
A primeira edição da Galileu sob a minha direção chegou às bancas um pouco antes do natal e, além da matéria de capa, que é um dossiê sobre maconha, saúde e legislação (escrito por um dos editores da revista, Tarso Araújo, autor do livro Almanaque das Drogas), a edição ainda traz matérias sobre o cérebro e o sexto sentido, a relação entre exercício físico e inteligência, as vacinas do futuro, livros inspirados em músicas, a chegada dos e-books ao Brasil, métodos de concepção humana que dispensam o sexo, os principais destinos turísticos do mundo, a primavera árabe e a falta de sexo, escritórios que não parecem trabalho, games indie, o novo Tarantino, RPG e o Facebook, obesogênese, um bilhão de “Gangnam Style”, uma casa com 92 centímetros de largura, os inimigos da eficiência e a disparidade entre a sociedade digital e as instituições analógicas que a gerem. Compra que eu garanto, custa só dez pilas. A capa acima você pode curtir lá no Facebook e abaixo reproduzo a primeira Carta ao Leitor que assino na revista.

A vista do meu novo escritório: o heliporto, a ponte do Jaguaré e o Parque Villa Lobos, eis meu horizonte do desafio dos próximos anos
Não esperava pelo convite, mas quando veio, demorei para acreditar. Depois de quase seis anos editando o caderno de tecnologia e cultura digital do jornal O Estado de S. Paulo, o Link, começou a me bater uma certa inquietação. Nunca havia passado tanto tempo num mesmo emprego e temia me entediar com um dos meus assuntos favoritos, que é o universo digital. Mas quando me convidaram para ser o novo diretor de redação da GALILEU, essas preocupações sumiram. Afinal, tomar conta de uma grife cuja bandeira é a expansão do conhecimento, ao mesmo tempo que me permitia continuar olhando para as novidades eletrônicas, ampliaria ainda mais a minha área de atuação.
Aceito o convite, veio o fim do ano e um curto período de readaptação. Saí da marginal Tietê para a marginal Pinheiros, da Ponte do Limão para a Ponte do Jaguaré, de um caderno semanal em um jornal para uma revista mensal. Mas mais do que me adaptar a prazos e lugares, tinha que entender melhor a publicação e, principalmente, as pessoas que a fazem.
Aí entra a segunda parte do desafio, que, felizmente, foi bem mais fácil do que imaginava. A GALILEU é uma das melhores revistas do Brasil, seja em profundidade de conteúdo, amplitude de abordagens e concepção visual. E ela é assim por ser fruto de uma equipe curiosa e atenta, ávida por novidades e disposta a dissecar assuntos que não são tão fáceis de entender, como ficam parecendo depois que chegam às páginas da revista.
Como é o caso do tema desta primeira capa de 2013. Não é a velha pauta que pergunta se maconha faz mal — disso já sabemos. Maconha volta à capa da revista pois dois estados norte-americanos e o Uruguai resolveram legalizar todas as etapas relacionadas à cadeia de produção da droga, do plantio ao comércio, numa tentativa de enfraquecer o narcotráfico e, consequentemente, o crime organizado. O autor da matéria, o editor Tarso Araujo, aos poucos se firma como uma autoridade no assunto — é dele, por exemplo, a autoria do livro Almanaque das Drogas, lançado no ano passado. Aprofundar-se num tema que deve ecoar muito no ano que começa não foi propriamente uma dificuldade para o jornalista. As outras matérias da edição também seguiram esse tom e, durante 2013, vamos conhecer melhor os talentos desta equipe.
Termino minha primeira carta agradecendo à minha chefe direta, Paula Perim, por me servir como bússola na editora, e ao meu copiloto na revista, Tiago Mali, pelas boas-vindas na última carta ao leitor de 2012 e por me ajudar a entender a lógica por trás da GALILEU. 2013 promete!
Vamos lá!
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Entrei no Estadão no mesmo ano em que saí da Trama. O Trama Universitário, projeto da gravadora em que eu trabalhava, encerrou suas atividades em fevereiro de 2007 e dois meses depois o Guilherme Werneck me chamava para ocupar sua vaga como editor-assistente do Link Estadão, o caderno de cultura digital criado três anos antes por Ricardo Anderaos, que substituiu o antigo caderno de Informática do jornal. Entrei no Link quando ele ainda era um caderno de avaliação de produtos, numa época em que o Orkut era soberano, quando a economia dos aplicativos ainda engatinhava, no mesmo ano em que Steve Jobs lançou o iPhone. Dois anos depois, eu me tornaria o editor do caderno, quando comecei a finalmente, botar as mangas de fora e mostrar como poderia ser um caderno de tecnologia e cultura digital na segunda década do século 21. Junto ao novo cargo veio a coluna Impressão Digital, que começou aos domingos no Caderno 2 e que continuou mesmo após a minha saída do Link, em outubro. Destes cinco anos no Limão, não custa lembrar a satisfação que foi trabalhar num dos principais veículos do jornalismo brasileiro (o mesmo que publicou Os Sertões, que brigou contra a censura na ditadura militar e que declara o voto no dia da eleição – e que também foi o mesmo lugar em que publiquei meu primeiro frila pago, quando Syd Barrett completou 50 anos, em 1996), cujo clima de tranquilidade e franqueza sempre dominou seus corredores (a não ser em períodos tensos específicos, como Copa do Mundo, eleições e passaralhos). Mas a principal recordação destes cinco anos trabalhando ao lado da Marginal Tietê é, sem dúvida, o monte de amigos que fiz naquela redação, seja entre meus amigos e colegas do Link (todos vocês, vocês sabem quem vocês são – não preciso citá-los mais uma vez), até a vizinhança com as turmas do Divirta-se, do Paladar, dos tradutores, da arte, do portal, do pessoal do dia e de todos que conheci nestes anos todos. Lembranças que também se perdem entre as múltiplas referências internas, como os almoços no Puras, as idas à rádio, as noites que terminavam com Seu Matos, os gritos de “Thunder!” do Santana (que confundia o meu HAL 9000 de descanso de tela com o olho de Thundera), as travessuras do Thiagueira, as idas ao Brooklyn ou ao Central Park para fumar um cigarro, as risadas com a Denise. 2012 viu o fim deste ciclo, que foi bem importante para o jornalismo de tecnologia no Brasil (veja o que aconteceu com a Info Exame e o Folha Informática depois de 2009) e para mim, que consegui atingir um novo parâmetro em minha carreira profissional – e juntar tantos amigos nesta jornada. Foi incrível, valeu!

Minha coluna no Link de segunda-feira foi sobre novos hábitos digitais e um pouco de tolerância no ano que vem.

Uma sugestão de resolução de ano novo que vale para todos
Convivemos com velhos e novos hábitos
Fim de ano é sempre a mesma coisa: além das compras e viagens, as pessoas aproveitam para fazer aquela reflexão. Esse momento, na maioria das vezes, se traduz em listas: melhores do ano, resoluções, presentes, convidados, metas.
O site Gawker fez uma dessas, mas, em vez de pensar no melhor do ano, listou o pior. Entre os itens, modinhas hipster (calças skinny, bigodes irônicos), acessórios engraçadinhos (calçados com dedos) e itens do universo do Link, como perfis no Twitter criados para parodiar personalidades, fotos de comida no Instagram e fones de 300 dólares.
Queria aproveitar a deixa para falar de hábitos digitais e, em vez de apenas apontar o que não deveríamos fazer, refletir sobre nossa ética, etiqueta e educação em relação ao novo século digital.
Costumamos rir de nossos pais quando narramos suas desventuras pela internet. A mãe que manda lembranças com palavras meigas no meio de uma discussão acalorada no Facebook. O pai que forwardeia todo e-mail sobre um novo golpe. Ela entope o MSN de emoticons, coleciona power points e tagueia você em fotos da sua adolescência que você não queria que tivessem sido registradas. Ele compartilha listas de piadas d’antanho, descobriu ontem o Battle at Kruger (o clássico vídeo em que um rebanho de búfalos defende um bezerro na savana africana) e manda e-mails desmentindo lendas urbanas. Os dois ainda usam o Internet Explorer, riem “kkkkkk” e perguntam como faz para fazer a carinha sorridente no Facebook.
Rimos com uma camada falsa de superioridade, só porque nos acostumamos com a rede antes de nossos pais. Mas nós também nos comportamos mal online. São gestos que parecem triviais, mas que demonstram tanta falta de familiaridade com a internet quanto nossos pais.
Vivemos uma transição, o que faz muitos se sentirem melhores apenas por usarem os meios digitais há mais tempo. O comentário “old” (velho, em inglês) – dito mesmo em discussões em português quando alguém linka algo achando que é o primeiro a trazer aquela informação – serve como diagnóstico deste momento. A cultura de internet ainda é cíclica – se você se sente decano por ter usado internet nos tempos de conexão discada, saiba que milhões de novos usuários vão conectar-se pela primeira vez usando celulares. E vão descobrir o prazer de mandar vídeos para amigos, quebrar a cabeça até entender o humor nonsense da rede e divertir-se com gifs animados. Eles, como nossos pais, escrevem com o Caps Lock ligado sem saber que isso é como gritar. Colocam imagens na assinatura do e-mail, cumprimentam celebridades no Twitter como se elas fossem responder, acreditam em sites de notícias falsas.
A primeira reação de quem já habita a internet é tratar os novatos com repúdio, ironia ou pena. E, ao fazer isso, estamos sendo tão sem noção quanto os que acabaram de entrar.
Vai chegar o momento em que não vamos mais conseguir nos desconectar. Nossos celulares-computadores estão online o tempo todo. Em questão de anos estaremos organicamente conectados – não custa lembrar que o projeto original do Google Glasses não era um óculos, mas uma lente de contato.
Gosto de comparar o mundo online e offline com a terra e a água, e estamos vivendo aquele momento em que deixamos de ser animais terrestres para nos tornarmos anfíbios. Para quem já sabe respirar dentro da água da internet, qualquer tentativa atrapalhada de nadar parece ridícula. Calma. Houve um dia que não soubemos nadar.
Por isso, listo apenas um item que devemos abandonar em 2013. A impaciência. Em vez de rir, ensine. Em vez zangar-se, mostre. Uma das grandes vantagens da internet é sua natureza colaborativa, que pode nos fazer sair dessa era de individualismo bizarro para voltar a conviver uns com os outros.
Isso também vale para o mundo offline. Mas se começarmos a pensar nisso com a internet como cenário, torna-se mais fácil chegar ao próximo estágio.
Minha coluna na edição de segunda do Link foi sobre a contribuição de Oscar Niemeyer para nossa concepção de futuro.

A contribuição de Oscar Niemeyer para o futuro
Amplitude: Prédios parecem suspensos pelos pilares
No início do documentário belga Oscar Niemeyer – Un Architecte Engagé Dans Le Siècle (Um Arquiteto Engajado no Século, 2001), de Marc-Henri Wajnberg, um disco voador sobrevoa o Rio de Janeiro. A espaçonave circular é branca e de concreto e paira tranquilamente sobre a antiga capital brasileira, passando pelo Cristo Redentor, o Maracanã, as praias, o Pão de Açúcar até entrar na Baía de Guanabara e pousar em Niterói.
Uma rápida cena mostra o então quase centenário arquiteto contemplando a cidade por uma janela, como se estivesse pilotando o tal disco – que, na verdade, é o Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Não foi a primeira nem a última vez que os traços do arquiteto foram associados a um futurismo muito próximo da ficção científica do meio do século 20, período em que Niemeyer começou a despontar no mundo como um prodígio do modernismo brasileiro.
Nasci na cidade que foi imaginada por este que é um dos grandes brasileiros do século passado. A ideia de Brasília não é de Niemeyer. Suas origens remontam à visão de um santo italiano, São João Bosco, que em agosto de 1883 sonhou que havia visitado a América do Sul (onde nunca havia estado) e, depois de visitar vários pontos do continente, viu uma cidade no meio do planalto central, entre os paralelos 15o e 20o, que, segundo um anjo que lhe servia de guia, seria a “terra prometida”.
A profecia ajudou o presidente Juscelino Kubitschek a cumprir sua promessa de tirar a capital brasileira do Rio de Janeiro. Mas a ideia de criar uma cidade do nada não partiu apenas de sua imaginação. JK teria se inspirado no faraó egípcio Akhenaton que, no século 14 antes de Cristo, mudou a capital de seu governo para uma cidade criada artificialmente, Akhetaton, a Cidade do Sol.
Duas visões do passado, dois artistas do futuro: o urbanista Lucio Costa foi escolhido para colocar o plano da cidade no papel (com o formato de um avião) e Oscar Niemeyer, o nome eleito para populá-la. E em vez de replicar outras cidades, o arquiteto resolveu imaginar como seria uma metrópole do século seguinte. Do milênio seguinte.
E assim ergueu palácios com colunas que pareciam suspendê-los no ar. E o amplo horizonte da nova capital passava a acolher uma catedral ecumênica, sem torres, aberta para a luz. Todos os ministérios reunidos como pilares monumentais em uma ampla esplanada. Uma praça que reúne as sedes dos três poderes numa mesma perspectiva horizontal. Construções austeras e pesadas eram reimaginadas por completo. Assim, prédios arredondados que se misturavam a ângulos retos e edifícios de concreto pesado ganhavam leveza graças às suas curvas. Somados às avenidas sem sinais de trânsito, às ruas sem esquina e às superquadras imaginadas por Lucio Costa, eles criaram uma cidade literalmente imaginada.
Muitos autores descreveram cidades imaginárias em livros, filmes, quadrinhos, animações. Poucos conseguiram tirá-las da imaginação. Niemeyer pertence à seleta categoria dos que executaram a cidade que pensaram. E talvez esteja dentro de um nicho ainda menor: os que imaginaram cidades do futuro.
Pois a capital de nosso país é uma cidade do futuro. E Oscar Niemeyer, eterno nesta Brasília, talvez seja, além de todos os epítetos e hipérboles que já carrega, nosso maior artista de ficção científica.
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Torno públicos os parabéns que dei ao Filipe Serrano e à Tatiana de Mello Dias, os novos editor e editora-assistente da melhor publicação de tecnologia e cultura digital do Brasil. Conheci ambos no início de suas carreiras – Filipe era estagiário no Link quando entrei, em 2007, e depois virou repórter, editor-assistente e agora chega ao comando do caderno. Tati foi minha estagiária na Trama e foi a primeira repórter que contratei quando virei editor, em 2009. É uma felicidade vê-los chegar a tais posições e um alívio saber que o caderno que acalentei por tantos anos está nas melhores mãos possíveis. Boa sorte aos dois!
Minha coluna no Link de segunda-feira foi sobre uma prática cada vez mais comum – a de filmar shows.

A geração que filma os shows não está perdida
Não foi reclamando que o homem evoluiu
Sou desses que filmam show. Vou a shows com bastante frequência e gosto de guardar o registro de quando vi alguns de meus artistas favoritos. Comecei há quatro anos, quase de brincadeira, mais para testar uma câmera digital. Gostei do resultado, o som ficou bom e como gosto de assistir a vídeos de shows (mesmo amadores), entrei para este time.
Antes que arremessem latinhas em mim, lembro que tomo algum cuidado. Sou alto, portanto não preciso erguer o braço, e posiciono a câmera em frente à minha cabeça. Se alguém atrás de mim não consegue ver o show, é mais pela minha altura do que pela câmera. E filmo sem olhar o tempo todo para a câmera, assim vejo o show de fato sem me preocupar com o que é gravado.
Não sou o único, como podemos ver em qualquer show. Basta que as luzes da plateia sejam desligadas ao mesmo tempo em que as do palco são acesas para que, aos poucos, comecem a aparecer pequenos retângulos luminosos. É o público erguendo câmeras e celulares para fazer vídeos e fotos, para serem compartilhados em suas redes sociais favoritas.
É inevitável a reclamação reacionária. “No meu tempo as pessoas assistiam ao show”, “no meu tempo as pessoas queriam ver o artista e não ficar mostrando que estavam no show”, “no meu tempo a experiência era mais importante que o registro”. Não duvido. Mas os tempos mudaram. As pessoas não usam mais terno e gravata para viajar de avião e podem comer no cinema.
Há um desenho que circula há um tempo na internet que compara a evolução do público em shows a partir de mãos erguidas. Nos anos 60, os hippies levantavam as mãos com os dedos em “V”, celebrando a paz e o amor. Nos anos 80, fãs de heavy metal erguiam a tal “mão de chifres” típica do gênero. Nos anos 90, punhos fechados para fãs de rock alternativo. E, para os anos 2010, mãos levantando celulares e câmeras.
O cartum, que desconheço o autor, não chega a reclamar – é mais uma constatação –, mas muitos o divulgam como sinal de que “esta geração está perdida”, como gostam de resmungar. Mas se invertemos a lógica, quem reclama das câmeras e celulares erguidos de hoje, também reclamaria das mãos e gestos do passado. Talvez preferisse aquele tempo em que apresentações ao vivo eram chamadas de concertos, quando não havia barulho, não era possível beber nem cantar junto com o artista do palco.
Há exageros – e talvez o pior exemplo seja o das pessoas que filmam com um tablet. Quando você menos espera, alguém levanta algo e por um segundo você acha que estão mostrando um cartaz para o artista – mas é um iPad!
Há outras gafes menores, como aquele grupo que tira fotos com o show como cenário ou aquele cara que tira mil fotos e filma um monte de trechos da apresentação para nunca mais revê-los.
Mas celulares e câmeras para o alto são apenas uma fase – como os gestos do desenho. Já já vão aparecer câmeras menores e formas de registrar eventos mais discretas. Quem sabe até mesmo o formato show mude completamente – ou que apareçam eventos em que o registro seja mais proibitivo do que fumar em ambiente fechado. Mas, por enquanto, câmeras e celulares vão seguir como pontos luminosos durante os shows.
O que muitos esquecem é que a mesma situação que permite filmar e compartilhar shows ou qualquer outra situação) também possibilita que você possa tirar fotos do seu filho no momento exato em que ele começa a andar. Você não precisa mais sair correndo atrás da câmera – ela está no seu bolso, pois é o seu celular. Você não precisa nem revelar a foto e nem conectar o cabo ao computador para enviar o arquivo por e-mail. Basta tirar a foto e apertar o botão para que ela vá para quem você quiser.
Perceber as vantagens da nossa era digital é muito fácil, mas as pessoas preferem algo que, para elas, parece mais fácil ainda: reclamar. Não foi reclamando que o homem evoluiu – e sim pensando como a vida poderia melhorar. Menos reação, mais otimismo.
Na minha coluna do Link desta segunda-feira, falei sobre a rusga entre Latino e Maurício Cid, o capitão do Não Salvo.

O embate entre Latino e o blog Não Salvo: choque de realidades
Canal de Latino foi retirado do YouTube
Você conhece o Latino. Ele é um dos principais nomes da cena pop pós-funk do Rio e um de seus talentos é saber aparecer. Se isso, para a maioria das subcelebridades, é uma qualidade vazia, para ele – cujo outro dom é a capacidade de fazer músicas grudentas – é ouro.
Não à toa emplacou os hits “Baba Baby”, “Tô Nem Aí” e “Festa no Apê” – o último, uma infame versão da música “Dragostea Din Tei”, da boy band O-Zone, da Moldávia. Mas não é que Latino tenha faro para descobrir hits no leste europeu. A música estourou online a partir da coreografia irônica que um gordinho fez em sua webcam. “Dragostea” virou o webhit “Numa Numa” – e Latino achou mais uma mina de ouro. Em 2012, ele emplacou o reggaeton “Danza Kuduro”, que deu o refrão “oi oi oi” para a novela Avenida Brasil.
De olho no próximo sucesso, ele esbarrou com o hit avassalador do coreano Psy, “Gangnam Style”. Latino resolveu fazer sua versão e anunciou a adaptação no Twitter. A música, uma sátira ao estilo de vida de um bairro de novos ricos em Seul, virou a tosca “Despedida de Solteiro”. A decepção foi geral.
Eis que entra o segundo personagem desta coluna, o santista Maurício Cid, de 26 anos, que desde 2008 faz o blog de humor Não Salvo. Entre os vários exemplos de humor na internet brasileira, o herege Não Salvo (que usa Jesus como mascote) é um dos meus favoritos.
A principal qualidade do humor de Maurício é que ele não é produzido apenas por ele. E, no entanto, ele não se encaixa na extensa categoria de blogs que apenas cozinham conteúdo alheio (a escola Kibe Loco de produção). O método de produção de Maurício é típico da internet. Em vez de criar, ele prefere gerir a criação coletiva de seu público. E os 630 mil likes só no Facebook já dão uma amostra de sua enorme audiência. Ele joga uma ideia para seu público, que o alimenta diariamente com piadas infames, vídeos bizarros, sugestões improváveis e grosserias de todo o nível. Todos sentem-se parte de uma gigantesca comunidade que só quer saber de rir.
Assim, é comum que Cid lance alguns desafios. Depois de trocar farpas com Latino no Twitter sobre a adaptação de “Gangnam Style”, ele resolveu mostrar sua força coletiva. Descobriu qual era o vídeo brasileiro que mais tinha dislikes no YouTube (“Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló, com 73 mil reprovações) e convocou seus pares para pegar no pé do clipe de “Despedida de Solteiro”. Em 18 de setembro, lançou o desafio. Algumas tantas horas depois, o clipe já tinha mais “joinhas invertidos” (como Cid se refere ao dislike) que o de Teló. Mas não parou por aí. O número ultrapassou os 100 mil e, em 20 de setembro, o site da emissora CNN trazia uma matéria sobre um certo “Brazilian protest”.
Corta para a madrugada da sexta-feira passada, e não apenas o clipe, como todo o canal de Latino no YouTube, foi tirado do ar. A justificativa do YouTube foi que o canal teria infringido direitos autorais. Será que ele não pagou direitos autorais ao autor original da canção? Até o fechamento da edição, nem a produção de Latino (que disse ter entrado em contato com o site para exigir explicações) nem o Google tinham esclarecido a situação.
Não acho que haja motivo para comemorar a queda do canal de Latino, pois tais restrições vão de encontro à legislação que tramita no Congresso brasileiro para regularizar a forma como a internet é tratada pela Justiça do País – o sempre adiado Marco Civil.
Latino poderia ser notificado da infração para que, ele mesmo, retirasse o conteúdo – sem prejudicar seu canal. Isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa – e há uma área cinzenta em relação à responsabilidade do conteúdo online.
É bem provável que o canal tenha chamado atenção do Google devido ao protesto de dislikes. E mais uma vez temos um exemplo do embate entre as realidades online e offline, protagonizada por dois de seus principais representantes no Brasil. Não vai ser a última vez que veremos choques deste tipo.

Minha coluna desta edição de segunda-feira do Link (a primeira em que deixo o cargo de editor para assinar apenas como colunista) pega o gancho do título do seriado de Charlie Brooker para comentar nossa relação com as telas que nos cercam…

Como desligar o espelho preto que carregamos no bolso
Fixados à tela, fingimos que nada mais importa
O jornalista, diretor e comentarista inglês Charlie Brooker é uma das melhores cabeças do Reino Unido no século 21. Conhecido por seus comentários ácidos sobre mídia, ele ataca principalmente a televisão em séries produzidas pelos diferentes braços da emissora estatal BBC. No fim da década passada, os episódios de Newswipe, Screenswipe e Gameswipe (sobre, respectivamente, notícias, cinema e videogame) culminaram na série How TV Ruined Your Life (Como a TV Arruinou a Sua Vida, com episódios sobre medo, amor, conhecimento, progresso, aspirações e o ciclo da vida), de 2010. Em 2008, ironizou os reality shows e a mania de zumbis com Dead Set e no fim do ano passado dedicou-se à ridicularizar nossa obsessão pela tecnologia em Black Mirror.
São três histórias independentes que abordam os efeitos que a tecnologia causa ao comportamento humano se a compararmos com uma droga. “Black mirror” é o espelho preto que nos observa e observamos toda vez que uma tela é desligada. Desligamos a TV, o celular, o computador e vemos o nosso próprio rosto em diferentes dimensões, em molduras escurecidas que parecem espelhos em negativo do eu de cada um, como uma espécie de retrato de Dorian Gray de nossos sentimentos.
Desligamos aparelhos e nos vemos mirando para um vazio emocional que parece um abismo, anseios e esperanças refletidos do avesso, mas, ao contrário não é o monstro nietzscheano nos olhando de volta, o desconhecido consciente. É apenas um vazio, como se estivéssemos nos tornando robôs, fazendo o caminho inverso de Roy Batty em Blade Runner.
Não culpe o digital: a tela preta já nos hipnotizava desde os primórdios do cinema e passou a nos refletir a partir da televisão. O computador funcionou como um grilhão da mesa de escritório, uma prisão em forma de horas de trabalho, cuja ilusão de liberdade veio com a chegada dos smartphones.
E chegamos à segunda década do século sem nem sequer olharmos na cara um do outro. Se antes do smartphone uma mesa de bar já poderia criar círculos paralelos de conversa graças à telefonia móvel, com a internet à mão reuniões, encontros e refeições são celebrações de um individualismo autista, em que os presentes fingem presença mas fogem momentaneamente para a porta de entrada de seu umbigo, na palma de sua mão. Fingimos checar as horas e responder um SMS quando, na verdade, estamos vendo reações ao que fizemos nas redes sociais. O espelho negro só reflete aquilo que consideramos “vida” – todo o resto fingimos que não importa não existe, não está lá.
Por isso sonho com um restaurante cujo luxo é não ser interferido por ninguém mexendo no celular. Da mesma forma como deixamos o carro no manobrista ou os sapatos na porta de entrada, poderíamos ter a opção – mesmo que na marra – de deixarmos nossos celulares antes de comer. O restaurante me parece a opção mais viável, mas poderia ser uma academia de ginástica ou uma casa de shows. Nada de fotos, SMS, ligações, redes sociais, notícias, vídeos ou jogos – ficaríamos à disposição daquilo que é nos oferecido. Que, por isso, receberia maior cuidado e atenção.
Acho que isso é uma utopia possível, mas não vejo como regra. Da mesma forma que há restaurantes que não contam com TVs em suas paredes (ainda bem!), cogito a possibilidade de que haja outros que nos despluguem da matrix, mesmo que por algumas horas, para nos conectarmos à vida de fato.
***
Esta é a primeira coluna que assino depois de deixar o Link – a partir de hoje, começo uma nova jornada, no comando da redação da revista Galileu, da editora Globo. Troco de pontes (do Limão para o Jaguaré), de marginais (do Tietê para o Pinheiros) e de foco (de tecnologia para ciência), por isso deixo a análise das notícias em segundo plano e passo a dar ênfase à forma como a tecnologia mexe em nossa cultura.

• Sem querer • Meme acidental • Homem-Objeto (Camilo Rocha): Maior, mais leve e quase igual • Entre boatos e a verdade • E o vencedor das eleições nos EUA foi o Twitter • Impressão Digital (Alexandre Matias): Jornalismo, tecnologia, web e o que eu tenho a ver com isso • Marco Civil: Em busca de consenso • No Arranque (Filipe Serrano): Os novos programas de escritório na era da mobilidade • O fim do Messenger e o início do Instagram na web •

A última encarnação do Link que comandei (em sentido horário a partir da esquerda): eu, Camilo, Thiago, Murilo, Vinícius, Carol, Filipe e Tati. sdds glr :~
Minha coluna de despedida da edição do Link. A coluna segue no caderno, toda segunda, mas desde a sexta-feira passada eu não frequento mais os corredores do sexto andar do prédio ocre perto da ponte do Limão na Marginal Tietê. Foi foda – saio com dorzinha no peito por perder determinadas convivências diárias, mas com a sensação de dever cumprido. Depois eu escrevo mais sobre isso…

Jornalismo, tecnologia, web e o que eu tenho a ver com isso
Sou feliz de trabalhar com quem trabalhei
Foi num jornal diário que comecei minha carreira e tomei gosto pelo jornalismo. A redação em que diferentes egos e perspectivas conversam e se chocam é um ambiente fantástico, circo-hospício seríssimo. Os assuntos mais pedestres trombam com as Grandes Questões da Humanidade, tudo correndo contra o relógio do fechamento, segundos contados para terminar o texto, chegar a foto, tratar a imagem, exportar a arte, pensar na página.
A primeira redação em que trabalhei tinha acabado de aposentar as máquinas de escrever e as trocado por PCs, mas não havia e-mail nem internet. Filmes eram revelados. Fumava-se na redação. Parece Mad Men, mas era 1994.
Lembro do primeiro PC com acesso à internet na redação, abandonado na sala de produção, ao lado dos computadores com matérias das agências de notícias, faxes e até uma máquina de telex. Eu era o único jornalista que me dedicava mais do que meia hora online, fuçando sites, listas de discussão e e-zines, antes de ter acesso à web em casa. Não à toa instiguei o próprio jornal a ter sua própria página na rede, ainda em 1996.
Mudei para a redação do jornal concorrente e tornei-me editor do caderno de cultura no mesmo ano em que o Napster popularizou o MP3. Foi quando percebi que internet não era só tecnologia – era cultura. Que baixar MP3 era o primeiro indício da transformação que o meio digital trazia. Não era só uma forma nova de “consumir cultura”, mas uma nova camada de experiência que atravessaria nosso cotidiano em breve.
E aconteceu: vieram os blogs, o Google cresceu, depois o YouTube, as redes sociais e o celular passou a acessar a internet. Passei por outras redações e cheguei a esta do Estadão no mesmo ano em que Steve Jobs mostrou seu iPhone. Novamente num jornal diário, mas o digital se impunha: fatos podiam ser checados online, fontes e personagens podiam ser descobertos em redes sociais, repórteres mandavam informações por celulares, todo mundo tinha e-mail, uma parte (pequena) da redação tinha blog. Ainda havia a máquina de fax e não era possível fumar no computador, mas ainda havia o fumódromo.
Quando comecei no Link, ainda editor-assistente, era relativamente fácil separar quem cobria que área no caderno. Mas os assuntos se misturaram e, ao ser promovido a editor em 2009, implodimos essas barreiras. Como passamos a escrever tanto para um caderno semanal quanto para um site diário – em vez de separar quem é do impresso com quem é do online. A mesma equipe também assumia o caderno em outras plataformas, que experimentou com as redes sociais antes do próprio jornal ter suas contas. Falamos do Twitter, do Marco Civil, do Facebook, da pirataria política e de impressão 3D antes de esses assuntos entrarem na pauta brasileira.
Mas a melhor coisa nestes cinco anos e meio de Link, que terminam nesta edição (estou deixando o Estadão esta semana) foi estar junto a pessoas ótimas, amigos dispostos a encarar desafios e a aprender, sempre de bom humor. Pessoalmente é a principal dívida que tenho com o jornal: ter trabalhado com pessoas tão fodas que vocês conhecem pelo nome e sobrenome, mas que me refiro como amigos – Filipe, Tati, Camilo, Murilo, Carol, Vinícius, Thiago, Helô, Carla, Rafa, Fernando, Ana, Fred, Rodrigo, Bruno, Ju, Lucas, Gustavo, Marcus. Juntos, transformamos não apenas o suplemento de tecnologia em um caderno central para o jornal como aceleramos a mudança na cobertura de tecnologia no Brasil. Além de termos aprendido e nos divertido muito, neste processo.
Quis o destino que meu último Link viesse na mesma semana em que o primeiro jornal que trabalhei acabou; o Diário do Povo, de Campinas, parou de circular no primeiro domingo deste mês. Mas isso não significa que o impresso irá acabar – estamos começando a ver uma transformação bem interessante no que diz respeito ao jornalismo, à tecnologia e, claro, à cultura humana. Vamos ver o que virá.
Saio da redação, mas sigo nestas páginas. A Impressão Digital segue aqui, toda segunda. Foi muito bom, aprendi muito. E não se esqueçam: só melhora.

E na minha coluna dessa edição do Link, peguei o gancho da idade do XXYYXX pra comentar, na transversal, um assunto que o Bruno havia falado na coluna dele no Globo.

A geração pós-digital quer apenas fazer – e está fazendo
Nada está pronto; tudo está sendo feito
Marcel Everett completou 17 anos no mês passado. Morador da cidade de Orlando, na Flórida, ele produz música desde 2010, mas ainda em seu quarto. Influenciado por rappers como Ja Rule e R. Kelly, ele aos poucos foi lapidando bases e beats, desacelerando as batidas por minuto, trabalhando texturas e ambiências. No fim do ano passado assumiu um pseudônimo cifrado – XXYYXX – e uma imagem para representá-lo (o olho na pirâmide tão conhecido dos teóricos da conspiração).
Suas músicas logo começaram a correr a internet, principalmente via YouTube, até que em abril deste ano o diretor Jeff Vash, de 22 anos, do Texas, resolveu fazer um vídeo para ilustrar o clima etéreo e sem gravidade das camadas sonoras produzidas por XXYYXX. O vídeo mostra belas mulheres soltando fumaça em câmera lenta após tragar cigarros, primeiro de rosto descoberto, depois usando máscaras de bicho e aos poucos ajudou a disseminar online a música do adolescente, até que, desde o início do semestre, sua popularidade começou a crescer mais rápido do que o normal. Logo estava sendo convidado para fazer apresentações ao vivo, discotecar, dar entrevistas, muitas vezes confundindo o entrevistador. Numa delas, à revista norte-americana Vice, disse ser o cabeça da sociedade secreta Illuminati.
Uma brincadeira. Afinal, Everett tem só 17 anos e, se não fosse a internet, talvez ainda estivesse no seu quarto destrinchando camadas de som, picotando trechos de músicas alheias, acelerando vocais e desacelerando batidas. Em pouco tempo, deixaria a brincadeira de lado ou a tornaria apenas um hobby, para logo pensar em um trabalho “de verdade”, como um de seus pais deve dizer.
Já vimos esse filme durante toda a década passada. Adolescentes que, se não fosse a web, ficariam trancados no quarto, fazendo música, escrevendo, editando vídeos, tirando fotos. Alguns deles hoje têm mais de 20 anos e transformaram seu hobby em sustento. Mais do que isso: estão vivendo plenamente de suas criações, uma situação que causa inveja a muitos de gerações anteriores.
Afinal, quantos hobbys deixaram de virar carreira pois era hora de entrar em uma universidade? Quantos sonhos não foram deixados para trás pois era preciso ter uma profissão? Quantas invenções não foram abandonadas depois que muitos adultos disseram que isso era perda de tempo?
Quem tem o referencial analógico entra em parafuso ao colidir com essa geração, criando “crises” que só fazem sentido para quem viveu no século passado. Perguntam-se sobre o fim do popstar, preocupam-se em relação à falência da indústria, lamentam o fim de profissões com séculos de existência.
Mas para quem nasceu na última década do século passado estes questionamentos são secundários. Esse problema é geracional e já passamos por situações parecidas antes disso. A geração dos meus pais, por exemplo, nascida após a Segunda Guerra Mundial não consegue enxergar uma pessoa que muda de emprego várias vezes como bem sucedida. Para eles, o sucesso profissional estava associado à entrega pessoal e devotada à uma única empresa. Hoje, pode perguntar para qualquer profissional da área de Recursos Humanos, uma pessoa que passa mais de uma década num mesmo emprego é alguém sem iniciativa, passivo, estagnado.
O mesmo acontece em relação à geração pós-digital. Eles não estão preocupados com o futuro próximo porque sabem que ele está constantemente em movimento. Apegar-se a uma única profissão ou habilidade pode ser aprisionador – ou, pior, determinar a própria obsolescência. Estes novos adolescentes querem simplesmente fazer. Não querem esperar que alguém diga o que eles devem fazer. E as ferramentas digitais lhes dão liberdade plena para isso.
Se o XXYYXX vai ser um popstar ou sumir em pastas de MP3 pelo mundo, não importa. O que importa é que ele está fazendo o que quer hoje. E, continuando assim, fará o que quiser pelo resto da vida. A realidade pós-digital nos lembra que a vida é um eterno aprendizado. Nada está pronto. Tudo está sendo feito.