Na minha coluna desta semana no site da Galileu, explico como a web – cujo primeiro site foi publicado há vinte anos – conseguiu popularizar a internet.

Vinte anos de uma lógica aberta
O primeiro site da web e o porquê da internet ter levado décadas para se popularizar
Sabemos que a internet foi criada há quase meio século, mas, ao mesmo tempo, nosso passado recente nos lembra que nosso uso da rede começou a acontecer há bem menos tempo que isso. Afinal, até quem foi criança nos anos 90 lembra-se de quando usou a rede pela primeira vez. Aqueles que nasceram de 1995 pra cá – e têm hoje, em 2013, menos de 18 anos de idade – podem ter crescido em ambientes que já dispunham de acesso à internet. Mas se você é maior de idade é bem provável que você lembre do primeiro contato que teve com hábitos que hoje fazem parte de nossa rotina.
Depois de ligar o computador – que, naquele tempo, ainda trazia a ancestral versão 3.1 do Windows, que exibia as tais “janelas” que batizavam o sistema operacional em sua área de trabalho -, era preciso conectar-se à internet através de um modem de conexão discada (aquele barulhinho específico provoca reações nostálgicas – não necessariamente boas – em que o utilizou). Um ícone que unia dois computadores surgia num canto da tela para mostrar que a conexão havia sido feita. Era a hora de, usando um browser de interface gráfica, utilizar a tal rede. E ela nos era apresentada na forma de páginas de texto com poucos recursos visuais e uma novidade que não demorou para ser aprendida: palavras sublinhadas indicavam que elas podiam ser clicadas com o mouse e, a partir deste clique, poderíamos visitar outra página com tantas outras palavras sublinhadas. Mais tarde nos disseram que este conceito chamava-se hipertexto – uma palavra-mágica que, ao ser invocada (com um clique), nos transportava para outros ambientes. Esse teletransporte virtual só era possível graças ao conceito de hyperlink que, rotineiramente, teve seu nome encurtado simplesmente para “link”.
Havia outras formas de se conectar à internet antes desta invenção, mas elas eram burocráticas e pouco inspiradoras. A rotina de clicar no ícone do modem, esperar o computador conectar-se à rede, abrir o programa de navegação e perder-se ao sair clicando nos links que surgiam está tão impregnada em nosso inconsciente que nem sequer percebemos que fazemos isso diariamente. A tecnologia melhorou esse tempo: hoje você não precisa avisar ao computador que quer conectar-se à rede, ele já está online ao ser ligado – e a rede é de uma velocidade incomparável (mesmo quando falamos do 3G brasileiro). Às vezes não é preciso nem abrir o browser para sair clicando em links – o sistema operacional já trabalha em rede, atualizando-se sozinho. A própria expressão “entrar na internet” parece não fazer mais sentido – afinal, estamos online o tempo todo, conscientes ou não. Checar um email ou se informar sobre alguma coisa específica já não levam os minutos que levavam antes de 1995. Fazemos isso em segundos atualmente. E por mais que nossos hábitos possam ter evoluído em relação àquele tempo, eles ainda são essencialmente os mesmos. Algumas siglas nos ajudam a identificar a semelhança.
Grande parte dos sites que frequentamos nessas duas últimas décadas começavam com o http e terminavam com html. O “h” que inicia as duas siglas é o mesmo do citado hipertexto. O primeiro é o protocolo de transferência de hipertextos, o segundo é a linguagem de marcação de hipertexto. Juntos, eles permitiam que o texto clicável, o tijolo que tornou a construção da web como a conhecemos hoje, pudesse existir.
Este sistema de organização de arquivos começou a ser desenvolvido por um cientista da computação do Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (CERN), principal instituição científica europeia (palco da criação da maior ferramenta humana, o LHC). Tim Berners-Lee se incomodava com o fato de não haver padronização nem mesmo entre as apresentações de seus colegas de instituto e, principalmente, entre os cientistas do mundo, o que tornava o diálogo entre pesquisas e portanto seu desenvolvimento mais lento e desencontrado. Pensando nisso, desenvolveu a lógica do hiptertexto ainda nos anos 80, criando uma base de dados chamada ENQUIRE, que reunia o trabalho de outros cientistas. Este podia ser atualizado pelo próprio autor e permitia que fossem feitas referências literais – via hipertexto – ao trabalho de outros colegas.
Essa lógica foi depurada durante aquela década e, em março de 1989, Tim escreveu uma proposta para uma database ainda mais abrangente. Seu chefe sugeriu que ele usasse um computador NeXT recém-adquirido como servidor – que até hoje é exibido como troféu no próprio CERN, na exposição permanente Microcosm, ainda com o aviso escrito com canetinha vermelha em que se lê “Esta máquina é um servidor: NÃO A DESLIGUE!”. Depois de pensar em nomes que faziam graça com o seu próprio prenome (The Information Mesh e The Information Mine eram acrônimos de “Tim”), Berners-Lee batizou sua nova invenção definitivamente de World Wide Web (“teia de alcance mundial”) – e sugeriu que seus endereços viesse com a sigla www para determinar os novos domínios digitais.
No dia 30 de abril de 1993 – portanto, há 20 anos nesta semana – ele criou o primeiro site dentro de seu novo sistema de organização de informação, site ressuscitado pelo próprio CERN em lembrança à data. Poucos meses depois me lembro de ter consultado os computadores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp para, através da recém lançada web (eu mal sabia), entender o que era o trabalho de um tal Subcomandante Marcos que, do interior do México, usava a rede para espalhar sua causa para o resto do mundo – minha primeira vez online. Em menos de um ano depois, escreveria minha primeira matéria sobre a popularização da internet, uma invenção que, na última década do século passado, completava três décadas de existência. Em dois anos, a rede havia se popularizado mais rapidamente do que nas suas primeiras três décadas.
Pois antes sua existência era tratada como uma espécie de pacto velado entre iniciados: a rede interconectava milhares de pessoas em diferentes países, mas não havia se tornado popular, mesmo que o computador pessoal já tivesse se embrenhado nas diferentes áreas do conhecimento humano. Foi preciso que uma invenção de um cientista inglês obcecado por organização de informação abrisse o clubinho secreto global para que todo mundo participasse – e que, assim, popularizasse a rede.
Esse foi o segredo do sucesso da web. Em uma apresentação mostrada em 1991, ele explicava que “estamos muito interessados em que a web se espalhe por outras áreas e para termos servidores para outros dados. Colaboradores são bem-vindos”. A navegação intuitiva e a visualização menos burocrática também ajudaram a popularização da web, mas foi esta frase final, escrita dois anos antes da execução do primeiro site, que tornou a rede tão popular em tão pouco tempo. Se fosse criada em uma empresa, talvez esta lógica não fosse tão amigável e possivelmente seria necessário alguns diplomas ou certificações para se trabalhar naquele novo projeto. Ao abrir a novidade para o mundo, o CERN tornou-se pai de uma ferramenta humana talvez ainda mais ambiciosa que o grande colisor de hádrons, o LHC. Uma que conecta toda a humanidade de forma a acelerar radicalmente a evolução de diferentes níveis de conhecimento, graças ao simples contato instantâneo.
Ainda estamos engatinhando neste novo universo digital, mas não tenha dúvidas que se não fosse o apelo a uma natureza colaborativa e o ímpeto generoso de Tim Berners-Lee ao tornar a web aberta – tecla que ele segue batendo, como disse nas vezes que veio ao Brasil -, não estaríamos conversando diariamente com o resto do mundo em uma tela de computador. Não é por acaso que confundimos web com internet – foi a primeira que tornou a segunda popular e permitiu que todos passássemos a usá-la. Hoje percebemos que os limites da internet vão para muito além da web, conforme navegamos em aplicativos em nossos smartphones que não utilizam a interface desenvolvida por Tim Berners-Lee (embora sua lógica, a dos links, permaneça ali) ou descobrimos desdobramentos diferentes desta rede seja em redes de torrents, ecossistemas criados por empresas de games e redes sociais, variações do dito armazenamento digital “na nuvem” ou na infame deep web. E esses limites continuarão se expandindo se, como quis o cientista inglês, a lógica da rede seguir aberta e sem controle, como é há vinte anos.
E você, que hoje pode assistir à TV do mundo inteiro, informa-se em redes sociais e ouve a música que quiser ouvir com uma mísera busca, lembra-se da primeira vez que utilizou a web? Não esqueça de agradecer a Tim Berners-Lee.

Na edição deste mês da revista Galileu, falamos sobre uma mudança no método de desenvolver novas tecnologias – concursos que oferecem milhões de dólares para que cientistas desenvolvam novas invenções. Esse formato vem se tornando cada vez mais comum nos últimos 20 anos e inclui desafios extremos como desenvolver um diagnosticador portátil, enviar um robô para a Lua e controlá-lo daqui da Terra, craquear a genética da longevidade até provocações mais mundanas, como desenvolver gelatina sem ingredientes que tenham origem animal. O Dossiê da edição é sobre estupidez (e porque burrice não é o antônimo de inteligência) (com direito à entrevista que o Tiago fez com o doutor em filosofia André Spicer, que fala sobre como as empresas nos emburrecem), a bicileta de Phillppe Stark, abstinência de internet, a contracultura da alimentação, um outdoor que transforma ar em água potável, um papo com Adriano Fromier Piazzi, da Aleph, sobre publicar ficção científica no Brasil (que também indica cinco clássicos do gênero), um mapa da população flutuante da região de São Paulo, uma conversa com o autor do livro Você Não é Tão Esperto Quanto Pensa, David McRaney, um físico polonês que está aplicando a lógica open source a equipamentos de agricultura e geração de energia, a visita que Juliana Cunha fez à Coréia do Norte, o país mais offline do mundo, um aplicativo brasileiro de recomendações, a rotina de uma favela na Índia, como é ser treinador de cão-guia, a história das epidemias e seu futuro próximo, moral e maniqueísmo nos videogames e Steven Pinker escreve sobre como estamos vivendo a era mais pacífica da humanidade. Abaixo, a carta ao leitor que escrevo no início da revista.

OLHANDO PARA FRENTE: A Fundação X Prize, de Peter H. Diamandis, é uma das instituições que apostam no otimismo prático para este novo século
Pouco antes de assumir a direção da redação da GALILEU terminei de ler Abundance: The Future Is Better Than You Think (Abundância: O Futuro é Melhor do que Você Pensa, Free Press, ainda não publicado no Brasil). O livro de 2012 foi coescrito pelos norte-americanos Peter H. Diamandis e Steven Kotler e defende a teoria que estamos às vésperas de uma era de fartura e que a vida neste novo século deverá ser ainda melhor.
Para enfatizar, eles enumeram índices que mostram como melhoramos nos últimos cem anos: das condições de higiene ao número de doenças que afligem nossa rotina, os dois escrevem que “usando qualquer métrica disponível, a qualidade de vida evoluiu muito mais do que no resto de toda a história”. Listam a queda da mortalidade infantil (90%) e do número de mães que morrem no parto (99%) e o aumento da longevidade (100%) nos últimos cem anos, entre outros números, para justificar a tese.
Diamandis especificamente vai além de simplesmente detectar estas melhorias. Ele é um dos principais responsáveis pelo investimento em ciência e tecnologia do futuro, seja como fundador da Universidade da Singularidade ou da Fundação X Prize, uma das instituições que abordamos na matéria de capa desta edição, em que o repórter Tiago Cordeiro elenca concursos internacionais que premiam ideias que podem melhorar o futuro. E você não precisa ser cientista para participar destas premiações.
O otimismo de Diamandis conversa com o do psicólogo canadense Steven Pinker, que lança seu novo livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza no Brasil e assina o Novas Ideias desta edição, explicando por que acha que estamos vivendo na época mais pacífica da história.
Tal otimismo faz parte de nossa rotina de GALILEU, e não são poucos os exemplos que listamos de pessoas e instituições que preferem pensar em como melhorar o planeta do que simplesmente lamentar — siga folheando a revista e descubra. Não fechamos os olhos, no entanto, àquilo que nos incomoda, como o relato que a repórter Juliana Cunha fez ao visitar a Coreia do Norte ou o Dossiê desta edição, que enfatiza que inteligência e estupidez não são necessariamente antagônicas. O mundo está melhorando e queremos fazer parte desta mudança. Vamos lá!
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Na minha coluna desta semana no site da Galileu, falei sobre a palestra de Mario Vargas Llosa que assisti na semana passada e da de Neil Gaiman que vi no site do Ramon – e como uma acabou respondendo à outra.

Mario Vargas Llosa x Neil Gaiman
Lamentar a espetacularização da cultura ou celebrar o fato de ela estar disponível para cada vez mais gente?
Na quarta-feira da da semana passada, dia 17 de abril, aconteceu no teatro Geo, em São Paulo, o evento de abertura da edição 2013 do Fronteiras do Pensamento. O evento traz para São Paulo há três anos – e para Porto Alegre, onde nasceu, há seis – acadêmicos e intelectuais de diferentes áreas do conhecimento para discutir questões que, de acordo com seu curador Fernando Schüller, são assuntos que precisam ser trazidos para a pauta deste século. Neste ano, o tema geral da série de palestras é o “cosmopolitismo” – ou como o próprio Schüller explicou em entrevista à GALILEU, como os temas que antes eram restritos às cidades hoje se refletem em todo o mundo. E para começar este ciclo de conferências, o primeiro convidado foi o escritor peruano Mario Vargas Llosa.
Vargas Llosa, apresentado pelo curador do evento, é um dos principais intelectuais latino-americanos e resumi-lo a escritor é mais uma comodidade que um rótulo. Com ampla atuação pelas artes e ciências humanas como um todo, ele é autor de livros consagrado de livros como A Cidade e os Cachorros (1963), Conversa na Catedral (1969) e A Guerra do Fim do Mundo (1981), mas não restringe seus livros ao romance, tendo escrito peças e ensaios, além de ter passado por palcos – como ator – e palanques – como político (chegou ao segundo turno da eleição presidencial de seu país em 1990, quando perdeu para Alberto Fujimori). Tal bagagem o chancela também como provocador da cultura. E sua participação no Fronteiras deste ano teve como ponto de partida o recém-lançado A Civilização do Espetáculo, que terá edição brasileira lançada no segundo semestre pela editora Alfaguara.
Vargas Llosa começou sua conferência tentando definir o que é cultura e como tal termo foi banalizado, sendo associado à qualquer coisa: “a cultura do reggae, a cultura heterossexual”, frisando que, “quando tudo pode ser cultura, nada é cultura”. E lembrou o momento em que a ideia central de seu novo livro lhe atingiu, em uma visita à Bienal de Arte em Veneza. Ao perceber que não gostava da maioria das obras que via, caiu-lhe a ficha: “Não queria ter nenhuma daquelas obras em casa”, lamentou, “aquilo que via parecia mais a Disneylândia ou um circo, e não arte”.
Localizou o início desta decadência quando Marcel Duchamp expôs seu célebre mictório num museu, dizendo que “ali foram abertas as portas à loucura”, concentrando seus ataques na figura do artista britânico Damien Hirst, que chamou de palhaço: “O pintor mais caro de nosso tempo não sabe pintar”, esbravejou para delírio da plateia, que ria a cada alfinetada dada nos pós-modernos.
Contudo a palestra não foi apenas a apresentação de ideias mal humoradas em relação à cultura atual. Lembrou de quando conheceu Paris no início dos anos 60 e se percebeu não apenas artista, mas também como um artista latino-americano, quando aos poucos conheceu e reconheceu, no Velho Continente, o valor de seus pares. Lembrou do próprio fascínio infantil ao descobrir a leitura aos cinco anos de idade, dizendo que foi “a coisa mais importante de minha vida”. E frisou o papel edificante da cultura na história da humanidade quando, por exemplo, o sexo deixou de ser visto como mero ato físico para a reprodução dando início ao amor romântico e ao erotismo. Mas estava dedicado a demolir a chamada “cultura do espetáculo atual”, em que a arte “vira um mero passatempo”, alertando que, numa cultura sem referenciais, o homem poderia voltar para a idade da pedra.
Interessante notar a ausência da palavra internet em mais uma hora de discussão sobre a cultura atual. Vargas Llosa no máximo citou o fato das notícias correrem mais rápido que antigamente e o imediatismo dos acontecimentos, mas tratando a teia digital que aos poucos torna-se o sistema nervoso da civilização deste século como um simples meio de comunicação, uma espécie de telefone-jornal-total. Apenas ironizou o fato de que todo mundo pode produzir arte atualmente como se todos os que se descobriram artistas graças à internet (sem precisar ir à Paris para isso) fossem apenas aspirantes amadores a uma elite que aos poucos deixa de existir. Zombou da espetacularização da cultura numa palestra que era, ela mesma, um espetáculo – e que encerraria com distribuição de autógrafos do próprio autor.
Discordo radicalmente de Vargas Llosa em relação a vários aspectos, mas quem sou eu para confrontá-lo? Prefiro usar como contraponto a recente palestra que o também escritor britânico Neil Gaiman, que começou como quadrinhista e hoje frequenta listas de best-sellers inclusive no Brasil, deu três dias antes, no dia 14 deste mês, durante a Digital Minds Conference, dentro da London Book Fair que acontece anualmente em seu país, que vi no blog do jornalista Ramon Vitral, especializado em cinema e quadrinhos.
Gaiman pegou como gancho os ataques que as gravadoras faziam, ainda nos anos 70, à novíssima possibilidade de gravações caseiras, ao exigir que os músicos que se submetiam à licença para trabalhar profissionalmente na Inglaterra levassem adesivos em que se lia “hometaping is killing music” (“gravações caseiras estão matando a música”). O aviso fazia referência ao fato de que, graças à fita cassete, qualquer um poderia gravar um disco comprado sem que necessariamente houvesse pago por ele. Ele faz a conexão entre a paranoia daquele tempo com outra mais recente, em que um discurso semelhante é associado a quem baixa música – ou outro tipo de conteúdo digitalizável – via internet sem pagar a seus autores.
E puxa o assunto para sua área, os livros. Citando uma conversa que teve com o falecido Douglas Adams, autor da célebre série O Guia do Mochileiro das Galáxias, sobre livros digitais antes mesmo do conceito de e-book como o conhecemos existir. Gaiman lembra que o personagem central na saga de Adams não era o inglês Arthur Dent, o alienígena Ford Prefect, a terráquea Trillian ou o robô Marvin, o andróide paranoico, e sim o próprio livro que batiza a saga, uma enciclopédia que pode ser atualizada a qualquer minuto – e que é carregada em um livro do tamanho de um tablet atual. Adams antecipou a Wikipedia e dizia que provavelmente este formato substituiria o livro impresso, mesmo sem saber qual a tecnologia que o alimentaria. E disse a Neil que “da mesma forma que os tubarões sobreviveram ao tempo dos dinossauros”, poderia ser que o livro sobrevivesse à nova era eletrônica desde que, como aconteceu com os tubarões, não aparecesse nada melhor que os próprios tubarões.
E passou a citar uma série de exemplos de experimentos literários que vem conduzindo que não poderiam ser imaginados – ou sequer realizados – anos antes. Como a possibilidade de escrever dois livros – um com capa de madeira e todo rebuscado, o outro digital com pistas espalhadas em HDs por uma cidade – que se complementam, projeto que está envolvido agora. Ou como a brincadeira que realizou com um calendário, ao pedir que seus fãs, via Twitter, lhe fizessem perguntas sobre os meses do ano. Escolheu os doze melhores tweets e transformou cada um deles num conto, permitindo depois que outros tantos leitores fizessem o que quisessem com o material que ele produziu – inclusive em áudio, pois gravou os próprios contos com sua voz e disponibilizou as gravações online. E, orgulhoso, lembrou ver milhares e milhares de pessoas produzindo arte a partir de uma ideia sua que, anos antes, seria impossível de ser realizada.
Citou casos de projetos de crowdfunding que deram certo porque foram citados por ele, ganhando um público que nunca iriam atingir por conta própria, mas sem esquecer outros tantos projetos que, mesmo com seu aval, não saíram do zero. Lembrou de quando ressuscitou uma graphic novel parada no tempo – a série Signal to Noise, escrita com o artista Dave McKean e originalmente publicada nas páginas da revista The Face nos anos 90 – para um pacote de conteúdo digital em que seus compradores pagavam o que quisessem, o que lhe garantiu 78 mil dólares. “Foi incrivelmente educativo”, disse, “e as pessoas perguntam: ‘Isso quer dizer que para que eu consiga dezenas de milhares de dólares basta que eu peça para que eles paguem o que quiserem?’. E eu respondo: ‘Não’. Isso não quer dizer que nem mesmo eu posso conseguir esse valor numa outra oportunidade. É como um dente-de-leão: as sementes voam e só algumas delas encontram algum lugar onde podem crescer”.
E terminou sua fala com um conselho que vale para todos: “A verdade é que, não o importa o que fizermos, é provável que estará certo. Vamos abraçar o velho da mesma forma que abraçamos o novo. Pois estamos na fronteira. E não há regras aqui. Podemos violar leis que ainda nem foram imaginadas, podemos entrar em portas que dizem ‘saída’, escalar janelas. O modelo para amanhã – que é um modelo que venho usando com enorme entusiasmo desde que comecei a blogar em 2001 e talvez o mesmo que uso desde que acessei a internet via Compuserve em 1988 – é tentar de tudo. Cometa erros. Surpreenda a você mesmo. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Seja bem sucedido em formas que não foram imaginadas há um ano ou há uma semana. É hora de sermos dentes-de-leão, soltarmos mil sementes para que percamos 999 delas. E se uma centena – ou mesmo uma dúzia – delas sobreviverem, crescerem e formarem um novo mundo, acho que isso é mais sábio que esperar que 1983 volte mais uma vez.”
Lamentar a espetacularização da cultura ou celebrar o fato de ela estar disponível para cada vez mais gente? Desculpe Vargas Lllosa, mas eu fico com a opinião de Neil Gaiman. Abaixo, a íntegra da palestra do inglês. Trechos da palestra com o escritor peruano deverão aparecer no site do Fronteiras do Pensamento.
Fotos: Vargas Llosa (Fronteiras do Pensamento / Greg Salibian) / Neil Gaiman (reprodução).

Eis minha última Impressão Digital. A partir da semana que vem, o Link passa a ser uma coluna no caderno de Economia do Estadão, às segundas-feiras, e deixa de ser um caderno semanal. Ano que vem o caderno completaria 10 anos, cinco deles sob a minha edição. Aproveitei a deixa e a usei como assunto da última coluna, para lembrar os bons tempos que vivi neste período, tanto do ponto de vista do caderno, de jornalismo, quanto do da redação, humano. Foi uma época incrível, só posso agradecer a todos. Abaixo a versão integral da coluna, que teve de ser enxuta para caber no tamanho estabelecido.

Cinco anos mudando a cara do jornalismo de tecnologia no Brasil
“This is the end…”: Despeço-me desta coluna logo após ela completar três anos
É inevitável ouvir Jim Morrison sussurrar a frase que batiza o maior épico dos Doors à medida em que começo a digitar essa coluna. É última Impressão Digital que assino, justamente um mês após ela ter completado três anos. A coluna, que começou no Caderno 2 com o redesenho do jornal em 2010, era o último resquício de vínculo que ainda tinha com este centenário jornal no Limão. Com a transformação do Link em uma seção no caderno de economia, encerro a jornada que comecei aqui em 2007 – e despeço-me destas páginas.
(Minha relação com o Estado, contudo, é anterior à existência do Link. Durante os anos 90, colaborei tanto com o extinto caderno Zap!, que à época contava com a dupla Ricardo Alexandre e Emerson Gasperin, grandes amigos, em sua liderança, e na versão reduzida que o mesmo caderno tinha às sextas-feiras no Caderno 2, o Caderno Z. Foi no Caderno Z que publiquei minha primeira matéria num grande veículo de comunicação no Brasil, ao comemorar o cinquentenário do gênio psicodélico Syd Barrett, que ainda era vivo e seguia recluso. O que quer dizer que o fim da Impressão Digital talvez seja o encerramento do meu segundo ciclo nesta casa, não minha despedida final.)
Comecei a trabalhar no Link em maio de 2007, dois meses após sair da gravadora Trama, onde coordenava a agência de notícias do projeto Trama Universitário, que terminou depois que os contratos com seus patrocinadores chegaram ao fim. Em abril, o antigo editor-assistente do Link, Guilherme Werneck, me chamou para conversar com o então editor Otávio Dias. Guilherme estava saindo para dirigir a redação da revista Trip e sabia que eu havia saído da Trama. Veio me perguntar se eu toparia assumir seu cargo, logo que ele saísse. Gostei da ideia e fui conversar na redação do Limão – já acompanhava o Link de perto por atuar na cobertura de tecnologia desde o início da década passada e sabia que ele já era um caderno fora do padrão dos cadernos de informática de então (a começar pela mudança de nome).
Quando comecei a frequentar a redação do bairro do Limão, o Link era chefiado pelo Otávio e tinha nomes como Bruno Garatoni (hoje na Super Interessante), Maurício Moraes (que foi para a Info), Jocelyn Auricchio, Rodrigo Martins, Gustavo Miller, Cinthia Toledo e Filipe Serrano, estes três últimos, estagiários. Pedro Doria, que depois viria ser o editor-chefe de conteúdos digitais do jornal e hoje ocupa um cargo semelhante n’O Globo, ainda era colunista do caderno ao mesmo tempo em que também era repórter do caderno Aliás e também participava comigo, com o Otávio e com o Fabio “Fabão” Lima, do programa Link Eldorado, que ia ao ar todos os domingos. A arte do caderno, quando entrei, era tocada pela Bia Oliveira, depois pelo Marcelo Begosso, por Gustavo Godoy e, nesta primeira fase, Adriano Araújo.
Era uma outra época. O Orkut ainda era forte, o Facebook não existia fora dos EUA, o iPhone acabara de ser lançado, os consoles eram a grande força dos videogames, a Lei Azeredo pairava sobre nossas cabeças cogitando a obrigatoriedade de se digitar o CPF para acessar à internet, a internet via celular ainda era WAP, Rafinha Bastos e Danilo Gentili eram estrelas do YouTube, Lost misturava internet e TV e o Google começava a se expandir para além da web.
Quando o Ilan Kow, que hoje ocupa o cargo de diretor de produtos e projetos da casa, tornou-se editor-chefe de publicações especiais, ele assumiu a gestão de todos os suplementos do jornal e achou que eu funcionaria melhor como editor do que como editor-assistente do Link. Foi aí, em maio de 2009, que comecei a mudar completamente a forma como o caderno funcionava.
Para começar, finalizei a transferência da seção de tecnologia do portal Estadao.com.br para as mãos da equipe do Link. Não fazia sentido um caderno que cobre tecnologia e internet ter um site atualizado uma vez por semana (sério). Ao procurar alguém para ser meu editor-assistente, Ilan e seu braço direito Luiz Américo Camargo me sugeriram o nome de Heloisa Lupinacci, então editora-assistente do caderno de Turismo da Folha de S. Paulo. Lembro do primeiro almoço que tive com Helô (“só minha mãe me chama de Heloisa!”, disse ao final do encontro) e que ela dizia que não conhecia muito de tecnologia. “Não importa”, frisei, “você tem que entender de jornalismo”, antes de repetir um dos meus mantras – que essa é das poucas profissões em que você é pago para aprender.
Com Helô como copilota, reestruturei a equipe que, por outros motivos, ficara desfalcada. A repórter Juliana Cunha foi fazer um mestrado na Áustria, o repórter Lucas Pretti foi tocar o site do Divirta-se e Rodrigo Martins tornou-se editor de mídias sociais do jornal. Em seus lugares, chamei Tatiana de Mello Dias, que já havia trabalhado comigo na Trama e estava na IstoÉ, o amigo Fred Leal para ser o Personal Nerd e Ana Freitas, que havia acabado de terminar o estágio com a equipe do portal. O Filipe, que já era repórter, tornou-se o editor do novo site do Link e, no ano seguinte, todo mundo ganhou sua coluna.

As diferentes equipes do Link durante a minha gestão
Estas mudanças atingiram a pauta de tal forma que o Link logo tornou-se referência não apenas entre os veículos que cobrem tecnologia, mas no jornalismo brasileiro. Na época a Helô, que hoje é editora-assistente do caderno Paladar, dizia que o Link não era um caderno, era um experimento jornalístico. E todos que passaram por ele – além dos citados, vale mencionar o compadre Camilo Rocha, Rafael Cabral, Fernando Martines, Marcus Vinícius Brasil, Bruno Galo, Murilo Roncolato, Carla Peralva, Ana Carol Papp e Vinícius Félix e, claro, o patolino magrelo Thiago Jardim, o diagramador que deu a cara que o Link tinha enquanto eu era editor do caderno.
Ao fim de 2012, me ausentei da edição por ter de me submeter a uma cirurgia, e, logo que voltei, recebi o convite para dirigir a redação da Galileu. Mas o diretor de redação do Estado, Ricardo Gandour, queria manter meu vínculo no jornal e me propôs continuar com esta coluna, que já havia saído do Caderno 2 e ido para o Link. Filipe Serrano, que tornou-se o editor-assistente após a saída da Helô, assumiu a edição do caderno, cargo que ocupa até hoje.
Nesta nova fase do Link, a Impressão Digital chegou ao fim. Foram 152 colunas ininterruptas. Parece motivo de tristeza, mas é bom que as coisas terminem. Encerro meu segundo ciclo na centenária redação com uma pontinha de saudade e um enorme orgulho. Sei do bom trabalho que fiz e como foi bom conhecer todos que conheci – e são dezenas de pessoas, de velhos amigos que reencontrei a novos conhecidos que tornaram-se chapas, amigos e confidentes. Despeço-me de todos aqui – mas a vida continua e com certeza nos encontraremos por aí.
Quem sabe, num futuro, até mesmo nas páginas deste jornal.
E não se esqueçam: só melhora!
Um abraço e tudo de bom.
Minha coluna de hoje no site da Galileu mistura a ascensão da impressão 3D com um futuro currículo escolar que possa incluir programação – e como isso pode ter um impacto a longo prazo.

Um impacto ainda maior que o da internet
Impressoras 3D e programação no currículo escolar podem mudar ainda mais o mundo
Novamente junto dois assuntos para outro exercício de futurologia. Na semana passada, escrevi sobre como Big Data e ações coletivas poderiam dar o tom desta década. Hoje vou falar de outros dois assuntos que também irão mexer com nosso dia-a-dia – mas não logo: impressoras 3D e programação de dados na sala de aula.
Impressoras 3D ainda são novidade para a grande maioria das pessoas, mas o leitor de Galileu já acompanha este assunto há tempos (uma busca pelo termo em nosso site mostra um belo punhado de matérias sobre o tema – elas já estão imprimindo discos, carros, comida e até protótipos de ossos e órgãos humanos). Elas devem demorar algum tempo para se tornar realidade, mas, como toda nova tecnologia, em pouco tempo ela deve ser barateada a ponto de poder entrar no dia-a-dia das pessoas (embora já existam impressoras caseiras, inclusive que podem ser montadas em casa e já à venda no mercado brasileiro).
A princípio, imprimir em três dimensões parece fantástico: crie um modelo em três dimensões no computador, semelhante às maquetes digitais feitas por arquitetos, o envie para a impressora e ela começará a criar, a partir de camadas finíssimas feitas com diferentes tipos de substância (fibras sintéticas, plástico e até metais), o modelo físico.
Muitos podem se perguntar qual é o sentido de se imprimir um objeto em casa. Há quem diga que pode imprimir brinquedos para os filhos, outros – como o ex-editor da revista Wired, Chris Anderson, que lançou um livro (Makers, Ed. Campus) sobre o tema – acreditam que estamos às vésperas de uma “nova revolução industrial” (que é o subtítulo de seu livro, inclusive), que descentralizaria o conceito de fábrica, um conceito industrial, para transferi-lo para pequenas manufatoras caseiras movidas a impressoras 3D. Pode ser que isso ocorra, mas não nos próximos dez, vinte anos.
Num primeiro momento, impressoras 3D poderiam funcionar como uma forma de repor peças quebradas de aparelhos que ainda não foram descartados. Você perde a tampa que cobre a bateria do seu celular e faz o quê? Compra outra num camelô, anda sem a capinha ou talvez até compre outro celular. Num futuro próximo, talvez o fabricante de seu celular permita que você baixe o modelo 3D desta pecinha direto de seu site, da mesma forma que hoje você baixa o PDF com os manuais do usuário que antes vinham apenas em papel.
Mas isso nos leva a um outro momento que aí talvez nos aproxime da tal nova revolução industrial prevista por Chris Anderson. Quando as próximas gerações de estudantes começarem a aprender programação de dados na escola, veremos exemplos práticos do uso destas impressoras saindo do papel para a realidade. Já não é novidade vermos adolescentes criando softwares, aplicativos e outras soluções digitais pelo simples fato de terem começado a aprender a programar desde cedo, por conta própria. Há um forte movimento para que a programação de dados entre no currículo escolar básico, para que crianças e adolescentes possam desenvolver soluções para seus problemas a partir da criação de programas. Mas isso também não deve acontecer logo, embora não dá para ser pessimista e achar que isso não irá mudar.
Não custa lembrar que o conceito de escola foi criado durante a revolução industrial original para que os pais pudessem deixar seus filhos sozinhos em casa. A escola como a conhecemos hoje é análoga à fábrica: um grande complexo em que centenas de pessoas trabalham com horário fixo, regidas por autoridades solitárias e que não podem sair do script. Até a sirene da hora do recreio na escola é similar à sirene na hora do almoço na fábrica.
Mas do mesmo jeito que a fábrica pode cair em desuso, talvez a escola como a conhecemos hoje também caia. O professor deixa de ser a única fonte de conhecimento e uma autoridade punitiva para os desordeiros para se tornar um gestor de pessoas, levando em consideração as diferenças entre os indivíduos. A entrada do curso de programação na grade escolar certamente acelerará este processo.
E, inevitavelmente, mudará a forma como encaramos as impressoras 3D. Sua função atual está restrita a instituições, à grande escala de dinheiro. Mas em alguns anos isso pode começar a mudar – e quando isso começar a acontecer, pode ficar tranquilo que o impacto que a internet teve sobre a vida de todos será menor que o impacto que veremos no futuro.

Minha coluna da semana no Link foi sobre como cedi ao Netflix e porque a paranóia sobre conteúdo criado de acordo com o gosto do freguês é tão fraca quanto falsa (e, não, não considerem esta coluna como sendo meu texto sobre Arrested Development).

O que acontece quando você faz algo que todo mundo espera
House of Cards ou Arrested Development?
Já escrevi sobre isso aqui: por mais que goste das novidades digitais, estou longe de ser early-adopter, daqueles que saem por aí usando todas as possibilidades de um aparelho ou serviço recém-lançado. Tenho uma curiosidade branda em saber como funciona o que acabou de aparecer e está todo mundo comentando. Mas ficar horas na fila para comprar um telefone? Sonhar em usar uma certa atualização? Não sou desses.
(Lembro quando comecei a trabalhar no Link como editor-assistente em 2007. A chefia na época me deu o argumento definitivo para comprar um celular. O iPhone acabara de ser lançado e os celulares ainda não eram computadores de bolso. Eu não queria ser encontrado e levei anos para me acostumar com um telefone que te acompanha mesmo depois que você sai de casa. Mas me perguntaram: “E se acontecer algo urgente quando o jornal estiver indo para a gráfica?” Um argumento definitivo, cedi.)
A explicação para eu ser um late-adopter vem de um hábito que tem a ver com a profissão de jornalista e virou compulsão: consumir conteúdo. Sou fissurado por notícias, livros, filmes, programas de TV, games, sites e blogs – e por isso me contenho na hora de utilizar novas tecnologias. Também demorei a comprar DVD, fazer compras pela internet e comprar um e-reader.
Todo este enorme nariz de cera para dizer que finalmente aderi ao Netflix. E o motivo de não ter começado antes a pagar a assinatura digital para consumir conteúdo online é porque eu sabia que ia abrir uma porteira difícil de ser fechada. Mas resolvi ver qual era a deles a partir do anúncio de que começariam a exibir produções próprias.
House of Cards, série do diretor David Fincher, foi a escolhida para estrear a nova fase. Foi minha isca. Seu grande atrativo foi ter sido criada a partir de informações que a locadora digital tem dos usuários. Analisando os dados dos programas mais assistidos, chegaram a uma média que dizia que uma série sobre os bastidores da política estrelada por um protagonista sem escrúpulos seria de interesse de seus espectadores.
Comecei a assistir a série e… achei OK. Boas atuações, diálogos rápidos, uma trama que tem tudo para prender a atenção por alguns episódios e… um protagonista que vira-se para a câmera a cada dez minutos para explicar a cena e dizer quais são suas reais intenções. Precisava ser tão didático? Não passei do terceiro episódio, quem sabe um dia a retomo. Talvez não seja público-alvo típico da Netflix. Acontece.
Mas vi artigos e ouvi pessoas comentando que aquilo poderia ser um perigo, que a tendência era que a produção de conteúdo, quando é movida por algoritmos e estatísticas, poderia empacar a criatividade, criar produtos estanques, que não surpreendem e apenas saciam a vontade das pessoas por aquilo que ela já sabe que gosta.
Como se TVs e estúdios de cinema não fizessem pesquisas para saber como o público está reagindo a determinado filme ou série. Como se não existissem grupos de discussão, técnicas de foco de audiência e outros métodos para entender o que o público quer ver.
Bobagem ter esse receio. É inevitável que alguém surja com algo completamente inusitado que atraia as atenções – talvez pelo fato de que a maioria do conteúdo que é produzido hoje tende à banalidade justamente porque todos querem adivinhar o desejo do público.
Quero saber como será a volta de Arrested Development, uma das séries mais engraçadas de todos os tempos, cancelada em 2006 pela baixa audiência, justamente por ser inusitada, nonsense e exagerada – algo que nunca seria aprovado em uma reunião de conselho. Mas a série ganhou público e virou cult depois do cancelamento, a ponto do Netflix ter apostado em sua volta. A próxima temporada será lançada em 26 de maio. E agora? Arrested Development será como o público quer ver ou vão deixar a natureza livre, psicótica e absurda típica do seriado tomar conta novamente?
A ver.
Na minha coluna no site da Galileu essa semana falo sobre como ações coletivas e processamento de dados podem melhorar o planeta.

Amanda Palmer fala sobre “A arte de pedir” no vídeo ao final deste texto
A era da filantropia digital
Ações coletivas e uso inteligente de dados podem mudar o mundo em pouco tempo
Dois assuntos aos poucos se impõem como os grandes temas desta nova década: a ação coletiva e a utilização inteligente dos dados que temos sobre tudo. E os dois, juntos, podem mudar completamente as coisas em pouquíssimo tempo.
O primeiro parece uma reação natural da era eletrônica ao mercado de massas, criado pela era anterior e ainda vigente, a industrial. Este período histórico, iniciado com a revolução industrial há dois séculos e meio, foi um gatilho tecnológico que permitiu uma série de melhorias na vida cotidiana das pessoas, aos poucos tirou-as dos campos e transformou as cidades em palcos mundiais enquanto conectava, pela primeira vez, todo o planeta. Foi a época que inaugurou o conceito de conforto, consagrou os papéis de patrão e empregado e permitiu a explosão populacional que vimos nos últimos cem anos. A partir do surgimento da linguagem eletrônica, que tem pouco mais de 50 anos, estes conceitos começaram a ser desafiados pois a industrialização acaba tratando todos como números. A idade eletrônica, cuja influência só começou a ser sentida de fato em nossas rotina neste novo século, inverte essa lógica e possibilidade as potencialidades do indivíduo – inclusive como parte de um coletivo. É o que norteia a tal ação coletiva que faz iniciativas como crowdfunding, crowdsourcing e as redes sociais digitais serem tão populares atualmente.
O outro grande tema encontrou um rótulo no início do século quando foi decidido que o volume de dados disponíveis atualmente podem ser tratados pelo nome de Big Data – que, em muitos casos, reúne um número impossível de ser processado em aparelhos ou programas de porte médio, exigindo computadores mais poderosos. Big Data, na verdade, é fruto do excesso de informações gerado por qualquer ato ou movimento, seja pessoal ou de massa. Há desde gente colecionando dados médicos sobre si mesmos para antecipar problemas futuros com mais agilidade há empresas públicas inteiras tendo que abrir seus balancetes para justificar gastos e investimentos, além da obsessão humana em quantificar e mensurar diferentes tipos de atividade. Assim, há um volume de informações disponível que nunca vimos em toda a história – tema recorrente na coluna do redator chefe de GALILEU, Tiago Mali. A questão agora é o que fazer com esses dados. Mas no cenário atual, temos uma abundância de informação que pode nos ajudar a calcular melhor o que podemos – e queremos – fazer.
Há vários pontos em comum entre estes dois conceitos, mas queria chamar atenção de um deles: o fato de que, para funcionar, eles partem do pressuposto que as pessoas abram mão de algo para conseguir o que querem. No caso do crowdfunding, se abre mão de dinheiro, claro, mas no caso do crowdsourcing, das redes sociais e da disponibilização de dados, o que é oferecido não é mensurável. Estou falando de conhecimento, de disposição para ajudar e para trabalhar, de técnica e expertise, além dos próprios dados. Não quero fechar os olhos para áreas delicadas que são afetadas diretamente por essas mudanças, como a noção moderna de privacidade ou a transparência econômica e política. Mas o fato é que estas duas tendências desta segunda década do século 21 – ação coletiva e Big Data – serão ainda mais eficazes se as pessoas se dispuserem a participar.
Caso isso aconteça, podemos estar no início de uma era em que as pessoas possam começar a ajudar umas às outras sem ficar pensando em recompensas financeiras. E não estou falando em caridade (embora esta também seja importante), e sim de uma certa filantropia digital. E para começar a conseguir que isso ocorra também é importante saber o que é que precisa ser feito – e saber que isso pode começar com cada um de nós. Basta saber o que – e como – pedir.
Por isso encerro a coluna de hoje com o TED que a cantora Amanda Palmer apresentou este ano sobre “A arte de pedir”, abaixo:
Para quem não entende textos em inglês, segue abaixo a transcrição da participação de Amanda no TED em português, feita no próprio site do evento, abaixo:

Semana passada Luane virou viral com vídeo boca suja, mas o que ela fala – descontando os palavrões – não é bobagem. Foi disso que falei na minha coluna da edição desta semana do Link.

Parece piada, mas os conselhos de Luane têm fundamento
Apesar dos palavrões vídeo ‘manda a real’
No final do ano passado, a carioca Luane Dias resolveu gravar um vídeo para colocar no YouTube. Não citou nomes porque não queria apontar o dedo para ninguém, mas em pouco mais de três minutos desfilou um rosário de dicas de etiqueta social no Facebook. De fala mole e postura marrenta – uma carioca típica –, Luane, que pelo YouTube se identifica como “californiana2801”, também não poupa palavrões para criticar posturas de conhecidas em redes sociais.
Na semana passada, alguém descobriu o vídeo e ele viralizou. Se popularizou principalmente pelo jeito caricato que Luane dá suas dicas e pela enxurrada de palavrões ditos pela moça. Suas críticas tinham como alvo mulheres que querem passar por bem resolvidas e dizem não lamentar fim de relacionamentos, publicando frases de efeito no Facebook. As dicas de Luane são pérolas que merecem ser destacadas, mesmo relevando os palavrões e descontando o português esculachado:
“Bota que tá solteira, que tá feliz. Caô. Não tá! Sabe que não tá! Termina suave.” “Rasgue as fotos. Chore. Mas não coloque no Facebook.” “Tudo que vai fazer bota no Facebook. Essa porra virou diário agora?” “Como você vai arrumar namorado se todo dia você só quer reclamar?” “Guarde sua vida pessoal pra você.”
O único palavrão citado acima é quase uma vírgula perto das cenas pornográficas e do excesso de baixo calão do vídeo. Mas Luane não quer proibir ninguém de falar nomes feios e nem dar aulas de bons modos. Ela só quer dar um toque para umas meninas que saem publicando a primeira coisa que pensam no Facebook, sem nem pensar na repercussão que aquilo pode ter. “Não fale que tá na onda”, diz ela antes de cuspir outro palavrão e emendar “tá é ridícula”. O vídeo ganha ainda mais graça devido à fala arrastada de Luane, que capricha nos erres e nos esses chiados típicos do sotaque carioca.
Mas ela não está errada, não.
Luane está só verbalizando um sentimento que é próprio da maioria dos usuários da maior rede social do mundo. Você sabe. Basta um amigo ser contrariado para usar o Facebook como muro das lamentações e soltar indiretas como se elas pudessem ser percebidas apenas por quem é seu alvo. É quando paira aquela sensação de vergonha alheia – quando algo é tão constrangedor que envergonha até mesmo os outros. Você põe a mão na cara e abaixa a cabeça, incrédulo – “não é possível que o fulano se exponha dessa forma…”. Como se o Facebook já não fosse palco de outros tantos constrangimentos.
A carioca só pede calma na hora de postar. Ela mesma arrisca dizer que vai sair do Facebook, mas depois fala que não é preciso ser tão radical.
É um dilema da própria internet, não apenas do Facebook. A possibilidade de fazer sucesso a partir de frases polêmicas e opiniões engraçadinhas está ao alcance de qualquer um. E este sucesso é pra lá de relativo – basta que cinco amigos curtam uma frase boba para a pessoa que a publicou comece a se achar influente, transgressora, ousada.
Não, meu amigo, você não é. Na maior parte das vezes, o sentimento que você causa tentando provocar só piora a sua reputação.
Ou, como diz Luane, “se tu ficar de vacilação, alguém vai te cobrar”. Fique na boa!
***
Falei há duas semanas nesta Impressão Digital sobre o documentário Quarto 237, que disseca com diferentes lâminas O Iluminado, o clássico do horror dirigido por Stanley Kubrick em 1980. Ramon Vitral, repórter que cobre cinema no caderno Divirta-se, do Estado, veio me avisar que o filme de Rodney Ascher vai ser exibido no festival É Tudo Verdade, que começa na próxima quinta-feira, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Maiores informações sobre as sessões do filme no site do evento.

Na minha coluna no site da Galileu essa semana é sobre o tratamento contra a leucemia que, a partir do HIV, consegue exterminar as células cancerígenas do organismo.
Leucemia com os dias contados
Um estudo publicado na semana passada abre novas perspectivas para o tratamento deste tipo de câncer

A pequena Emily, que se submeteu ao novo tratamento
Tratamentos que retardam o efeito devastador do câncer – ou que em alguns casos chegam a eliminá-lo por vez – aos poucos vêm mudando o peso que a doença tem sobre as pessoas. Até o fim do século passado, o simples diagnóstico da doença era o equivalente a uma sentença de morte. Mas na semana passada tivemos mais uma boa notícia nesta área.
Na quarta da semana passada, dia 20, o doutor Renier J. Brentjens e sua equipe no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, publicaram um estudo sobre um tratamento que vêm testando em pacientes com leucemia linfocítica aguda, uma das mais graves variações da doença, que abre novas perspectivas para os pacientes que sofrem deste mal.
O tratamento apresentado usou o vírus HIV como aliado e já havia sido testado por outras equipes médicas. O caso mais notório foi a revolução no estado de Emily Whitehead, menina norte-americana de 7 anos, que foi diagnosticada aos cinco anos com uma das piores variações da leucemia, que costuma ser avassaladora em adultos, mas que também não poupa crianças. A pequena Emily passou por tratamentos quimioterápicos que quase a mataram no início do ano passado, até que seus pais Tom e Kari resolveram apostar em um procedimento experimental que estava sendo desenvolvido no The Children’s Hospital of Philadelphia.
Como ela, doze pacientes que se submeteram ao novo tratamento tiveram seu quadro piorado em pouco tempo após a aplicação da nova prática, mas foi só a primeira mudança em seu quadro médico. Logo em seguida, todos começaram a se recuperar e a maioria teve suas células cancerígenas eliminadas do organismo. Apenas uma outra criança e quatro adultos não tiveram seus quadros completamente revertidos, enquanto em dois outros adultos (a doença é mais agravante quanto mais velho for o paciente), o tratamento não surtiu efeito. Mas, como Emily, cinco outros pacientes não apresentaram mais sintoma da doença desde que o novo processo foi iniciado, em abril do ano passado.
No tratamento, o vírus HIV foi modificado para reprogramar o sistema imunológico, de forma que este possa detectar células cancerígenas e eliminá-las. Ainda em fase experimental, a nova solução custa 200 mil dólares para os que se dispõe a experimentá-la e ainda não pode ser considerado eficaz. “Nosso objetivo é a cura, mas ainda não podemos dizer esta palavra”, declarou, com cautela, o doutor Carl June ao jornal The New York Times no final do ano passado, quando puderam comemorar o estágio atual da criança, que tornou-se símbolo deste novo tratamento. Jung coordena as pesquisas na Universidade da Pensilvânia e liderou o tratamento no caso do grupo de pacientes em que a criança esteve incluída.
Embora ainda seja um dos principais desafios da medicina moderna, os avanços contra este tipo de doença vêm melhorando consideravelmente – e a publicação do estudo realizada na semana passada pode ser o primeiro passo rumo à cura da leucemia. E, quem sabe, do câncer.

A edição deste mês da revista Galileu traz na capa uma matéria do repórter Rafael Tonon sobre como o que chamamos de livre-arbítrio talvez possa não existir, hipótese cogitada por três livros que estudam o comportamento biológico do cérebro humano. Há também o dossiê sobre o futuro da indústria do tabaco, uma matéria sobre como o TED conseguiu espalhar-se pelo mundo usando o formato TEDx, outra sobre o sucesso do grupo Porta dos Fundos na internet, a entrevista que fiz com o filósofo Slavoj Žižek em sua passagem pelo Brasil, um infográfico que disseca o trabalho escravo no Brasil e uma matéria sobre porque escovar os dentes faz bem para todo o corpo, não só para a boca. Abaixo, a Carta ao Leitor que escrevi na edição deste mês.

REVISTA EM MÃOS: Žižek folheia a edição do mês passado após entrevista realizada pelo diretor de redação Alexandre Matias
Uma das melhores coisas de se trabalhar numa publicação como a GALILEU é constatar a amplitude dos temas abordados. À medida que vamos pensando em diferentes pautas e matérias — seja na versão impressa ou no site —, nos damos conta de que qualquer tema pode ser abordado por nós, desde que dentro da ótica da ciência e do conhecimento, nossas principais bandeiras. E, justamente por isso, é curioso perceber como, mesmo falando de temas tão amplos e distantes entre si, alguns assuntos acabam se interconectando.
A edição deste mês reuniu uma série destas coincidências. Fui entrevistar o filósofo esloveno Slavoj Žižek, que veio a São Paulo participar de um seminário sobre marxismo, mas queria ouvi-lo falar sobre ciência e tecnologia, e, sem que eu perguntasse nada que pudesse remetê-lo ao tema, em pouco tempo ele começou a falar sobre a conexão entre homens e máquinas e como ela acaba questionando nossa noção de livre-arbítrio, colocando em xeque até mesmo a possibilidade de não ser o nosso consciente quem decide as escolhas que fazemos em nosso dia a dia. Justamente o tema da capa desta edição.
A matéria, escrita pelo colaborador Rafael Tonon, foi conduzida por Priscilla Santos, uma das editoras da revista, que também tomou conta de outra grande matéria desta edição, a tradução que fizemos da reportagem que a revista norte–americana Wired fez sobre o sucesso dos chamados TEDx. Essas conferências-satélite são filhotes do evento-mãe TED (acrônimo para Tecnologia Entretenimento e Design), que acontece há décadas nos EUA, mas que desde 2006 começou a se espalhar: primeiro via web, com íntegras de suas curtas palestras em vídeo, e depois para o mundo offline, por meio dessas franquias que se espalharam por todo o planeta — inclusive por aqui. E aí outra coincidência da edição: o marido de Priscilla, Helder Araújo, não só assiste há seis anos as conferências originais nos EUA como também ajudou a organizar o primeiro TEDx no Brasil, em São Paulo, além do TEDx na Amazônia. Assim, foi inevitável o chamarmos para dar um depoimento que daria um sabor pessoal e brasileiro à matéria estrangeira.
Aproveito a deixa da colaboração do casal na revista para parabenizá-los em público por outra colaboração dos dois, já que em breve serão pais. Congratulações a eles.
Esta edição também é a última que conta com a participação do editor Diogo Sponchiato, que deixou o Jaguaré rumo aos velhos “novos desafios”. Boa sorte, Diogo!
Por aqui, seguimos mudando. Sempre, afinal, as novidades não param. Vamos lá!
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br