
Aproveitei o gancho do bilhão de cadastrados no Facebook na semana passada para falar um pouco sobre o futuro da rede social na minha coluna no Link de hoje…

O primeiro bilhão do Facebook e o futuro das redes sociais
Acabou o encanto de retomar amizades
Nunca fui fã do Foursquare. Marcar presença nos lugares a que vou, para que todos vejam, me parece fútil e assustador ao mesmo tempo. Mas entendo quem usa. É prático para lembrar lugares onde você conheceu certa pessoa ou o dia de uma reunião apenas pelo histórico de check-ins. E os comentários dos usuários ajudam a escolher um restaurante próximo de onde você está.
Na semana passada, Luiz Horta, colunista de vinhos do caderno Paladar do Estado, comentou no Facebook uma outra utilidade do Foursquare: descobrir onde os chatos estão. É perfeito – antes de decidir a qual restaurante ou cinema ir, basta checar a rede social e ver se algum mala já deu as caras lá para saber onde não ir. Por dois microssegundos pensei em aderir apenas para isso. Mas logo em seguida, a vontade passou. Entrar em mais uma rede social?
O que nos traz de volta ao Facebook, que na semana passada estufou o peito para dizer que já tem 1 bilhão de usuários. O número parecia vir antes, mas essa contagem já era em conta-gotas. A marca dos 800 milhões foi atingida em setembro de 2011, enquanto a dos 900 milhões só veio em junho deste ano.
É um número impressionante e muito bem vendido. Certamente o Google conecta tanta gente há mais tempo, mas não soube faturar em cima. O bilhão do Facebook, porém, esconde uma desaceleração drástica no crescimento da rede social. No Brasil, a adoção foi tardia, beneficiando o Facebook por mais tempo. O País era considerado uma das últimas fronteiras do site. Rússia e China são as próximas. Zuckerberg não sepultou o Orkut de vez. Sua popularização por aqui desde 2010 ofuscou a rede social do Google. Mas, em 2012, a ascensão já é menos íngreme do que antes. O que nos acende duas perguntas: já passamos o ápice da grande era do Facebook? E qual a rede social tomará o seu lugar?
A primeira pergunta não pode ser respondida neste ano. O Facebook deve continuar a crescer, mas há uma diáspora lenta e gradual do condado virtual de Mark Zuckerberg e isso vem acompanhado de vários questionamentos: estamos nos expondo muito? Estamos perdendo muito tempo online? O Facebook é uma empresa confiável? Meus relacionamentos pessoais precisam ser expostos tão escancaradamente?
Já a segunda pergunta não é tão hermética, mas o presente já dá dicas de como será o futuro próximo. Eu não quero entrar no Foursquare. Eu adoro o Instagram. Tentei usar o Flickr e não me dei bem com ele. Nunca nem entrei no LinkedIn e acho interessante o funcionamento de rede social do YouTube. Cansei do Twitter (embora ainda o use) e estou familiarizado com o Facebook. Entrei em redes sociais das quais nem mais lembro a senha. Em outras palavras: não sei se existirá uma rede social para substituir o Facebook.
Vejo cada vez mais redes sociais de nicho, para reunir apenas alguns amigos sobre apenas um assunto. Acabou aquele momento de encantamento, aquela hora em que você se lembra de pessoas do passado e adiciona amigos com quem não falava há décadas. Boa parte desse encantamento é autoindulgente – adicionamos um amigo que nos faz lembrar de nós mesmos em uma determinada época de nossas vidas. É claro que há exceções e várias amizades são retomadas. Mas, de uma forma geral, vivemos um momento social em que finalmente lembramos por que esquecemos de certas pessoas de nosso passado – pois elas não tinham de serem lembradas mesmo.
O Facebook se perde ao se vender como uma máquina de publicidade. Tenho a impressão que até o fim do ano que vem estaremos nos conectando ao Facebook como se pudéssemos ver um canal de TV apenas com comerciais.
O futuro pertence a redes pequenas, que se conversam e se interligam, muitas vezes conectadas pelos logins de grandes players – Facebook, Twitter, Apple, Amazon, PayPal, Google, Microsoft. Isso, portanto, o que não quer dizer que esta nova década será menos centralizada e controladora.
A pergunta não é quem substituirá o Facebook, mas até quando ele será relevante para a maioria das pessoas.
Estava jogando o novo Bad Piggies quando me veio a idéia que deu origem à minha coluna da edição do Link dessa semana…
A física de ‘Angry Birds’ e o futuro do ensino nas escolas
O desafio é deixar a aula interessante
Uma das questões que mais me instigam no campo digital é a da educação. Mais do que colocar tablets em salas de aula ou incluir determinadas matérias no currículo, o impacto que a realidade eletrônica já exerce em professores e alunos é grande – e deve aumentar ainda mais.
Afinal, a sala de aula passa pelo mesmo processo descentralizador que ocorre em todas as áreas desde a popularização do computador e da internet. A autoridade do professor vem sendo desconstruída à medida que ele e os livros usados em aula deixam de ser a única fonte de conhecimento para os alunos.
(Nem vou entrar no assunto do sucateamento da profissão de professor no Brasil. Salários baixos, falta de estrutura ou de capacidade pessoal são problemas graves que devem ser resolvidos antes de toda a discussão sobre o impacto do digital no ensino.)
O fato é que cada aluno carrega no bolso um computador em contato com todo o conhecimento do mundo, enquanto o professor ensina. Se isso ainda não é regra, será em menos de dez anos. Não adianta proibir o uso de smartphones ou tablets em sala de aula. Tampouco bloquear o acesso deles a determinados sites ou certos tipos de conteúdo. Os alunos do futuro pularão sobre estas barreiras como os do passado faziam com muros e cercas para fugir da escola. No século digital há essa possibilidade: matar aulas presencialmente, usando aparelhos eletrônicos.
Discutir o tipo de conteúdo ensinado também é pertinente. Os estudantes saberão muito mais de programação e computação do que nós, exigindo que este tipo de conhecimento também esteja presente nas salas de aula. E se passamos décadas aprendendo a importância cultural da literatura a ponto de o tema se tornar uma disciplina, por que não termos aulas de cinema (não de técnica, mas de interpretação) agora que esta arte já tem mais de um século?
E há disciplinas que exigem mais atenção, que não são fáceis de ser reinventadas ou remixadas. Especificamente a mais nerd de todas: a física. É um tipo de conhecimento prático que melhora a vida de qualquer ser humano, mas suas fórmulas e diagramas tendem a ilustrar situações hipotéticas que pouco importam para o menino de 14 anos.
Toda essa discussão me surgiu enquanto jogava o novo game da Rovio, lançado na quinta-feira, Bad Piggies, em meu celular. Bad Piggies, na verdade, repete a fórmula explorada pela empresa finlandesa desde que lançou em março o Angry Birds Space, outro derivado de seu jogo mais famoso.
O jogo original tinha como ponto de partida o arremesso de aves sobre estruturas habitadas por porcos. No Space, o estilingue que dispara as aves fica em um planeta enquanto os porcos ficam em planetas próximos, com atmosferas – e gravidades – que se conectam. E para acertar um porco mais distante, é preciso usar a gravidade dos planetas, traçando um caminho a ser percorrido pelas aves sem que se percam no vácuo do espaço. Física pura!
Na versão Angry Birds Seasons, a empresa incluiu uma fase chamada Atlantis, que obriga as aves a pular na água para, a partir do mergulho inicial, serem impulsionadas com determinada força de volta para a superfície.
E agora vem Bad Piggies, que enfim dá uma chance aos sorridentes porcos verdes de ter alguma vitória. Vilões no jogo original, eles protagonizam o novo game em busca dos ovos das aves, o motivo que deixa os pássaros tão nervosos.
Mas porcos não podem voar, por isso você cria aparelhos que ajudam os suínos a chegar aos ovos. Uma roda aqui, um fole acolá, um quadrado de madeira e você monta um avião. Você precisa de três ventiladores para que ele chegue à ladeira, e tem de acionar o fole no sentido contrário para o porco não se estabanar no final. Mecânica pura.
Lembrei do livro Reality is Broken, da programadora e escritora Jane McGonigal, de que falamos em fevereiro do ano passado. Recém-lançado no Brasil com o título de A Realidade em Jogo (Ed. Best Seller), o livro é um manifesto sobre como devemos nos debruçar sobre os videogames para tornar a realidade fora deles interessante outra vez…
• Hackerspaces: Oficina de criação • Google: A culpa é de quem? • A nova chance do MySpace • O hardware renasce no Vale do Silício • Impressão digital (Alexandre Matias): A física de ‘Angry Birds’ e o futuro do ensino nas escolas • Homem-objeto (Camilo Rocha): Carro ‘social’ é só promessa • No Arranque (Filipe Serrano): Pensar no celular em primeiro lugar já é uma regra para todos • Vida Digital: Amir Taaki, do BitCoin • Eleições 2012, mapas da Apple, Instagram x Twitter… •
• Reddit: Banal, caótico e influente • Território aberto a todos • Marco Civil emperrado • A rede em jogo • Impressão digital (Alexandre Matias): As três décadas dos emoticons mudaram nossa linguagem • Homem-objeto (Camilo Rocha): Desorientado • P2P (Tatiana de Mello Dias): Por que a internet se preocupa tanto com as decisões do MinC? • Motorola: Sem fila de espera • Vida digital: O jurídico do Twitter • Link @ App Date, iPhone 5, o universo HD, Google x China e “Gangnam Style” •
Na minha coluna da edição desta semana do Link, falei sobre os 30 anos do emoticon.
As três décadas dos emoticons mudaram nossa linguagem
Fazer a carinha dá a entonação do texto
Faltavam 16 minutos para o meio-dia no dia 19 de setembro de 1982 quando uma mensagem foi enviada aos assinantes de uma lista de discussão online da Universidade Carnegie Melon, nos Estados Unidos. No recado, o professor Scott Fahlman sugeria uma forma de evitar atritos entre os integrantes do fórum: “Proponho a seguinte sequência de caracteres para assinalar piadas : ) Leia-a de lado”. E assim o emoticon – um dos pilares da nossa comunicação online – foi inventado.
A hipérbole anterior é exagerada de propósito (é uma hipérbole, afinal). É para chamar atenção à importância deste tipo de comunicação escrita que há 30 anos começou a ser assimilada por nosso inconsciente – muito antes de existirem sites, blogs, programas de comunicação instantânea, mensagens de texto via celular ou perfis em redes sociais. Vistos de fora, os emoticons parecem meras notas de rodapé na história, mas os ícones feitos de sinais de pontuação presentes em qualquer teclado facilitaram muito a comunicação na internet, um ambiente que, apesar da ascensão do áudio e do vídeo, ainda é essencialmente escrito.
Claro que nem chefes de Estado, nem CEOs de empresas ou romancistas têm de usar carinhas sorridentes ou tristes feitas a partir de dois pontos e um dos parênteses. Emoticons facilitam a comunicação por escrito que, sem voz, fica desprovida de entonação, perdendo a sutileza da fala. Frases por escrito são lidas com a voz de seu autor, mas com a entonação que o leitor imaginar. Uma mesma frase pode ser entendida em tom de deboche ou respeito, de desculpas ou troça, de entusiasmo ou monotonia. Sem falar da ironia, que talvez seja a nuance que mais se perde no texto.
É quando entram os emoticons. Um sorrisinho no final da frase indica uma fala mais mansa e tranquila do interlocutor. A linguinha para fora – dois pontos com a letra “p” maiúscula – torna um pedido menos exigente ou enfatiza a infâmia de uma tentativa de humor.
Acontece que, à medida que a internet evoluiu, a interface gráfica também melhorou. E o principal salto veio no início dos anos 90, com a criação e subsequente popularização da World Wide Web. Antes, era possível usar apenas um tipo de fonte, de um só tamanho e em uma cor para escrever nos PCs. As modificações no formato de texto atingiram também os emoticons. Quando chegaram ao Japão, nos anos 90, passaram por uma modificação brutal até que surgiu outra categoria: os emojis.
Contração das palavras “e” (imagem) e “moji” (letra), o emoji não usa apenas elementos do teclado para ilustrar as frases, mas uma série de desenhos de 12 x 12 pixels – o tamanho médio de uma letra no computador. Emojis, portanto, são pequenas imagens feitas para entrar no meio da frase, que começaram como ilustrações dos primeiros emoticons (o sorriso virava uma carinha amarela; o sinal de menor e o número três viravam um coração vermelho). Logo surgiram também bichinhos, rostos fazendo mil tipos de caretas, frutas, corações, estrelas. Dependendo de quem escreve, a impressão é que se abriu uma agenda ou um estojo de uma menina de 12 anos. E não falo apenas de adolescentes. Tem muita gente grande que adora colar mil emojis numa troca de mensagens no MSN.
O próprio Fahlman, criador dos emoticons originais, não gosta deles. “Acho que são feios e acabam arruinando o desafio de criar uma forma educada para expressar sentimentos usando um cenário padrão”, disse em entrevista ao jornal inglês The Independent na semana passada. “Mas talvez isso seja só porque eu criei a outra forma.”
Talvez seja pura questão de gosto – ou de contexto. Mas o fato é que emoticons, emojis e o português quebrado e tribal das salas de bate-papo migraram para o Orkut e agora chegam ao Facebook. Eles já fazem parte de nossa comunicação por escrito, para aflição dos puristas do idioma. Não estão nos dicionários e nem tão cedo estarão – da mesma forma como o dicionário não registra onomatopeias. Mas entraram em nossa conversa e temos de nos habituar .
E na minha coluna desta edição do Link, falei sobre como a Apple de Tim Cook vai aos poucos perder o encanto e o aspecto visionário de seu fundador, morto no ano passado.
Sem Jobs, Apple volta a ser uma empresa como as outras
O ciclo iniciado em 2007 se fechou neste ano
Desde que se soube a gravidade da doença de Steve Jobs, uma espécie de maldição parecia pairar sobre a Apple. A empresa sempre foi associada ao seu fundador mais pop. Suas decisões como executivo – inusitadas, improváveis – eram coerentes com sua personalidade.
Áspero e simpático na mesma medida, sua personalidade se refletia na condução de uma empresa que, em dez anos, deixou de ser uma tradicional fábrica de computadores para reinventar os mercados de música, de telecomunicações e de entretenimento digital. A lógica fez que ela se tornasse a marca mais valiosa do planeta.
A maldição apontava dois caminhos. Na primeira hipótese, fatal. A empresa degringolaria administrativamente sem seu líder. Esta possibilidade perdeu força à medida que nos acostumamos a Tim Cook, apresentado em janeiro de 2011 – com Jobs ainda vivo – como o novo condutor da empresa. A transição ocorreu tão bem que a coroa definitiva de CEO depois da morte de Jobs não pesou na cabeça de Cook. Foi sob sua administração que a Apple atingiu seus maiores trunfos como empresa.
A outra possibilidade é o cenário atual: a empresa apenas cuidaria do que já havia sido criado para não correr riscos. Este ano assistimos à conclusão de um processo iniciado em 1999, quando Steve Jobs voltou à empresa que criou (e que o demitiu). Ele começou com a criação do iPod e a transformação do iTunes de programa de computador para loja online, no vácuo deixado pelos erros da indústria fonográfica.
Depois veio o iPhone, que sucateou celulares com botões, tornou plausível o termo smartphone e reinventou o conceito de software para celulares que resultou na criação da economia dos aplicativos. A penúltima peça foi o iPad, que não só abriu uma nova categoria de aparelhos como tornou a possível um mundo sem computadores tradicionais para milhões de pessoas.
O ano de 2012 viu surgir uma nova linha de laptops e a aposta em um sistema de armazenamento online (o iCloud), que torna a comunicação entre Macbooks, iPads e iPhones mais intuitiva. Aos poucos o ecossistema se fecha. O iPhone 5, que seria lançado no ano passado caso Jobs não tivesse morrido, finalmente saiu na semana passada. Todas estas novidades eram previsíveis.
Pior: o iPhone 5 talvez seja o produto da empresa que menos emocionou as pessoas. Todas as suas novidades já haviam sido antecipadas, quebrando um padrão de sigilo que não era apenas rigoroso nos tempos de Jobs – era parte do show. Todo novo anúncio é cercado de mistério. O da quarta-feira passada trazia o “5” no próprio convite.
Falta uma peça para fechar o ecossistema doméstico digital bolado por Steve Jobs. É a Apple TV. Hoje, o aparelho é um hub de mídia que distribui conteúdo, comprado via iTunes, para todos os aparelhos da casa. Mas Jobs queria que este aparelho fizesse com o televisor o mesmo que o iPhone fez com o celular – o reinventasse. Uma das novidades do último aparelho lançado quando Jobs ainda era vivo, o iPhone 4S, foi algo pensado para a Apple TV: a Siri. Para Jobs, o assistente pessoal que conversa com o usuário seria o fim do controle remoto.
Para a Apple, como empresa, tudo bem. As ações sobem, os produtos vendem, os clientes ficam satisfeitos. Mas e agora? iPad 4 e iPhone 6? Até quando?
Talvez a resposta venha já no próximo mês. Rumores indicam que a empresa lançará um novo iPad, menor, talvez chamado Mini. Uma invenção que era menosprezada pelo próprio Jobs – que, contudo, não chegou a ver o sucesso feito pelo Kindle Fire, o tablet da Amazon (talvez a principal concorrente da Apple, nos próximos anos). Mas ainda é um iPad, não é um aparelho inesperado.
O desafio proposto a Tim Cook é o desafio de qualquer empresa, seja uma startup ou multinacional: quando vale a pena correr riscos para tentar crescer ainda mais? Jobs se antecipava a essa hora e simplesmente se desafiava continuamente. Sem ele, a Apple caminha para ser apenas uma empresa como as outras. Forte e líder, mas passível de queda, caso alguém tenha uma nova ideia que ninguém ainda havia imaginado.
• iPhone 5: Uma pausa na revolução • Impressão digital (Alexandre Matias): Sem Jobs, volta a ser uma empresa como as outras • Homem-objeto (Camilo Rocha): Velozes e tediosos • Tecnologia da desinformação • No arranque (Filipe Serrano): Empresas brasileiras começam a se voltar para o exterior • Reino de engenheiros • O brasileiro que começou o Grooveshark •
• Em fase de migração • Escritório aberto • IFA 2012: Classificação livre •Homem-objeto (Camilo Rocha): Sucesso quase garantido • Impressão digital (Alexandre Matias): Como computadores, tempo e dinheiro moldam nosso futuro • Uma maratona para espalhar a cultura hacker • P2P (Tatiana de Mello Dias): Bibliotecas virtuais não podem ser passadas de pai para filho • A segunda geração de tablets da Amazon • Os piratas sempre vencem •
E na edição dessa segunda do Link, falei sobre o Cosmópolis, do Cronenberg (o anti-Drive ou o anti-Batman?), e sobre a nossa relação com a ficção científica e a sensação de futuro.
Como computadores, tempo e dinheiro moldam nosso futuro
Em ‘Cosmópolis’, Cronenberg analisa a não ficção científica
Há um tempo reparo em como a atual onipresença da tecnologia tende a datar os filmes muito rapidamente. Fã de ficção científica, acompanho de perto a produção cinematográfica do gênero. E o fato de usarmos, a cada ano, versões melhoradas dos comunicadores portáteis vislumbrados nos anos 60 me faz pensar que, cada vez mais, vivemos no século em que o futuro já começou.
Pode reparar: quase todos os filmes cujo futuro se passava no início do século 21 – ou ainda mais no futuro – não cogitaram a existência da internet. Ficam automaticamente obsoletos. O mesmo pode ser dito de filmes de cinco ou seis anos atrás em que os protagonistas sacavam celulares da Nokia cheios de botões – e não touchscreen.
Vivemos as novidades tecnológicas sem nem sequer perceber o quanto elas mudaram a nossa vida. Caso cogitássemos um 2012 como o nosso há dez, quinze anos, poderíamos ser tachados de otimistas demais (ou pessimistas, dependendo do ponto de vista) ou utópicos (ou distópicos). Carregamos computadores nos bolsos, que nos mantêm em contato com notícias do mundo todo e também com amigos e parentes. É possível descobrir como chegar em um lugar a que nunca fomos com alguns toques na tela. Recebemos indicações de promoções de passagens aéreas, filmes para serem vistos. Tiramos foto de tudo o tempo todo. Fazemos todo o tipo de compras sem sair de casa. Controlamos equipamentos com gestos e com a voz.
O presente é pura ficção científica. Ou melhor: uma não ficção científica.
É uma sensação muito próxima à de assistir a Cosmópolis, o novo filme do diretor canadense David Cronenberg, adaptado a partir do livro de mesmo nome, do norte-americano Don DeLillo. Cosmópolis, que estreou sexta-feira, acompanha um dia na vida do jovem bilionário Eric Michael Parker, dono de uma firma de investimento, que atravessa Nova York de limusine para cortar o cabelo no dia em que o presidente dos EUA visita a cidade e um protesto anarquista toma as ruas. É, portanto, a rotina de um magnata mimado e paranoico.
A bordo de sua limusine branca, Parker (interpretado incrivelmente bem por Robert Pattinson, o vampiro bunda-mole da série Crepúsculo) controla o mundo com a ponta dos dedos. Cercado de telas que lhe mostram dados de todo o planeta em tempo real, ele aciona executivos, compra e vende empresas, especula e encontra-se com médicos, conselheiros e funcionários como se o mágico de Oz fosse personagem de 1984, de George Orwell. Ele habita 2012, mas parece estar sempre no futuro.
“Adoro este carro”, diz sua chefe de teoria, Vija Kinski, num dos encontros. “O brilho das telas. O brilho do cibercapital. Tão radiante e sedutor”, suspira. “Você sabe como perco toda a vergonha na presença de qualquer coisa que seja uma ideia. A ideia é o tempo. Viver no futuro. Veja só esses números correndo. O dinheiro faz o tempo. Antigamente era o contrário. O tempo dos relógios acelerou a ascensão do capitalismo. As pessoas pararam de pensar na eternidade. Passaram a pensar em horas, horas mensuráveis, horas-homem, em usar a força de trabalho com mais eficiência.”
Ela segue teorizando: “O tempo agora faz parte dos ativos da empresa. Ele pertence ao sistema de mercado. O presente é mais difícil de encontrar. Ele está sendo eliminado do mundo para abrir lugar pro futuro dos mercados livres de qualquer controle e de imenso potencial de investimento. O futuro se torna insistente. É por isso que alguma coisa vai acontecer em breve, talvez hoje, para corrigir a aceleração do tempo. Trazer a natureza de volta ao normal”.
E conclui: “A potência do computador elimina a dúvida. Toda dúvida é decorrente de experiências passadas. Mas o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando”.
E assim, descrevendo a relação com computador, dinheiro e tempo, Cronenberg usa palavras de DeLillo para voltar à ficção científica, gênero que abandonou desde que fez eXistenZ (1999). E lembra, subliminarmente, a máxima do escritor William Gibson: “O futuro já chegou. Só não foi distribuído”.
• Além do game over • Vida digital: Phil Libin (Evernote) • Novo iPhone novo • Impressão digital (Alexandre Matias): A Gina Indelicada e os dilemas superficiais do novo século • Homem-Objeto (Camilo Rocha): Entrevista com Reed Hastings (Netflix) • No Arranque (Filipe Serrano): O efeito social ultrapassa os limites do Facebook • A garota que mudou a escola pelo Facebook, o MIT no Brasil, lei apressada para crimes digitais e Obama • 25 anos de Street Fighter •









