some guys are just gonna be James Dean in Rebel Without a Cause and that’s the way it is. Not everybody is meant to be big. Not everybody big is any good.
I only ever wanted the money because it was symbolic of love and the best thing I ever did was to make a lifetime commitment to continue playing music no matter what, which is what I resolved to do at the age of 18. If who you are is who you are that is really hard to steal, and it can lead you in all sorts of useful directions when the road ahead of you is blocked and it will get blocked. Now I’m older and I need all the dough I can get. So I too am concerned about losing those lovely royalties, now that they’ve finally arrived, in the maze of the Internet. But I’m also diversifying my income, because a stream will dry up. I’m not here to complain about that, I’m here to survive it.
When I was starting out as a full time musician I was walking down the street one bright afternoon in the seedier part of my Midwestern college town. I passed a dive bar and from it emerged a portly balding pallid middle aged musician in a white tux with a drink in one hand and a guitar in the other. He was blinking in the daylight. I had a strong intuition that this was a fate to be avoided. He seemed cut off from society and resigned to an oblivious obscurity. A bar fly. An accessory to booze. So how do you engage society as an artist and get them to pay you? Well, that’s a matter of art. And endurance.
To start with, I cannot stress enough the importance of study. I was lucky to work in a discount record store in Ann Arbor Michigan as a stock boy where I was exposed to a little bit of every form of music imaginable on record at the time. I listened to it all whether I liked it or not. Be curious. And I played in my high school orchestra and I learned the joy of the warm organic instruments working together in the service of a classical piece. That sticks with you forever. If anyone out there can get a chance to put an instrument and some knowledge in some kids hand, you’ve done a great, great thing.
Comparative information is a key to freedom. I found other people who were smarter than me. To teach me. My first pro band was a blues band called The Prime Movers and the leader Michael Erlewine was a very bright hippy beatnik with a beautifully organized record collection in library form of The Blues. I’d never really heard the Blues. That part of our American heritage was kept off the major media. It was system up, people down. No Big Bill Broonzy on BBC for us. Boy I wish! No money in it. But everything I learned from Michael’s beautiful library became the building blocks for anything good I’ve done since. Guys like this are priceless. If you find one, follow him, or her. Get the knowledge.
Once in secondary school in the 60’s some class clowns dressed up the tallest guy in school in a trench coat, shades and a fedora and rushed him in to a school dance with great hubbub proclaiming “Del Shannon is here, Del Shannon is here.” And until they got to the stage we all believed them, because nobody knew what Del Shannon looked like. He was just a voice on some great records. He had no social ID. By the early 60’s that had really changed with the invasion of The Beatles and The Stones. This time TV was added to the mix and print media too. So you knew who they were, or so you thought anyway. I’m mentioning this because the best way to survive the death or change of an industry is to transcend its form. You’re better off with an identity of your own or maybe a few of them. Something special.
It is my own personal view having lived through it that in America The Beatles replaced our assassinated president Kennedy, who represented our hopes for a certain kind of society. Didn’t get there. And The Stones replaced our assassinated folk music which our own leaders suppressed for cultural, racial, and financial reasons. It wasn’t okay with everybody to be Kennedy or Muddy Waters, but those messages could be accepted if they came through white entertainers from the parent culture. That’s why they’re still around.
Years later I had the impression that Apple, the corporation, had successfully co-opted the good feelings that the average American felt about the culture of the Beatles, by kind of stealing the name of their company so I bought a little stock. Good move. 1992. Woo! But look, everybody is subject to the rip off and has to change affiliations from time to time. Even Superman and Barbie were German before America tempted them to come over. Tough luck, Nietzche.
So who owns what anyway. Or as Bob Dylan said “The relationships of ownership.” That’s gates of Eden. Nobody knows for long, especially these days. Apparently when BBC radio was founded, the record companies in England wouldn’t allow the BBC to play their master recordings because they thought no one would buy them for their personal use if they could hear them free on the radio. So they were really confused about what they had. They didn’t get it. And how people feel about music. ‘Cause it’s a feel thing, and it resists logic. It’s not binary code. Later when CD’s came in, the retail merchants in American all panicked because they were just too damn tiny and they thought that Americans want something that looks big, like a vinyl record. Well they had a point but their solution was a kind of Frankenstein called “The Long Box.” It didn’t fool anybody because half of it was empty. It had a little CD in the bottom. You’d open it up and it was empty. Now we have people in the Sahara using GPS to bury huge wads of Euros under sand dunes for safe keeping. But GPS was created for military spying from the high ground, not radical banking so any sophisticated system, along with the bounty it brings, is subject to primitive hijacking.
I wanna talk about a type of entrepreneur who functions as a kind of popular music patron of the arts. It’s good to know a patron. I call him El Padron because his relationship to the artist is essentially feudal, though benign. He or she (La Padrona) if you will, is someone, usually the product of successful, enlightened parents, who owns a record company, but has had benefit of a very good education, and can see a bigger picture than a petty business person. If they like an artists’ style and it suits them, they’ll support you even if you’re not a big money spinner. I can tell you, some of these powerful guys get so bored that if you are fun in the office, you’ll go places. Their ancestors, the old time record crooks just made it their business to make great, great records, but also to rip off the artist 100%, copyright, publishing, royalty splits, agency fees, you name it. If anyone complained the line was “Pay you? We worship you!” God bless Bo Diddley.
By the time I came along there was a new brand of Padron. People like this are still around and some can help you. One was named Jack Holzman. Jack had a beautiful label called Elektra Records, they put out Judy Collins, Tim Buckley, the Doors and Love. He’d started working in his family record store, like Brian Epstein. He dressed mod and he treated us very gently. He was a civilized man. He obviously loved the arts, but what he really wanted to do was build his business – and he did. He had his own concerns, and style, and you had to serve them, and of course when he sold out, as all indies do, you were stranded culturally in the hands of a cold clumsy conglomerate. But he put us in the right studios with the right producers and he tried to get us seen in the right venues and it really helped. This is a good example of the industry.
Another good guy I met is Sir Richard Branson. I ended up serving my full term at Virgin Records having been removed from every other label. And he created a superior culture there. People were happier and nicer than the weasels at some other places. The first time he tried to sign me it didn’t work out, because I had my sights set on A&M, a company I thought would help make me respectable. After all they had Sting! Richard was secretly starting his own company at the time in the US and he phoned me in my tiny flat with no furniture. He said he’d give me a longer term deal with more dough than the other guys and he was very, very polite and soft spoken. But I had just smoked a joint that day and I couldn’t make a decision. So I went with the other guys who soon got sick of me. Virgin picked me up again later on the rebound. And on the cheap. Damn. My own fault.
Another kind of indie legend who is slightly more contemporary is Long Gone John of the label Sympathy for the Record Industry. Good name. John is famous with some artists for his disinterest in paying royalties. He has a very interesting music themed folk art collection – its visible online – which includes my leather jacket. I wish he’d give it back. There are lots of indie people with a gift for organization who just kind of collect freaks and throw them up at the wall to see who sticks. You gotta watch ‘em.
When you go a step down creatively from the Padrons who are actually entrepreneurs you get to the executives. You don’t wanna know these guys. They usually came over from legal or accounting. They have protégés usually called A&R men to do their dirty work. You can become a favorite with them if your fame or image might reflect limelight on their career. They tend to have no personalities to speak of, which is their strength. Strangely they’re never really thinking about the good of their parent company as much as old number one. Avoid them. If you’re an artist, they’ll make you sick or suicidal. The only good thing the conglomerate can do for you – and they’ve done it recently for me – is make you really, really ubiquitous. They do that well. But, when the company is your banker, then you are basically gonna be the Beverly Hill Billies. So it’s best not to take their money. Especially when you’re young. These are very tough people, and they can hurt you.
So who are the good guys?! They asked me when they read this thing at BBC 6 Music. Well there are lots of them. If fact, today there are more than ever and they are just about all indies, but first I want to mention Peter Gabriel and WOMAD for everything they’ve done for what seems like forever to help the greatest musicians in the world, the so called world musicians to gain a foothold and make a living in the modern screwed up cash and carry world. Traditional music was never a for profit enterprise, all the best forms were developed as a kind of you’re job in the community. It was pretty good, it was “Yeah, I’m a musician, I’m gonna skip like doing the dishes or taking the trash out.” It’s not surprising that all the greatest singers and players come from parts of the world where everybody is broke and the old ways are getting paved over. So it’s crucial for everyone that these treasures not be lost. There are other people of means and intelligence who help others in this way like Philip Glass through Tibet House, David Burn with Luaka Bop, Damon Albarn through Honest John Records. Shout out to Hypnotic Brass Ensemble. Almost all the best music is coming out on indies today like XL Mattador, Burger, Anti, Apitaph, Mute, Rough Trade, 4 A D, Sub Pop, etc. etc.
But now YouTube is trying to put the squeeze on these people because it’s just easier for a power nerd to negotiate with a couple big labels who own the kind of music that people listen to when they’re really not that into music, which of course is most people. So they’ve got the numbers. But the indies kind of have the guns. I’ve noticed that indies are showing strength at some of the established streaming services like Spotify and Rhapsody – people are choosing that music. And it’s also great that some people are starting their own outlets, like Pledge Music, Band Camp or Drip. As the commercial trade swings more into general show biz the indies will be the only place to go for new talent, outside the Mickey Mouse Club, so I think they were right to band together and sign the Fair Digital Deals Declaration.
There are just so many ways to screw an artist that it’s unbelievable. In the old vinyl days they would deduct 10% “breakage fees” for records supposedly broken in shipping, whether that happened or not, and now they have unattributed digital revenue, whatever the **** that means. It means money for some guy’s triple bypass. I actually think that what Thom Yorke has done with Bit Torrent is very good. I was gonna say here: “Sure the guy is a pirate at Bit Torrent” but I was warned legally, so I’ll say: “Sure the guy a Bit Torrent is a pirate’s friend” But all pirates want to go legit, just like I wanted to be respectable. It’s normal. After a while people feel like you’re a crook, it’s too hard to do business. So it’s good in this case that Thom Yorke is encouraging a positive change. The music is good. It’s being offered at a low price direct to people who care.
I want to try to define what I am talking about when I say free. For me in the arts or in the media, there are two kinds of free. One kind of free is when the process is something that people just feel for you. You feel a sense of possibility. You feel a lack of constraint. This leads to powerful, energetic, sometimes kind of loony situations.
Vice Media is an interesting case of this because they started as a free handout, using public funds, and they had open, free-wheeling minds. Originally a free handout was called Voice and these kids were like “Just get rid of the old! I don’t wanna be Vice, yeah!” Okay. By taking an immersive approach with no particular preconceptions to their reporting, they’ve become a huge success, also through corporate advertising, at attracting big, big money investment hundreds of millions of dollars now pumped into Fox Media and a couple of others bigger than that in the US. And they get it because they attract lots of little boy eyeballs. So they brought us Dennis Rodman in North Korea. And it’s kind of a travesty, but it’s kind of spunky. It’s interesting that capital investment, for all its posturing, never really leads, it always follows. They follow the action. So if it’s money you’re after, be the yourself in a consistent way and you might get it. You’ll at least end up getting what you are worth and feel better. Just follow your nose.
The second kind of freedom to me that is important in the media is the idea of giving freely. When you feel or sense that someone that someone is giving you something not out of profit, but out of self-respect, Christian charity, whatever it is. That has a very powerful energy. The Guardian, in my understanding, was founded by an endowment by a successful man with a social conscience who wanted to help create a voice for what I would call the little guy. So they have a kind of moral mission or imperative. This has given them the latitude to try to be interesting, thoughtful, helpful. And they bring Edward Snowden to the world stage. Something that is not pleasant for a lot of people to hear about, but we need to know.
These two approaches couldn’t be more different. To justify their new mega bucks Vice will have to expand and expand in capital terms. Presumably they’ll have to titillate a dumb, but energetic audience. Of course all capitalist expansions are subject to the big bang – balloon, bust, poof, and you’re gone. As for the Guardian I would imagine that the task involves gaining the trust and support of a more discerning, less definable reader, without spending the principal. There is usually an antipathy between cultural poles, but these two actually have a lot in common in terms of the energy and nuisance to power that they are willing to generate. I wish red and blue could come together somehow.
Sometimes I’d rather read than listen to music. One of my favourite odd books is Bootleg: The Secret History of the Other Recording Industry by Clinton Heylin. I bought the book in the 90’s because a couple of my bootlegs were mentioned. I loved my bootlegs. They did a lot for me. I never really thought about the dough much. I liked the titles, like Suck on This, Stow Away DOA or Metalic KO. The packaging was always way more creative and edgy than most of my official stuff. So I just liked being seen and heard, like anybody else. These bootleggers were creative. Here are two quotes from the dust jacket by veteran industry stalwarts on the subject of bootlegs in 1994.
“Bootleg is the thoroughly researched and highly entertaining tale of those colorful brigands, hapless amateurs, and true believers who have done wonders for my record collection. Rock and roll doesn’t get more underground than this.” – that was David Fricke, the music editor of Rolling Stone.
“I think that bootlegs keep the flame of the music alive by keeping it out of not only the industry’s conception of the artist, but also the artist’s conception of the artist.” – that was Lenny Kaye from the Patti Smith group, musician, critic and my friend. Wow!! Sounds heroic and vital!
I wonder what these guys feel about all of this now, because things have changed, haven’t they? We are now talking about Megaupload, Kim Dot Com, big money, political power, and varying definitions of theft that are legally way over my head. But I know a con man when I see one. I want to include a rant from an early bootlegger in this discussion because it’s so passionate and I just think it’s funny.
This is Lou Cohan “If anybody thinks that if I have purchased every single Rolling Stones album in existence, and I have bought all the Rolling Stones albums that have been released in England, France, Japan, Italy, and Brazil that if I have an extra $100 in my pocket instead of buying a Rolling Stones bootleg I am going to buy a John Denver album or a Sinead O’Conner album, they are retarded.”
So the guy is trying to say don’t try to force me. And don’t steal my choice. And the people who don’t want the free U2 download are trying to say, don’t try to force me. And they’ve got a point. Part of the process when you buy something from an artist. It’s a kind of anointing, you are giving people love. It’s your choice to give or withhold. You are giving a lot of yourself, besides the money. But in this particular case, without the convention, maybe some people felt like they were robbed of that chance and they have a point. It’s not the only point. These are not bad guys. But now, everybody’s a bootlegger, but not as cute, and there are people out there just stealing the stuff and saying don’t try to force me to pay. And that act of thieving will become a habit and that’s bad for everything. So we are exchanging the corporate rip off for the public one. Aided by power nerds. Kind of computer Putins. They just wanna get rich and powerful. And now the biggest bands are charging insane ticket prices or giving away music before it can flop, in an effort to stay huge. And there’s something in this huge thing that kind of sucks.
Which brings us to Punk. The most punk thing I ever saw in my life was Malcolm McLaren’s cardboard box full of dirty old winkle pinkers. It was the first thing I saw walking in the door of Let It Rock in 1972 which was his shop at Worlds End on the Kings Road. It was a huge ugly cardboard bin full of mismatched unpolished dried out winkle pickers without laces at some crazy price like maybe five pounds each. Another 200 yards up the street was Granny Takes a Trip, where they sold proper Rockstar clothes like scarves, velvet jackets, and snake skin platform boy boots. Malcolm’s obviously worthless box of shit was like a fire bomb against the status quo because it was saying that these violent shoes have the right idea and they are worth more than your fashion, which serves a false value. This is right out of the French enlightenment.
So is the thieving that big a deal? Ethically, yes, and it destroys people because it’s a bad road you take. But I don’t think that’s the biggest problem for the music biz. I think people are just a little bit bored, and more than a little bit broke. No money. Especially simple working people who have been totally left out, screwed and abandoned. If I had to depend on what I actually get from sales I’d be tending bars between sets. I mean honestly it’s become a patronage system. There’s a lot of corps involved and I don’t fault any of them but it’s not as much fun as playing at the Music Machine in Camden Town in 1977. There is a general atmosphere of resentment, pressure, kind of strange perpetual war, dripping on all the time. And I think that prosecuting some college kid because she shared a file is a lot like sending somebody to Australia 200 years ago for poaching his lordship’s rabbit. That’s how it must seem to poor people who just want to watch a crappy movie for free after they’ve been working themselves to death all day at Tesco or whatever, you know.
If I wanna make music, at this point in my life I’d rather do what I want, and do it for free, which I do, or cheap, if I can afford to. I can. And fund through alternative means, like a film budget, or a fashion website, both of which I’ve done. Those seem to be turning out better for me than the official rock n roll company albums I struggle through. Sorry. If I wanna make money, well how about selling car insurance? At least I’m honest. It’s an ad and that’s all it is. Every free media platform I’ve ever known has been a front for advertising or propaganda or both. And it always colors the content. In other words, you hear crap on the commercial radio. The licensing of music by films, corps, and TV has become a flood, because these people know they’re not a hell of a lot of fun so they throw in some music that is. I’m all for that, because that’s the way the door opened for me. I got heard on tv before radio would take a chance. But then I was ok. Good. And others too. I notice there are a lot of people, younger and younger, getting their exposure that way. But it’s a personal choice. I think it’s an aesthetic one, not an ethical one.
Now with the Internet people can choose to hear stuff and investigate it in their own way. If they want to see me jump around the Manchester Apollo with a horse tail instead of trying to be a proper Rockstar, they can look. Good. Personally I don’t worry too much about how much I get paid for any given thing, because I never expected much in the first place and the whole industry has become bloated in its expectations. Look, Howling Wolf would work for a sandwich. This whole thing started in Honky Tonk bars. It’s more important to do something important or just make people feel something and then just trust in God. If you’re an entertainer your God is the public. They’ll take care of you somehow. I want them to hear my music any old which way. Period. There is an unseen hand that turns the pages of existence in ways no one can predict. But while you’re waiting for God to show up and try to find a good entertainment lawyer.
It’s good to remember that this is a dream job, whether you’re performing or working in broadcasting, or writing or the biz. So dream. Dream. Be generous, don’t be stingy. Please. I can’t help but note that it always seems to be the pursuit of the money that coincides with the great art, but not its arrival. It’s just kind of a death agent. It kills everything that fails to reflect its own image, so your home turns into money, your friends turn into money, and your music turns into money. No fun, binary code – zero one, zero one – no risk, no nothing. What you gotta do you gotta do, life’s a hurly-burly, so I would say try hard to diversify your skills and interests. Stay away from drugs and talent judges. Get organized. Big or little, that helps a lot.
I’d like you to do better than I did. Keep your dreams out of the stinky business, or you’ll go crazy, and the money won’t help you. Be careful to maintain a spiritual EXIT. Don’t live by this game because it’s not worth dying for. Hang onto your hopes. You know what they are. They’re private. Because that’s who you really are and if you can hang around long enough you should get paid. I hope it makes you happy. It’s the ending that counts, and the best things in life really are free.”

Minha coluna no Brainstorm9 essa semana foi sobre esse clipe brega que a BBC fez pra dizer que agora ela tem um site que permite às pessoas fazerem suas playlists, deixando de lado um legado quase centenário para alinhar-se aos titãs do mundo digital.
Tudo errado
No clipe de lançamento do novo serviço BBC Music, a decana estatal inglesa rebaixa-se ao nível do novo mercado
Todos sabemos da importância da BBC para a história da comunicação, para a Inglaterra e para a história da música gravada. Por isso quando a estatal britânica resolveu reunir todas suas vertentes musicais numa mesma plataforma chamada BBC Music, nos preparamos para o aplauso. Afinal, estamos falando da BBC.
O gesto é uma evidente tentativa de fazer sua grife manter-se atual, reunindo sua produção ao redor do tema “música” num mesmo canal, sejam playlists, programas de rádio, entrevistas ou shows em seus estúdios. A interface do site é voltada para dispositivos móveis e tenta reunir diferentes conteúdos em abas diversas – nomes de programas, gêneros musicais, nomes de artistas, notícias – e oferece um serviço chamado Playlister, que além de disponibilizar sequências de músicas assinadas pelos canais da emissora também permite ao ouvinte fazer suas próprias seleções e descobrir músicas novas. Resumindo, a emissora criou um Spotify próprio para reorganizar seu conteúdo online e assim tenta fazer valer seu nome no atual cenário global de música.
Assistimos, desde o início do século, a uma briga de logotipos de todas as áreas ao redor deste tema e é neste cenário que o novo BBC Music quer brigar, entre velhas gravadoras e novos aplicativos, fabricantes de aparelhos portáteis e empresas de telefonia móvel.
A empresa gaba-se que seu novo projeto é “uma ambiciosa onda de novos programas, parcerias inovadoras e iniciativas pioneiras que afirmam o mais forte compromisso da BBC com a música em 30 anos”, reza o release. Um blablablá corporativo pesado, que parece mais disposto a equivaler-se a um cenário musical mutante do que a impor sua própria importância.
A nova plataforma chega ao mundo acompanhada de um clipe. Uma versão cheia de artistas conhecidos – de diferentes gêneros, épocas e países – para regravar o clássico dos Beach Boys “God Only Knows”. Ok, vamos ver…
O resultado é espetacularmente brega. Aliás, brega é pouco. Transcende os limites do brega. Brega é só o conceito de reunir vários artistas para cantar uma música conhecida por todos. O “We Are the World” era menos brega porque pelo menos lançou uma musica nova. Mas esse clipe, essa versão, esse conceito… Tudo errado.
Não apenas pela escolha dos artistas, que funciona até a página três. Há clássicos de menos (Stevie Wonder, Elton John, Brian May e o próprio Brian Wilson) e pop contemporâneo de mais (Dave Grohl, Lorde, Pharrell, Chris Martin, Florence Welch, Sam Smith, Jake Bugg, Kylie Minogue e Jamie Cullum), um inevitável Jools Holland e um evitável One Direction, além de artistas eruditos (Eliza Carthy e Danielle de Niese) e “do resto do mundo” (Baaba Maal) para dar aquele molho de “pluralidade”, além da BBC Concert Orchestra e um coral com 80 vozes.
Se no quesito música o resultado é mediano, na parte visual é constrangedor. A direção de arte do clipe deixa tudo pior ao colocar asas negras na Lorde, Elton John coberto de borboletas azuis, um tigre pulando sobre o piano de Brian Wilson, Kylie Minogue flutuando em uma bolha, Stevie Wonder cercado de diamantes… Trata artistas não como personagens mais sensíveis que nós, mas como um circo de pessoas estranhas. É um delírio psicodélico careta, uma caricatura musicada da direção de arte de Tim Burton filtrada pelo filme As Aventuras de Pi.
O clipe coroa uma iniciativa que parece tirar a majestade da BBC. Ao descer de seu próprio pedestal, a emissora perde seu tom austero e tenta criar um universo particular clean e higienizado, mais próximo das campanhas publicitárias de marcas de celular ou de serviços de streaming do que de um padrão BBC de qualidade. Basta comparar essa versão com outra, feita pela emissora há dezessete anos, quando ela também reuniu veteranos e novatos para cantar uma música conhecida, no caso “Perfect Day”, de Lou Reed.
Além do próprio Lou Reed (fazendo “air piano”), a versão de 1997 ainda tinha participações de Bono, David Bowie, Suzanne Vega, Elton John, Burning Spear, Emmylou Harris, Tammy Wynette, Shane MacGowan (dos Pogues), Robert Cray, Skye Edwards (do Morcheeba), Dr. John, Emmylou Harris, Brett Anderson (do Suede), Laurie Anderson e Tom Jones – tudo bem, também tiveram os meninos do Boyzone. Mas ao comparar a “Perfect Day” de 1997 e a “God Only Knows” de 2014, percebe-se que até o fim do século passado a BBC ainda mantinha alguma austeridade, mesmo que um filtro visual no clipe quisesse deixá-la com uma cara moderna.
E o lançamento da canção de 1997 não tinha nenhum intuito inovador – era apenas um comercial feito para a TV para reforçar que, com como dizia a mensagem ao final do anúncio, “não importa qual é seu gosto musical, ele é saciado pela BBC Rádio e Televisão. Isso só é possível graças à forma incomparável como a BBC é paga por você. BBC. Você faz o que ela é.” “Você vai colher o que plantar”, como cantava escancaradamente o refrão.
“God Only Knows”, por outro lado, parece uma súplica para não perder ouvintes – “Só Deus sabe o que eu seria sem você”, canta a canção perfeita de Brian Wilson mas também parece cantar a BBC, que perde seu rigor para exibir-se como mero zoológico de personagens exóticos, estes tais artistas que fazem música. Havia uma empolgação para aplaudir, uma antecipação otimista sobre como a emissora marcaria sua entrada no século digital e assistimos a uma campanha de marketing mediana cheia de celebridades e efeitos especiais. O oposto do que se esperaria da BBC.
Tudo errado.