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BBC escolhe as 100 melhores comédias da história do cinema – e eu reproduzi a lista com os títulos em português (e algumas cenas hilárias) no meu blog no UOL.

Senta que lá vem lista! A emissora britânica BBC resolveu fazer uma enquete com críticos de cinema de todo o mundo para descobrir quais são as cem comédias mais importantes de todos os tempos e o resultado é uma lista respeitável e, claro, controversa. Afinal de contas, infelizmente comédias são itens raros em listas de melhores filmes de todos os tempos, basicamente por serem desmerecidas como uma espécie de subgênero cinematográfico, como se rir fosse uma reação menos racionalizada ou intelectual do que aquelas provocadas pelos filmes ditos sérios. Mas basta passar os olhos pela centena de filmes abaixo para ver que inúmeros clássicos do cinema são feitos para nos fazer sorrir, rir e gargalhar – e em vários casos chorar de rir. Há, claro, polêmicas relacionadas a filmes que teoricamente não são comédias, mas o resultado final é um senhor exemplo da importância do gênero no cânone cinematográfico – e nosso débito com filmes hilários que mudaram nossas vidas. O link para a lista original está aqui e neste outro link você vê como cada crítico votou.

100) (empate) O Rei da Comédia (Martin Scorsese, 1982)
100) O Terror das Mulheres (Jerry Lewis, 1961)
99) O Panaca (Carl Reiner, 1979)
98) Se Beber, Não Case (Todd Phillips, 2009)
97) Caixa de Música (James Parrott, 1932)
96) Nascida Ontem (George Cukor, 1950)
95) Os Caça-Fantasmas (Ivan Reitman, 1984)
94) Rushmore: Três é Demais (Wes Anderson, 1998)
93) South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (Trey Parker, 1999)
92) O Anjo Exterminador (Luis Buñuel, 1962)
91) Essa Pequena é uma Parada (Peter Bogdanovich, 1972)
90) O Caçador de Dotes (Elaine May, 1971)
89) As Pequenas Margaridas (Vera Chytilová, 1966)
88) Zoolander (Ben Stiller, 2001)

87) Os Homens Preferem as Loiras (Howard Hawks, 1953)
86) As Oito Vítimas (Robert Hamer, 1949)
85) Amarcord (Federico Fellini, 1973)
84) Esperando o Sr. Guffman (Christopher Guest, 1996)
83) O Homem Mosca (Fred C Newmeyer e Sam Taylor, 1923)
82) Top Secret! Super Confidencial (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, 1984)
81) Quem Vai Ficar Com Mary? (Bobby e Peter Farrelly, 1998)
80) Como Enlouquecer seu Chefe (Mike Judge, 1999)

79) O Jantar dos Malas (Francis Veber, 1998)
78) A Princesa Prometida (Rob Reiner, 1987)
77) Divórcio à Italiana (Pietro Germi, 1961)
76) Sócios no Amor (Ernst Lubitsch, 1933)
75) Mulher de Verdade (Preston Sturges, 1942)
74) Trocando as Bolas (John Landis, 1983)
73) O Professor Aloprado (Jerry Lewis, 1963)
72) Corra Que a Polícia Vem Aí! (David Zucker, 1988)

71) Os Excêntricos Tenenbaums (Wes Anderson, 2001)
70) Conversa Truncada (Armando Iannucci, 2009)
69) A Última Noite de Bóris Grushenko (Woody Allen, 1975)
68) Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939)
67) Filhos do Deserto (William A Seiter, 1933)
66) Chumbo Grosso (Edgar Wright, 2007)

65) Clube dos Pilantras (Harold Ramis, 1980)
64) Quase Irmãos (Adam McKay, 2008)
63) Esse Mundo é um Hospício (Frank Capra, 1944)
62) O que Fazemos nas Sombras (Jemaine Clement e Taika Waititi, 2014)
61) Team America: Detonando o Mundo (Trey Parker, 2004)
60) Todo Mundo Quase Morto (Edgar Wright, 2004)
59) Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)
58) Zelig (Woody Allen, 1983)
57) Meninas Malvadas (Mark Waters, 2004)
56) Nos Bastidores da Notícia (James L. Brooks, 1987)
55) O Melhor do Show (Christopher Guest, 2000)
54) Ensina-me a Viver (Hal Ashby, 1971)
53) Os Irmãos Cara de Pau (John Landis, 1980)

52) Irene, a Teimosa (Gregory La Cava, 1936)
51) Sete Oportunidades (Buster Keaton, 1925)
50) Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Pedro Almodóvar, 1988)
49) O Discreto Charme da Burguesia(Luis Buñuel, 1972)
48) Ladrão de Alcova (Ernst Lubitsch, 1932)
47) Clube dos Cafajestes (John Landis, 1978)

46) Pulp Fiction – Tempos de Violência (Quentin Tarantino, 1994)
45) Os Eternos Desconhecidos (Mario Monicelli, 1958)
44) Missão Madrinha de Casamento (Paul Feig, 2011)
43) M*A*S*H (Robert Altman, 1970)
42) Cupido é Moleque Teimoso (Leo McCarey, 1937)
41) Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Larry Charles, 2006)
40) Primavera para Hitler (Mel Brooks, 1967)
39) Uma Noite na Ópera (Sam Wood e Edmund Goulding, 1935)
38) Núpcias de Escândalo (George Cukor, 1940)
37) Contrastes Humanos (Preston Sturges, 1941)
36) Um Peixe Chamado Wanda (Charles Crichton e John Cleese, 1988)
35) Cantando na Chuva (Stanley Donen e Gene Kelly, 1952)
34) As Patricinhas de Beverly Hills (Amy Heckerling, 1995)
33) O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy (Adam McKay, 2004)
32) Arizona Nunca Mais (Joel e Ethan Coen, 1987)

31) Tootsie (Sydney Pollack, 1982)
30) As Férias do Senhor Hulot (Jacques Tati, 1953)
29) Harry & Sally: Feitos um para o Outro (Rob Reiner, 1989)
28) Aconteceu Naquela Noite (Frank Capra, 1934)
27) Se Meu Apartamento Falasse (Billy Wilder, 1960)
26) Meu Tio (Jacques Tati, 1958)
25) A Corrida do Ouro (Charlie Chaplin, 1925)
24) Os Desajustados (Bruce Robinson, 1987)
23) Um Convidado Bem Trapalhão (Blake Edwards, 1968)
22) O Jovem Frankenstein (Mel Brooks, 1974)
21) Luzes da Cidade (Charlie Chaplin, 1931)
20) Banzé no Oeste (Mel Brooks, 1974)
19) As 3 Noites de Eva (Preston Sturges, 1941)
18) Bancando o Águia (Buster Keaton, 1924)
17) Levada da Breca (Howard Hawks, 1938)
16) O Grande Ditador (Charlie Chaplin, 1940)
15) Monty Python e o Cálice Sagrado (Terry Gilliam e Terry Jones, 1975)

14) Jejum de Amor (Howard Hawks, 1940)
13) Ser ou Não Ser (Ernst Lubitsch, 1942)
12) Tempos Modernos (Charlie Chaplin, 1936)
11) O Grande Lebowski (Joel e Ethan Coen, 1998)
10) A General (Clyde Bruckman e Buster Keaton, 1926)
9) Isto É Spinal Tap (Rob Reiner, 1984)

8) Playtime – Tempo de Diversão (Jacques Tati, 1967)
7) Apertem os Cincos, O Piloto Sumiu! (Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, 1980)
6) A Vida de Brian (Terry Jones, 1979)
5) O Diabo a Quatro (Leo McCarey, 1933)
4) Feitiço do Tempo (Harold Ramis, 1993)
3) Noive Neurótico, Noiva Nervosa (Woody Allen, 1977)

2) Dr. Fantástico ou: Como eu Aprendi a Parar de Me Preocupar e Amar a Bomba
(Stanley Kubrick, 1964)
1) Quanto Mais Quente Melhor (Billy Wilder, 1959)

Tem algum faltando? Sobrando? Que outro merecia estar na lista? E a ordem, quem merecia ter mais destaque?

Escrevi sobre a morte de Jerry Lewis para meu blog no UOL, explicando como ele foi crucial para o reconhecimento da figura do nerd na cultura popular do século 20.

Quem hoje encontra prateleiras inteiras de quadrinhos nas livrarias, discute ficção científica em festivais dedicados ao tema, compra brinquedos que trata como obras de arte e endossa produções cinematográficas bilionárias de antigas editoras de super-herói não sabe o débito que tem com Jerry Lewis. Mais que um dos grandes humoristas norte-americanos do século passado e um popstar no sentido clássico do termo, o ator e diretor que morreu neste domingo também foi o primeiro nome a dar voz a um personagem calado na maioria das histórias. Bem antes de Stan Lee, Robert Crumb, George Lucas ou Daniel Clowes, foi Lewis quem identificou e encarnou um novo protagonista que surgia nos cantos escuros da então novíssima cultura pop: o nerd.

A partir do meio do século 20, feios tímidos, CDFs que não tiravam a cara dos livros e adolescentes com dificuldades de traquejo social encontraram na cultura popular produzida para as massas refúgios onde poderiam se recolher do campeonato de disputas sociais da puberdade. Entre revistas em quadrinhos, livros e filmes de ficção científica e fantasia, desenhos animados, programas de rádio, uma incipiente pornografia, LPs e compactos e jogos de tabuleiros, uma nova tribo se reunia longe do desfile de popularidade que a juventude se tornara. Jerry Lewis entendeu aquele novo público quase instintivamente, criando um personagem inédito para a cultura pop.

Bobo, desajeitado e ressabiado, Lewis não tinha um único personagem, encarnando diferentes tipos que sempre encaixavam-se no seu tipo de humor, que ao mesmo tempo era corporal e infantil. Seu jeito desengonçado de se mover, os movimentos caricaturais de seu rosto e a voz mole (e aqui vale um salve para o dublador Nelson Batista, falecido em 1997, que abrasileirou perfeitamente a fala de Lewis nas sessões da tarde da vida) forjavam aquele novo tipo social, que apesar da ascendência circense do palhaço, devia mais à primeira geração de ouro dos desenhos animados. O nerd desenhado por Lewis era um herdeiro direto e humanizado de Mickey Mouse, o Gato Félix, Pernalonga e Picapau.

Ao contrapor-se ao sub-Frank Sinatra Dean Martin, esta caricaturização ficava ainda mais evidente. Dean Martin era o galã de fala mansa, que chegava fácil nas moças e sempre saía-se bem usando seu charme e papo furado. Jerry Lewis não tinha essa facilidade. Enfeiava-se para mostrar como nem tudo era moleza quase saía-se bem era através da doçura ou da inteligência. Na hora de falar gaguejava, na hora de ser firme, retraía-se.

Seu grande momento, claro, é O Professor Aloprado, obra-prima que dirigiu em 1963, ao adaptar O Médico e o Monstro para a universidade. Ao vestir-se com o nerd mais caricato possível, o professor Julius Kelp, Lewis cria uma fórmula que o transforma em um galã, o narcisista Buddy Love, que muitos imaginaram ser uma crítica a seu velho comparsa de filmes, Dean Martin. Mas era uma autocrítica: Lewis sabia que se ele fosse o astro bem sucedido que gostariam que ele fosse, se tornaria um sujeito tão desprezível quanto aqueles ídolos juvenis que desprezara.

E assim ao mesmo tempo em que consagrava um arquétipo próprio do século vinte, carregava uma horda de fãs que não apenas riam dele, mas também de si próprios, ao se identificarem naquele personagem ímpar, que tornou-se molde para inúmeros ícones posteriores. De coadjuvantes célebres como Spock, C3PO, Dana Scully, Carlton Banks, Lisa Simpson, Ross Geller, Willow Rosenberg, Hiro Nakamura e Cameron Frye a protagonistas de A Vingança dos Nerds, Ghostworld, Freaks & Geeks, American Pie, The It Crowd, Superbad, Mr. Robot, Big Bang Theory e Silicon Valley, gerações inteiras foram influenciadas pela criação cinematográfica de Lewis.

A força de sua influência pode ser resumida em uma cena que não tem nenhuma participação direta sua, mas que conecta nerds de diferentes gerações através da cultura pop. Em uma cena do clássico seriado Freaks & Geeks, o personagem de Martin Starr, Bill Haverchuck, um nerd arquetípico, está em mais uma crise pessoal ao descobrir que sua mãe está saindo com seu professor de educação física. Ao som de “I’m One”, do grupo The Who (que abre com os versos “Sou um perdedor/ Sem chance de ganhar”), ele faz um sanduíche e vai assistir TV onde se encontra com o Garry Shandling e conecta-se com ele através do humor, fazendo-o esquecer momentaneamente de sua vida medíocre e conectando-o com o sublime.

Tenho certeza que muitos tiveram uma conexão parecida com Jerry Lewis. Afinal, ele foi um dos primeiros a ver que aquelas pessoas precisavam de companhia, de reconhecimento, de atenção. Eu mesmo não posso deixar de de agradecê-lo. Obrigado, Jerry Lewis.

jerrylewis

Morre um dos ícones do humor no cinema norte-americano – e um ídolo pessoal.

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Republiquei no meu blog do UOL o já clássico último show só ao piano do mito pop que morreu no ano passado.

Há quase um ano e meio, após o anúncio da morte de Prince, publiquei aqui a íntegra do último show que ele fez no Teatro Fox, em Atlanta, nos EUA, onze dias antes de sua morte, no dia 14 de abril do ano passado. Mas o áudio não ficou muito tempo online – e voltou a aparecer de novo esses dias, num vídeo no YouTube. Tudo bem que não tem as imagens do show, mas aperte o play e deixe rolar essa hora e meia dos seus maiores hits – e músicas menos conhecidas do grande público, além de algumas versões para músicas de outros artistas, como Staple Singers, Vince Guaraldi e Bob Marley – com o príncipe púrpura entregando-se à sua obra apenas ao piano. É de chorar.

Eis o repertório dessa noite histórica:

“When Will We Be Paid”, The Staple Singers
“The Max”
“Black Sweat”
“Girl”
“All Day, All Night”, Jill Jones
“I Would Die 4 U”
“Baby I’m a Star”
“The Ballad of Dorothy Parker”
“Eye Love U, But Eye Don’t Trust U Anymore”
“Little Red Corvette” / “Dirty Mind” “Linus and Lucy”, Vince Guaraldi
“Nothing Compares 2 U”

Primeiro bis:
“Cream”
“Black Muse”
“How Come U Don’t Call Me Anymore”

Segundo bis:
“Waiting in Vain”, Bob Marley & The Wailers
“If I Was Your Girlfriend”

Terceiro bis:
“Sometimes It Snows in April”
“Purple Rain” / “The Beautiful Ones” / “Diamonds and Pearls”

david-bowie-livro

A personalidade do mítico popstar reflete-se na escolha de seus 100 livros favoritos de sua biblioteca, lista que republiquei em meu blog no UOL.

Uma biblioteca talvez seja uma das melhores formas de entrar dentro da cabeça de qualquer pessoa – e quando essa pessoa é David Bowie, conhecer suas leituras é a porta de entrada para uma viagem e tanto. Geoffrey Marsh e Victoria Broackes, curadores da exposição David Bowie Is, que agora chega à Art Gallery of Ontario, no Canadá, acabam de revelar uma lista contendo uma centena de livros que figuram entre os favoritos do ícone pop que morreu em janeiro do ano passado. É uma lista de fôlego considerável, tanto em termos de variedade de temas quanto sobre profundidade dos assuntos, reunindo livros sobre política, psicologia, história, arte, sociedade, religião, música, comportamento e clássicos da literatura, como a Ilíada de Homero, o Inferno da Divina Comédia de Dante, 1984 de George Orwell, O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald e Pé na Estrada, de Jack Kerouac. Mas saltam à vista livros sobre crítica cultural (de Charlie Gillete, Otto Friedrich, George Steiner e Colin Wilson), cultura pop (como os de Jon Savage, Greil Marcus e Nik Cohn), sobre magia (os de Edward Bulwer-Lytton, Elaine Pagels e Eliphas Lévi), revistas de humor e de quadrinhos, ousados romances contemporâneos de autores como Richard Cork, Don DeLillo, Julian Barnes, Martin Amis, Ian McEwan, Michael Chabon e Anthony Burgess, além do curioso Nova Técnica de Convencer: Persuasão oculta, domínio do público pelo subconsciente, sugestão subliminar, um item interessante dentro da biblioteca de um mestre do convencimento global. Consegui encontrar algumas versões em português para alguns livros citados, mas parte deles não foi lançada em nosso idioma. Se alguém encontrar alguma versão em português para algum livro mencionado em inglês, por favor acrescente nos comentários. E se quiser ver a lista original basta acessar o site da revista canadense Open Book:

The Age of American Unreason – Susan Jacoby (2008)
A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao – Junot Diaz (2007)
The Coast of Utopia (trilogia) – Tom Stoppard (2007)
A Criação da Juventude – Jon Savage (2007)
Na Ponta dos Dedos – Sarah Waters (2002)
O Julgamento de Kissinger – Christopher Hitchens (2001)
Mr. Wilson’s Cabinet of Wonder – Lawrence Weschler (1997)
Tragédia de um Povo: A Revolução Russa 1891-1924 – Orlando Figes (1997)
O Ataque – Rupert Thomson (1996)
Garotos Incríveis – Michael Chabon (1995)
O Pintor de Pássaros – Howard Norman (1994)
Kafka Was The Rage: A Greenwich Village Memoir – Anatole Broyard (1993)
Beyond the Brillo Box: The Visual Arts in Post-Historical Perspective – Arthur C. Danto (1992)
Personas Sexuais: Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson – Camille Paglia (1990)
David Bomberg – Richard Cork (1988)
Sweet Soul Music: Rhythm and Blues and the Southern Dream of Freedom – Peter Guralnick (1986)
O Rastro dos Cantos – Bruce Chatwin (1986)
Duplo Diabólico – Peter Ackroyd (1985)
Nowhere To Run: The Story of Soul Music – Gerri Hirshey (1984)
Noites no circo – Angela Carter (1984)
Grana – Martin Amis (1984)
Ruído Branco – Don DeLillo (1984)
O Papagaio de Flaubert – Julian Barnes (1984)
A Vida e a Época de Little Richard – Charles White (1984)
A People’s History of the United States – Howard Zinn (1980)
Uma confraria de Tolos – John Kennedy Toole (1980)
Entrevistas com Francis Bacon – David Sylvester (1980)
Darkness at Noon – Arthur Koestler (1980)
Poderes Terrenos – Anthony Burgess (1980)
Raw (revista em quadrinhos) (1980-91)
Viz (revista) (1979 –)
Os evangelhos gnósticos – Elaine Pagels (1979)
Metropolitan Life – Fran Lebowitz (1978)
In Between the Sheets – Ian McEwan (1978)
Escritores em Ação – As famosas entrevistas à Paris Review – editado por Malcolm Cowley (1977)
The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind – Julian Jaynes (1976)
Tales of Beatnik Glory – Ed Saunders (1975)
Mystery Train – Greil Marcus (1975)
Selected Poems – Frank O’Hara (1974)
Antes do Dilúvio: Um retrato da Berlim nos anos 20 – Otto Friedrich (1972)
No Castelo do Barba Azul: Algumas notas para a redefinição da cultura – George Steiner (1971)
Octobriana and the Russian Underground – Peter Sadecky (1971)
The Sound of the City: The Rise of Rock and Roll – Charlie Gillete (1970)
Em Busca de Christa T. – Christa Wolf (1968)
Awopbopaloobop Alopbamboom: The Golden Age of Rock – Nik Cohn (1968)
O Mestre e Margarida – Mikhail Bulgakov (1967)
Journey into the Whirlwind – Eugenia Ginzburg (1967)
Última Saída Para o Brooklyn – Hubert Selby Jr. (1966)
A Sangue Frio – Truman Capote (1965)
As Cidades da Noite – John Rechy (1965)
Herzog – Saul Bellow (1964)
Puckoon – Spike Milligan (1963)
The American Way of Death – Jessica Mitford (1963)
O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar – Yukio Mishima (1963)
Da Próxima Vez, o Fogo: Racismo nos EUA – James Baldwin (1963)
Laranja Mecânica – Anthony Burgess (1962)
Dentro da Baleia e outros ensaios – George Orwell (1962)
A Primavera da Srta. Jean Brodie – Muriel Spark (1961)
Private Eye (revista) (1961 –)
On Having No Head: Zen and the Rediscovery of the Obvious – Douglas Harding (1961)
Silence: Lectures and Writing – John Cage (1961)
Strange People – Frank Edwards (1961)
O Eu Dividido: Estudo Existencial da Sanidade e da Loucura – R. D. Laing (1960)
All The Emperor’s Horses – David Kidd (1960)
Billy Liar – Keith Waterhouse (1959)
O Leopardo – Giuseppe Di Lampedusa (1958)
Pé na Estrada – Jack Kerouac (1957)
Nova Técnica de Convencer: Persuasão oculta, domínio do público pelo subconsciente, sugestão subliminar – Vance Packard (1957)
Almas em Leilão – John Braine (1957)
A Grave for a Dolphin – Alberto Denti di Pirajno (1956)
O Outsider: O Drama Moderno da Alienação e da Criação – Colin Wilson (1956)
Lolita – Vladimir Nabokov (1955)
1984 – George Orwell (1948)
The Street – Ann Petry (1946)
Black Boy – Richard Wright (1945)
The Portable Dorothy Parker – Dorothy Parker (1944)
O Estrangeiro – Albert Camus (1942)
O Dia do Gafanhoto – Nathanael West (1939)
The Beano (quadrinhos) (1938 –)
O Caminho para Wigan Pier – George Orwell (1937)
Os destinos do Sr. Norris – Christopher Isherwood (1935)
English Journey – J.B. Priestley (1934)
Infants of the Spring – Wallace Thurman (1932)
The Bridge – Hart Crane (1930)
Vile Bodies – Evelyn Waugh (1930)
Enquanto Agonizo – William Faulkner (1930)
Paralelo 42 – John Dos Passos (1930)
Berlim Alexanderplatz – Alfred Döblin (1929)
Passing – Nella Larsen (1929)
O Amante De Lady Chatterley – D.H. Lawrence (1928)
O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald (1925)
A Terra Devastada – T.S. Eliot (1922)
BLAST – editado por Wyndham Lewis (1914-15)
McTeague: Uma história de S. Francisco – Frank Norris (1899)
Dogma e Ritual da Alta Magia – Eliphas Lévi (1896)
Os Cantos de Maldoror – Lautréamont (1869)
Madame Bovary – Gustave Flaubert (1856)
Zanoni – Edward Bulwer-Lytton (1842)
Inferno, da Divina Comédia – Dante Alighieri (1308-1321)
A Ilíada – Homero (800 a.C.)

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Lee Ranaldo produzindo a banda Animal Interior, em Brasília (Foto: Gustavo Galvão /Divulgação)

Conversei com o Lee Ranaldo, que se apresenta nesta quinta-feira no Sesc Bom Retiro, sobre Brasília, o filme que ele veio fazer no Brasil, o novo disco que ainda nem saiu, a fase acústica e, claro, Sonic Youth. Tudo lá no meu blog no UOL.

Encontrei-me com Lee Ranaldo, guitarrista do Sonic Youth que atualmente atravessa o país em turnê solo, em minha cidade-natal, Brasília, poucos dias após ele ter chegado na cidade. Antes de começar a turnê, que passa por São Paulo nesta quinta-feira, com show no Sesc Bom Retiro, ele foi convidado a passar alguns dias na capital produzindo uma banda fictícia chamada Animal Interior para um filme nacional, Ainda Temos a Imensidão da Noite, dirigido pelo brasiliense Gustavo Galvão. “Quando estive aqui em setembro do ano passado, uma garota veio me falar que estava participando de uma banda que faria parte de um filme que se passava em Brasília e em Berlim, dizendo que estava procurando alguém para produzir a banda e me convidou em nome do diretor”, lembra o eternamente grisalho guitarrista, em uma conversa num dos hotéis mais antigos do Setor Hoteleiro de Brasília.

“Na superfície, o filme é sobre esta banda, mas, pelo que entendi, no fundo, é uma forma de falar sobre o estado atual da vida política no Brasil, como as coisas estão acontecendo aqui, como os jovens entendem isso”, explica o guitarrista, em Brasília pela segunda vez. Ele é fascinado pela capital brasileira desde os tempos do Sonic Youth e lamenta não ter conhecido a cidade anteriormente. “Demorou muito tempo para o Sonic Youth vir para o Brasil, nos anos 80 e nos anos 90 era muito difícil vir para cá, isso começou a mudar no fim dos anos 90, começo da década passada, e nós finalmente conseguimos vir e começamos a vir cada vez mais, mas quando o Sonic Youth vinha pra cá, ele nunca ia pra Brasília, era sempre Rio e São Paulo. E eu realmente gosto daqui, amo vir para o Brasil e aqui sempre me fascinou, tanto o país quanto as pessoas. E eu realmente gosto de arquitetura, sempre admirei o trabalho de Niemeyer e sempre ia ver seus prédios em outras cidades, mas não conhecia Brasília. Então quando houve a possibilidade de vir pra Brasília no ano passado, ainda calhou de conseguir ser o primeiro show da turnê e consegui vir uns três dias antes, pra ver todos os prédios. E agora voltar e ficar dez dias é muito satisfatório. Sempre soube sobre Brasília, por anos eu sempre quis vir pra cá no Brasil, não só por causa dos prédios, claro, mas também por ser uma cidade planejada e nascida no nada, no meio da savana ou como vocês chamam aqui.” “Cerrado”, corrijo-o.

“A primeira vez que vim para cá fiquei nessa mesma região e uma das primeiras coisas que fiz foi subir na Torre de TV para ver a cidade de cima e o que me surpreendeu é que não era uma cidade para quem anda. Eu não tinha percebido isso. Quando você passa pela Esplanada e vê os prédios, você acha que consegue andar por todos eles, mas não, é muito longe, e percebi que era uma cidade feita para os carros. Quase de propósito, desde o começo, para carros. É muito interessante dirigir aqui, porque foi feita para dirigir, as curvas arredondadas para entrar nas quadras. Ainda estou explorando-a. A coisa das asas do avião que são onde ficam as casas que as pessoas moram e o corpo do avião ser formado pelos prédios do governo. E eu amo o clima desértico, seco. Estive no Napa Valley, na Califórnia, e o clima é meio parecido, muito seco e quente de dia, muito frio de noite. É o tipo de clima que eu gosto.”

Lee Ranaldo e o diretor Gustavo Galvão acompanham a gravação da trompetista Ayla Gresta (Foto: Cristiane Oliveira/Divulgação)

Lee Ranaldo e o diretor Gustavo Galvão acompanham a gravação da trompetista Ayla Gresta (Foto: Cristiane Oliveira/Divulgação)

Lee explica melhor o trabalho que veio fazer na cidade. “Não foi compor a trilha sonora e sim produzir a banda. Estou produzindo tanto o disco da trilha sonora, por assim dizer, quanto o som quando eles tocam no filme. Outras pessoas compuseram as músicas e estou trabalhando com eles em relação a extrair o melhor som destas canções, mexendo na estrutura. Eles começam a filmar em setembro, por isso que eles querem as músicas antes. São cinco músicas, três em português e duas são instrumentais.”

O diretor Gustavo explica melhor a lógica por trás da vinda de Lee para seu filme. “A ideia era montar uma banda para o filme, no início tudo se resumia a isso. Com o tempo reparei que precisava de um produtor musical, alguém que tirasse o melhor desses músicos e desse um toque especial para a banda. Sabia muito bem o que eu queria com a banda e o Sonic Youth era uma das referências imediatas para mim. Foi natural começar a pensar no Lee ou no Thurston Moore como possibilidades”.

Ele continua contando que o convite aconteceu quase por acaso. “Já havia comentado com a Ayla (Gresta, vocalista e trompetista da banda) sobre o desejo de ter Lee ou Thurston no projeto. Na noite de 9 de setembro de 2016, ela foi ao show do Lee em Brasília e mandou um whatsapp com um vídeo do show. ‘Fala com ele do filme!’, respondi no mesmo minuto. Ela foi ao camarim, falou do projeto e ele abraçou a ideia desde o primeiro instante. Muitas coisas o motivaram a vir: o formato não-convencional da banda – com uma trompetista para quebrar o padrão baixo-guitarra-bateria – foi um deles, assim como o vínculo do projeto com Brasília, cidade que ele gosta muito, e a particularidade de fazer um filme sobre músicos com músicos nos papéis principais. Sinto que ele embarcou mesmo quando me perguntou certa vez, em um Skype: ‘Vai ter cenas com esses músicos tocando por tocar?’. Eu disse que sim e ele falou: ‘Legal, estou dentro’.” Além de Ayla, a banda conta com Gustavo Halfeld na guitarra, Vanessa Gusmão no baixo e Hélio Miranda na bateria, tocando músicas compostas por Munha da 7 (da banda Satanique Samba Trio) e Nicolau Andrade, com letras do diretor e da vocalista. Uma vez que a trilha ficou pronta, os próximos passos do filme são as filmagens, que acontecem em setembro em Brasília e em outubro em Berlim. “Teremos um ano de finalização pela frente depois disso. O lançamento acontecerá em 2019, primeiro em festivais e depois no circuito comercial”, conta o diretor, sobre seu terceiro filme.

Lee Ranaldo, o guitarrista Gustavo Halfeld, a baixista Vanessa Gusmão e o diretor Gustavo Galvão na bateria (Foto: Cristiane Oliveira/Divulgação)

Lee Ranaldo, o guitarrista Gustavo Halfeld, a baixista Vanessa Gusmão e o diretor Gustavo Galvão na bateria (Foto: Cristiane Oliveira/Divulgação)

A turnê que Lee faz pelo Brasil começou sábado em Ribeirão Preto, passou por Curitiba no domingo, segunda no Rio e nesta quarta passa por Belo Horizonte para terminar no show do Sesc Bom Retiro em São Paulo nesta quinta, cujos ingressos já estão esgotados. Ele toca sozinho apenas com um violão, um formato que foge da fama de músico experimental que o acompanha desde os tempos do Sonic Youth, cantando canções em vez de improvisar instrumentais, padrão que vem determinando sua carreira solo desde o fim da banda, em 2011.

“Meu primeiro disco solo, Between the Times and the Times, foi feito no ano antes do fim do Sonic Youth. Tínhamos gravado nosso último disco, The Eternal, e estávamos excursionando com esse disco e entre as turnês tínhamos dois meses aqui, dois meses ali e eu comecei a fazer essas músicas. Eu sempre tinha escrito músicas e deixado-as em segundo plano, gravado em fitas e esquecido-as em gavetas”, lembra o músico. “Quando chegou nesse ponto eu pensei que era hora de colocá-las para fora e fazer meu disco solo. E comecei a juntá-las e a gravá-las quando o Sonic Youth não estava gravando e de repente tudo aquilo aconteceu com Thurston e Kim (Thurston Moore e Kim Gordon, fundadores da banda, eram um casal e o fim da relação dos dois fez a banda terminar), eles se separaram e a banda acabou. Foi estranho porque na hora em que a banda terminou eu tinha aquele disco de canções pronto. Fiquei feliz que não foi aquela situação em que a banda termina e você tem que gravar um disco solo. Quando a banda acabou eu tinha o disco solo feito. Eu achei que fosse apenas lançá-lo e não teria tempo para tocá-lo ao vivo porque o Sonic Youth iria me manter ocupado. E aí o Sonic Youth acabou e eu fui montar a minha banda.”

Violão experimental
Ele pensa sobre a importância de abraçar canções tradicionais do ponto de vista de um músico de vanguarda. “Eu tenho uma longa história com música experimental, continuo fazendo muitas coisas improvisadas e experimentais com outros músicos, o trabalho que faço com a minha esposa, Leah Singer, com a projeção de filmes e a guitarra pendurada, é bem experimental. Eu amo fazer isso. Mas acho que já estava na hora de fazer um disco solo assim. E uma das coisas que também fez esse disco acontecer foi um amigo meu na França, que promove shows, me pediu para tocar em um festival que eles estavam fazendo no sul da França e ele me pediu para fazer o show solo acústico. E eu nunca tinha feito isso desde que o Sonic Youth começou, embora eu tenha começado a tocar no violão. Então concordei em fazer isso, mas eu tinha que descobrir como tocar sozinho acústico, eu tinha aquelas músicas prontas, ia começar a fazer turnês, foi quando eu percebi que, para mim, tocar acústico e sozinho era uma coisa muito experimental. E foi assim que eu abordei isso. Comecei a brincar que o show era de um ‘cantor folk experimental’, porque eu não sou conhecido por isso e mesmo porque mesmo com o violão eu uso muitos pedais, uso amplificador de guitarra, não é nada puro. Eu toco de um jeito muito primitivo, mesmo apenas no violão, e isso é muito experimental. E toda essa progressão de trabalhar com canções, tem funcionado e tem sido muito experimental. É como uma saída pela esquerda. Sonic Youth sempre foi sobre canções por um lado e um lado experimental por outro. E eu tenho muita relação com a música experimental, mas quando o Sonic Youth terminou eu comecei a pensar qual seria minha relação sobre canções. Quis ter uma relação mais firme com isso. E quando comecei a tocar violão fiquei cada vez mais envolvido com as composições e na forma como as canções soam. E hoje eu toco basicamente violão. Ainda toco guitarra, mas tenho tocado cada vez mais violão. Quando estou compondo em casa é sempre no violão. Eu estou ficando muito fascinado com os instrumentos e estou comprando violões do mesmo jeito que o Sonic Youth comprava guitarras. Eu estou cheio de violões em casa, cada um deles é um indivíduo e tem sua personalidade e um tipo diferente de música nele.”

Lee Ranaldo tocará músicas de seus dois primeiros discos e do terceiro, Electric Trim, que ainda não foi lançado, gravado ao lado do músico e produtor espanhol Raül Fernández. “Quando fiz meu segundo disco Last Night on Earth, em 2013, ele foi realmente feito como um disco de banda. Eu trouxe as canções para gravar com a minha banda, então passamos alguns meses no estúdio tocando aquelas músicas juntos, acertando as coisas e quando estava na hora, quando sabíamos todas as músicas, colocamos os microfones nos lugares e fizemos o disco. Já esse disco novo é completamente diferente. Estava excursionando com a minha banda na Espanha e teríamos que ir a um festival maluco no Marrocos, mas em cima da hora a data caiu e eu fiquei uma semana inteira na Espanha sem ter o que fazer. E meu promotor na Espanha sugeriu fazer um disco acústico com a minha banda, com baixo acústico, e nós gravamos. E foi um disco gravado pelo selo do festival Primavera, que se chama Acoustic Dust. De certa forma é meu terceiro disco, apesar de só ter sido lançado na Espanha e ter músicas dos dois primeiros discos feitas de forma acústica, com algumas versões de músicas do Neil Young, Sandy Denny, Monkees… E eles chamaram esse cara chamado Raül Fernández, de Barcelona, para produzir o disco e nós tivemos uma boa relação juntos, eu não o conhecia. E no final ele falou que adoraria fazer um disco novo comigo, em vez de gravar músicas velhas.”

Estúdio como instrumento
Foi o início de uma relação que deu origem ao novo disco, um sonho que Lee queria realizar desde sempre. “É um projeto completamente fascinante, uma das coisas mais interessantes que eu já fiz. Foi feito de uma forma completamente diferente da forma que eu trabalho. Eu sempre sonhei em gravar um disco como aqueles discos clássicos dos anos 60, como Pet Sounds, Revolver… Em que eles usam o estúdio como sua principal ferramenta. Foi fascinante.”

Ele detalha como foi o trabalho com Raül: “Comecei a mandar demos gravadas no violão, sem vocais, bem cruas, e num dia 25 de abril ele me disse que estava indo para Nova York por algumas semanas e ele perguntou se eu não queria tentar algo com ele. E começamos a trabalhar, só nós dois e ficou claro imediatamente que algo ótimo estava acontecendo entre a gente. Então começamos a trabalhar juntos, então por cerca de um ano a cada mês ou a cada seis meses ele vinha pra Nova York e ficava umas semanas e trabalhávamos todos os dias e então ele voltava e nós ouvíamos um tanto e depois eu ia para lá…”

E continua: “Nós começávamos gravando coisas no violão e depois trabalhávamos na estrutura da música pelo computador. Raül não é um garoto, mas ele é mais jovem que eu, deve estar nos seus 40 e poucos anos, e por isso é mais versado nessas técnicas de gravação mais recentes. E então ele começava a por sons diferentes, bateria eletrônicas, ritmos diferentes, samples, percussões… E do nada as canções cresciam. E durante essas semanas tentávamos coisas diferentes: piano, guitarra elétrica, órgão, marimba, pandeiro, o que vier… E à medida em que as canções ficavam mais prontas nós começamos a chamar mais gente, os caras do Dust, Steve Shelley, Alan Licht, Tim Luntzel, Niels Cline, Sharon Van Etten canta seis canções, incluindo uma música que dividimos vocais, Kill Millions da banda Oneida toca bateria em algumas canções… Tem muita música tocada ao vivo no disco, mas também tem muita eletrônica, bateria eletrônica… E todo mundo que veio acrescentou coisas para as faixas que nós depois decidíamos em que canções iríamos usar. Usamos tudo de uma forma muito fluida, até os músicos eram apenas um dos elementos das faixas no estúdio. Há músicas que têm Steve Shelley na bateria da estrofe, Kid Millions na bateria do refrão e bateria eletrônica no trecho intermediário. Tudo estava ali para ser movido. Niels veio tocar em sete ou oito músicas e só gravamos quatro com eles. Com a Sharon usamos tudo que ela gravou. Nós construímos o disco dessa forma. Mixamos três músicas em Nova York e seis em Barcelona. Todo o disco foi feito de uma forma muito experimental, sem banda, bem diferente da forma como eu vinha trabalhando meus discos nem como fazia discos com o Sonic Youth, em que basicamente capturávamos o som da banda no estúdio. Foi um disco que eu sempre sonhei em fazer, onde você realmente usa o estúdio e manipula os gravadores.”

Outra mudança foi o acréscimo de outro parceiro para escrever as letras. “As letras de seis das nove músicas foram coescritas com um escritor norte-americano chamado Jonathan Lethem, que ele é bem conhecido nos EUA. Ele meio que tem a minha idade, um pouco mais novo, ele é um dos autores mais famosos nos EUA hoje, ele tem muitos livros conhecidos, como Motherless Brooklyn, The Fortress of Solitude… E ele também escreve muito sobre música, tem entrevistas bem importantes com nomes como Dylan, James Brown… Nós já nos conhecíamos e nos últimos discos eu percebia que queria ter mais alguém para colaborar comigo nas letras, queria alguém que me desse uma perspectiva diferente. Então embarquei nesse procedimento experimental com Jonathan, ele mora e dá aula na Califórnia, apesar de ele ser de Nova York. Eu propus para ele que fizéssemos isso em Nova York e ele topou. Falei algumas coisas pra ele, ele voltou pra Califórnia, e ficamos trocando coisas pra lá e pra cá. Foi um processo bem experimental.”

“Muitas canções começavam apenas com uma ideia, em alguns casos eram apenas dois ou três versos”, ele continua. “Então comecei a mandar para ele demos sem letras, só instrumentais, para ele ir escutando as músicas. Eu mandava letras para ele com espaços onde eu precisava de algumas palavras, alguns versos… E o resto da música não tinha nada ou só algumas sílabas sem sentido, só um blablabla cantado em que eu sabia da forma, da métrica, quantas sílabas, mas não tinha as palavras. E Jonathan é o cara das palavras e ele me retornava as letras com todos os espaços completos e eu cortava algumas coisas, reescrevia outras inspirado pelo que ele havia escrito e mandava de volta para ele. E íamos completando isso como um quebra-cabeças. Às vezes eu tinha a letra quase pronta, que precisava de alguns versos e ele me mandava, e às vezes ele me mandava uns versos que não cabiam em nenhuma canção, tipo ‘toma aí’. Em um caso ele me mandou quatro versos que eram inspirados em títulos de Edgar Allan Poe e me disse: ‘eu guardei esse versos na gaveta por vinte anos, eu sei que é algo especial, só não sei para que’ que imediatamente virou o refrão de uma música, deu totalmente o foco para a música. Assim que comecei a tentar cantar, soou perfeitamente.”

O processo de trabalho fluiu bem com o escritor. “Teve outra música que desenvolvemos mais para o fim, que eu gostava muito da música, mas não tinha ideia para letra, só para o refrão, mas o refrão e a estrofe eram muito diferentes e eu não sabia o que fazer com as estrofes. Minha ideia é que essa música tivesse uma cara meio faroeste hippie, nos anos 70, as pessoas de São Francisco começaram a fazer músicas com cara de músicas de velho oeste, como o Quicksilver Messenger Service, Renaldo and Clara e uma música que John Philips fez chamada ‘Me and My Uncle’, que foi gravada por Joni Mitchell e pelo Grateful Dead… Uma música que os hippies podiam tocar e usar chapéu de caubói, como os Eagles faziam, misturando a cultura do faroeste com a cultura fora da lei dos hippies. Eu queria que essa música tivesse essa conexão com o oeste. Era só uma ideia. Bem no começo, Jonathan me mandou umas letras que se chamava ‘Let the Skeleton Breathe’, que tinha essas letras estranhas sobre esqueletos, carne caindo do osso… Eu vi isso e parecia muito estranho, achei que não era pra mim. Não sabia, mas fazia parte de um livro que ele estava escrevendo na época, que acabou de sair, chamado A Gambler’s Anatomy. E no final do processo, estávamos quase terminando o disco e Raul me disse que embora eu tinha gostado daquela música não daria pra usar, porque ela não tinha letra, disse para esquecer e usar no próximo disco. E eu não queria deixá-la para trás, mas eu não queria fazer isso, porque ela acrescentava um som muito especial para o disco, que era muito diferente das outras músicas. Pensei que eu tinha que fazer algo e fui lá pegar aquelas letras estranhas do Jonathan. E elas se encaixaram perfeitamente no lugar, foi impressionante. Elas deram uma cara para a música e é uma das canções mais importantes do disco. A forma de fazer música e a mesma coisa aconteceu com as letras, foi um processo muito novo e experimental.”

Nunca diga nunca
Lee Ranaldo acha que não irá tocar músicas do Sonic Youth em seu show de São Paulo, já que sua carreira solo já conta com três discos. E aí é inevitável perguntar sobre uma possível volta da banda, que ele não descarta, mas não está pensando nisso agora. “Thurston, Kim e eu estamos todos super ocupados e super felizes, eu tenho contato com todos eles o tempo todo, vejo bastante Thurston e Steve, eles ainda moram em Nova York, eu e Thurston fizemos algumas coisas juntos, tocando em alguns shows juntos. Mas não estamos pensando em nada. Trinta anos foram ótimos, acabou. Ainda estamos ativos, ainda temos nosso estúdio, nossos equipamentos e estamos ocupados com relançamentos, material de arquivo e coisas do tipo. Para a gente ainda continua. Não há novos shows nem novas composições, mas o arquivo de trinta anos ainda tem muita coisa que a gente quer mostrar para os outros. Eu, Thurston e Kim estamos tão envolvidos no que estamos fazendo agora… E o Sonic Youth ainda informa o que estamos fazendo, estou fazendo artes visuais, uma nova exposição, foi fazer apresentações em algumas galerias, foi juntar coisas que escrevi para editoras, talvez um livro sobre minhas idas ao Marrocos nos anos 90. Todo mundo pergunta se vamos voltar a tocar juntos e só a Kim disse que nunca mais vamos tocar de novo, mas quem sabe? A minha sensação é que você nunca deve dizer nunca, porque até você morrer, tudo pode acontecer. Mas nenhum de nós está pensando nisso, não cogitamos. Eu não quero que aconteça agora, porque estou fazendo tantas coisas. E sempre que falam isso falam que a gente pode ganhar muito dinheiro e isso é a parte menos interessante dessa história. Nunca fizemos isso por dinheiro, não vamos fazer isso agora. Acho que se voltássemos, minha esperança era voltar com músicas novas, pra ver se ainda havia motivo para tocarmos juntos. Não voltar para tocar ‘Teenage Riot’ e ‘Kool Thing’ de novo. Tantas bandas fizeram isso, não vou mencionar quais, que só tocam as mesmas músicas antigas e isso é bem chato. E veja o Dinosaur Jr, que resolveram todos os problemas pessoais que tinham e estão fazendo discos novos e não têm que se preocupar com isso, são uma banda com uma nova carreira. Se o Sonic Youth voltasse, gostaria que fosse assim.”

E ele sabe da importância do grupo no país. “Nós temos uma relação muito especial com o Brasil, muito também pelo fato do último show ter sido aqui. Sabemos da influência da banda por aqui”, termina, sorrindo.

Velvet-Underground

O diretor indie Todd Haynes, que dirigiu Velvet Goldmine e Eu Não Estava Lá, contará a história do Velvet Underground, a banda mais influente do rock independente, usando apenas imagens de época – publiquei trechos da entrevista que ele deu sobre o assunto no meu blog no UOL.

No ano em que seu mítico primeiro disco completa meio século de vida, o grupo norte-americano Velvet Underground vai ter sua curta saga levada às telas de cinema. O diretor Todd Haynes irá contar a história do grupo criado por Lou Reed e John Cale e hypado por Andy Warhol usando apenas imagens de arquivo, como revelou em entrevista à revista Variety.

Diretor de filmes independentes de sucesso como Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015), Haynes disse que seu novo filme irá “ser baseado em alguns filmes de Wahrol mas também na rica cultura do filme experimental, um vernáculo que perdemos e não mais o possuímos e que cada vez mais o vemos sendo removido de nós”, disse o diretor em entrevista dada durante sua participação no festival de cinema de Locarno, na Itália.

Um dos grupos mais influentes da história da música pop, o Velvet Underground foi fundado em Nova York pelo poeta e compositor de aluguel Lou Reed e pelo músico erudito John Cale, que fundaram uma banda de rock que tinha o compromisso de nunca fazer concessões. O grupo passou a compor sobre sexo, drogas e violência tocando músicas com poucos acordes e com um som muito alto em moquifos de Nova York até ser descoberto pelo artista plástico Andy Warhol, que apadrinhou a banda. Nos braços de Warhol, o grupo conseguiu lançar seu primeiro disco, The Velvet Underground and Nico, considerado o marco-zero do rock underground, influenciando artistas tão diferentes quanto David Bowie, Iggy Pop, Brian Eno, Television, Patti Smith, Sex Pistols, Joy Division, Gang of Four, Sonic Youth, Galaxie 500, Nirvana e Strokes.

O grupo gravou apenas quatro discos e teve uma carreira que durou pouco mais de cinco anos, antes da saída de Lou Reed em 1970, que sepultou a história da banda. Não chegou a fazer sucesso comercial e justamente por isso são raras as imagens de arquivo do grupo, o que torna o desafio de Todd Haynes ainda mais complexo, uma vez que ele usará apenas imagens da época. Haynes falou sobre a “emoção da pesquisa e da montagem visual” e de “mergulhar nas fontes e no material e em imagens de arquivo e no cinema de fato e no trabalho experimental”, uma vez que lidará com as cenas filmadas pelo próprio Andy Warhol, que fazia filmes com integrantes da banda, além de filmar apresentações do grupo para projetar sobre o próprio grupo em outras apresentações.

O diretor, que já fez filmes sobre ícones do rock, como Velvet Goldmine, de 1998, sobre o glam rock e Não Estou Lá, de 2007, sobre as múltiplas personas de Bob Dylan, considera o Velvet Underground a banda mais influente de todas. “Como disse Brian Eno, todo mundo que comprou seu primeiro disco montou uma banda”, disse o diretor na entrevista. “Sua influência não tinha nada a ver com vendas ou visibilidade ou com as formas que quantificamos a ideia de sucesso.”

Ele também está bem interessado com o aspecto visual do filme. “Forma para mim é tudo. É a primeira pergunta sobre como abordar uma história e por que você está a contando e qual tipo de tradição que você está evocando”, continuou, explicando que o filme sobre o Velvet Underground “precisa ser uma experiência intensamente visual”.

O filme não tem data de lançamento e é um dos projetos de Haynes que contam histórias do passado. O outro, que está sendo desenvolvido junto à Amazon, é sobre “uma figura intensamente importante de imensa influência histórica e cultural”, revelou, sem entrar em detalhes sobre esta nova produção, que deverá ser um seriado.

Piper

O disco de estreia do Pink Floyd completa meio século de vida e eu escrevi sobre sua importância lá no meu blog no UOL.

Quando o Pink Floyd lançou seu disco de estreia, The Piper at the Gates of Dawn, há exatos cinquenta anos, no dia 5 de agosto de 1967, a cultura mundial estava em pleno processo de transformação. O amadurecimento da primeira geração das bandas de rock e a consolidação da indústria fonográfica e da cultura pop coincidiu com a afirmação de diversas tendências comportamentais que corriam mundialmente no underground – os beats norte-americanos, a nouvelle vague francesa, a ascensão do feminismo e dos movimentos pelos direitos civis em todo o mundo, o uso recreativo de drogas alucinógenas, a causa hippie, o orgulho negro, o free jazz e a pop art. O mágico ano de 1967 prenunciava uma era de renovação, uma revolução cultural que nos levaria a um novo estágio – um novo nível de consciência, a idade espacial ou a era de Aquário. E o Pink Floyd apontava os rumos a serem seguidos.

Em apenas dois anos, o grupo inglês formado por três ex-estudantes de arquitetura e um estudante de arte ultrapassou a fase de blues elétrico que dominava a Londres do meio dos anos 60 em busca de horizontes que nunca haviam sido explorados pela música pop. Liderados pelo único não-arquiteto da banda, o carismático Roger “Syd” Barrett, que pouco a pouco se transformava em guru de uma geração, o grupo formado pelo baixista Roger Waters, o tecladista Rick Wright e o baterista Nick Mason aos poucos abandonou a estrutura básica do rhythm’n’blues norte-americano para usar e abusar de novos formatos de composição.

Syd foi um dos primeiros entusiastas do LSD na Inglaterra, substância descoberta por acaso pelo cientista suíço Albert Hoffmann em uma tarde de 1943 que ficou restrita ao círculo farmacêutico até ser descoberta e utilizada pelo cientista norte-americano Timothy Leary no início dos anos 60. Os efeitos da dietilamida do ácido lisérgico, que ainda era uma droga legal, na mente criativa de Syd fez que ele levasse o rock para outra dimensão em todos os sentidos: não só a estrutura das canções mudava drasticamente (bebendo de fontes alternativas – e inglesas) bem como o tema e suas apresentações ao vivo. E embora os outros integrantes da banda não fosse usuários aficionados como Syd, todos eles deixavam-se levar pela onda alucinógena que o vocalista e guitarrista emanava. O próprio nome da banda era uma prova de como estes limites poderiam ser explorados. Syd sugeriu batizá-los de Pink Floyd a partir de uma explicação lisérgica, mas ele apenas reuniu o prenome de dois de seus bluesmen favoritos, Pink Anderson e Floyd Council.

Ao vivo, a banda, vestidas com roupas coloridas, camisas bufantes, chapéus, franjas e botas, entregava-se ao improviso e às divagações musicais de Syd, que graças às inéditas fórmulas de iluminação no palco, quando projeções gelatinosas eram miradas sobre a banda, parecia tornar-se um sacerdote místico. Exímio guitarrista, ele também levava seu instrumento a paisagens distantes da primeira geração do rock ou do movimento mod que dominava a Londres do período. Em shows que duravam horas, o Pink Floyd aos poucos foi construindo sua reputação como um dos principais faróis de um novo movimento: a psicodelia.

Era uma transformação comportamental que inevitavelmente caía sobre o rock. Os ecos destas mudanças aconteciam em vários lugares do mundo, principalmente na Califórnia e na Inglaterra, e o Pink Floyd era o principal motor deste movimento, que contava com outros ícones bem próximos, como o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix (que foi criar seu Experience em Londres) e, claro, os Beatles.

Nick Mason, Rick Wright, Roger Waters e Syd Barrett

Nick Mason, Rick Wright, Roger Waters e Syd Barrett

O grupo de Liverpool estava trancado no estúdio 2 de Abbey Road desde o início de 1967 e já haviam lançado o compacto com as faixas “Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” quando o Pink Floyd assinou com a EMI para gravar seu disco de estreia no estúdio 1, vizinho ao que os Beatles gravaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O disco do Pink Floyd foi produzido pelo engenheiro Norman Smith., que já vinha trabalhando com os Beatles há tempos. A troca de informações entre os dois discos e as duas bandas ainda são um assunto intocado, bem como quem influenciou quem. O disco dos Beatles foi lançado dois meses antes da estreia do Pink Floyd, mas os dois discos ficaram prontos praticamente ao mesmo tempo.

E o disco do Pink Floyd era muito mais ousado que o dos Beatles. Embora Sgt. Pepper’s tenha causado ao reunir uma orquestra inteira para tocar o crescendo de “A Day in the Life”, costurado o carrossel de colagens de “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, citado a sigla de LSD em “Lucy in the Sky with Diamonds” e posto oriente e ocidente para duelar em “Within You Without You”, The Piper at the Gates of Dawn (título tirado de um capítulo do clássico infantil Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, sobre o deus grego Pan) ia além.

Talvez não tivessem os recursos que os Beatles tinham, mas isso não tornava suas viagens mais tímidas. Ia do espaço sideral (com a faixa de abertura “Astronomy Domine” e o longo improviso instrumental de “Interstellar Overdrive”) ao I Ching (“Chapter 24”), da visita de seres míticos (“The Gnome”) à infância (“Bike”), sempre ao som de progressões de acordes incomuns, solos melancólicos, riffs destrambelhados, fractais em teclados elétricos, bateria desenfreada, baixo melódico e duro, efeitos eletrônicos e sonoplastia. The Piper at the Gates of Dawn é quase um OVNI que pousa no meio daquilo que hoje conhecemos como rock clássico, acendendo luzes que apontam para rumos que nunca haviam sido cogitados.

Parte de seu brilho talvez venha de sua velocidade. Do mesmo jeito que ascendeu, Syd Barrett pifou. O mesmo LSD que o fez visionário, o cegou de forma brutal, transformando-o em um Ícaro psicodélico, a primeira vítima séria da era hippie, que mesmo que não tivesse sido fatal, transformou-se em um peso morto que constrangia a banda ao vivo. Por diversas vezes ficava imóvel no palco, não dublava a própria voz em programas de TV e o grupo teve de chamar um quinto músico para que a banda pudesse funcionar – e em pouco tempo David Gilmour o substituiu, levando a banda para um limbo estético que durou vários discos – e que forjou uma das principais lendas da história do rock.

Mas a influência de Syd sempre esteve presente. O próprio clássico Dark Side of the Moon é uma ode à loucura e funciona como um questionamento em relação ao que aconteceu com o amigo do grupo – que batizou o álbum de forma que a palavra “Side” ecoasse o nome do fundador da banda. O disco seguinte, Wish You Were Here, foi mais direto – e além da descarada declaração de amizade da faixa-título (“Queria que você estivesse aqui”) dedicava a longa suíte “Shine On You Crazy Diamond” ao pai da psicodelia inglesa. Mas seu recado já estava dado em The Piper at the Gates of Dawn – e ecoa firme até hoje. Brilha muito.

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Visitei a inacreditável exposição em homenagem aos 50 anos do Pink Floyd em Londres e contei o que vi lá no meu blog no UOL.

Réplicas de objetos de cena utilizados pelo grupo no final dos anos 70

Réplicas de objetos de cena utilizados pelo grupo no final dos anos 70

O mesmo museu que mergulhou na vida e obra de David Bowie na excelente exposição David Bowie Is em 2013 agora convida para uma viagem pela carreira de uma das bandas mais influentes da cultura contemporânea. A exposição Their Mortal Remains, organizada pelo museu londrino Victoria & Albert ao lado dos três remanescentes do grupo (David Gilmour, Nick Mason e Roger Waters), disseca 50 anos de carreira do Pink Floyd em várias dimensões, levando em consideração todo o impacto cultural – e não apenas musical – exercido pelo grupo desde seus primeiros anos. Em uma visita que durou algumas horas, fui transportado para um documentário cronológico sobre a história da banda em que os principais artefatos de sua existência eram exibidos um a um.

Um dos grandes trunfos de Their Mortal Remains é a forma como os fones de ouvido distribuídos à entrada ajudam na imersão na exposição. Como são aparelhos sensíveis aos movimentos, eles sintonizam músicas do grupo de acordo com a parte do museu em que você está, além de se conectarem automaticamente ao som de monitores de TV que exibem entrevistas com os integrantes do grupo e seus contemporâneos quando chegamos a poucos metros de distância. É um recurso incrível, que torna o didatismo da exposição ainda mais intenso.

A mostra começa com o tom psicodélico do início da carreira do grupo. A opção por contar a história a partir do momento em que a banda assume o nome que a tornou famosa elimina da história os anos de formação do grupo, quando, altamente influenciado pelo rhythm’n’blues norte-americano, teve encarnações com nomes como Sigma 6, The Meggadeaths, The Abdabs, The Screaming Abdabs, Leonard’s Lodgers, The Spectrum Five e Tea Set. Mas ao definir o ano de 1967 como ponto de partida, a exposição acerta ao mostrar o momento em que o grupo também começa a se preocupar com o impacto visual de suas apresentações. Liderado pelo ícone da psicodelia londrina, Syd Barrett, o Pink Floyd mostra-se extramusical desde seus primeiros registros fonográficos.

Outra opção curiosa da exposição é usar cabines telefônicas como marcos temporais. A cada início de década, surge uma cabine telefônica inglesa típica, com recortes de jornais da época e caracterizada com cores e desenhos do período que demarca.

Entrada da exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains no Victoria and Albert Museum, em Londres

Entrada da exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains no Victoria and Albert Museum, em Londres

Carta que Roger Waters escreveu para os pais logo na primeira ida do grupo para Londres, em 1967 (na foto, a van com uma listra branca que ele desenha na carta)

Carta que Roger Waters escreveu para os pais logo na primeira ida do grupo para Londres, em 1967 (na foto, a van com uma listra branca que ele desenha na carta)

A cada vitrine nos deparamos com itens pessoais de cada um dos integrantes do Pink Floyd, desde diários escritos à mão a cartas enviadas para os pais contando os primeiros dias como músicos profissionais, além de peças de roupas, equipamentos e instrumentos musicais. Na primeira fase da exposição, cada fase é definida em um disco e cada disco funciona como uma vitrine exibindo itens pessoais do grupo ao mesmo tempo em que contam suas histórias.

Vitrine com as influências musicais do grupo no inicio, Elvis Presley e velhos blueseiros norte-americanos

Vitrine com as influências musicais do grupo no inicio, Elvis Presley e velhos blueseiros norte-americanos

Vitrine relativa à primeira fase do grupo, com as guitarras personalizadas por Syd Barrett e os singles lançados antes do primeiro álbum

Vitrine relativa à primeira fase do grupo, com as guitarras personalizadas por Syd Barrett e os singles lançados antes do primeiro álbum

Um dos primeiros aparelhos a tornar o show do Pink Floyd fora do comum, este refletor permitia a projeção de slides sobre a banda, no meio da imagem, as lentes utilizadas para tirar a foto da banda na capa de seu primeiro disco

Um dos primeiros aparelhos a tornar o show do Pink Floyd fora do comum, este refletor permitia a projeção de slides sobre a banda, no meio da imagem, as lentes utilizadas para tirar a foto da banda na capa de seu primeiro disco

Apetrechos cênicos que o grupo começou a usar no palco – a flor espelhada entre 1973 e 1975 e os aviões do período de transição na virada dos anos 60 para os 70. A bicicleta é a que Syd tinha aos 9 anos de idade.

Apetrechos cênicos que o grupo começou a usar no palco – a flor espelhada entre 1973 e 1975 e os aviões do período de transição na virada dos anos 60 para os 70. A bicicleta é a que Syd tinha aos 9 anos de idade.

Um dos inúmeros teclados de Rick Wright

Um dos inúmeros teclados de Rick Wright

Pôsteres, equipamentos e roupas do grupo em sua fase psicodélica. Abaixo, o clássico Azimuth Co-ordinator, aparelho com o qual o grupo conseguia fazer efeitos utilizando o som quadrafônico de algumas casas de show

Pôsteres, equipamentos e roupas do grupo em sua fase psicodélica. Abaixo, o clássico Azimuth Co-ordinator, aparelho com o qual o grupo conseguia fazer efeitos utilizando o som quadrafônico de algumas casas de show

A clássica Stratocaster preta de David Gilmour e alguns pedais que ele utilizava no início

A clássica Stratocaster preta de David Gilmour e alguns pedais que ele utilizava no início

A guitarra pedal steel dupla que o grupo usava no início dos anos 70

A guitarra pedal steel dupla que o grupo usava no início dos anos 70

Mais uma vez a bicicleta laranja que Syd Barrett tinha aos 9 anos de idade, inspiração para a música "Bike", que encerra o primeiro disco da banda

Mais uma vez a bicicleta laranja que Syd Barrett tinha aos 9 anos de idade, inspiração para a música “Bike”, que encerra o primeiro disco da banda

Nesta primeira fase o que impressionam são os instrumentos modificados por Syd Barrett, bem como suas próprias pinturas, os teclados analógicos de Rick Wright, fotos alternativas de capas de discos e outras relíquias, como a bicicleta que Syd Barrett tinha aos nove anos de idade. A cada vitrine a exposição vai mostrando como o grupo superou a saída do líder, como a entrada de David Gilmour aos poucos foi mexendo no som da banda, abrindo espaço para viagens instrumentais que favoreciam a cozinha formada pelo baixista Roger Waters e o baterista Nick Mason.

Rascunhos do grupo de design Hypgnosis para a capa do clássico The Dark Side of the Moon

Rascunhos do grupo de design Hypgnosis para a capa do clássico The Dark Side of the Moon

Mais artefatos da era Dark Side – as moedas à esquerdas foram costuradas como um chocalho para a introdução da música "Money"

Mais artefatos da era Dark Side – as moedas à esquerdas foram costuradas como um chocalho para a introdução da música “Money”

A exposição muda de tom a partir do mítico Dark Side of the Moon, o disco de 1973 que eternizou a importância do grupo e os transformou em popstars de primeira grandeza. A parte da exposição dedicada ao disco inclui desde rascunhos da capa do disco a instrumentos pouco convencionais usados em sua gravação (como o chocalho de moedas tocado em “Money”) até um holograma em 3D com a capa do disco girando ao som de “The Great Gig in the Sky”. A parte seguinte à do disco mostra como o grupo se aventurava no estúdio e usa um recurso simples e genial para mostrar como o grupo produzia seus discos, a espalhar pequenas mesas de som onde é possível manipular os canais da música “Money” ouvindo os instrumentos separadamente.

Em uma das melhores partes interativas da exposição, o público pode ouvir as faixas separadas de todos os instrumentos na faixa "Money", isolando, à sua escolha, bateria, sax, vocais, duas guitarras, baixo e efeitos sonoros

Em uma das melhores partes interativas da exposição, o público pode ouvir as faixas separadas de todos os instrumentos na faixa “Money”, isolando, à sua escolha, bateria, sax, vocais, duas guitarras, baixo e efeitos sonoros

A partir daí há uma parte inteira da exposição dedicadas a equipamentos e instrumentos musicais, mostrando peças que foram partes importantes tanto na criação dos discos quanto na divulgação em turnês.

Um dos primeiros sintetizadores, instrumentos que o Pink Floyd abraçava logo que eram lançados, utilizando-os em suas aventuras sonoras

Um dos primeiros sintetizadores, instrumentos que o Pink Floyd abraçava logo que eram lançados, utilizando-os em suas aventuras sonoras

Várias guitarras utilizadas por David Gilmour – e um baixo de Roger Waters – a partir dos anos 70

Várias guitarras utilizadas por David Gilmour – e um baixo de Roger Waters – a partir dos anos 70

A clássica bateria de Nick Mason nos anos 70

A clássica bateria de Nick Mason nos anos 70

Mais instrumentos de Gilmour, entre eles um bandolim elétrico

Mais instrumentos de Gilmour, entre eles um bandolim elétrico

A exposição retorna ao ritmo dos discos a partir de Wish You Were Here, de 1975, e também vai mostrando como o Pink Floyd foi crescendo para se tornar um dos maiores nomes do showbusiness. O uso de telão e de infláveis no show, novidades inventadas pela banda, aliam-se aos temas cada vez mais polêmicos e controversos do grupo, culminando com o épico egotrip The Wall, de 1979. Neste período o grupo alcance uma escala que o torna um dos maiores nomes da história do pop moderno até hoje.

A parte da exposição dedicada ao disco Wish You Were Here

A parte da exposição dedicada ao disco Wish You Were Here

Contato com as fotos utilizadas na capa do disco Wish You Were Here

Contato com as fotos utilizadas na capa do disco Wish You Were Here

Caderno com as letras da banda, "Have a Cigar", entre elas

Caderno com as letras da banda, “Have a Cigar”, entre elas

Polaróide da visita de Syd Barrett ao estúdio da banda, em 1975. Gordo, careca e com as sobrancelhas raspadas, ele estava irreconhecível.

Polaróide da visita de Syd Barrett ao estúdio da banda, em 1975. Gordo, careca e com as sobrancelhas raspadas, ele estava irreconhecível.

Réplica da camiseta do grupo usada por Johnny Rotten, dos Sex Pistols, com a frase "I Hate" ("eu odeio") escrita sobreo nome da banda.

Réplica da camiseta do grupo usada por Johnny Rotten, dos Sex Pistols, com a frase “I Hate” (“eu odeio”) escrita sobreo nome da banda.

O recorte original das letras de revistas e jornais que serviram de base para a capa do primeiro disco dos Sex Pistols

O recorte original das letras de revistas e jornais que serviram de base para a capa do primeiro disco dos Sex Pistols

A animação de Ian Emes que passava no telão do grupo quando tocava a música "Time"

A animação de Ian Emes que passava no telão do grupo quando tocava a música “Time”

Réplica da capa do disco Animals e o professor inflável de The Wall

Réplica da capa do disco Animals e o professor inflável de The Wall

Teclado e guitarra usados pelo grupo no final dos anos 70

Teclado e guitarra usados pelo grupo no final dos anos 70

Mais infláveis da fase The Wall, no final dos anos 70

Mais infláveis da fase The Wall, no final dos anos 70

Máscaras usadas pelo grupo na turnê do disco The Wall

Máscaras usadas pelo grupo na turnê do disco The Wall

A punição física ainda era utilizada como método pedagógico na Inglaterra depois da Segunda Guerra Mundial e esta bengala foi responsável por surras em Roger Waters e Syd Barrett, ainda crianças, o que fez o primeiro a escrever uma ode contra o sistema educacional inglês no disco The Wall

A punição física ainda era utilizada como método pedagógico na Inglaterra depois da Segunda Guerra Mundial e esta bengala foi responsável por surras em Roger Waters e Syd Barrett, ainda crianças, o que fez o primeiro a escrever uma ode contra o sistema educacional inglês no disco The Wall

Mais uma vez, o professor inflável original

Mais uma vez, o professor inflável original

Réplica do quarto de hotel Tropicana, utilizado como cenário no trecho do show em que o grupo cita a letra que batiza a exposição, "Nobody Home"

Réplica do quarto de hotel Tropicana, utilizado como cenário no trecho do show em que o grupo cita a letra que batiza a exposição, “Nobody Home”

Farda fascista que Roger Waters utilizava durante a turnê do disco The Wall. Esta versão é a do show que ele fez em Berlim após a queda do muro.

Farda fascista que Roger Waters utilizava durante a turnê do disco The Wall. Esta versão é a do show que ele fez em Berlim após a queda do muro.

Embora Roger Waters tenha desfeito o grupo no início dos anos 80 e David Gilmour, ao lado de Mason e Wright, tenham conseguido seguir com o nome do grupo, a discografia a partir dos anos 80 segue sendo detalhada mas, naturalmente, sem a importância das fases anteriores. A exposição termina com o disco The Endless River, de 2014, feito com sobras de gravações do disco The Division Bell, lançado duas décadas antes. E embora o fim seja melancólico – principalmente ao nos depararmos com a enorme loja de souvenirs do grupo e do museu -, a exposição é um sonho para todo fã do grupo. Ela fica em cartaz em Londres até o início de outubro (mais informações no site do museu) e seus organizadores tem a intenção de fazer que ela viaje pelo mundo. Vamos torcer para, que como a de David Bowie, ela também venha para o Brasil.

Catálogo da turnê mundial do Pink Floyd no final dos anos 80

Catálogo da turnê mundial do Pink Floyd no final dos anos 80

Réplica da fantasia utilizada na capa do disco ao vivo Delicate Sound of Thunder

Réplica da fantasia utilizada na capa do disco ao vivo Delicate Sound of Thunder

Contato com as fotos que iriam para a capa do disco A Momentary Lapse of Reason

Contato com as fotos que iriam para a capa do disco A Momentary Lapse of Reason

As máscaras de ferro utilizadas na capa do disco The Division Bell

As máscaras de ferro utilizadas na capa do disco The Division Bell

“Was He Slow?”

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Que filmaço que é Baby Driver! Escrevi sobre ele pro meu blog no UOL.

Antes de mais nada, Baby Driver – ou Em Ritmo de Fuga, como prefere a versão em português para o primeiro filme norte-americano do inglês Edgar Wright que estreia esta semana no Brasil – não é um musical per se. Mas também não é um mero filme de perseguições de carro, thriller policial ou sobre assaltos a banco. O trailer engana – se não o assistiu, não faça isso para não perder metade da surpresa. Porque Baby Driver também é comédia romântica, tem elementos de terror psicológico e de filmes de ação, é paródia, sátira e homenagem, além de lidar com conflitos sobre amadurecimento e cuspir referências e citações como se fosse um filme de Quentin Tarantino. E, como dizia-se antigamente, é cool até dizer chega.

Tudo isso sustenta-se, no entanto, sobre a música. Mais que a trilha sonora das fugas enlouquecidas do personagem calado vivido por Ansel Elgort, ela é o eixo da história principal e dá ritmo e sentido a todo o filme. Só que ao contrário dos antigos musicais, ela não surge dos lábios dos protagonistas enquanto um diálogo torna-se uma canção. Ela está entre os fones de ouvido do personagem principal, que tem, em sua coleção de iPods, playlists offline para todas ocasiões.

E não há um gênero que prevaleça – ouvimos não só hits obscuros da soul music como pérolas do rock clássico, passando por músicas sampleadas em hinos do rap, rock de garagem, dance music, indie rock, jazz, glam rock, folk contemplativo e funks da pesada. E a coleção de artistas que passeia pelos ouvidos do público vai do Queen a Barry White, Beck e Martha & the Vandellas, T-Rex (“trex”, hehe) e Quincy Jones, Run the Jewels e Beach Boys, Ennio Morricone e Dave Brubeck Quartet, Blur e Focus, The Damned e Simon & Garfunkel – cada um deles lembrados por músicas que fogem de seus hits inevitáveis.

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Sobre esse fio condutor Edgar Wright constrói um filme que é ao mesmo tempo épico e modesto, espalhafatoso e delicado, violento e apaixonado. Ele põe todos os personagens do filme sincronizados com essa irresistível trilha sonora. Da mesma forma que ninguém canta de verdade durante o filme, quase ninguém dança – quase toda a coreografia é feita por carros e armas, pelo movimento das ruas e das perseguições de tirar o fôlego conduzidas por um motorista impassível, que nunca tira seus óculos escuros. Um caubói moderno, um Han Solo terráqueo que aparece inclusive na primeira cena com o traje parecido com o do mercenário coreliano.

Pelo decorrer de Baby Driver, nos encontramos com atores do calibre de John Hamm, Jamie Foxx, Kevin Spacey e Jon Bernthal, duas atrizes novatas perfeitas – a sagaz Eiza González (descoberta por Robert Rodriguez na versão em seriado para Um Drink no Inferno) e a encantadora Lily James (do Cinderela de 2015), além de pontas de nomes do mundo da música, como a cantora Sky Ferreira, o baixista dos Red Hot Chili Peppers, Flea, Paul Williams (o desconhecido compositor de hits como “We’ve Only Just Begun”, “Rainy Days and Mondays” e “Rainbow Connection”), Big Boi do Outkast, Killer Mike do Run the Jewels e Jon Spencer, do grupo Jon Spencer Blues Explosion cuja “Bellbottoms” dá o tom inicial do filme numa sequência sensacional.

Logo em seguida, “Harlem Shuffle”, que a maioria das pessoas conhece pela versão que os Rolling Stones gravaram em seu Dirty Work, surge em sua versão original, que hoje é mais reconhecida pelo sample que o House of Pain usou no início de seu hit “Jump Around”, acompanha o protagonista passeando a pé pelas ruas enquanto a música se materializa em gestos, pixações e vitrines.

É um musical feito para uma geração que cresceu com fones no ouvido, melhorando situações triviais do dia-a-dia com a trilha sonora correta, escolhida exatamente para aquele momento. É o extremo oposto de La-La-Land, que recria uma época em que as pessoas queriam cantar para expressar felicidade ou tristeza. Baby Driver abandona qualquer referência clássica para se metamorfosear em um musical pós-moderno, que faz carros dançar enquanto riscam os pneus nos asfalto e metralhadoras cuspir junto com a bateria e a percussão. É o musical que o século 21 estava esperando.

Como o incensado segundo filme de Damien Chazelle, o sexto filme de Edgar Wright enche-se de citações e referências, mas vivas e reconhecíveis, não feitas apenas para fanáticos por Hollywood clássica ou por gente com mais de meio século de vida. Wright é pop maiúsculo e Baby Driver encaixa-se perfeitamente em sua filmografia, fazendo par tanto com o seriado cult Spaced, a trilogia que fez com Simon Pegg e Nick Frost (Todo Mundo Quase Morto de 2004, Chumbo Grosso de 2007 e Heróis de Ressaca de 2013) e o videogame em carne e osso de Scott Pilgrim Contra o Mundo. E por mais que sua história tenha começo, meio e fim, o que importa é a viagem e a trilha sonora – tudo muito alto astral. Aumenta o som!