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Minha coluna na edição do Link desta semana foi sobre o cofundador brasileiro do Facebook.

A contribuição histórica de Eduardo Saverin ao Facebook
Brasileiro revoltou norte-americanos ao renunciar à sua cidadania

Já é bem conhecida a saga de como um brasileiro foi passado para trás por um dos maiores nomes da história da internet e perdeu a oportunidade de entrar para a história. Na semana em que o Facebook finalmente se tornou uma empresa pública, abrindo capital na bolsa de valores Nasdaq, o site Business Insider revelou detalhes sobre como Mark Zuckerberg decidiu que Eduardo Saverin não faria mais parte da empresa que fundaram juntos.

A história é o ponto central do filme A Rede Social, de 2010, que mostra como dois alunos de Harvard, a partir de um fora que Zuckerberg tomou de uma garota, começaram um serviço online que, a princípio era fechado apenas para estudantes da universidade, mas que aos poucos se tornou um dos sites mais acessados da história da internet. Só que, em dado momento, os dois divergem sobre como gerir a rede social e Zuckerberg decide tirar da empresa o primeiro diretor financeiro. O golpe foi tão duro que Saverin foi banido da história da própria rede até que o filme tornasse sua história pública – e, através dos tribunais, conseguisse reaver 4% das ações da rede (quase nada, em comparação aos 30% que teve antes de ser defenestrado por Mark).

Nos e-mails que foram divulgados pelo Business Insider, Zuckerberg não é nada lisonjeiro ao se referir ao ex-sócio: “Ele se ferrou…”, escreveu. “Ele deveria ter criado a empresa, obter financiamento e bolar um modelo de negócio. Ele falhou nas três. Agora que eu não vou voltar para Harvard não preciso me preocupar em ser espancado por capangas brasileiros.”

Mas o tom das conversas de bastidores no início da rede social não foi a única vez que Saverin apareceu no noticiário dos últimos dias. No dia 11, a agência de notícias Bloomberg anunciou que o brasileiro renunciou à cidadania norte-americana para morar de vez em Cingapura. Foi o suficiente para gerar especulações em relação ao motivo da decisão: Saverin estava deixando os EUA para fugir de impostos.

A especulação irritou os norte-americanos, que o acusaram de sair do país com dinheiro ganho lá. O jornalista Farhad Manjoo chegou até a dizer que Saverin era um mal agradecido, em um longo artigo em que explicava por que Saverin havia sido salvo pelos EUA, ao lembrar que sua família mudou-se de São Paulo para os EUA pois havia descoberto que o nome de Eduardo, com 13 anos à época, estava numa lista de possíveis sequestráveis no Brasil.

Mas Manjoo foi além e disse que Saverin era “ingrato e indecente”, pois além de seu país ter acolhido o brasileiro, ainda foi graças aos EUA que Eduardo Saverin conheceu Zuckerberg. E que se não fossem os Estados Unidos, que inventaram a internet, ele não seria nada. A confusão ao redor do brasileiro foi tanta que até mesmo senadores norte-americanos colocaram em pauta a possibilidade de bani-lo para sempre do país.

Um exagero do tamanho das proporções que o Facebook têm hoje.

Mesmo porque, traidor (dos EUA) ou traído (por Zuckerberg), Saverin tem um mérito único: foi a primeira pessoa a perceber que o site que seu colega de faculdade estava criando poderia ser lucrativo. E desembolsou parcos US$ 15 mil para comprar os primeiros servidores do hoje gigante digital.

Pode-se fazer uma série de especulações sobre este momento, principalmente em cima do fato de Zuckerberg poder ter criado o Facebook com outro investidor. Mas a própria criação do site é marcada por confusões. O filme de David Fincher também conta como Mark poderia ter copiado os códigos de programação de um site semelhante que estava sendo criado na mesma época, em Harvard, pelos gêmeos Winklevoss. Do mesmo jeito, um primeiro investidor na ideia de Zuckerberg poderia roubá-la dele.

Não foi o que aconteceu. Saverin investiu no Facebook e a história depois disso todos conhecemos. E o mérito de ter sido o primeiro a perceber a possibilidade da rede social crescer e dar dinheiro é de Eduardo. Seja ele cidadão norte-americano, brasileiro ou de Cingapura.

E a matéria de capa do Link desta semana é a entrevista que fiz com o fundador do Tumblr, David Karp, que vem ao Brasil começar a internacionalização de sua plataforma – e nesta mesma semana inauguramos o Tumblr do Link.

A orkutização do Tumblr
O criador do Tumblr chega ao Brasil para promover a expansão internacional do site e fala, com exclusividade ao Link, sobre o rumo da plataforma que está substituindo os blogs

David Karp, criador do Tumblr, chegou ao Brasil no fim de semana para uma série de eventos que marcam o início da internacionalização do site criado por ele há cinco anos. O primeiro aconteceu em Curitiba, no domingo, e os próximos têm data marcada para esta semana: dia 25 há uma festa no Rio de Janeiro (no Espaço Sacadura) e dia 26 em São Paulo (no antigo Masp, no centro).

Uma plataforma de autopublicação simplificada, o Tumblr é uma das principais redes sociais do mundo, e Karp diz ao Link que escolheu o Brasil para começar sua expansão internacional por achar que nosso comportamento online reflete bem a natureza de seu site, que, como ele diz, quer que funcione como um ponto de convergência para criadores online. Conversei com ele na semana passada pelo telefone sobre a relação de seu site com a nossa cultura digital.

Por que começar a expansão pelo Brasil?
O Brasil é uma comunidade incrível. Não só pelo fato de crescer e usar a internet de forma ágil, mas também pela sensibilidade criativa. E não é algo que esteja restrito a uma comunidade de early adopters ou às pessoas fascinadas por tecnologia ou a uma região específica – é o país inteiro. Acho que o Tumblr toca num nervo que mexe com a noção de cultura daí, uma sintonia que não atingimos nem nos EUA. A impressão que tenho é que o seu país é um caldeirão para novas formas de produzir artes e uma nova cultura. É claro, para mim, que a cultura brasileira celebra a criatividade mais consistentemente do que os EUA hoje em dia.

Como o Tumblr se encaixa num cenário que já tem Twitter, Facebook e Google? A impressão que tenho é que vocês lidam com nichos em vez de lidar com a massa…
O motivo pelo qual várias comunidades diferentes são atraídas pelo Tumblr é a diversidade. Apesar de parecer que o Tumblr é uma plataforma para fotos e vídeos, eu o considero um lugar para mídias em geral. Pode ser mais uma vontade minha do que a realidade, mas acho que ele tem mais a ver com diversidade e liberdade de expressão do que com algum tipo específico de mídia ou de conteúdo. Por exemplo, o Twitter é ótimo para quem usa o celular se expressar e é bom para frases de efeito ou piadas de comediantes. Já o Instagram e o Flickr são ótimos para fotografia, e o YouTube tornou-se um padrão para vídeos. Mas vejo o Tumblr como algo atraente e excitante para criadores em geral, e queria que ele se tornasse um ponto de convergência para comunidades criativas.

Quando o Tumblr começou, há cinco anos, a internet no celular ainda era rudimentar, não havia a economia de aplicativos e redes sociais não eram algo tão presente. Como continuar relevante nos próximos cinco anos?
Começamos como uma plataforma de publicação e era o que queríamos: ser uma plataforma simples e fácil de usar. Acontece que surgiu uma rede de mídia diferente desde que criamos o Tumblr. Assim, funcionamos como vitrine para esta nova rede. A tecnologia muda de forma muito rápida e os criadores acompanham a velocidade dessas mudanças. Sobre internet móvel, acho que estamos ainda arranhando a superfície de algo completamente novo, por isso não acho que estamos defasados em relação ao que virá. E há tantas coisas sendo criadas agora – linguagens de programação, hardwares, novas tecnologias – e eu não vejo nenhuma grande empresa de tecnologia lidando com isso hoje. No máximo o YouTube, mas acho que eles têm uma abordagem bem diferente da nossa.

Qual é a sua abordagem para estas mudanças de formatos e plataformas?
O telefone celular, sem brincadeira, é a máquina de produção de mídia mais sofisticada que já existiu. Antes você precisava de uma filmadora, ligava-a ao computador, esperava o vídeo ser transferido, para aí sim editá-lo muito lentamente. Agora, você faz tudo isso em um só aparelho de 100 dólares. É incrível. O que nos deixa muito animados com essa mudança para dispositivos móveis é que ela torna muito mais fácil produzir qualquer coisa que, se não fossem os celulares, as pessoas não produziriam – e talvez não se descobrissem como criadores. Os aplicativos que já foram criados para esta máquina – o Instagram, o Cinemagram… – não estão nem no começo da história.
Ao mesmo tempo, você tem uma nova plataforma que também é um aparelho – o tablet. Para mim, a maior qualidade dele é trabalhar com a exploração e descoberta na navegação, o que é parecido com a natureza do Tumblr. Meu blog, por exemplo, tem posts de todos os assuntos, em todos os tipos de mídia. Algumas coisas eu criei, outras eu repostei de outros. E quando eu vejo os blogs desses outros criadores, também vejo que eles também têm suas coleções de tópicos e mídias.
É uma rede muito complicada de se explorar (ri). Há tantos pontos de conexão que você pode navegar por horas, dias na rede de uma única pessoa! Isso é muito difícil de se fazer em um browser! É um ambiente que você só pode subir e descer, que você tem de abrir abas, e muitas abas abertas são um pé no saco… Não são bons para isso. Se você tenta abrir doze abas do YouTube em um browser, vira uma bagunça. Browsers não são a melhor forma de navegar. Tablets, por outro lado, tornam a navegação mais divertida. Permitem que você explore a rede de uma forma não linear.

Em suas pesquisas sobre o Brasil você deve ter ouvido falar na expressão “orkutização”, que significa se tornar popular, com tom pejorativo. É algo que você teme ou quer para o Tumblr?
Conheço o termo. Um de nossos primeiros investidores é um dos CEOs do Fotolog (John Borthwick), e sempre conversamos sobre o papel do Fotolog e do Orkut na difusão da internet no Brasil. Mas há algo de interessante no fato de o Orkut ter sido uma empresa dentro de outra maior ainda, que era o Google. Foi por isso que ela não ganhou a atenção que deveria, mesmo sendo uma das maiores redes sociais do planeta. Na indústria de tecnologia comenta-se à boca pequena como o Orkut foi negligenciado pelo Google, como o Google esqueceu que tinha o Orkut. Se for verdade, precisamos entender como uma rede tão cheia de gente pode se tornar uma comunidade tão sem inspiração a ponto de ser mal vista.
Não acho que tenha a ver com alguma faixa de renda ou etária. Acredito que a tendência de crescimento, da inclusão de cada vez mais gente, é a regra desse tipo de mercado, por isso você tem de aprender a lidar com as massas e, principalmente, se preparar para isso. Por isso, se falar em “orkutização” parece que nos referimos a uma favela online é porque as pessoas que gerenciavam aquela rede foram descuidadas com a infraestrutura do design. É o tipo de decisão que pode erodir qualquer tipo de comunidade virtual. Nos preocupamos bastante com isso: com a possibilidade de a comunidade Tumblr ser arruinada pela negatividade, pela falta de inspiração, por qualidades genéricas que podem transformar a rede social em um lugar em que não queremos estar.

Nessa edição do Link, a autora do livro Alone Together, Sherry Turkle escreve sobre como os meios digitais estão fracionando nossos relacionamentos:

No ambiente de trabalho contemporâneo, jovens que cresceram com medo de conversar chegam para trabalhar usando fones de ouvido. Ao passear pela biblioteca de uma universidade ou pelo escritório de uma empresa de tecnologia, vemos a mesma cena: estamos juntos, mas cada um ocupa sua bolha, digitando furiosamente em teclados e telas sensíveis.

Um sócio sênior de um escritório de advocacia de Boston (EUA) descreve a situação no seu trabalho. Jovens advogados depositam seu arsenal tecnológico sobre a mesa: laptops, iPods e numerosos celulares. E então eles põem os fones nos ouvidos. “Fones imensos, como os de pilotos. Eles transformam suas mesas em cabines de avião.” Assim, o escritório fica em silêncio, uma calma que não é quebrada.

No silêncio da conexão, as pessoas se confortam com a ideia de estar em contato com um grande número de pessoas – cuidadosamente mantidas à distância. Mas não é possível ter uma relação boa se usarmos a tecnologia para nos manter separados por distâncias controladas: nem perto demais, nem longe demais, no ponto certo.

Mensagens de texto, e-mails e atualizações de status permitem que mostremos o “eu” que desejamos ser. Isto significa que podemos editar. E, se quisermos, podemos deletar. Ou retocar: a voz, a carne, o rosto, o corpo. Nem muito, nem pouco – na medida certa.

Os relacionamentos humanos são ricos, caóticos e exigem muito de nós. Com a tecnologia, adquirimos o hábito de organizá-los melhor. E a mudança da conversa para a simples conexão faz parte deste fenômeno. Mas, neste processo, estamos nos enganando. Pior ainda, parece que, com o tempo, paramos de nos importar, esquecendo que há uma diferença entre as duas formas de relacionamento.

O texto inteiro segue lá no Link.

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Aproveitei a última notícia antes da morte do MCA para falar, mais uma vez, da importância do Paul’s Boutique, na minha coluna do Link dessa semana

A obra-prima que não pediu licença ao direito autoral
Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, não poderia ser feito sob regras atuais

Um dia antes da morte de Adam Yauch, sua banda, os Beastie Boys, foi notificada pelo uso indevido de trechos de duas canções do grupo TroubleFunk. Yauch – também conhecido como MCA – morreu no último dia 4, vítima de um câncer na garganta contra o qual lutava desde o fim de 2009. No dia 3, a empresa que representa os direitos do grupo de funk de Washington, TufAmerica, entrou com uma ação pedindo indenização pelo fato do trio de Nova York ter usado trechos de duas músicas em seus dois primeiros discos.

Um pedaço de “Drop the Bomb” foi utilizado nas faixas “It’s the New Style” e “Hold it Now, Hit It” do primeiro disco dos Beastie Boys, Licensed to Ill, de 1986. Outro trecho da mesma música apareceu no disco seguinte, na faixa “Car Thief”, do álbum Paul’s Boutique, de 1989. O mesmo disco ainda trazia um trecho de outra música do TroubleFunk, “Say What”, na faixa “Shadrach”.

O verbo-chave no centro desta disputa é o neologismo “samplear”. O termo é um anglicismo que vem da palavra “sample” – amostra, em inglês –, mas começou a ser utilizado desta forma depois que a empresa japonesa Akai decidiu categorizar o modelo S900 de seu gravador digital como “sampler”. Com ele, era possível selecionar um trecho de áudio e repeti-lo por várias vezes, tornando possível a utilização de pedaços de músicas para a composição de novas canções. Este tipo de gravador já existia antes do Akai S900, mas foi graças a esse modelo – muito mais barato que seus antecessores – que a prática começou a ser mais difundida.

E os primeiros a utilizar o novo aparelho como instrumento musical foram os órfãos da disco music, que inventaram a música eletrônica como a conhecemos hoje. Depois que a discoteca implodiu no fim dos anos 1970, uma geração de novos fãs perdeu o referencial de onde conseguir novas músicas. E, aos poucos, foram eles mesmos se transformando em compositores, primeiro utilizando toca-discos para reproduzir trechos instrumentais. Foi assim que surgiram as dezenas de subgêneros da música eletrônica, como o techno de Detroit, o house de Chicago, o Miami Bass em Miami, o jungle em Londres, o funk carioca no Rio de Janeiro. Todas estas cenas musicais ficaram deslumbradas com o surgimento do novo aparelho.

Inclusive os de uma nova cena nova-iorquina que, diferentemente de seus parentes citados acima, dava mais ênfase ao vocal do que à base musical. O hip hop surgiu no mesmo momento em que a disco music foi induzida à overdose de exposição pela indústria fonográfica que a criou. Em 1979, o grupo Sugar Hill Gang lançava a música “Rapper’s Delight”, em que um trio de MCs rimava sobre uma base que consistia num loop de um trecho da música “Good Times”, do grupo Chic. Foi o início de uma das manifestações culturais mais influentes das últimas décadas.

Quando o sample surgiu, as bases usadas em discos de vinil deram lugar às bases que usavam o sampler como disparador de trechos. O DJ seguiria como o principal instrumentista do gênero até hoje, mas, no final dos anos 80, houve uma renascença musical criada a partir de artistas que usavam trechos de músicas alheias para compor novas músicas. Mas ninguém foi tão longe quanto os Beastie Boys – especialmente em Paul’s Boutique.

São centenas de trechos de discos, músicas, filmes e programas de TV usados ao longo de suas quinze músicas. O resultado dá a impressão de uma audição esquizofrênica, mas o disco é tão bem costurado que foi chamado de o “Dark Side of the Moon do hip hop”, em referência ao clássico disco do Pink Floyd, pela revista Rolling Stone.

Quando foi lançado, deu origem a uma série de questionamentos em relação a tal prática, que era inédita – os beasties não perguntaram se poderiam fazer, simplesmente foram fazendo. E deram origem a uma obra-prima da música moderna que seria impossível de ser realizada hoje em dia sem que a banda desembolsasse algumas centenas de milhares de dólares para gravar o disco. Mas, sem pedir licença, criaram um dos principais marcos da cultura do remix.

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E na minha coluna no Link desta segunda, comentei um artigo escrito na Forbes sobre o futuro do Google e do Facebook.

Como a web 3.0 pode tornar Google e Facebook obsoletos
Futuro Jetsons: Aparelhos conectados vão se adaptar à rotina

Na semana passada, o especialista em tecnologia da revista Forbes, Eric Jackson, fez uma profecia controversa. Dizia que, talvez, em cinco anos, grandes nomes digitais como Google e Facebook podem perder completamente a importância. Parece alarmista, mas a tese de Jackson tem embasamento.

Ele diz que o Google era um típico site da web 1.0, quando o mais importante era a organização da rede. Em sua infância nos anos 90, a web já era composta de milhares de sites – longe dos bilhões atuais – e seu público ainda tateava em suas primeiras navegações. Era preciso que alguém facilitasse o rumo naquele primeiro momento – época em que todo site tinha uma seção de links recomendados, lembra? Foi a partir dessa necessidade que surgiram sites como o Yahoo (um diretório de sites) e a Amazon (que organizava as compras online). O Google foi o principal nome da última fase desta infância e resumia os anseios do cidadão digital oferecendo apenas um campo de busca. “O que você quer saber?”, parecia perguntar.

Veio em seguida a web 2.0, oferecendo ferramentas para as pessoas publicarem o que quisessem online, sem precisar saber nada de códigos ou linguagens de programação. Surgiram os blogs, os sites de hospedagem de vídeos e fotos, podcasts e outros megafones virtuais para ampliar o alcance do conteúdo produzido pelos usuários. E quando todos se perguntavam quem poderia se interessar em assistir a um vídeo feito sem muito cuidado ou ver fotos feitas com celular, surgiram as redes sociais, que responderam à pergunta mostrando que os consumidores dos conteúdos gerados por pessoas comuns eram elas mesmas, em nichos. Foi nesse território que surgiu o segundo maior site da década , o Facebook.

Mas, do mesmo jeito que o Google patina para entrar na camada social dominada pelo Facebook, a rede social também pasta na hora de conseguir se transferir para a internet móvel. Todo aplicativo do site feito para funcionar em dispositivos portáteis ficam muito aquém da experiência em desktops ou laptops. Segundo Jackson, eis o problema do Facebook. Do mesmo jeito que o Google não conseguiu – apesar de todas as tentativas – entrar na era da web 2.0, o Facebook também não conseguirá entrar na web 3.0, que, segundo ele, é a web em que os celulares e smartphones são os principais dispositivos de acesso.

Permita-me discordar. Primeiro porque a web 2.0 está essencialmente associada à mobilidade. Não apenas de tablets e celulares, mas também de computadores portáteis. Fotos são tiradas pelo celular e compartilhadas em diferentes redes sociais quase que simultaneamente. Os protestos (Primavera Árabe, Occupy, entre outros) que vimos no ano passado foram protagonizados por celulares e câmeras portáteis, não por desktops.

Discordo também do fato de a web 3.0 ser a internet móvel. O que convencionou-se chamar de web 3.0 é a tal web semântica, que entende o que seu usuário quer e oferece exatamente aquilo que ele precisa. Assim, se a web 1.0 perguntava o que você queria, a web 2.0 traz o que você quer sem mesmo que você saiba que queira (pense na quantidade de assuntos que conheceu graças a links de amigos no Facebook). A web 3.0 facilitaria isso ainda mais – e você nem perceberia que está entrando na internet ao receber tais informações.

Eis meu ponto: a web 3.0 não é de computadores e celulares, mas de todos os aparelhos da sua casa, que, aos poucos, conectam-se à internet. Primeiro a TV, e depois logo virá o rádio, o carro, a cozinha e tudo que puder ser conectado. Não é simplesmente um navegador que, a partir de seus hábitos online, lhe entrega o que você nem sabe que está procurando e, sim, um futuro dos Jetsons – sem o carro voador. Você acorda e em dez minutos a água do banho está esquentando. E logo que você desliga o chuveiro, a cafeteira começa a preparar seu café. A web 3.0 nos desconecta de aparelhos, por completo.

Mas concordo em um ponto com Jackson: o Google desta web 3.0 ainda não surgiu. E pode sim tornar Google e Facebook obsoletos em pouco tempo.

Na minha coluna do Link desta semana, comentei sobre a profecia que Jimmy Wales, da Wikipedia, fez sobre o iminente fim de Hollywood.

Os melhores filmes de todos os tempos ainda não foram feitos
O cinema não vai acabar, mas mudar

Há uma semana, durante o encontro Global Inet, realizado em Genebra, na Suíça, o fundador da Wikipedia, Jimmy Wales, deu uma declaração no mínimo polêmica. Entusiasmado com a recente notícia de que seu site fez a vetusta Encyclopedia Britannica, que era impressa desde 1768, aposentar sua versão em papel, ele profetizou sobre o futuro da indústria do cinema: “Ninguém se dará conta quando Hollywood morrer. E mais, ninguém vai se importar”.

Não é uma continuação do velho discurso deslumbrado com o digital que o transformava em carrasco final de velhas mídias e tecnologias. Ao contrário do que foi alardeado por todo o século 20, o rádio não matou o jornal, como a TV não matou o cinema, nem o telefone matou a conversação. E quando o tema é internet, tais “mortes anunciadas” parecem apenas provocações – afinal, a internet não “mata” a indústria da música, do audiovisual, da fotografia ou das notícias, mas agrega cada faceta destes universos dentro de sua interface.

A questão, frisou Wales, não é tecnológica, mas social, citando a própria filha, Kira, de 11 anos, como exemplo: “Ela maneja com total desenvoltura uma câmara de alta definição, que usa para captar, editar e produzir seus próprios filmes na internet”. E continuou: “Quando essa geração completar 22 anos realizará filmes com mais qualidade que os de Hollywood. Esses mesmos filmes serão mais populares e destruirão o modelo de negócio vigente. Ocorrerá o mesmo que ocorreu com a Wikipedia, que fez que a Encyclopaedia Britannica deixasse de ser impressa 11 anos após a criação (da Wikipedia)”, declarou. E ao finalizar, cravou: “Há uma grande possibilidade que todo o modelo de produção esteja completamente ultrapassado em muito pouco tempo.”

Isso não quer dizer que o cinema vai acabar – longe disso. Wales falava especificamente da indústria cinematográfica norte-americana, concentrada nos estúdios de Hollywood, em Los Angeles. O modelo funcionou por décadas e foi se adaptando aos tempos: das salas de exibição à chegada da locação (primeiro o VHS, depois o DVD, outros candidatos a “assassinos do cinema”, cada um em seu tempo), passando pela TV a cabo e seu pay-per-view, filmes exibidos em voos até a tecnologia 3D. Tudo isso ficava concentrado na mão de alguns executivos, uma panela de técnicos, uma turma de atores e outra de autores. Mas eis que chegam as mídias digitais e, de repente, qualquer um pode fazer cinema. A princípio apenas alguns filminhos, feitos às vezes com o celular. Acontece que aos poucos outros truques típicos de uma indústria centenária (do figurino aos efeitos especiais, da iluminação à direção de arte, do roteiro à fotografia) são absorvidos por uma geração que nem sequer chegou à maioridade, como a filha de Wales.

Quando chegarem, em menos de dez anos, assistiremos a filmes completamente diferentes, que não se limitam a apostar no que é certo e fugir do que for mais ousado (este sim, o grande erro da indústria tradicional).

Falando de outra indústria, a da música, o ex-guitarrista do grupo inglês Oasis, Noel Gallagher, disse que “o consumidor não queria Sgt. Pepper’s (o clássico disco dos Beatles), nem Jimi Hendrix, nem Sex Pistols”, ao reclamar que a indústria havia se tornado uma imensa pesquisa sobre as vontades do público. Ele ecoava uma frase de Henry Ford muito repetida por Steve Jobs: “Se perguntássemos o que os consumidores queriam, eles não iriam querer o carro, e, sim, um cavalo mais rápido”.

A mídia não vai morrer, mas precisa se reinventar para se adequar. E se a indústria que toma conta disso não assumir logo estas rédeas, outros vão fazer isto por ela, criando uma nova indústria. A melhor analogia sobre a mudança remete à invenção da fotografia, que, teoricamente, acabaria com a função dos retratistas, uma vez que ninguém pagaria para ter um retrato pintado. O que aconteceu? Os pintores da virada do século 19 para o 20 criaram o impressionismo e o modernismo. E isso deve acontecer com o cinema, e logo. Como diz um amigo meu, ainda não vimos os melhores filmes de todos os tempos.